Sunday, May 27, 2012

História de uma criança sem nome, sem passado, sem futuro

A mãe andava pelas ruas do centro, entre clientes e fornecedores. Do pai, soube que há alguns anos estava preso n'alguma penitenciária do interior, mais nada. Vivia como dava com a avó, um dia comendo pouco, no outro quase nada. Quando começaram a despontar dois protomamilos percebeu que também poderia ganhar algum dinheiro com seu corpo franzino. Os primeiros clientes foram alguns moleques da rua, mas eles não pagaram, deram apenas umas pedras de crack. Um homem em um carrão a levou para o motel. Queria que ela chupasse e engolisse, ela o mordeu. Apanhou, foi violentada de todas as formas e não recebeu pelo serviço. Foi a primeira surra das ruas, tinha doze anos. Aos dezesseis assaltava, matava, roubava, mas não cedia mais seu corpo. Foi presa aos dezessete, depois de vingar-se daquele mesmo sujeito que a violentou aos doze. Ele era um cidadão de bem, pai de família, respeitado homem de negócios, temente a Deus. Os telejornais bradavam por justiça, chamavam-na de monstro, assassina fria. Ainda legalmente menor, os representantes da sociedade, da família, clamavam na televisão por mudanças na lei. Era inconcebível pensar que aquela criatura repulsiva, que ousara a ferir de morte um cidadão de bem, pudesse ganhar a inocência assim que completasse a maioridade. No outro dia, aliviados, os formadores de opinião noticiavam a morte da assassina, ela se havia enforcado com o sutiã na cela da detenção. Ele teve uma belíssima missa de sétimo dia na catedral, ela foi enterrada como indigente.

LM

Farfallândia

N.A.: Desde quando expliquei para Luana que tinha um blog e o que era, ela me cobra para eu postar histórias para ela, de preferência com a personagem principal como o seu nome. Tentei explicar que mesmo que usemos nomes de pessoas que conhecemos, a partir do momento em que vai para uma história, passa a ser o personagem e não a pessoa, mas como ela não quis saber dessas coisas, eis mais um pequeno conto de ventos e outras fantasias, com minha personagem favorita.

 
 

Em Farfallândia viviam as mais belas borboletas, cheias de cores, tantas que um pintor, daqueles dados a ataques de tragicidade, seria capaz de cortar um braço para ter em sua paleta tamanha quantidade de variantes cromáticas. Apesar da infinidade de tons desfilando em asas ligeiras, cada borboleta tinha apenas uma cor, nada de misturas, mas eram tantas as cores que não seria nenhuma surpresa descobrir não haver repetição, cada borboletinha com sua tonalidade própria.

A vida seguia em seu curso normal naquela vila multicolorida quando, até que em uma noite especial, em que a lua tanto encheu-se de brilho para exibir o maior luar já visto, nasceu uma borboletinha diferente, com asas completamente brancas. Nunca isto havia acontecido em Farfallândia então, vendo aquela criaturinha com asas brancas como uma pálida lua cheia, seus pais deram-lhe o nome de Luana.

A enluarada borboletinha cresceu alegre e amada, ela era muito simpática, carinhosa e, graças a sua cor singular, todos na vila a conheciam. Então chegou o a época de ir para escola. Luana estava ansiosa para poder conhecer novos amiguinhos, mas no primeiro dia de aula ela percebeu que não seria assim tão fácil quanto imaginava. As outras borboletinhas, que nunca tinham visto borboleta com asas sem o tradicional colorido, começaram a rir e fazer perguntas que Luana não sabia responder.

— Cadê sua cor?

— Você vai ficar colorida como a gente?

— Isso dói?

— Você pode voar?

As pequenas borboletas não sabiam que apesar da coloração diferente, Luana era uma borboleta igual a qualquer outra e podia fazer as mesmas coisas que as outras borboletas de sua idade. Isto deixou Luana muito triste e ela resolveu ir embora de Farfallândia. Tinha ouvido histórias sobre um mestre das cores, um artista muito habilidoso que morava no outro lado do bosque e decidiu procurá-lo. Não sabia ainda como este mestre das cores poderia ajudá-la, mas estava resolvida e partiu.

Não foi muito difícil encontrar a casa do mestre das cores, ele morava em uma cabana cercada por flores de todas as cores, ao lado da casinha, corria um riacho que desaguava em uma cascatinha. Os respingos levantados pela queda d´água se encontravam com os raios do sol e formavam um arco-íris permanente. Tudo ali era colorido, parecia ter sido cuidadosamente decorado por um meticuloso artista. O lugar era tão bonito que Luana nem teve medo e foi logo chamando pelo dono da casa.

— Olá! Senhor mestre pintor! Senhor mestre das cores! Gritou Luana

— Pois não. Em que posso ajudá-la? Respondeu o mestre, que não era um mestre, mas uma mestra, saindo de dentro da casinha.

— Oi! Meu nome é Luana, meu nome é assim porque nasci em uma noite de lua cheia e minhas asas são brancas como o luar e eu venho de Farfallândia.

— Olá! Eu sou Tarsila do Arco-íris, meu nome é assim por causa do arco-íris perto de minha casa.

As duas logo começaram a conversar e perceberam que seriam boas amigas e Luana até esqueceu o motivo de sua viagem, até que Tarsila perguntou.

— Mas o que você faz por aqui, tão longe de seus amigos?

Luana contou como estava triste por não ter cores tão vibrantes em suas asas como as outras borboletas e queria saber se Tarsila poderia ajudar a colorir suas asas. A mestra das cores deu uma grande gargalhada.

— Não seja tola minha amiguinha! Você já se olhou no espelho? Suas asas são as mais luminosas e brilhantes que já vi, como se fosse o próprio brilho do luar e elas são brancas porque têm todas as cores misturadas.

— Como assim? Todas as cores? Quis saber Luana.

— Vou te explicar. Falou a mestra. Nossos olhos não conseguem enxergar direito as cores, e o que vemos é o reflexo da luz. Isto é meio complicado, mas é mais ou menos assim e quando misturamos a luz de todas as cores sabe que cor temos?

— Uma cor multicolorida? Falou Luana.

— Não. Temos a cor branca. Então minha amiguinha, suas asas refletem todas as cores das asas das outras borboletas e é por isso que ela fica branca quando olhamos. Seu colorido único traz as cores de todas as outras borboletas e eu nunca vi asas tão brilhantes quanto as suas.

—Puxa vida, então eu não preciso ter vergonha de minha palidez.

—Nunca e se os outros riem de você, é porque não sabem direito das coisas. Agora volte para sua família e tenha muito orgulho de suas maravilhosas asas.

Luana voltou para Farfallaândia, mas algo terrível estava prestes a acontecer em sua vila. Um enorme e esfomeado sapo encontrara a vila e se preparava para um delicioso e colorido banquete. Vendo aquilo e vendo suas amiguinhas em desespero, Luana não teve dúvidas e rapidamente bolou um plano. Ela voou em direção ao sapão. Abriu suas enormes e brilhantes asas na frente do guloso, que vendo aquele espetáculo, esqueceu das outras borboletas e saiu pulando em direção aquele intenso brilho. Luana foi voando lentamente em direção a um abismo que existia ali perto, sempre tomando cuidado para manter-se a uma distância segura do sapão. Hipnotizado pelo espetáculo das asas da corajosa borboletinha, ele nem percebeu que pulava para uma grande queda. Depois de ter se esborrachado e quase morrido, o sapo guloso não quis mais saber de atacar borboletas, coloridas ou não.

Em Farfallândia todos receberam Luana com muita festa e pompa e depois daquele dia, ninguém mais riu das suas brancas e brilhantes asas. Dizem até, que algumas borboletas mais invejosas até quiseram se pintar de branco para ficarem parecidas com Luana, mas o máximo que conseguiram foi borrar suas asas.


 

LM

Sunday, May 13, 2012

O outro

    Antes de Isidore embarcar para Paris, o senhor Medina, imaginando uma viagem motivada pelo amor, recita alguns trechos dos Les Cahnts de Maldoror para o filho. O rapaz ouve em silêncio.

    − A dama que me espera em Paris apreciará a poesia da nossa gente. − Murmura, mais para si do que para o pai.

    Parado na frente do Hospital da Salpêtrièri, Isidore se sente ridículo por não ter procurado contatar o hotel antes de viajar. Colhe informações com os passantes e descobre ter sido demolido o antigo prédio, para dar lugar a este anexo do histórico Hôpital dês Invalides. Falta pouco tempo para seu aniversário e ainda não reuniu todos os ingredientes nem encontrou um hotel adequado. Olha para o edifício branco e se irrita com sua boa saúde. Nenhuma dor, nada de febre, tosse ou manchas vermelhas. Apenas a habitual palidez aristocrática herdada da mãe.

    Na Escola da Sagrada Família, em Montevidéu, quando aprendeu a conhecer poesia, descobriu de onde viera seu nome. Foi lá também que descobriu com quantos anos e de que maneira morreria. O estudante Isidore Lucien Herrera Medina, além do mesmo nome, nasceu no mesmo dia da morte de Isidore Lucien Ducasse, o Conde de Lautréamont: 24 de novembro de 1870. Naquela época ele percebeu que receber o nome do Conde exercera uma influência que Joaquim, Ernesto ou Ramon não exerceriam. Foi quando começou a se interessar pela escarlartina.

    Isidore custa a aceitar a idéia de não ocupar um quarto no hotel da Faubourg-Montmartre, número 7. Sem outra alternativa, se instala num hotel na Place St.-Sulpice com a Garnicière para fazer as últimas anotações nos seus Cantos. O quarto bem aquecido não tem as mesmas paredes desbotadas, como o Conde tanto apreciava.

    Reunidos os ingredientes, prepara a mistura de metileno, anfetamina, plantas alucinógenas e vinho. Mergulha nos abismos dos lençóis de seda até despertar preguiçosamente. Isidore procura por Deus ou pelo Diabo. Desorientado, lembra do mal-estar generalizado se espalhando pelas entranhas. Reconhece o quarto do hotel, seus manuscritos sobre a mesa e suas roupas espalhadas. Imaginou não deixar memória de si, mas ainda está no hotel. Já é dia 25. Ele continuará vivendo e morrerá como qualquer um, menos como o outro Isidore.


 

LM


 

Os nãos de um dia, ou de uma vida

Não há vagas

Não vendemos fiado

Não aceitamos cheques

Não pise na grama

Não me provoque

Não jogue lixo no chão

Não fale com o motorista

Não fume

Não de comida aos animais

Não mude de assunto

Não ultrapasse na faixa contínua

Não bata a porta

Não aceitamos devolução

Não aceitamos reclamações posteriores

Não suje as ruas

Não tomarás Seu santo nome em vão

Não entre sem camisa

Não diga que eu não avisei

Não entre, cão bravo

Não pense que está sendo fácil para mim

Não fazemos troca

Não matarás

Não é o que você está pensando

Não adulterarás

Não compreendo

Não cobiçarás a mulher do próximo

Não havia mais nada a fazer


 

e os sims se negam.

Sunday, May 06, 2012

Körlük

A partir de Orphia, seguindo o poente em direção às montanhas do leste, o viajante encontra um grande deserto cortado pelo esquecido rio Çevir. Acompanhando o rio até quase o meio do deserto, está a cidade de Körlük. Diz-se de Körlük que lá todos os adultos são cegos sem, no entanto, haver uma explicação científica para tal peculiaridade, apenas sabe-se que esta patologia não afeta as crianças. Estas nascem perfeitas, gozando da mais absoluta saúde e assim permanecem até a adolescência, quando começam a perder a visão gradativamente, para entrarem na idade adulta, sem enxergarem mais nada.

Muitos tratamentos foram tentados e muitas experiências foram feitas, todas infrutíferas. Outra dificuldade às pesquisas é o fato de os cientistas não terem certeza absoluta dos diagnósticos oftálmicos, pois há a suspeita de que a endemia não se manifeste de maneira igual em todos os indivíduos. Desta forma existe uma divisão em três grandes grupos, sendo um formado por pessoas que teriam plena capacidade visual, mas por motivos insondáveis, comportam-se como se nada enxergassem. São os que enxergam, mas fingem que não veem e, muitas vezes, até parece que não querem mesmo ver nada diante de si. O segundo grupo é composto por pessoas desprovidas completamente da capacidade visual e, para posarem como seres normais, falseiam sua incapacidade e simulam que enxergam tudo perfeitamente. Eles não veem nada, mas insistem em afirmar o contrário, se portando como se realmente enxergassem e isto produz leituras equivocadas da realidade ao redor destas pessoas. Já o terceiro grupo é formado tanto por pessoas dotadas do sentido da visão quanto os desprovidos desta faculdade, o que os une é sua vontade, por assim dizer, de enxergar mais do que realmente existe. Tais pessoas afirmam que veem aquilo que jamais existiu, juram terem enxergado coisas fabulosas, enfim, querem enxergar mais do que a realidade e acabam não vendo nem o que se passa sob seus narizes.

Algumas famílias, percebendo que as crianças não eram acometidas pelas distorções na visão, começaram a emigrar para outras cidades, outras, impossibilitadas de seguirem todos, mandaram apenas seus filhos pequenos para serem criados em terras distantes. Tais artifícios parecem terem sucesso limitado, pois é certo que estas crianças tem preservada sua visão ao se afastarem de sua cidade natal, mas parece que ao retornarem para Körlük, em alguns meses os distúrbios começam a se manifestar e os regressos passam a apresentar os mesmos distúrbios dos demais körlükienses adultos. Com ou sem artifícios, em Körlük, apenas as crianças enxergam.


 

LM


 


 

Sunday, April 29, 2012

Antroponímia

Percorrendo as páginas de classificados a procura de um emprego, conheci Cecilia Gallerani. Ela oferecia vaga de auxiliar de produção em uma fábrica de artefatos de cimento. Não era o que procurava, mas o nome da contratante ficou reverberando em minha cabeça e não pude mais continuar a busca. Fui ao endereço.

— Precisamos de braços fortes, não me parece muito o seu caso.

— Sou magro, mas sou muito forte. Tentava iludi-la com este artífice. E mais do que forte, sou muito resistente, posso trabalhar por longos períodos sem parar. Mal podia caminhar por uma quadra sem ter de parar umas duas vezes e acho que ela percebeu.

— Mesmo assim, o senhor não se encaixa no perfil de funcionários que procuramos, eu e minha sócia somos muito exigentes e mesmo sabendo de sua vontade em trabalhar, não podemos deixar de analisar todos os requisitos.

— Tudo bem, eu não consigo erguer um saco de cimento mesmo. Este é mesmo seu nome?

— Como assim?

— É um nome famoso e já conheci muitas Cecílias, mas nenhuma Gallerani.

— Então o senhor sabe quem foi Cecília Gallerani?

Esta Cecília era muito feia, quase pensei que fosse um homem, era alta magra, olhos fundos que mal davam para ver de que cor eram, mas realmente tinha mãos delicadas, pareciam não pertencer aquele corpo ossudo e másculo.

— Sei. E acho que suas mãos são muito mais bonitas e delicadas do que a dela. A senhora tem algum animal de estimação.

— Não. Estamos precisando de alguém para o escritório. O senhor tem alguma experiência?

— Uma vez escrevi roteiros de teatro para um grupo de atores amadores. Não encenaram nenhuma das minhas peças. Também já trabalhei em um tele marketing.

— Talvez sirva, quando há um atraso em alguma encomenda, precisamos inventar uma boa história para os clientes e recebemos muitos telefonemas.

Ela mandou que eu voltasse no outro dia para falar com a sócia também. Se eu já me impressionara com o primeiro nome, o segundo foi ainda mais sugestivo, muito embora a dona do segundo nome não fosse exatamente meu modelo ideal para ostentá-lo: Yoni Pertunda. Jamais pude conceber que uma pessoa real pudesse apresentar-se com tal nome, mas de fato a senhora Yoni Pertunda assim o fez e, da minha parte, tive de fazer um odioso esforço para não soltar uma gargalhada, nem para fazer uns dois ou três trocadilhos. Yoni Pertunda, era mesmo este seu nome. Ela era menos sorumbática do que a sócia, entretanto isto não significava grande acréscimo ao conjunto. Baixinha, pouco mais de um metro e meio, uns dez quilos acima do peso tolerável, despontava de seu rosto miúdo um imponente nariz, algo tortuoso. Definitivamente, se colocassem-na em uma daquelas salas que vemos em filmes policiais, para reconhecimento dos suspeitos de um crime, ao lado de outras mulheres, jamais imaginaria aquele ser caricato como detentor do nome Yoni Pertunda. Yoni Pertunda, não canso de repetir.

— Senhor Trezinni, o senhor escreveu peças de teatro?

— Nunca foram apresentadas.

— Mas sabe escrever histórias?

— Sim, escrevo regularmente para um site, ou blog, de um amigo meu, nada profissional, apenas para dar um força para este meu amigo, ele botou na cabeça que quer ser escritor, mas não tem muitas ideias boas. O cara é meio lesado.

— Um site, ou blog. Sabe o endereço?

— Não lembro direito, sei que como ele é meio metido a literato, é nome do cavalo de um alguém famoso, alguma coisa Rocinante. Acho que tem alguma coisa haver com Dante, ou outra antiguidade.

— Rocinante é o cavalo de Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, nada tem a ver com Dante, nem contemporâneos foram, com uma lacuna de pelo menos trezentos anos.

— Então!

Mesmo com minha gafe histórica, misturando Cervantes com Dante, fui contratado, também não precisaria citar nenhum dos dois autores em nenhuma atividade naquele serviço, eu precisaria apenas preencher notas fiscais de venda, emitir faturas, conferir as notas de entrada de mercadorias, controlar as contas a pagar e, de vez em quando, fazer alguma carta, ou e-mail, para clientes, credores, bancos, repartições, essas coisas de escritório. Também atendia telefone e anotava recados, eu era uma secretária.

Nunca fui de misturar-me muito, e como, além de mim só tinha as duas sócias no escritório, limitava-me a bons dias e até mais, com o pessoal da produção. Mesmo com elas não conversava muito. Se eu era calado, elas pareciam que estavam em eterno estado de mau humor. Acho que como moravam juntas e viviam brigando e como tinham de trabalhar no mesmo local, ficavam se alfinetando e mantendo aquela atitude rabujenta. Para mim estava bom, pelo menos me deixavam sossegado.

Tive certeza de que minha teoria de serem um casal estava correta quando dona Yoni Pertunda (sim, era mesmo este seu nome) aproveitou-se de uma ida ao banco da sócia para vir falar comigo.

— Você só se faz de bobo, não é?

— Tento ficar no meu canto.

— Ela é muito dominadora e muito ciumenta. Imagine que deu pra ter ciúmes de você?

— Não quero nem imaginar. De onde ela tirou estas ideias?

— É que eu tenho elogiado seu trabalho, sua postura discreta, sua cultura, ela me disse como fez referência à mão da Cecília Gallerani, ainda que não soubesse de Rocinante. De toda forma, é possível que eu tenha comentado em casa mais de você do que dos outros funcionários, talvez mais do que o recomendável.

Com certeza, eram um casal, e Yoni Pertunda não poderia fazer outro papel, senão o da fêmea da relação e esta fêmea estava prestes a me dar uma cantada. Olhei mais atentamente para ela, queria ver se era possível encarar. Já acordei com barangas bem estranhas, mas era quando eu bebia, como estava sob um rigoroso tratamento médico, para ver se recuperava meu fígado sem a necessidade de cirurgia, talvez não desse conta do recado. Pensei em fazer papel de viado, mas era capaz de a coisa vazar e algum dos peões da fábrica aparecer aqui querendo me comer. Por que nenhuma gostosinha me procurava para ter essas conversinhas? Eu devia ter algum imã para esquisitices, pelo menos não era nenhum alemãozão (lembrando bem, esta Cecília até que era parecida com um alemão de dois metros que conheci em outro emprego). Engoli em seco e resolvi dar umas apalpadas naquelas banhas. Nos agarramos ali mesmo, tinha de me abaixar para beijar sua boca pequena. Ela foi logo apertando minhas bolas, mas logo se afastou.

— Eu sabia, tu é um tremendo safado. Um pedaço gostoso de safadeza. Faz tempo que não experimento um pintinho nervosinho, não vejo a hora.

Ela deu um endereço para nos encontrarmos depois do expediente. Disse que me levaria para o motel mais bacana da cidade e que eu não me arrependeria. Para Cecília, falaria que ia para a academia e deu uma risadinha marota, dizendo que estava precisando malhar um pouco.

Reassumimos a postura profissional e logo dona Cecília retornou, me olhou como se estivesse pressentindo algo. Fiquei com medo, ela era de dar medo. Finalmente consegui ver seus olhos e não gostei do que vi. E se ela descobrisse e aparecesse? Tenho certeza de que era o tipo de gente que anda armada. Encarar estas duas malucas e sóbrio era arriscado, seria eu o pertundado. Esta yoni não valia o esforço. Não fui ao encontro e não voltei mais ao trabalho. Procuro novo emprego nos classificados, desta vez não irei naqueles que tenham nomes emblemáticos.


 

LM

Tuesday, April 24, 2012

Infinitos

Conheceram-se como se conhecem as pessoas, freqüentando lugares em comum, se encontrando pelos caminhos, falando do tempo ou daquela notícia comentada por todos, afinal, se conheceram, observando, porém, a regra do convívio social de manterem-se pelo menos a um metro de distância um do outro. Rompida a barreira da falta de familiarização, começaram a ter conversas mais elaboradas, além da previsão do tempo, falaram de gostos pessoais, contaram de suas famílias, deixaram escapar uma e outra ponta de confidência, esboços de suas angústias, fragmentos de suas personalidades, sempre a um metro de distância e sempre em encontros absolutamente casuais. Em algum momento começaram a programar seus horários para o para não ficarem exclusivamente à mercê do acaso. Mantiveram por um tempo a burla da coincidência, foram pouco a pouco diminuindo a distância dos corpos, leves esbarrares, apenas das costas das mãos, quase imperceptíveis encontros de ombros durante rápidas caminhadas, para logo retomarem a distância de segurança. Passaram a se cumprimentar com apertos de mãos, o primeiro rápido como uma idéia esquecida, depois, aumentos mínimos, meio segundo de cada vez, até entregarem a mão sem querer que fosse devolvida. Passaram a falar deles, de como tinham gostos parecidos, de como os outros não entendem isto ou aquilo, ainda resguardando a distância. Riam soltos, risos autênticos, um achava graça da piada mais sem graça que o outro contasse, gostavam de falar de cinema, literatura, política, gostavam até mesmo quando seus gostos não coincidisse. Um dia conversavam sobre nada, conversavam apenas para que suas vozes ultrapassassem o limiar da barreira métrica não permitida aos seus corpos, quando perceberam que haviam avançado até deixarem suas bocas a um palmo de distância. Podiam sentir a respiração, o hálito, o cheiro por de trás dos perfumes, quase podiam sentir os pulsares do coração. Ficaram assim por um tempo indefinido, entre uma explosão e um nascimento, entre um relâmpago e uma translação e descobriram matizes diferentes na cor dos olhos, pequenas marcas nas peles, pelinhos translúcidos nos rostos, cicatrizes de eras desconhecidas e descobriram-se uno. Rompido o metro regulamentar, desalojar-se das roupas e percorrerem-se nas peles descobertas foi como uma avalanche: instantânea e arrasadora.

Tão instantâneo e arrasador quanto o entregar-se, foi o momento em que perceberam que haviam experimentado do fruto da árvore da ciência do bem e do mal e já não cabiam mais em seus paraísos. Teriam que evitar os olhares das pessoas das suas famílias, dos guardiães da moral e dos bons costumes da sociedade. Seriam condenados, reconhecidos nas ruas e teriam seus nomes atirados ao lixo, jamais teriam paz, morreriam indubitavelmente. Pactuaram que aquela fora a primeira e última vez e que deveriam se evitar dali para diante; que aquilo era muito errado; que fraquejaram apenas uma vez e que não mais iria ocorrer. Mentiam e no dia seguinte engoliam-se, regurgitavam-se e viravam-se ao avesso, havia ainda o remorso e o medo, mas havia também um descobrir-se, um saber ser capaz de entregar-se, de encarar seus juízes e dissimular: descobriam a infâmia e também descobriram o perdão e perdoaram-se por serem humanos, ainda que não fossem perdoados pelos outros, perdoaram-se por serem fracos, ainda que não conhecessem alguém forte e perdoaram-se por terem ultrapassado o limite de distância, pois sentiam que poderiam percorrer infinitos pontos dentro do intervalo de um metro, para sempre.


 

LM

Thursday, April 19, 2012

O ataque das formigas perfumadas (para as crianças que ainda não sabem de orgulho)


 

De uma hora para outra, as formigas deixaram de assaltar o pote de açúcar, os vidros de mel e melado, os biscoitos e calharam de atacar o banheiro. A princípio mal era perceptível o vai e vem de suas perninhas apressadas e, como não havia alimento naquele cômodo, não levantaram suspeitas. Aos poucos o movimento dos formicídeos foi aumentando e só então é que seu real intento ficou claro: não procuravam alimentos, investiam sobre apetrechos de maquiagem e perfumaria, como batons, gloss, fixador, desodorante, perfumes, loção após barba, cremes, nenhum item do gênero ficava impune ao avanço das formigas. Até produtos não apenas estéticos, mas de higiene, como sabonete e creme dental, também sofreram baixas consideráveis.

    Intrigada com o descaso aos regalos da cozinha, em detrimento dos acessórios de toucador, Luana pôs-se a investigar. Disfarçou-se de formiga, muniu-se de utensílios de detetive e seguiu os passinhos das diminutas ladras. Esgueirou-se por ladrilhos, tubulações desativadas, frinchas nas paredes até chegar à presença da rainha das formigas. Boa diplomata que era, apresentou-se à soberana e perguntou qual o motivo de tão abrupta mudança de predileção.

    — É simples, disse a rainha. Sempre nos alimentamos do mesmo tipo de comida consumida pelos humanos e sempre permanecemos nos labirintos e subterrâneos a nos esconder, agora, deixamos de roubar-lhes seus alimentos, para roubar-lhes sua vaidade. Quem sabe assim, sem tanta vaidade, deixem de ser tão orgulhosos e soberbos e passem a respeitar os diferentes e os mais fracos.


 

LM


  

Sobre encerramentos e arte

  1. Após seis anos finalmente a obra estava pronta. Tinha conteúdo, forma, objetivos, suporte iconográfico, enfim, uma lista de designações e adjetivos do mundo da arte e um sentimento a ser absolvido. Pensou em enviar para a galeria, num último instante teve um lampejo suicida e acabou com o que havia de vida na obra. A arte sangrou.


     

  2. Guardou uns tantos segredos nas entrelinhas. Tinha a esperança de que alguém, como ao encontrar na praia uma garrafa atirada ao mar por um náufrago, entendesse seu pedido de socorro. O bilhete naufragou dentro da garrafa.


 

  1. Era moderno, mais, ultracontemporâneo, vanguardista e conceitual, ainda que não soubesse muito bem o significado destes títulos. Sabia de suas criações com tampinhas de garrafa, serragem, limalha de ferro enferrujada, colas, cores encontradas nas sobras de tinta das latas resgatadas do lixo junto com outros parasitas. Falavam-no artista, a dialogar com nomes de pessoas que ele não sabia se existiam e até acreditava mesmo ter conversado com aqueles inexistentes, mas deveria ter esquecido sobre o que falaram. Quando acreditou ser uma celebridade, já não havia lembranças dele nos cadernos descolados: o mundo da arte agora estava apaixonado por um produtor de vídeos experimentais sem imagens.


 

  1. Ela chorou a morte. Ela não era ela, era a personagem, seu choro era cênico e sua vida o roteiro e a plateia um imenso ciclope fixando seu desproporcional olho em seu corpo prestes a ser devorado. Já não sabia quem era ela e quem era a personagem, já não cabia mais o choro e a lágrima, insistia em não sair de cena.


 

LM


 


 


 


 


 


 


 

Sunday, April 08, 2012

A carne da sexta


 

"et non ulla creatura invisibilis em

conspectu eius et omnia autem nuda

aperta sunt oculis anúncio QUEM nobis sermo"

Hebreus 4:13


 

Cresci temendo a sexta-feira santa, não podíamos falar alto, sorrir, brincar ou qualquer coisa que não remetesse a uma circunspecta tristeza e isto tudo enchia-me de temor. Qualquer coisa era motivo para ser condenado ao flagelo do fogo eterno, mais ainda desrespeitar o mais triste de todos os dias. Os pais saiam — e não acho que fossem para igreja, ou fazer qualquer tipo de penitência — e as mães ficavam em casa rezando e chorando de tristeza pela morte de nosso salvador. As crianças, proibidas de fazer qualquer coisa, se reuniam e logo começávamos a nos provocar, até chegar uma das chorosas mães com um cinto ou varinha na mão. Levávamos a maior bronca e algumas varadas, tínhamos de nos comportar como se nosso pai ou irmão mais velho tivesse sido brutalmente torturado e executado para salvar nossas vidas miseráveis. Também era um dia de passar fome, não que isso fosse novidade, mas aquela era uma fome imposta, mesmo se tivesse comida em casa.

Passados mais de quarenta anos daqueles tristes e temidos dias, acordei uma certa manhã, com a maior ressaca de minha vida. Não lembrava como tinha voltado para meu quarto, nem onde passei a noite, lembro apenas de ter sido escalado para trabalhar no feriado da sexta e no domingo e quando olhei para o relógio, quase meio dia, sabia que nem adiantava mais ir para o serviço, era só passar na segunda e acertar as contas. Não tinha me tocado que feriado era aquele, até cair a ficha: era uma sexta-feira santa. Sem grana e sem nenhum lugar para ir, resolvi que era mais do que passada a hora de acertar as contas com aquele dia tão terrível da minha infância e decidi ir para a missa.

Quando entrei na igreja e vi aquelas velhinhas com seus xales pretos cochichando suas rezas, tive medo como se ainda fosse aquele pirralho magricelo e cabeçudo. Tratei de me acomodar logo em um banco e, como os demais, pus-me de joelhos para rezar. Não sabia mais rezar, então tive de improvisar. Misturei Pai Nosso com Ave Maria, Credo com salve Rainha e quando vi que a coisa não ia adiantar, desisti de das orações. Fiquei ainda algum tempo de joelhos, já que não sabia rezar, pelo menos faria alguma penitência, ficaria assim até a missa começar. Mas a porcaria da missa não começava nunca, sentei, meus joelhos ardiam, e perguntei para uma das velhinhas que horas a missa ia começar. Ela me olhou com aqueles olhos de quarenta e tantos anos atrás, jogou-me no inferno e disse que não tem missa na Sexta Feira Santa, apenas um profundo pesar pela morte de Nosso Senhor e um momento de reflexão e de arrependimento pelos nossos pecados.

Sem grana, quase tudo fechado, joelhos doídos, ainda um pouco tonto, estomago começando a roncar, fiquei ali sentado, olhando para o enorme crucifixo do altar. Um casal sentou no banco da frente, deveriam ser os mais jovens ali. Ele com um paletó preto, surrado e ela com um vestido azul escuro, um ou dois números menor do que o número dela. Tinha uma bunda bem grande e a roupa apertada fazia aumentar ainda mais, mesmo assim ainda era uma bunda bem gostosa. Eles se ajoelharam e, para poder olhar mais de perto aquela bunda, me ajoelhei também. Apoiei os cotovelos no encosto do banco da frente segurei minha testa com os dedos entrelaçados. Dava para ficar olhando sem ninguém notar. Não teve jeito, com o olhar fixo nas nádegas da devota, tive uma ereção, mas, sei lá porque, levantei a cabeça e dei de cara com o Cristo do crucifixo me olhando. Eu jurava que antes ele tava de olhos fechados e agora daquele jeito, bem abertos, olhando diretamente para mim. Olhei para os lados e tive a impressão de que todas as velhinhas estavam olhando para mim também. Jesus deve ter falado para elas o que eu estava fazendo, espero que não tenha contado para a bunduda nem para o marido dela. Era hora de sair da igreja. Mas não pude ir muito longe, estava muito fraco e tive de sentar na escada da saída. Minha cabeça doía, meu estomago doía, meus joelhos doíam tudo começou a girar. Fiquei ali um tempo enquanto fiéis taciturnos entravam e saiam da igreja. Neste entra e sai, alguns, tocados pela santidade do dia, resolveram depositar esmolas ao meu lado. Não percebi de imediato, mas logo vi algumas moedas e cédulas se acumulando. Jesus deve ter falado para eles que eu tava com fome, sede e sem grana. A bunduda de vestido azul se abaixou e deixou uma moeda. Tive vontade de segurar sua mão e agradecer, mas não consegui levantar a cabeça, vi apenas sua perna, vestido e depois sua bunda rebolando ao lado do homem de paletó surrado. Tive vontade de voltar a frequentar a igreja para ver se arranjava uma gostosona daquelas, talvez voltasse a considerar isto em outro dia. Fiquei ali até acabar o movimento e uns sacristãos fecharem a igreja. Estava aliviado por estar acabando a sexta feira santa e agradecido por só ter uma por ano. A grana das esmolas deu para comprar alguma comida e bebida para manter-me bêbado durante o final de semana. Apesar da bunduda, não perdi o medo da sexta feira santa.


 

LM