Sunday, February 06, 2011

texto de Paulo Horn

MODELO PARA AMAR

Encontrei no sofá tudo aquilo que perdi em você.
Poemas estúpidos à noite,
rugindo pela tevê
o som que me afasta aos poucos,
tudo vai sumindo
entre goles de vodca com suco de manga

e o sol bem no alto de um domingo qualquer, comigo pensando em você descendo o seu prédio e eu do outro lado da rua, não sei se você me viu e se me viu não sei se não quis me olhar ou se pensou ser melhor não me olhar e falar com outras pessoas, sair pelos ladrilhos da calçada caminhando sem se virar para trás. Mas eu sentado aqui, no canto do bar percebi que fumar já não me ajudava e que no dia seguinte eu teria a certeza de que cigarros de menta não têm o mesmo gosto quando não vem da tua boca. Mesmo assim eu trago e bebo, bebo e penso e lembro; lembro que você estava aqui discutindo sobre tudo, sobre arte, sobre música, sobre deus e sobre eu e você e minha barba e seus óculos e sobre o tamanho dos teus peitos e a cor da minha lente de contato. Tudo já estava ali, neste mesmo lugar, no canto da mesa do bar com a cerveja e as páginas do jornal amareladas que eu não tinha vontade de ler, mas que por alguma razão pareciam sempre puxar meus olhos e estava bem grande ali escrito catástrofe e eu pensava sim, é isso mesmo, tudo vai desabando, encharcando e as paginas virando com o vento e sempre a catástrofe aparecendo, e eu pedi o cardápio para ver se outras palavras apareciam e encobriam a idéia fixa de você.
Decidi que deveria começar a mudar meus hábitos, ou então deveria contornar o tempo, o que fosse mais fácil. Vamos ver, se eu voltasse no tempo ao momento em que te vi entrando pela porta do bar e sentando no balcão ao lado dos bebuns habituais, eu deveria ter me embriagado ainda mais para não te perceber, ou talvez eu devesse ter sido direto, levantado e ido falar com você, deixado você perceber que na verdade eu estava bêbado e que quanto mais eu bebo mais confiante eu fico, mesmo que eu saiba que depois de uma rejeição sua eu ficaria muito triste e talvez eu nem voltasse para minha mesa e agora me lembrei que estavam todos lá, o velho, o novo, aqueles que são eu e os que eu não conheço, e o cardápio eu sei de cor, mas mesmo assim não consigo decidir se tomo uma cerveja ou peço um café. Já bate as seis e daqui a pouco chega o velho e o novo, os que são eu e os que eu não conheço e eu ainda não decidi o que tomar, se vou comer, se vou ficar, se quero fumar e se quero o sabor de menta dos teus beijos nos beijos de qualquer uma.

Percebi que era um modelo para amar quando estava bêbado.

Mas assim, ao cair da tarde eu já penso que deveria pegar um animalzinho para me fazer companhia nestas horas tristes, neste sofá caseiro. Sim é isso, vou buscar um gato que é um bicho triste, um gato velho de preferência que não goste de meninices, de correrias, de bolinhas de papéis nem de solas de sapato e que fique deitado ronronando enquanto eu tomo vodka com o suco que tiver na geladeira. Pois bem, me visto rápido e saio, penso, mas será que devo pegar mesmo um gato que é um bicho que muito se assemelha à mulher, que é esquivo e curvo e fino e forte e mentiroso e fruído e franco e que pode esfregar a cabeça na minha mão sem ao menos gostar de mim. Talvez seja melhor eu não pegar bicho nenhum e não compartilhar o meu sofá, nem minha solidão nem minha tristeza, nem muita embriaguez nem esperança. Mas sei que sou ingênuo, sou um modelo para amar e por isso sei que mesmo que não queira gato nenhum vou atrás de uma mulher para cuidar de mim, mesmo que no final ela apenas me afunde depois de breves momentos de beleza. Sim, talvez seja essa a sina de ser um modelo para amar, ficar dependurado em molduras, galerias, telas de computador, esmaltes de unha, camisetas de garotas, carteiras, tênis, livros, lábios, lustres, listras, passos, poças, postes, cruzes, cristos, cistos, sapos, sacos, simples, sacos, velas, bolos, bolsas, beijos, beijos, beijos.
Talvez este modelo para amar deva, seja... eu.

Eu vi um cone quando sai de casa. Vi também um pássaro, um carro, um ponto, uma nuvem, uma volta, uma coisa, um coiso, um caso, mas nada de um modelo para mim. Meu modelo percorria o infinito das coisas escondidas e bebidas. O velho me ligou dizendo que ia para o bar e que também iriam o novo e aqueles que eu não conheço e eu perguntei daqueles que são eu, mas ele não soube me responder, disse que não falava comigo e com eles desde sábado e eu disse que sábado foi ontem, mas não, sábado foi sábado e hoje o velho está mais velho, o novo não está mais novo e todos que eu não conheço eu conheço um pouco e aqueles que são eu mesmo sumidos continuam sendo eu. Sentei no meu canto, com o velho e outro velho, pedi minha cerveja e fiquei ali escutando as peripécias da vida de aposentado dos velhos e pensando nas peripécias da vida de velho dos jovens que também sou eu, sentados em bares, tomando cervejas, comendo bolinhos, fugindo do sol, olhando as nuvens, fumando cigarros, lendo romances, perdendo romances, lembrando romances, romanceando lembranças com o coração partido na ponta da vista. Na ponta do peito percebi que a vida dos velhos era quase como a vida daqueles que são eu e a minha, só que eles dispõe do tempo como arrogância, como pressuposto para soltar um eu já te avisei, eu sei por que já vivi, mesmo que seja apenas para garantir a última palavra, um ar de sobriedade que pode-se perceber ser uma mentira olhando fundo nos olhos dos velhos, por entre as rugas e vendo fundo, longe, mas intacto o coração partido de toda a juventude do mundo.
Um modelo para amar não deveria passar tanto tempo sozinho numa mesa de bar, numa cama, num sofá, numa praia, numa pedra, numa cama, numa cama, numa sorte, numa tarde, numa cinza, numa, numa, numa. Acendi um cigarro e para a felicidade do velho e do velho apaguei antes de chegar na metade, pois acho que meu corpo não agüenta mais, meu estômago se revira aos avessos e eu tomo um gole por cima pra tirar o gosto, mas nada dele sair, nada do cigarro contorcido no cinzeiro virar cinzas, do dia acinzentar e cair a chuva para refrescar e me fazer deitar no sofá de casa, assistindo tevê sem me importar com canal; com bananas amassadas e picadas e batidas no liquidificador com vodka, leite e suco de manga, com bebedeiras, brigas, braços, abraços, com falta, com fita, flauta, fórmulas para completar o modelo que sou eu. Mas eu não estou no sofá e sim no canto do bar, com o velho e o velho e o novo recém chegado, com aqueles que não conheço e sentindo falta daqueles que são eu. É bom lembrar ou explicar que aqueles que são eu também se mostram como modelos para amar, cada um ao seu modo, mas indiscerníveis como grupo. A ubiqüidade com que se dão os movimentos e pensamentos e anseios e desejos e fomentos até famintos cairmos pelos dias, pelas valas, pelos ventos, pelo tempo, pelos tapas, pelas taras define nossa condição de modelos para amar sem amor nos contentos, sem contento nos caminhos, sem caminho, sem carinho, sem calmante, sem corante, sem cor, como uma pintura descascada na casa do coração.
Pois bem! Cansado como estou decidi ficar no bar, pois mesmo em casa me manteria maquinando formas de auto-sabotagem que me conduziriam ao infinito de coisas escondidas e bebidas, de modelos para amar próximos que não aceitam que talvez eu seja o modelo para amar perfeito para combinar com ela e montar um par nas calçadas do acaso confuso; talvez eu deva, eu seja e você saiba e seja e deva dizer que não devemos ser modelos um do outro, e assim saímos tangenciando a própria tangente do destino, do acaso e dos casos que não casam, dos amores não amados e dos amados não amores. Gostaria agora de ter um pouco de menta nos meus lábios. Estraçalhado como um bom modelo para amar, insurgi-me contra todas as garotas belas que me rejeitam e, imponente em minha embriaguez, decidi que conquistaria a garota linda sentada do outro lado do bar, mandando-lhe um bilhete com um poema estúpido à noite. E como seu sorriso foi uma arma em minhas mãos, decidi que o flerte era meu campo de batalha e fiquei com toda a importância, com toda a vantagem do seu sorriso ao meu bilhete em mãos, apenas esperando que ela passasse em minha frente para poder dar a cartada, a grande cartada de um amor louco, burro e bêbado. E ela passou magnífica e eu corri; corri entre as paredes de pessoas atrás de você, corri na chuva até seu carro somente para ter minha armada destroçada pela sua rejeição, sincera e cortante; sincera e reinante. Terminei a noite sentado no sofá, pensando nos poemas que disse, nos cortes que tive, nas máscaras que usei, nas mudas que plantei, nas plantas que pisei correndo no encalço daquela moça, apenas para ficar tão pisoteado como pisoteei.
Suco de manga com vodca não dá um bom café da manhã, por isso eu misturo café com cachaça e vejo que trava tudo no alto da garganta, pior do que o cigarro de menta que não veio dos lábios dela.

Percebi sóbrio que sou um modelo pra amar melancólico. E por isso eu bebo e modelo o amor sem perceber que ele me modela mais e mais e mais.

Sunday, January 23, 2011

Tinha um sapo no ranchinho, pegajoso, gelado, verruguento e Sandra precisava entrar lá pegar a bicicleta para o pai. Não teve jeito, preferiu levar uma bronca. Talvez um sapo fosse uma das únicas coisas que podiam fazê-la recuar, ela era impossível. Quebrava os dentes ─sorte serem de leite─; perdia os brincos nos fundos da casa, brincando de pega-pega, para achá-los, muito tempo depois, na rua em frente da casa, brincando de pular corda; jamais conseguia cicatrizar os esfolados dos joelhos e para disfarçar novas quedas, fazia-se um curativo com retalhos de folhas de bananeira, não sarava, mas o verde fresquinho era gostoso.
Cresceu, não esfolou mais os joelhos nem quebrou os dentes, mas trouxe da infância o medo de sapo, agora não pode pegar limões, tem um pegajoso, gelado, verruguento bem embaixo do limoeiro.

Friday, January 14, 2011

Cartas de agradecimento

Caro Doutor Luiz (Fernando Teixeira), ontem abraçamos e beijamos a Dra Clélia, pois foi ela a portadora de tão boa nova, mas parte considerável de tão singela homenagem deveria ser para o senhor. Como não estava presente, receba esta mensagem de agradecimento, de admiração e de incentivo. Claro que sabemos não ser um resultado definitivo, nem o fim de nossa jornada, mas foi a primeira boa notícia após tantas e tantas frustrações e só foi possível graças ao seu empenho em buscar novas possibilidades de tratamento em insistir, em brigar, enfim, em ser quase como um pai destas crianças.
Hoje é nosso primeiro dia de “férias”, a serem gozadas durante os próximos trinta dias, onde não haverá praia, viagens, acampamentos e outras coisas que as pessoas normais fazem durante as férias, mas seremos exatamente isto que sempre quisemos ser, pessoas normais, com direito a sonhar o futuro (tão incerto para todos, mas assustador demais para pais de crianças com câncer) com planos bobinhos, tipo qual escolinha escolher, se vamos tirar as rodinhas da bicicleta, trocar o forro da garagem que está com cupim e outras banalidades. No mês que vem retomamos a rotina de luta, com as esperanças renovadas e com mais vontade de lutar, pela Luana e pelas demais crianças que se encontram na mesma situação, por isso Doutor, por favor, não desista. Sabemos que muitas vezes sua luta é inglória, permeada por algumas derrotas, emperrada por burocracias, vaidades e incompreensões, mas a profissão de médico é assim, mais do que um emprego ou trabalho, uma missão.
Obrigado.

Luiz Mendes
Sandra Tromm
Luana Mendes
Cartas de agradecimento

Nós que não fizemos o anacrônico Juramento de Hipócrates, por vezes pensamos que o médico pode explicar e resolver tudo. Nós, os leigos, sentimos raiva quando recebemos a notícia que determinado tratamento não poderá ser realizado por falta de um medicamento, ou pela deficiência de um equipamento e, às vezes, acabamos descarregando nossa frustração nos médicos que, em nossa ignorância, imaginamos estarem indiferentes à nossas aflições. Condenamos-os porque foram viajar no final de semana, ao invés de ficarem estudando uma maneira de curar nossas doenças, ou de nossos entes queridos. Esquecemos de sua humanidade, de suas limitações, de suas frustrações e pensamos que eles são insensíveis ao sofrimento alheio. Somos tolos, somos pais, somos impulsivos, intempestivos, viscerais e sentimentais, mas, em alguns momentos de racionalidade, enxergamos os médicos como iguais, talvez até mais comprometidos com nossa luta do que nós mesmos, pois têm em suas mãos não um caso igual ao nosso, mas dezenas, centenas e cada paciente, cada pai ou mãe se acha no direito de receber toda a atenção e todo o esforço para si.
Alguns buscam respostas no divino, no metafísico, no espiritual e cobram dos médicos a pouca fé demonstrada. Por vezes, alguns com um pouco mais de conhecimento e com um pouco mais de acesso à informação, se acham mais preparados do que os médicos, fazendo perguntas que estes já responderam nos primeiros meses do curso de medicina. Pacientes e pais de pacientes têm esta mania de procurarem as respostas que os médicos não deram onde suas convicções os levam e acham que todos deveriam compartilhar de tais convicções. A luta pela sobrevivência é o instinto básico mais evidente de qualquer ser vivo e cada um usa suas capacidades e aptidões nesta luta.
Antes que os destinatários desta carta se aborreçam com meus prolegômenos, vamos ao assunto e por mais que até agora não pareça, esta é uma carta de agradecimento. Todos os que acompanham o caso da Luana Mendes sabem o quanto o tumor tem se mostrado resistente a tratamentos e o alto grau de recidividade apresentado, mas, após tantas vicissitudes, conseguimos fazer no Hospital Santa Marcelina, dia 20 de dezembro, a quimioterapia intra-arterial com três drogas (carboplatina, topotecan e melfalano). Vimos como é um procedimento com alto grau de complexidade, dependente de um número muito grande de profissionais altamente habilitados e de um conjunto de suporte bem concatenado e, quando realizado em um hospital com tamanho afluxo de pacientes com as mais variadas enfermidades, depende também de uma generosa dose boa vontade dos médicos e dos demais profissionais envolvidos. Mas o resultado do primeiro exame realizado após este procedimento foi muito animador, pois as sementes vítreas, tão impertinentes e constantes mesmo após inúmeros outros tratamentos, não foram encontradas.
Por isso, queremos deixar registrados nossos mais sinceros agradecimentos a toda equipe médica do Hospital Santa Mercelina especial ao Dr. Sidnei Epelman, chefe da oncopediatria; Dra. Fernanda Barakat, oncopediatra; Dr Francisco, com quem só falamos por telefone, mas que muito contribui para realização do procedimento naquela data; Dr Luiz Fernando Teixeira, oftalmologista e quem nos indicou esta nova possibilidade de tratamento; Dr Marcio Marques (não tenho certeza, mas minha memória quer crer que este é o nome do radioterapeuta intervencionista, tão atencioso que nos explicou, ali mesmo na hemodinâmica , como tudo havia corrido bem com a Luana e nos explicou, rápida e detalhadamente, como fizera o procedimento). Muitos nomes que deveriam estar constando nesta lista, por lapso de memória, por não saber ou por distração ficaram de fora, para estas pessoas, peço minhas desculpas, mas saibam que nossa gratidão não é menor.
Estamos cientes que o resultado do tratamento, apesar de tão alvissareiro, não é definitivo tampouco encerra nossa luta, mas nos dá novo ânimo e renova nossas esperanças. Presenciamos e aprendemos o quão difícil é a realização deste procedimento, mas pedimos a todos os profissionais envolvidos que não desistam de tentar implantar este serviço de modo definitivo e sistemático, não apenas pela Luana, mas por tantas outras crianças, cujos protocolos básicos não obtiveram êxito e cujas visões, e talvez suas vidas, dependam deste tratamento. Esta dose extra de esperança e ânimo alivia nosso sofrimento, o que nos remete às palavras do Dr Drauzio Varella: “Muitos procuram nossa profissão imbuídos do desejo altruístico de salvar vidas. Nesse caso, encontrariam mais realização no Corpo de Bombeiros, porque a lista de doenças para as quais não existe cura é interminável. Curar é finalidade secundária da medicina, se tanto; o objetivo fundamental de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.”


Obrigado a todos.

Luiz Mendes
Sandra Tromm
Luana Mendes

Friday, January 07, 2011

Plano

Primeiro alguém contou uma história falando superficialmente do assunto. Foi quando aquilo rondou minha mente, mesmo que de maneira dissimulada pelo espanto. Era, sem dúvida, algo terrível. Como uma pessoa poderia agir daquela maneira? Como ela se sentiria? Quem teria coragem?
Não pensei mais no assunto, a não ser por vagos lampejos de lembranças, rapidamente descartados como lixo residual de pensamentos erráticos. Apenas lixo a ser tirado do campo de visão. E quando já estava bem administrada toda a destinação do lixo, li no jornal sobre outro caso semelhante. Se antes a história contada não tinha materialidade, a reportagem trazia detalhes, declarações, julgamentos, pareceres de doutores, enfim, trazia proximidade e forma. Agora não eram pessoas imagináveis, mas pessoas com seus nomes, idades, endereços, CPF e RG. Tinha elementos para comparar e exemplificar.
Mantinha distância, imaginando estar tentando entender mentes alheias. Entrava em outras mentes, que não a minha, para tentar enxergar com olhos alheios. Nada daquilo tinha alguma coisa haver comigo, era apenas exercício de imaginação, afinal eu seria incapaz de tamanha barbárie. Havia a família, Deus, lembranças dos ensinamentos da mãe, minha responsabilidade perante a sociedade, um trabalho, minha reputação e tantos outros valores a serem defendidos e preservados. Não, não era nada comigo, apenas imaginação.
Mas como seria se acontecesse comigo? Seria descoberto? Arrependeria-me? Interrogações que se aproximavam, rondavam-me como um predador rondando a presa. Meus filhos, netos, amigos de longa data, como reagiriam? E sem me dar conta, já estava com tudo pronto em minha cabeça. Cada detalhe, possibilidades, desdobramentos e reações possíveis. Era só agir. Eu queria mesmo agir? Estava tudo tão planejado, tão revisto em seus detalhes, cronometrado, não tinha como nada dar errado. Já previra até minha reação.
Não tem mais volta, espero apenas o melhor momento para agir. Continuo vivendo como sempre, só que agora sei que há um brutal eu dentro de mim, sonhado quase à materialização.

LM
Sete cantos

Ano que vem completo 70 anos. Já não recordo há quanto tempo divido minha vida com esta janela. Não sou memorioso o suficiente para lembrar o que vi hoje de manhã, nem tenho criatividade para imaginar o que há além da cerca. Apenas sei a data da minha morte: no meu próximo aniversário. Se a Providência falhar, trago, sob o travesseiro, a caixa.
No ano que vem completo ciclo da minha vida, 70 anos, nem um dia a mais. Tempo suficiente para ter feito tudo que deveria ter feito. As inacabadas, desisti. Faltou-me força, talvez dedicação, ou não mereciam ser feitas, não serviam para nada além de preencher as lacunas entre o abrir e o fechar dos olhos. Se há algo para saber após a morte, saberei e chorarei todo o arrependimento, enquanto o tempo ainda existir. Nada havendo, termino, simplesmente, sem memória, sem flores em minha lápide, sem lápide – um punhado de ossos, de calcário, poeira – e o nada.
Ainda trago lembranças, modifico-as, suporto-as, invento-as. Invento-me e minto para este inventado e convenço-o-me de que aquele ser nulo era outro, não eu. Convenço-o-me da importância de passar os dias quentes, suando entre os cantos do quarto e olhando através (ou para ela) desta janela. Este cheiro azedo de humano – o pior dos cheiros – não exala das minhas peles. Vem com o vento, com o auto-convencimento. Não suportaria até o próximo ano fedendo assim. O cheiro da morte já conheço, já o senti: qual será o cheiro após a morte?
Escreverei uma carta aos meus filhos, um dia antes de completar os 70. Falarei de amenidades. Como tem feito calor; como o jornal parou de ser entregue sem aviso; o preço dos remédios; a falta de luz; a dificuldade em encontrar roupas boas e baratas; o barulho que vem da fábrica ao lado e de como é difícil dormir enquanto os motores zunem; falarei da falta de chuva nesta época do ano ou de como tem chovido ultimamente, mas especialmente, falarei como me sinto bem de poder passar os dias neste quarto, olhando para a janela. Inventarei-me pela última vez.

LM
Outro texto de Paulo Horn

MARCHA DAS BARATAS

Primeira, acho que eu deveria ir embora, segunda, talvez para um lugar mais longe, onde eu pudesse voltar a estudar, mas, terceira, mas não tenho tanta certeza assim se eu gostaria de ir embora, de sair daqui onde vivi até agora e o que eu faria se não visse mais o cachorro branco deitado no pé da árvore todo dia de manhã, e quarta, o que me incomoda são essas baratas que parecem estar em todos os lados e vi essa saindo do pote de ração do Tobias e ele de lado, não chegava ao pote por medo daquelas patas que eram muito mais que as dele e talvez na pequenez houvesse algo de amedrontador ou ele só fosse um frouxo mesmo já que quando era pequeno comia até merda se eu não cuidasse, e terceira, o que eu vou fazer com o cachorro a hora que eu for embora, talvez devesse dar ele, mas tenho medo que alguem dê uma injeção no bicho, que ele não merece e muito menos dar ele para minha mãe que não deixa o cão ser cão, ora onde já se viu um cachorro que não lata e que mije só no lugar certo, para isso têm os gatos, que além de sorrateiros são limpinhos ao seu modo, segunda, é, eu teria que levar Tobias de qualquer jeito, mesmo que fosse ele quem atraísse as baratas da cozinha, e eu me vejo indo embora, sentando no ônibus, terceira, Tobias numa daquelas caixas com furinhos para respirar e eu sentado lá pela quarta fileira para fugir do chacoalhar das rodas via pela janela uma fila gigantesca de baratas na rodovia me seguindo e olha só, puta que o pariu tem uma barata gigante sentada ao meu lado, com licença, mas preciso ir ao banheiro e ela diz, pois não e recolhe várias patas para me deixar passar, quarta, e no banheiro eu lavo o rosto e também sou barata no espelho, é, quinta, realmente, não há como fugir destas malditas patas e Tobias está certo em olhar meio de longe por que eu tenho certeza que esses dias enquanto eu dormia uma delas me assediou, mesmo que não tenha certeza ela estava lá, e andou pelas minhas costas e que ria de minha cara, quarta, terceira, talvez num lugar menos movimentado não houvessem bichos como esse, talvez se eu fosse para uma cidade menor, com menos prédios e escapamentos, com gramados verdes bem podados e algumas rosas no jardim, com menos bueiros e esgotos, mas sei que não, segunda.
Primeira, eu talvez não devesse ir embora, segunda, talvez o certo fosse ficar aqui e daqui mesmo mudar as coisas, tomar coragem e voltar aos treinos de tênis de mesa e finalmente aprender a falar francês, terceira, esquecer de uma vez por todas Lúcia, andar ao sol e comprar um inseticida a base de água, prender Tobias no quarto por umas noites, longe de ralos e acho que voltar a fumar, comer mais sushi e talvez eu devesse convidar Lana para sair, mesmo que ela me meta mais medo do que as baratas em Tobias e isso também é besteira, quarta, ela é só uma garota, certo, uma garota muito mais bonita do que eu estou acostumado, mas vamos lá, não posso deixar que um par de olhos me tirem a ação desse jeito, mesmo que vivam tirando e eu devia pisar nas baratas, esmagar suas asas e patas no chão contra meu tênis e acho que amanhã se eu ver a Lana eu convido ela pra sair, quinta, nada muito especial, uma cerveja depois do expediente, isso se ela não estiver muito bonita, mas eu acho que ela aceita sim e eu posso pedir para ela, tu pode me ver um cigarro, não, o isqueiro eu tenho, (acho que eu gostaria de queimar uma barata viva) e o que tu vai fazer hoje e ela ia dizer que talvez saísse com uma amigas para dançar e então, tu não quer tomar alguma coisa depois do trabalho e ela iria sorrir e me dizer para encontrar ela naquele bar de esquina, no centro e quarta, amanhã, quem sabe, terceira, segunda.
Primeira, eu olho pro lado para ver se não tem nenhuma barata por aqui também, segunda, tinha uma me seguindo, tenho certeza, mas desapareceu de uma hora para outra, e talvez ela seja uma dessas voadoras e se esconda entre as nuvens por que eu sei que por mais que tu não acredites essas porras voam alto, e tem um grilo bem aqui, e eu espero que ele me fale algo, mas esse deve ser um meio tímido ou então ele é mudo por que fica mexendo essas pernas o tempo todo, mas eu não sei a língua dos sinais e como será que está Tobias essa hora, eu gostaria de passar um pouco mais de tempo com ele, mas as baratas, quarta, ainda tenho que decidir se vou mesmo e se for acho que tenho que vender o carro e talvez só alugue a casa, mas não sei, não gostaria de voltar para algo que alguém vinha usando e por isso eu te odeio Lúcia e vou embora, vou sim, mesmo que tenha que levar todas as baratas do mundo comigo, mesmo que rode por aí num ônibus cheio de patas eu carregarei comigo meu inseticida, meu isqueiro e serei o maior incendiário de baratas que o mundo já viu, e vou ser reconhecido e quinta, eu vou trazer Lana comigo e viver uma vida de aventuras e vão fazer um filme sobre mim e as baratas e quem sabe eu mesmo faça uma ponta como o cara da loja que vende o inseticida para mim e amanhã, quarta, amanhã eu ganho Lana que não me mete mais medo e sim, eu já vejo ela aqui em casa, acordando mais cedo que eu e me chamando por que vamos chegar tarde para o trabalho e ela amarra o cabelo num rabo-de-cavalo e eu ponho uma camisa qualquer e no caminho compramos o jornal da senhora no sinaleiro, terceira, eu vou para um lado e ela para o terceiro andar me dá um beijo na porta do elevador e vamos almoçar juntos, segunda, e eu entro na minha sala e ligo meu computador, primeira, e vejo se não tem nenhuma barata ao meu redor, digo olá para o louva-deus, ligo o PC e então escrevo, ponto morto.

Saturday, December 18, 2010

Cinco histórias brasileiras

1 - Ao som do capim seco sendo pisado, Samuel Almeida pensava e lembrava. Pensava na pouca comida alojada no estômago e lembrava de quando seu pai contava do tempo em que chovia e ele colhia feijão e mandioca. Pisava mais, agora em pedra e terra ressecada; na sua frente, erguidos de ameaças, ferros e concretos engolindo cana e cuspindo progresso. Samuel Almeida não trazia arma, abriu o peito e se fez Quixote: bebeu a água carregada de vinhaça e prostrou-se na terra, para não mais fazer dobras no capim seco.

2 - Ubiratam Rosso segurava o palheiro e desviava dos pés de eucaliptos. Desviava, desviava e acabou retornando ao local de partida. Nova tentativa, outro palheiro, e novo retorno. Parou para sentir o frio do Minuano, mas este também desviava e se perdia entre os troncos. Não havia mais espaço para o homem e apagou o palheiro. Ubiratam Rosso escolheu uma, entre as milhares de plantas, e se fez árvore. Um galho com forquilha alojou seu pescoço enquanto o resto do corpo balançava ao sopro do vento perdido.

3 - No meio da selva, Francisca Cabral fazia as tarefas dos filhos mortos. Sangrava as árvores, enchia as coités, defumava e trocava por um pouco de farinha a grande bola de borracha. Nunca reclamava, nunca deixava de recolher o látex, nunca falava com as pessoas, só com as seringueiras. Contava como estava cada vez mais fraca, perguntava se os filhos estavam bem, se o marido ainda vivia e perguntava o que era felicidade e se era verdade que existiam pessoas felizes. As respostas, só Francisca ouvia.
A última vez que Francisca Cabral foi vista, entrava na selva. Há quem diga ouvir a conversa dela com as árvores. Agora são as plantas que fazem perguntas.

4 - Da praia, Félix de Souza conseguia enxergar a Ilha dos Remédios e o butiazeiro. Ele não gostava de passar nestes lugares e sempre observava bem antes de por o barco na água. Se percebesse qualquer sinal vindo de lá, não saia para o mar. As pessoas falam que Félix, olhando para a ilha e para o butiazeiro, sabia quando o perigo estava por perto.
A cada retorno, ele trazia menos peixe; galhos e garrafas sem mensagens enchiam a rede. Félix de Souza percebeu um sinal, a despensa vazia o fez partir mesmo assim e, em alto mar, uma grande embarcação faz gravetos do seu barco. Agora, os demais pescadores tentam enxergar um sinal, da ilha, do butiazeiro ou de Félix.

5 - O carrinho de tração humana, abarrotado de papelão, garrafas de plástico, latas de alumínio, revistas, algumas pedras de craque, uma garrafa de aguardente e Pedro João Dias, aos 6 meses de idade. Na tração, se revezando, Catarina da Rosa e Aluisio Correa Dias. Fora o bebê, o craque e a cachaça, o casal vende todo aquele lixo por dez reais. Catarina e Aluisio não passam dos 20, aparentam 30 e se conheceram na rua, onde moram. Hoje tiraram a sorte grande: revirando o lixo em uma rua de bacanas, encontraram um pacote cheio de pedras de craque —nem foi preciso passar na Cracolândia — e hoje vão fumar pala última vez. Pedro João Dias será encontrado, perto de duas carcaças inertes, será enviado para um hospital, passará no Jornal Nacional, tirarão muitas fotos, e será enviado para adoção. Negro e soropositivo, Pedro ficará no abrigo infantil, o resto da sua vida.
Escritos para as sombras

Guardado na terceira gaveta da esquerda, na mesa de trabalho de Aderbal Fuentes, ao lado da pasta e da escova de dentes, de uma revista velha e de alguns clipes e alfinetes, esconde-se uns manuscritos. Folhas de caderno, de blocos de recados, de agendas, de pacotes de cigarros. Tudo cronologicamente organizado. São cartas sem destinatário, pedidos de desculpas, invenções de si mesmo, desabafos, atestados de existência, alforrias e outras mentiras que os humanos contam para o espelho. O autor imagina tais fragmentos como sendo um todo, coeso, mosaico labiríntico, mas uno. Aderbal prefere quase não pensar nos manuscritos, mas sabe que aquelas palavras, começadas a ser juntadas há mais de 20 anos, compõem uma mensagem de renúncia da lucidez, um abrir mão da sanidade e, mesmo já tendo decorado linha por linha, precisa folhar o calhamaço quase todos os dias. Necessita ver e tocar os papéis, pois sabe que assim que sua mensagem for enviada, estará assumindo a loucura ou deixando a vida.
Já esteve muito perto de colocar as folhas na caixa de correio, faltaram uns míseros selos, ou então, um bater de asas de besouro o distraiu. Às vezes põe em um envelope oficial, carimbado com brasões imponentes e anda pelas ruas como quem segura um ofício ou despacho de alta importância para o Estado. Leva seu embrulho passear pela cidade e quando cansado, para e toma um café, não sem antes, repousar o pacote com solenidade sobre a mesa, para que todos os passantes possam ver quantos carimbos e logotipos vistosos ele traz.
Aderbal trabalha na mesma repartição há vinte e cinco anos, quase o mesmo tempo de casado, tempo suficiente para criar duas filhas e um filho. Bebe pouco, não fuma e tem boa saúde, bons dentes, quase nunca vistos. Houve quem o alertasse do comportamento pouco recatado da esposa, mas ido o viço, isto parece ter parado, agora ela dedica-se à religião. Os filhos, sem carência do herói, almoçam com os pais três ou quatro vezes por ano. Na juventude pensou que poderia ser poeta, agora pensa apenas no dia em que vai enviar sua mensagem, ou deitá-la ao lixo.
Comecei a escrever este pequeno artigo em 19 de setembro de 2010 e espero estar completamente enganado.

O que vejo diariamente nos jornais e noticiários, por mais que seja uma quantidade considerável de informação, nem sempre se traduz em igual nível de compreensão dos acontecimentos. Consumo notícias e tento decifrar o mínimo possível, se é que esta seja uma tarefa a qual eu esteja preparado, mesmo assim tento entender um pouco do que ocorre com nosso mundo e o pouco que percebo não é animador.
O processo de entrincheiramento dos EUA e dos países da zona do Euro contra as invasões de imigrantes (de raças inferiores?) evidenciam a postura egoísta destas nações, que só toleram a entrada dos pobres, enquanto puderem aproveitar a mão de obra barata para fazerem seus serviços “indignos”. Apesar das fronteiras cada vez mais fechadas, crises financeiras vão sendo sistematicamente escamoteadas sem, no entanto, conseguir uma real vitória. A queda nas produções industriais das tradicionais potências do norte indicam que estes não são fatos isolados, mas uma série de evidências do fracasso do modelo capitalista. Mas o que poderia ser motivo de alegria para os críticos do sistema, soa como um sinal de alerta para conseqüências mais tenebrosas: o que mais poderia impulsionar a produção, dentro do modelo capitalista, em tempos de retraçao do consumo? O que poderia incrementar a indústria até atingir o pleno emprego das forças produtivas? O que poderia cessar a tendência de deslocamento do centro do poder? A mais terrível das respostas: a guerra.
Enquanto a esquerda dá alguns passos tímidos na América Latina, vemos a extrema direita (às vezes fascista) ganhar prestígio e poder em vários países ricos e, a continuar este cenário, Barack Obama, mesmo que consiga a reeleição, dificilmente conseguirá emplacar um sucessor, abrindo caminho para a direita conservadora dos Tea Parties. Só isto já poderia justificar os temores de uma ação militar das potências em busca dos quintais perdidos e qualquer coisa pode servir de pretexto, desde o desmatamento da Amazônia, até a existência de células terroristas ou de narcotraficantes dominando as reservas de água doce.
Mesmo sendo sombria esta previsão (talvez até um tanto exagerada) não há como ignorar que o cenário uma guerra de grandes proporções, a ser desencadeada nos próximos anos, está sendo montado, resta saber exatamente onde o conflito vai acontecer. Oriente Médio, mais precisamente a partir do Irã, talvez Coréia do Norte ou quem sabe, ainda que aparentemente improvável, na América do Sul, por exemplo.
Este meu alarmismo, exagerado para alguns, não se baseia apenas no que acontece atualmente, senão em uma leitura de exemplos que a história nos dá, mais precisamente em um texto de Walter Benjamin, publicado em 1936, A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, onde o autor alertava para a guerra eminente que se estava armando na Europa.

O fascismo pretende organizar as massas sem alterar o regime da propriedade, que as massas tendem, todavia, a rejeitar. Acredita superar essa dificuldade permitindo às massas expressar-se (mas sem reconhecer seus próprios direitos). As massas têm o direito de exigir uma transformação do regime de propriedade; o fascismo quer permitir que se expressem, mas conservando esse regime. O resultado é que tende, naturalmente, a uma estetização da vida política. (p. 252)

Quando vemos que em níveis globais se acentua cada vez mais a concentração de riquezas nas mãos de um número reduzido de pessoas (a parcela mais rica da população mundial, apenas 10%, dispõem de 71% de toda a riqueza do planeta) e vemos os meios de comunicação de massa traçarem um perfil caricato medianizado e padronizado das pessoas (antes, consumidores), em todos os cantos da Terra, não podemos deixar de fazer uma associação com as palavras escritas em 1936, o que as torna sombriamente atuais. E mais sombrios são os seus desdobramentos.

Todos os esforços para estetizar a política culminam num único ponto. Esse ponto é a guerra. A guerra, e tão-somente a guerra, pode fornecer um objetivo aos grandes movimentos de massa, sem entretanto tocar no estatuto da propriedade. É assim que as coisas podem ser traduzidas em linguagem política. Em linguagem técnica, elas serão assim formuladas: só a guerra permite mobilizar todos os meios técnicos de nosso tempo sem nada alterar no regime de propriedade. (p. 252)

Benjamin, por sua vez se utilizava do manifesto de Marinetti, publicado em La Stampa, de Turim, sobre a guerra da Etiópia e sobre este manifesto, o autor esclarecia:

Para ele, a estética da guerra apresenta-se do seguinte modo: quando o uso natural das formas produtivas é paralisado pelo regime da propriedade, o crescimento dos meios técnicos, dos ritmos, das fontes de energia, tende a um uso antinatural. Esse uso antinatural é a guerra, a qual − pelas destruições que traz − demonstra que a sociedade não estava bastante madura para fazer da técnica o seu órgão, que a técnica não estava bastante elaborada para dominar as forças sociais elementares. A guerra imperialista, com suas atrozes características, tem por causa determinante a defasagem entre a existência de poderosos meios de produção e a insuficiência de seu uso para fins produtivos (noutros palavras, o desemprego e ausência de mercados). (p. 253)

Ainda que os EUA e Europa enfrentem uma crise financeira ─ mais pela voracidade de suas elites do que por falta de recursos ─, eles não pretendem diminuir suas riquezas nem abrir mão de sua liberdade de controle sobre o resto do planeta. Além disso, os EUA enfrentam uma crise de identidade enquanto nação dominante provocada pelos fracassos no Afeganistão e no Iraque, além do crescimento econômico da China, entretanto é inegável sua supremacia bélica e sua capacidade de produção e consumo interno, assim como é inegável a capacidade de imposição do padrão American way of life na cultura mundial, derivado do eurocentrismo. Mesmo se considerarmos que os EUA sejam o centro irradiador dos produtos de consumos cultural, o padrão europeu branco e cristão continua sendo o modelo predominante na indústria cultural, assim como ainda é no velho continente onde muitas das grandes fortunas, oriundas da exploração da mão de obra e das riquezas naturais dos países periféricos, vão parar. Estes que também não são fatos isolados, apontam para uma necessidade de reformulação do capitalismo, que talvez os modelos keynesianos de bem estar social não consigam mais responder, restando a opção mais violenta.
Esta guerra será, como a tantas outras, uma guerra imperialista, onde os donos do poder tentarão impor suas vontades em nome dos mais altos ideais humanitários de liberdade e democracia, onde as grandes potências tentarão impor sua supremacia aos que tentarem ousar a questionar as verdades professadas na grande mídia. Diante deste cenário, o que nos resta a fazer? Nós, as massas, temos de nos rebelar contra estes 10% que ditam os rumos do mundo. Há que se negar o modelo que nos é imposto, em que você só é considerado cidadão se for consumidor, onde reproduzimos em escala menor os mesmos modos de dominação e exploração dos grandes capitalistas (qual pequeno burguês-classe-mediano-imitação-patética-dos-ricos nunca explorou a mão de obra barata de uma diarista pobre e negra?). Se o socialismo fracassou, também o capitalismo é um fracasso, pois um sistema que só privilegia uma minoria à custa da miséria de milhões e da destruição dos recursos naturais, não pode ser considerado um exemplo de sucesso.
Enquanto o mínimo de ração nos for ofertado, um pouco das migalhas do luxo dos ricos, outro tanto da falsa ilusão de que as coisas são assim porque são e a descarada ilusão da liberdade, a revolução não eclodirá, pois estaremos muito bem assentados em nossas zonas de conforto, resolvendo nossos grandiosos problemas da prestação do carro novo ou das férias em Florianópolis.
Indisciplinado demais para fazer postagens regularmente, Paulo Horn me pediu que publicasse alguns de seus escritos. Sendo que um pai não pode negar certos pedidos dos filhos, eis que postarei, mais ou menos a cada semana, um texto horniano. Se estes escritos receberem comentários mais elogiosos do que os meus,algo bastante provável, excluirei-o sumariamente deste espaço e darei-lhe uma boa surra.


Borra de café tintado nas fitas de máquina de escrever

Havia um copo de café, sujo como almofada de carimbo velha, que estava lá, no centro da mesa, intacto. Ainda restavam algumas centelhas de calor nele, mas o mais provável era que elas se dissipassem no ar condicionado. Mais tarde eu viria e ainda absorto com tudo que ocorrera desde o momento em que pegara o carro esta manhã e saíra pela rodovia rumo ao trabalho até o descanso na cadeira e tomaria um longo gole do café já frio, engolindo a tinta fria de carimbo com dificuldade, em que jogaria fora o resto do copo de café. Mas por enquanto havia o copo de café com centelhas de quentura em cima da mesa, junto com diversas folhas datilografadas em máquina de escrever antiga, rabiscos de caneta tinteiro e borra de fita de máquina. Alguns livros também estavam largados na mesa, por cima do criado mudo, ao lado do copo de café, com suas páginas displicentemente abertas, marcadas por papel picado com borra de fita de maquina de escrever.
Houve um velório e, talvez por isso, o papel picado de carnaval caiu da estante em câmera lenta. Cada vez que parecia repousar no tapete levantava em uma revoada, dançarino nos eixos do mundo, levando num instante a borra de café para longe do paladar, para longe das comentadas tarde de verão, escritas com fita de máquina em papel de quinta, na quina da sala, segurando as paredes num conceito de arquitetura que parecia vir de trás, de um ângulo totalmente novo, de um ângulo palavrar, de um ângulo escritural, entre escombros de letras perdidas nas dobras de livros não escritos que o acaso roubou da memória e que a memória roubou da escrita, e que a escrita roubou da perdição. E perdido nesta revoada de confete surgia uma idéia solitária, observando a dança como quem espera a passagem de um cometa com um desejo no arpoador do coração, buscando por entre estrelas um infinito de marcações no quadro negro da vida, na vida negra do quadro; quadrado cartesiano para as imperfeições do pensamento, das letras perfeitas, imperfeitas na criação da palavra que junto com você formou aquele ângulo triste no arpoador do meu coração.
Sim, sim, mas antes dessa revoada carnavalesca houve o enterro do natal com sua estrela guia norteando os palmos de terra cavados na estrada do dia, da noite e adentro, e você, meu presente, despindo-se entre as paredes de palavras e conceitos e excitações; dançando revolta como papel de parede picado, tinta descascada nas curvas venosas das horas, mostrou-me incerto como um pequeno filhote de furão escondido nas gavetas da cozinha de idéias que logo, logo, tornar-me-ia um domesticado filhote de gato, que não mais iria buscar a noite para cantar a sinfonia de miados síncopes, de sincopada melodia de cordas felinas de violino; e procuraria sempre minha caixinha de areia para despejar minhas tristezas e me entreteria com tua beleza acachapante até dormir fetal bola de pelo, no teu colo como se isso fosse grande coisa. Mas as coisas sumiram como grão de areia em baixo da unha.
A borra de café de fita de máquina de escrever aparecia ainda mais forte neste ano novo e o ângulo triste foi transformado em ângulo palavrar. As palavras angulares deram lugar a cantos, sons e becos, botas e brotos de brilhos de olhar, que me pegaram de canto numa escritural inovação das coisas matinais, como grãos de café que já brotam branquiais nas turvas águas de tinta que são as lágrimas de quem bebe tinta de máquina de escrever quando recita poemas nas pistas e autopistas dos postes de paredes de livros e folhas e cantos de bocas e risos de todas aquelas que sorriem para os olhos de um filhote de gato domesticado por você. Como eu. Mas então este ano novo apresentou-se angular e palavra no paladar e eu não tinha idéia de onde buscar novas palavras para erguer a arquitetura deste livro não escrito que eu vinha escrevendo até te conhecer e perder a inovação na borra do café. E borrado aparecia o céu sobre a esquina da folha em branco, e a tinta caminhava, teclando espaços em branco que preencheria com ângulos tristes e que, talvez revoltado com todo esse gosto amargo de não, não e não deixasse essa lacuna para que vocês preenchessem como bem quisessem, e não atrapalhassem as lamurias que tijolos rijos de resmungos eu ia erguendo em paredes de palavras tristes, de triste palavrear.
Dizem por aí que um pouco de palavreado poderia me tornar um escritor novamente ou realmente, e que tentar erguer paredes com ângulos palavrares era inútil, pois palavras erguem dunas com pó de café que sobra no coração. Pois eu até concordo que os ângulos palavrares são instáveis demais para erguerem qualquer coisa, mas sempre me perco com seu dedo dançando com os incautos últimos guerreiros de café borrado de tinta de máquina de escrever no meu lábio, plantando um silêncio cafezal e assim como uma traça não tem culpa de se alimentar de histórias, você não tem culpa de se alimentar de ângulos tristes. Botar a culpa disso em você seria negar toda a roda gigante por onde o mundo muda e retirar aquela etiqueta que identifica todo melancólico homem, sentado num banco de praça, com vários espelhos ao redor, um pombal de homens pegos no redemoinho de ângulos tristes que um dia com certeza foram ângulos palavrares até o primeiro e pequeno toque seu que muda tudo roda a roda e reduz a verborragia que é característica daquele cruzamento de idéias que são, em parte e nunca em todo, os ângulos palavrares.
Sabemos então que os ângulos tristes que condensam os homens um dia foram ângulos palavrares que tentaram serem paredes de conceitos e excitação e que ergueram dunas de borra de café tintado nas fitas de maquina de escrever, e que somente são tristes por característica úmida que rola ao rosto quando você não se despe e ainda que isso dure todo o infinito de coisas imutáveis, nunca é culpa sua e sim das fantasias desenhadas no arpoador do coração. Bem pensado, te eximir da culpa – mesmo que seja impossível pôr culpa alguma em você – seria negar também sua natureza destrutiva em salto alto, e construtiva em risos e lábios e reflexiva em paixões arrebatadoras. Havia então uma trindade não santa, paradoxal que era além de tudo criadora de ângulos tristes no arpoador de corações condensados pela simples passagem de um sussurro, de um suspiro, de uma você. Mas pra você isso é instinto. E instintivamente eu fui até a garrafa térmica, sem lembrar que a borra de café estava ainda mais forte no paladar, e fui maquinando e erguendo paredes, criando janelas, fugas, vãos, vasos, verbos e tudo era ângulo reto, torto, todo tinta de máquina de escrever velha; e verborrágico como um arquiteto de livros, romances, contos, contas, cantos, curtos espaços de branco deixava borrado para o espaço de verbos ainda vindouros e aquele livro que escrevendo ainda não escrevi ia se formando um edifício de palavras caídas de dicionários fictícios, empilhados em hiatos abertos por frases não ditas, escritas nas borras das fitas, nas máquinas de café, no amarelo do tempo que fica em quem toma demais.
Então de repente tudo desmoronava como um castelo de cartas de amor mal escritas pelo acaso de versos recitados nas sombras das dunas de pó de café, que se erguem cada vez mais borradas nas fitas de máquina de escrever, coadas em incautos sonhos recitados no arpoador do coração, e despidas pela luz que surge do teu despir-se, sobrecarregando todos os monumentos construídos sobre escombros de línguas esquecidas com ângulos palavrares rústicos, que a arqueologia de alfabetos entristecidos decidiu ignorar na procura por uma forma de reverte a tristeza que emana melancólica da beleza que você reflete. Claro que tentaria em vão reerguer suas paredes entre os escombros de letras perdidas nas dobras de memória que o acaso roubou das entrelinhas de versos de cantigas de roda, que rodopiaram feito folhas secas no mar de tinta que rola dos olhos e que pinta a face como um porta-estandarte de um carnaval sem festa, uma festa sem risos e uma fala sem todas as felicidades conhecidas pelas letras e alfabetos. E ali saberia que esse conceito arquitetônico que em vão tentava fazer valer não poderia ser estabelecido com ângulos mutáveis, com ângulos instáveis e que a instabilidade, embora fonte criativa de todo ângulo palavrar, é a ruína que transforma todo edifício de idéias, de palavras, de frases, fórmulas, pensamentos, prantos, portas de lacunas soltas nas folhas não escritas pela idéia, em dunas de pó de café extraído das sobras de canetas tinteiro borradas nas páginas não escritas de textos não tratados, de tratos não tolhidos e passados datilografados.
Enfim, acabara a tinta de máquina de escrever borrada no coador e espremida dentro de um último copo de café; aquele que eu tomaria devagar, recostado na cadeira e abraçado pela quentura que, se esvaindo, deixava ainda mais forte o gosto de tristeza no paladar. Aninhado como uma bola de pêlo no seu colo, acreditando ser mais do que realmente era, ia me tornando também um ângulo triste, trocando a afasia por um lento ronronar. Sim, havia caído todo tipo de palavra, acabado todo tipo de café, soterrado todo ângulo palavrar ou triste, mas restava ainda a esperança, este ser incauto que acredita piamente ser capaz de contornar a tristeza e reverter a incerteza, apenas por adorar um sorriso. O ano novo começara forte, como os outros.

Paulo Guilerme Horn

Sunday, December 12, 2010

Botbine family

Conheci George Botbine há uns cinco anos, em uma entidade para reabilitação de ex-alcoólatras e, além de tentar largar a garrafa, Botbine tentava também controlar outro vício, ele era o que os especialistas chamam de viciado em sexo. Não sei muito bem como os especialistas conseguem definir exatamente isto, se é pelo número de relações ou se estas relações estão te trazendo problemas, mas se for pela segunda opção, estou nesta estatística, pois a maioria das minhas transas acabaram em problemas, e nem foram tantas assim.
Mas George era do tipo compulsivo, tanto que depois que estabelecemos o mínimo de amizade para entabular um diálogo com meia dúzia de palavras, o sacana foi logo propondo uma fóda. Não dei muita trela e fui logo o desencorajando com um direto do queixo. Não que tenha alguma coisa contra viados, mas o cara era doente e pra ele tanto fazia trepar com homem ou com mulher, desde que estivesse fornicando. Não me admira que também estivesse tentando largar a bebida, afinal quem nunca ouviu falar a respeito da ausência de proprietário de certas partes do corpo dos bêbados. Botbine devia acordar das ressacas com dor de cabeça e sem poder sentar direito.
Pelo jeito ele não ficou muito furioso com o queixo deslocado e continuou a me procurar nas reuniões dos ex-bêbados e não precisei mais dar nenhum direto. Tanto é que até marcamos para tomar uns tragos depois das reuniões. Coisinha pouca, só para não parar de forma abrupta. O cara não era mau sujeito, tinha classe, não misturava bebidas e bebia devagar, enquanto eu entornava uns três ou quatro copos de cerveja, ele ainda estava na metade do primeiro (até acho que ele nem precisava freqüentar as reuniões) e não se alterava muito enquanto enxugava.
As reuniões dos bebuns eram sempre nas terças-feiras, um bom dia para uns tragos (acho que é por isso que não deram muito certo, os organizadores deveriam ter escolhido um outro dia, menos propício a idas no bar) e acabou sendo automático, saíamos dos encontros e íamos, eu e George, até o bar do Schimit. Quando o Schimit soube da minha iniciativa de procurar a entidade antialcoólica, ele deu todo o apoio e até me pagou uma cervejas para comemorar, sem falar que a primeira, das terças era por conta da casa, e como não podia deixar de prestigiar quem me dava tanto apoio, levei meu novo amigo. Foi numa destas terças que ele me explicou 6melhor como era aquele negócio de vício em sexo.
Não sei direito, mas acho que Botibine era um cara de boa família, sempre tinha grana para táxi, andava bem arrumado, com roupas bacanas e falava difícil. Devia estar perto dos cinqüenta e era alto e magro, uma vasta cabeleira começando a branquear. Se eu não soubesse de minha preferência exclusivamente por mulheres, poderia afirmar até que ele era um cara de boa aparência, para não dizer bonito. Bem diferente de mim, que quase sempre estava empenhado no Schimit, alternava minhas duas calças jeans e meia dúzia de camisetas, jamais andava de táxi e era (talvez tenha piorado) feio como a peste e careca. Se eu fosse que nem ele, certamente seria classificado como viciado em sexo, só não ia cantar marmanjos, no máximo um daqueles travestis que parecem mulheres mais bonitas do que qualquer da barangas que eu já peguei.
Voltando à patologia do meu amigo, ele me explicou como não podia mais se controlar e da necessidade em fazer sexo todos os dias, mais de uma vez por dia. No começo ele entrava em chats de relacionamento marcava um encontro com alguma dona solitária, mas estes encontros esporádicos começaram a ser insuficientes e ele começou a contratar profissionais. Nessa época ainda era casado, mas claro que a coisa não poderia durar muito e a mulher foi embora com os dois filhos e uma bela indenização (o cara deveria ser mesmo muito rico). Quando não conseguia encontrar nenhuma das profissionais que o atendia, ele pegava qualquer uma na rua e quando essa brincadeira começou a ficar muito cara, ele passou a vagar pelos becos e a pegar qualquer um que quisesse um pouco de sacanagem, putas velhas, mendigas, ajudantes de pedreiros e agora tanto fazia se ele comesse ou desse, o que precisava era fazer sexo. Isto lhe rendeu muitos dissabores, pois começou a se atracar em qualquer canto, banheiro públicos, terrenos baldios, construções abandonadas e de vez em quando era preso por atentado violento ao pudor. Era hora de procurar ajuda especialmente porque Botbini, que já me confidenciava quase tudo, já não andava levantando direito. Também pudera. De qualquer modo, além das despesas com a putaria, a viadagem e a bebida ele agora, se quisesse ser ativo, tinha que comprar Viagra, ou seja lá que droga usasse. Depois da separação não sobrou tanto, especialmente para os padrões dele e antes que acabasse na sarjeta, procurou um psiquiatra. O médico entupiu George com um punhado de remédios e ele passou a ficar mais tranqüilo, só de vez em quando é que tinha uma recaída, mas nada comparado aos velhos tempos de sacanagem braba.
Não que eu precisasse, mas perguntei a Botbine como funcionava esse negócio de pílula para endurecer, só por curiosidade científica. Ele explicou que não era tomar e ficar de pau duro o tempo todo, mas que quando estimulado a ereção vinha com incrível facilidade, mas nada adianta estar duro se não souber usar direito, me alertou, não sei porque. Ainda por curiosidade científica, perguntei se não tinha sobrado nenhuma, só para eu ver como era, não que precisasse e muito menos que eu não soubesse usar minha ferramenta. Ciência, apenas. Botbine me deu logo duas caixas. Tentei imaginar o motivo que levava alguém a andar com toda aquela droga, mas logo desisti, nem quis perguntar, apenas aceitei a oferta, assim como um pesquisador aceita a amostra de um espécime raro.
Li com atenção metade da bula e peguei minha agenda de telefones. Adriana, casou. Ariane, se mudou para o norte. Beatriz, não lembrava mais de mim. Cláudia, morreu mês passado. Daiana está presa. E assim continuei com minhas infrutíferas tentativas até quase acabarem os créditos do meu cartão de orelhão, quando finalmente consegui falar com Soraia, uma coroa enxuta que conhecia há alguns anos numa festa nostálgica dos anos sessenta. Ela disse que lembrava de mim e disse que ainda não tinha perdido as esperanças de receber minha ligação, isto me animou. Marcamos para eu passar no apartamento dela na noite seguinte.
O prédio era luxuoso caro e Soraia não estava mais tão enxuta quanto na festa dos anos sessenta, penso que talvez minha memória tenha me traído e talvez nem na festa ela fosse enxuta, mas agora não tinha mais o que fazer. Antes de sair de casa segui as instruções da bula e tomei a super pílula que me transformaria em um super-homem e para garantir o resultado, aumentei um pouquinho a dose, na verdade dobrei a quantidade. No caminho botei as mãos nos bolsos e fui mexendo com o belo adormecido, só para me certificar que a droga funcionava mesmo. Assim, quando ela abriu a porta e vi aquela velha magricela e com uns dentinhos muito gastos e amarelados no sorriso, fiquei parado sem saber o que falar ou fazer. Minhas orelhas queimavam, não conseguia respirar direito e parecia que tinha uma chaleira quente em cima da minha cabeça, mas meu membro estava rígido como um pedaço de ferro. Nada mais restava a fazer senão entrar e fazer o serviço. A bula dizia que não deveria ingerir álcool, mas mesmo estando com o membro já pronto, o resto de mim ainda não conseguia a se acostumar com a visão de Soraia, pedi algo para beber e ela trouxe uma generosa e salvadora garrafa de whisky. Bebi logo umas três doses e minhas orelhas queimaram mais ainda, até meus olhos pareciam que queriam saltar das órbitas.
O mal-estar aumentava e já não entendia mais o que ela falava então, sem alternativas, agarrei-a e fui logo metendo minha língua dentro daquela boca que mais parecia um esfregão velho. Ela não perdeu tempo e entregou-se às minhas investidas de maneira dócil e servil. Eu afundava meus dedos na poucas peles e ela se jogava por cima do meu corpo. Como minha ereção não era fruto da minha vontade e como não sabia quando ela passaria, tratei de encontrar uma posição confortável, deitei de barriga para cima e repousei minha cabeça em um travesseiro (minhas orelhas se incendiavam) e deixei que ela fizesse o que quisesse, acho até que cochilei por uns instantes, só acordando quando sentia uma língua entrando em minha boca. Não sei se sonhei, mas lembro de ouvi-la me xingar, chamar de maldito tesudo, filho da puta insaciável, lazarento gostoso e tudo o que tinha a fazer era dar uns tapas nas murchas ancas enquanto as pílulas faziam o resto do trabalho.
Foi uma longa noite e de manhã, quando julguei que Soraia estivesse dormindo, levantei, vesti minhas roupas e fui para a porta, mas ela estava acordada. Ela deve ter dito algo, mas apressei o passo e sai logo do apartamento, antes que ela levantasse e quisesse me abraçar ou coisa parecida. Meu cérebro doía como se tivesse tentado derrubar uma parede à cabeçadas. Fui para casa, mas antes dei uma passada no Schimit, precisava comer um ovo cozido ou um bolinho de carne e tomar um café preto. Botbine estava lá.
─Que merda! Estas pílulas deixaram meu pau duro e irresponsável. Comi uma velha magricela de uns 70 anos. Toma, isso é coisa pra maluco, como não tem nenhuma gostosinha querendo dar pra mim, é melhor eu não ficar com essas porcarias, senão vou traçar só bagulho.
Botbine deu uma gargalhada meio forçada e quando ia falar alguma coisa saí. Passei no mercadinho, comprei uma garrafa de pinga e fui para casa. Ainda não estava bem e a cachaça começava a aquecer minhas entranhas e aliviar meu remorso. Aliás nem sei por que estava me sentindo constrangido, afinal não era a minha primeira velha, nem a primeira feia, talvez nem fosse a última, mas e se ela pensasse que tudo aquilo era por atração à ela? Eu precisava remediar a situação e liguei marcando novo encontro, ela ficou surpresa, mas não declinou e à noite lá estava eu à sua porta, sóbrio, sem super pílulas e feio como sempre. Entrei e enquanto ela preparava um trago, percebi na mesa da sala, dois copos de whisky pela metade.
─Tem visita?
─Ah! Não é ninguém, só meu filho que veio dar um beijo na mamãe. Ele está no banheiro.
Botbine apareceu, impecável como sempre.
─Ora, ora. Se não é meu velho amigo Charles Trezinni.
Fiquei com uma baita vontade de enfiar a mão na cara daquele cretino, mas preferi deixar para lá, afinal o filho da puta era ele. Conversamos amenidades, como se fossemos bons vizinhos em uma manhã de domingo na primavera conversando enquanto as crianças brincam no quintal e nossas belas esposas preparam o almoço.
─Sabe mamãe, Trezinni é poeta e até acho que já publicou uns dois ou três livros.
─Na verdade só tive dois trabalhos publicados em coletâneas. Faço alguns serviços de free lance para jornais e revistas.
─Mas é apenas um primeiro passo, tenho certeza que assim que descobrirem seu talento não faltará quem queira publicar seus livros.
Que filho da puta falso, até outro dia era um louco fodedor e alcoólatra semi arruinado, agora tava ali me zoando. Mais do que nunca me decidi a foder com a mãe do cretino nem que tivesse de comer Viagra com farinha e se ele bobeasse, fodia o rabo dele também. Nos cumprimentamos cordialmente e ele saiu. Peguei a garrafa e comecei a tomar no gargalo mesmo, enquanto Soraia preparava uns pasteizinhos de atum na cozinha. Aquela cena todo, como eu havia chego até aquele ponto, as reuniões dos bebuns, o Viagra, minha vida patética me fizeram como que despertar de um estado de torpor. Decidi sair daquela casa e daquela família de loucos, mudar, arranjar um emprego sério, comprar uma casinha, casar como uma boa mulher que cuide de mim, ter filhos para poder correr com um cachorro e, quem sabe, ser feliz. Soraia trouxe os pastéis, estavam muito bons, comeria só uns três e depois sairia de uma vez. Tomei mais uns goles e senti aquela língua velha entrando em minha boca. Talvez só esta última trepada, para provar que não preciso de pílulas e depois mudaria de vida. Como era de se esperar brochei e tive de satisfazê-la com língua e dedos, acabei dormindo no aparamento da senhora Botbine. Pela manhã ela me deu um punhado de dinheiro, era mais do que eu ganhava em um mês todo.
─Compre umas roupas novas e bonitas, alguma bebida e fale com George, ele tem uma receita ótima para certos probleminhas. ─ E fez um gesto com dedo indicador se encolhendo.
Mais baixo do que isto eu não poderia chegar. Então lembrei da minha resolução da noite anterior e resolvi adiar por uns dias, talvez ainda pudesse tirar mais alguns trocados da velha.

Friday, December 10, 2010

Esta é a cópia de um e-mail enviado ao Hospital Santa Marcelina de São Paulo no dia 10/12/2010. Pode estar destoando do restante dos textos, mas torno público algo pessoal pois esta luta não é apenas minha, mas de tantas outras famílias que passam por situções similares. Especificamente, vou lutar para que o Hospital Santa Marcelina consiga re-instalar e manter este procedimento, tão moderno e tão complexo de ser ser executado, mas que é a última esperança para tentar salvar os olhinhos de centenas de crianças.
A a complexidade da quimioterapia intra-arterial reside no fato de ser um procedimento altamente invasivo e que requer uma equipe de especialistas e instalações disponíveis no mesmo momento.
Abaixo a cópia do e-mail:


Meu nome é Luiz, sou pai da menina Luana Mendes e moramos em Joinville SC. Luana tem 5 anos e é alegre e sapeca como qualquer outra criança desta idade, mesmo estando em tratamento contra um retinoblastoma bi-lateral diagnosticado em outubro de 2008. Apesar de nossa luta não acho o drama de minha família maior ou mais terrível do que o drama de tantas outras famílias que encontramos pelos corredores de hospitais durante nossa jornada, falo isto para deixar claro que não queremos nenhum tratamento diferenciado nem qualquer vantagem em relação às outras famílias, apenas o direito de lutar e ter esperança.

Diagnosticado o retinoblastoma, seguimos o protocolo básico para tratamento, quando foram feitos 6 ciclos de quimioterapia mais diversas aplicações de laser. Como o protocolo básico não foi suficiente, ela foi submetida à radioterapia, igualmente sem sucesso, então tivemos de enuclear o olho esquerdo. Tentamos mais duas braquiterapias no olho direito e como os resultados não foram satisfatórios, buscamos outras alternativas. Li uma matéria na internet que no Memorial Sloan-Kattering, de New York, um novo tratamento estava sendo testado com certo sucesso em casos como o da Luana, com recidividade dos tumores e aparecimento de sementes vítreas. Mas os EUA estão muito além de nossas possibilidades e descobrimos, que o Dr. Luiz Fernando Teixeira estava trazendo esta técnica para o Brasil. Foi assim que, em dezembro de 2009, iniciamos o tratamento da Luana no Santa Marcelina.

Fiquei muito feliz e muito orgulhoso por um hospital que atende pelo SUS estar à frente dos caros e luxuosos hospitais para ricos, oferecendo um tratamento tão inovador, praticamente simultaneamente aos primeiros tratamentos feitos nos principais centros mundiais. Mas nossa alegria não foi completa, pois percebemos o quanto era difícil conseguir marcar este procedimento, não obstante aos esforços da equipe médica e demais atendentes do Hospital. Ora tinha vaga na hemodinâmica, mas não tinha retaguarda na UTI, ora tinha vaga, mas tinham outras crianças com estágios mais avançados da doença na frente e apenas uma vaga por semana o que nos obrigou, mais de uma vez, a irmos para São Paulo e não poder fazer nenhum tipo de tratamento, pois era desmarcado na última hora. O resultado é que conseguimos fazer apenas uma aplicação de quimioterapia intra-arterial e não pudemos dar prosseguimento aos ciclos posteriores, apesar da redução de incidência tumoral apresentada.

Como não conseguimos mais marcar no Santa Marcelina (até recebi a informação que o hospital não está mais realizando este procedimento), fomos atrás de outras alternativas, mas restaram apenas hospitais particulares em São Paulo e como o plano de saúde da Luana, que é estadual, não liberou o pagamento do tratamento, conseguimos levantar o dinheiro para o primeiro ciclo (cerca de R$ 30.000,00) e já estamos nos planejando (vender carro, casa, empréstimo, etc.) para pelo menos mais dois ciclos. Quando achávamos que tudo estava mais tranqüilo, um novo empecilho apareceu: o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, onde o procedimento estava agendado para o dia 08/12/2010, não dispõe de uma das drogas, o melfalano (Alkeran, da Glaxosmithkline) e tivemos de adiar indefinidamente.

Liguei para o laboratório Glaxo e fui informado que o pedido da dose para a Luana já está feito, mas que eles não têm em estoque e não sabem quando poderão nos atender, talvez em 20 ou 30 dias.

Como falei acima, a Luana é uma criança normal e apesar de toda carga de tratamentos a que foi submetida, tem uma acuidade visual excelente. Isto nos motiva a empregarmos todos nossos esforços para, primeiro salvaguardar sua integridade, e em segundo lugar preservar o olho remanescente. Diante da falta do quimioterápico e da urgência que temos para fazer o procedimento resolvi entrar em contato com O Hospital Santa Marcelina para fazer os seguintes questionamentos:



O Santa Marcelina tem em seus estoques o melfalano?



Tendo o medicamento, haveria alguma forma de nos vender, emprestar (até que o laboratório mande a dose) ou ceder, pelo menos para este primeiro ciclo?



E por fim, não haveria uma maneira de retomarem este tratamento e sua eventual continuidade, não apenas pela Luana, mas pelas tantas crianças que não têm a mesma possibilidade de luta que nossa família tem?



Não sei como conseguimos chegar até aqui (tanto financeira quanto emocionalmente) isto faz com que eu nutra um profundo respeito pelo Santa Marcelina e pelas pessoas que fazem este hospital e que se dedicam para oferecerem uma alternativa de tratamento aqueles incontáveis brasileiros que não podem pagar os altos custos da medicina particular para ricos, mas infelizmente, diante de tanta demanda, às vezes tais esforços parecem insuficientes. É por isto que confio, que se houver alguma maneira de ser atendido, meu pleito não será em vão.



Luiz Mendes

Sunday, December 05, 2010

Entre as Vejas

Remexia a pilha de revistas velhas. Só um monte de porcaria escrito, nada de interessante, a não ser outra paciente esperando sua hora de escancarar as cáries para o dentista. Mais de trinta, alguns quilos acima do peso, peitos caídos e cara de quem só toma uma xícara de café sem açúcar no desjejum. Perfeita. As bonitas e gostosas só dão para jovens bonitos, para ricos, ou cobram.
— Que demora. — Tentei puxar conversa.
— É.
— Tem medo de dentista?
— Não. — Estava tendo pouco sucesso.
— Que tal um sorvete depois. Dizem que é bom gelado depois de mexer nos dentes.
— Não to trabalhando hoje, me liga amanhã e a gente marca. — Entregou-me um cartão com seu nome e telefone: Drikka Sensual. Atende eles, elas e casais.
A primeira confissão

No dia da primeira confissão, Charles Trezinni, miúdo demais para os doze anos, tremia com a possibilidade de contar ao padre tantos pecados: pensava em como poderia falar que tocava punheta sem falar a palavra punheta ─ o que poderia ser um novo pecado ─, muito menos pensar na punheta, como estava fazendo, pois ainda que para encontrar um meio de falar para o sacerdote, já devia ser um baita pecado.
A fila de meninos andou e chegou sua vez.
— Padre, eu fiz umas coisas...
— Mentiu, desobedeceu aos pais, brigou com irmãos, teve preguiça?
Muitos nãos, mas tinha uma coisa.
— No banheiro, sabe né, começo a brincar...
Sem prestar muita atenção ao tormento do menino, o padre manda rezar dez Pai Nossos e dez Aves Maria. Aliviado por ter conseguido falar, mas frustrado diante de tanta indiferença ante algo tão importante e pecaminoso, Charles elegeu aquela sua última confissão e continuou a tocar punheta, muita punheta, certo, já naquela idade, de que o inferno o esperava e nada mais havia a fazer.
Pindorama, o cão

De uma hora para outra, sem qualquer palpitação que pudesse ser classificada como motivo, bateu-me uma vontade, poder-se-ia chamar a isto de loucura, mas, fato é, a vontade veio e instalou-se: haveria de cortar a cauda do cachorro. Para a subtração, armei-me com um bom cutelo, rijo e maciço, sem deixar de ter a afiação necessária ao barbear-se. Encomendei-o a Bill, antigo fornecedor das carnes servidas nas mesas das pessoas de bem de nossa cidade. Armado, determinado, faltava-me, além da vontade já bem acomodada, uma justificativa socialmente aceita. Sarna! O pobre animal, acometido de daninha molestia, haveria de melhor ficar sem o apêndice tomado de pruridos. Eis-me armado e justificado.
Examinando minhas consciências, qualquer um poderia ali encontrar explicação diversa para a extirpação. O rabo era ordinário, sempre enrolado para cima como que altivo, artifício útil para tornar mais evidente o insolente ânus. Sim, era um ânus insolente, enorme, brilhante, de um vermelho arroxeado escuro e com a insuportável mania de pôr-se a piscar, ou melhor, a mover-se em ritmo de beijos, o tempo todo. Matar o cão, nobre servidor da nossa família, vigilante e obediente era arbitrário e injusto; o ânus, com seu ordinário adorno, deveria pagar sozinho por sua falta de urbanidade.
Antes de prosseguir, algumas palavras sobre o detentor da cauda, poderiam por em justo entendimento, possíveis julgamentos açodados. Pindo era o nome, não exatamente o nome, mas o apelido, uma corruptela do verdadeiro nome: Pindorama. Nome dado em razão de sua cor amarelada contrastando com o cintilante azul dos olhos. Note que, apesar de não pertencer a nenhuma raça específica, Pindorama trazia belas feições e atributos dignos de serem preservados. Era altivo, de porte avantajado, ainda que não pudesse se equiparar a um São Bernado; fagueiro e lépido, a custo alguém não simpatizava com ele. Havia, no entanto, aquela chaga escura e brilhante, já descrita, a enfear-lhe o conjunto. E o rabo? Como já disse, enrolado em si, inútil a não ser para indicar a certeira direção da extremidade do intestino; fino, mais escuro do que o resto do corpo e irregular na pelagem, era o ícone de um processo degenerativo do que poderia ser um belo cão. Sim, um canino de promissor futuro, a não ser pela parte mais periférica do conjunto.
Ao ato, a ferramenta escolhida para intervenção se revelara pouco prática. Havia a necessidade de acomodar Pindo sobre um cepo ou qualquer superfície de firmeza consistente. Faze-lo deitar-se sobre o local apropriado não era tarefa improvável, dada a sua docilidade e obediência, a dificuldade advinha da natureza indômita do apêndice a ser amputado. Determinado, pratiquei uns poucos, zunindo golpes em arbustos. Com mínimo esforço, pude dividir uma pequena bananeira. Era, sem dúvidas, um respeitável cutelo de açougueiro.
Sssssifff! Caim! Caim! Caim! Não poderia classificar como dos melhores golpes. O pobre Pindo salvara-se por eu não ter imprimido a potência adequada. A cutelada acertou-lhe o a coxa e abriu um talho no couro, sem, no entanto, atingir o rabo. Imaginei que melhor seria munir-me com uma tesoura, daquelas avantajadas, usadas para poda de galhos ou aquelas de bombeiros, utilizadas para cortar a latarias de carros com acidentados entalados entre ferragens. Com um bom tesourão não seria difícil posicionar a ferramenta no ponto ideal de corte. Precisava, antes, encontrar o fugitivo, julgo, devido ao susto do golpe infeliz e à dor do ferimento. Reexaminado a nova estratégia, percebi o desarrazoado de imaginar o animal, ressentido com o ferimento na coxa, inerte enquanto espera pelo fechamento inexorável das pinças. Melhor seria aprimorar o uso do cutelo ou de outra arma sibilante.
Enquanto Pindo não retornava, passei os dias a praticar em bananeiras, pequenas palmeiras, galhos de sibipiruna, mas a seiva não atestava minha perícia: o sangue se insinuava. Consegui, a troco de sardinhas e salsichas, convencer alguns gatos e cachorros das cercanias a adentrarem em gaiolas. O sangue dos animais não foi inútil, apesar de algumas perdas, posto que tornei-me, em pouco tempo, um exímio, digamos, espadachim, ainda que munido com um cutelo e, de um só golpe, nenhum rabo permanecia em seu lugar. Mas a matéria prima dos treinamentos logo escasseou e empreendi buscas, infrutíferas, ao sumido cão.
Como os gatos desapareceram da vizinhança, os caninos remanescentes eram deveras ferozes e a seiva das plantas não tem a vermelhidão necessária, avancei sobre meus dedos, ou melhor, de início, apenas sobre a ponta do mindinho esquerdo. Fácil, avancei mais uma articulação e depois outro dedo, e outro, até restarem-me apenas o polegar, o indicador e o médio da mão direita. E nada de Pindorama regressar. Amanhã, passados dois anos da primeira auto amputação, fixarei com amarras e correias o cutelo em minha desdedada mão esquerda e investirei sobre o médio. Espero que o cachorro volte logo, o indicador, quando fechado em si e abarcado pelo polegar, lembra muito a forma do insolente ânus fugitivo.

Sunday, November 21, 2010

Maria não sabia de aniversários, naqueles sertões, isto é luxo que não cabe. Pelo porte franzino e pouco peso, deveria ter uns cinco anos, pelas feições cheias de seriedade e geadas na pele, uns 11.
Sabia, ou cismava, que uma coisa boa deveria ser o Céu, onde Deus brincava com os anjos, como um pai amoroso faz festa com os filhos. Sem fome, frio, roça, surras, deveria ser mesmo bom o Céu.
Maria olhava, calculava, media mentalmente, intuía e se enchia de certezas: com dois pinheiros, daqueles que dez homens não conseguiam abraçar, posto um em pé sobre a copa do outro, não havia dúvida que ela alcançaria o Céu.
Noutros dias, quando o esforço para por um pinheiro em cima do outro parecia muito, ela olhava para o horizonte e ficava certa que o que via era o Céu tocar a terra. Era só andar para aquela direção e entrar no Céu.
Acabou a cerveja

Era quase hora do encontro e aquele magricelo com cara de barata não parava de falar. Levantei e comecei a andar de costas pra ver se ele não percebia que eu tava dando no pé. Ele continuava a falar, levantou e veio em minha direção. Falava de economia, política, família, religião, filosofia, sexo, literatura, pagode, tudo num jorro frenético e sem rumo.
Não sei por que simplesmente não dei tchau e fui embora. Talvez por pena ou por, no fundo, me sentir lisonjeado com aquela demonstração de esforço para me impressionar. Procurei um pedaço de pau ou um porrete pra dar uma pancada naquela cabeça sebenta de barata. Desisti. Lembrei que sou muito frouxo pra esse tipo de violência. Pensei em tirar o cacete pra fora da calça e pedir pra ele dar uma chupada, mas fiquei com medo do cretino topar. Seria tão simples informá-lo do meu compromisso e marcar pra continuar a conversa outro dia. Ele não parava de tagarelar. A salvação entrou pela porta da cozinha. A mãe do magricelo chegou.
— Olá Alex, quem é o seu amigo?
A coroa não era nada má. Deveria ter uns 45, bem conservada. Usava um vestido curto e decotado, exibindo dotes antigos, mas ainda apreciáveis.
— É o senhor Luiz Mendes, ele é poeta.
— Oi!— Balbuciei enquanto alternava meu olhar nos peitos e nas pernas.
— Meu filho já falou do senhor.
— Ele nunca falou da senhora. Pelo jeito este nosso Telêmaco prefere ocultar a beleza da sua jovem mãe. — Não compreendo como esse tipo de galanteio funciona, ela nem sabia quem era Telêmaco. — Eu também não sairia falando por aí se tivesse uma mãe tão boa.
— O senhor, me parece, comentou alguma coisa a respeito de um compromisso...— Acho que o cara de barata percebeu minha indiscrição se avolumando nas calças. Tudo bem, não era tanto volume assim, mas a intenção era bem evidente.
— É mesmo. Acabou a cerveja. Vou buscar mais e já volto.

Wednesday, November 17, 2010

A grande casa
Adonai vivia só e assim, só, andava por campos e várzeas, com rumos aleatórios, se ia a esmo, catando um graveto ali, deitando-se no mato mais adiante e sem que pudesse perceber estava cheio de tédios. Para afugentar a monotonia pôs na cabeça, fixo, um pensamento que o acompanhou em andanças, durante o sono, quando comia até que resolveu dar corpo à idéia: construiria uma casa.
De obras conhecidas não haveria a que se igualasse em exuberância nem em riqueza de detalhes, opulência, repleta de animais e plantas e tão logo pudesse acolher rebentos, ser tomada de filhos e filhas.
Dono, por posse e lei, de tudo o que pudesse ser alcançado em vastas léguas, desde bichos e gentes, sobre ou sob a terra, abaixo e acima das águas e sem nada digno de impedi-lo, era só questão de pôr-se em trabalho de escolha para ajustar onde germinaria a morada. Uma colina, um vale, um bosque tudo ali tinha e tudo isso deveria ter na casa, e teve. Adonai não tinha motivos para economia, nem receio de escassez.
Escolhido o local, Adonai não tardou em começar a obra e não descansou enquanto tudo não estivesse bom o suficiente para acolher sua família. Da família falaremos mais adiante, pois as escolhas de Adonai nos são inescrutáveis e cabe-nos apenas analisá-las de longe, como bons observadores. Por seis anos ele cercou uma vasta área onde levantou paredes, plantou jardins, construiu viveiros, amplas áreas de lazer e recreação, cavou lagos e não esqueceu de reservar um bom espaço para horta e pasto para a criação e ao centro da edificação uma torre, de onde poderia avistar até além de suas fronteiras. Nenhum detalhe passou despercebido e ao cabo da empreitada, Adonai descansou.
A casa e seus entornos não caberiam em sítio menor do que um ducado ou, quiçá, um principado, era, enfim, um verdadeiro reino da terra de Adonai, mas ermo de gentes, ainda que já estivesse atulhado das bicharadas e plantas diversas, a isto o construtor sabia que se deveria remediar. Mesmo sendo ele um varão de vontade inquebrantável, vigoroso como um carvalho, não passava sem desassossego, um aperto, talvez falta, ou vazio, a lhe sufocar o peito. Precisava de companhia de iguais, mas iguais só se fossem de seu sangue, nada mais, nenhum estrangeiro ou alienígena, então principiou a convidar mulheres das mais variadas raças, desde que provenientes de boa família e de bom trato social, para que viessem ter com ele. Ficavam umas duas ou três de cada vez, hóspedes a disposição dos ânimos do anfitrião, que copulava ora com uma, ora com outra, ora com todas, até que pegassem barriga. Tão logo parissem os filhos de Adonai, as mulheres eram expulsas das terras, quando não, sacrificadas em louvor a algum deus sádico. Os bebes eram, então, entregues aos cuidados de escravas, serviçais, tutores e demais componentes do séquito destinado aos cuidados dos rebentos. Assim, para Adonai, começava a formar-se sua família, composta por descendentes diretos seus, sangue do seu sangue, à sua imagem e semelhança. Não sendo do seu sangue, as mães da prole, não eram consideradas dignas de habitarem àquelas plagas, a não ser para servir aos filhos do construtor.
Esta postura excludente de Adonai ante as mães dos seus filhos nos impediu de registrar os nomes destas mulheres, nem sabermos ao certo quantas foram, certo é que foram muitas, posto ser grande a leva de descendentes que se espalharam por aquelas terras. Também, por serem inúmeros, não temos os registros dos nomes de todos, mas os primeiros ficaram muito bem gravados na memória coletiva daquele povo e dos viajantes que por lá se aventuram; por aqueles cantos, poucos não sabem ou ouviram falar dos primeiros filhos de Adonai. O primogênito foi um menino, que por inconcebíveis coincidências recebeu o nome de Adão, ao que foi seguido por uma irmã, igualmente batizada com um, se é que podemos lançar mão deste termo, emblemático nome, de Eva. Filhos de mães diferentes, nasceram quase ao mesmo tempo e quase ao mesmo tempo nasceu, de outra mãe, um casal de gêmeos, mas, por infelicidade da sua ascendência, não exibiam a mesma alvura na tez e não receberam os mesmos mimos de Adão e Eva, sendo–lhes destinado um recanto menos nobre da propriedade e com menos servos ao seu dispor e deles não nos pronunciaremos, a não ser em outra narrativa. E as cópulas com outras convidadas continuaram por muitos anos, assim inúmeros foram os filhos de Adonai, mas sendo Adão e Eva os primeiros e sendo Adonai um pai, ao que nos parece, incapaz de amar a todos seus filhos de maneira igual, foram eleitos os preferidos naquela casa. A eles tudo era permitido, desde tripudiar dos serviçais até maltratar os animais ou se empaturrarem de guloseimas, havia, entretanto, um porém: não poderiam entrar na biblioteca do pai, sem falar em uma frondosa macieira, cujos frutos, doces como mel e abundantes como estrelas no céu, só poderiam ser desfrutados por Adonai e o excedente, pelos passarinhos.
Com as mais saborosas guloseimas aos seus dispor, Adão e Eva pouco se lixavam com frutas, como qualquer criança o faria, e acabavam, mais por desinteresse do que obediência, ignorando, até esquecendo, a macieira. É verdade que os outros irmãos, longe da atenção paterna, saboreavam furtivamente, com ajuda de suas amas, as famosas maçãs. A este tempo Adonai já começava a dar sinais de que fizera uma obra muito maior do que suas possibilidades de controle e jamais deu por falta de tantos frutos desaparecidos, nem percebeu que se avolumava uma pilha de caroços ao redor da árvore, impossíveis de ter sido produzida apenas pelo passaredo. Mas a biblioteca era diferente.
Com tantos afazeres e, como dissemos, ainda que fosse um homem muito rico e poderoso, a obra de Adonai crescia e se mostrava, cada vez mais, além das suas forças e cada vez mais fora de seu controle. Ele já não sabia como andava a educação dos filhos, nem dos dois primeiros; não tinha contas das colheitas e dos rebanhos, tampouco lhes obedeciam todas as ordens os servos e soldados, aquiescendo quando em sua presença, desdizendo-o em sua ausência. Muitos eram os pedidos que chegavam até o senhor das terras, muitas súplicas, desde alívio na cobrança de taxas e aluguéis, até auxílio contra doenças, invasores, ladrões, infidelidade conjugais (sim, Adonai proibia o adultério entre seus protegidos), goteiras nas casas, ataque de lobo aos rebanhos, infestação de carrapatos nos cães, pragas nas lavouras e toda a sorte de infortúnios. Por vezes Adonai, exausto por tantas cópulas, ou por tantas súplicas, sumia, como que se tivesse evaporado. Ia caçar, pescar, se embebedar em alguma taberna onde não lhe reconhecem as feições ou apenas se esconder dos problemas e deixava seu povo largado à própria sorte. Fatal era, no entanto, seu regresso. O que poderia ser um momento de descanso, de relaxamento, parecia ser um exercício de sadismo, pois Adonai, ausente, quando do regresso, fazia uma vistoria geral. Exigia que todas as suas ordens e orientações fossem seguidas ao pé da letra e aquele ou aquela que o desobedecesse era duramente punido, muitas vezes, com a própria vida e em seus regressos, não raro encontrava alguma coisa fora dos seus conformes, o que provocava sua ira vingativa culminando com açoites, expulsões ou assassinatos como punição aos responsáveis. Não raro era filhos e filhas, genros e noras do servo faltoso, pagarem pela falta alheia, sofrendo o mesmo castigo, independente de terem participado ou não da transgressão.
Intuímos ser por estresse, mesmo que esta palavra ainda não fosse conhecida por aquela gente, o fato de Adonai andar cada vez mais irritadiço e cada vez mais severo, mais vingativo e mais cruel, alguns comentam até que ele sentia certo prazer em ver o sofrimento dos outros, mesmo que fossem seus filhos diretos. Algo que descartamos, pois que tipo de senhor se daria a tal trabalho apenas para deleitar-se com castigos e punições aos seus servos, ou que tipo de pai seria tão sádico ao ponto de não reconhecer limites nem ante o padecer de seus filhos? De toda a sorte e apesar de seus ataques de cólera, muitos eram os seus admiradores e defensores. Não temos, entretanto, como saber se tais defensores e seguidores o faziam por temor ou amor, sentimentos que podem rimar em algum verso de pé quebrado, mas não determinam o mesmo grau de fidelidade dos seguidores de Adonai.
Voltemos à biblioteca. Ela ficava estranhamente situada no centro da enorme sala principal, como se fosse uma espécie de centro de comando ou coisa parecida. Não era um primor de arranjo arquitetônico, aquela peça erguida no meio do salão, como se fosse um jardim de inverno, mas ao invés de samambaias e orquídeas, havia livros e documentos. Mais do que uma biblioteca, era um gabinete de trabalho, onde Adonai conferia suas contas e os demais assuntos burocráticos da administração de sua enorme propriedade. Entremeios a estantes com livros, aqui, acolá, mais abaixo, mais acima, pequenas janelas envidraçadas davam ao ocupante do local, uma visão bastante privilegiada da movimentação ao seu redor, nada escapando dos atentos e vigilantes olhos do patriarca, pelo menos na sala e enquanto estivesse na biblioteca. Também lá Adonai guardava seus documentos, escrituras, contratos, termos de posse, processos e toda esta papelada, ao que nos parece, jamais poderiam despertar maiores desejos nos pirralhos e o que havia de interessante lá eram artefatos de outra ordem. Ali Adonai também guardava certos livros, pecaminosos, menos para ele, com imagens sensuais e escritos picantes, também ali depositava parte substancial do seu ouro, pedras preciosas e pérolas, além alguns brinquedinhos seus, usados nas suas intimidades com as mães dos seus filhos, para tornar menos enfadonha a sucessão de cópulas com tantas mulheres diferentes. Há quem tenha dito, maldosamente ─ e por isto pagando com a vida quando tais insinuações cairam nos ouvidos de Adonai ─ que tais brinquedinhos pareciam um tanto estranhos a um legítimo varão e que seriam mais adequados aqueles homens cuja predileção não fosse deitar-se com mulheres.
O tempo avançou em seu curso e o patriarca foi prodigioso, apesar de alguns maldosos comentários, em fornecer sêmen ao propósito de multiplicar os do seu sangue. Ainda assim Adão e Eva continuavam sendo os preferidos do pai, talvez, como dissemos, por sua incapacidade em amar a todos seus filhos de maneira igual, fato é que quanto mais filhos viessem à casa, mais servos eram necessários e mais lascividade os dois desenvolviam. Mimados em tudo e sem nenhuma regra que não fosse parecerem bonzinhos na frente do pai e fingirem que o obedeciam, os dois, por falta de ter o que fazer, ou por puro prazer, criaram joguetes sensuais onde cada servo ou serva bem apessoado poderia ser utilizado, iludido e descartado. Eram belos e o auge da juventude realçou-lhes ainda mais esta qualidade, fazendo com que qualquer um naquela terra pudesse se apaixonar pelos irmãos, quer homem ou mulher, pois suas belezas eram quase celestiais, divinas, como descreveu um antigo escriba que visitara a família por aqueles anos.
Como faziam os demais irmãos, as maçãs protegidas do pai eles já haviam experimentado, talvez por pura rebeldia juvenil, mas, de toda sorte, não acharam que o risco de serem apanhados e punidos valesse a pena, afinal eram apenas maçãs. Mas o risco de conhecer os segredos do velho Adonai, enterrados na biblioteca, era tentador.
Poderiam nem ser tantos, ou importantes, mas eram os segredos de Adonai e se algo ali o condenasse, faltaria juiz que o fizesse. Não eram muitos, mas eram desnudadores, revelavam como o patriarca era muito menos do que se fazia aparentar. Encerradas na biblioteca, dentro de uma bela arca, estavam as evidências e provas de que o império de Adonai havia sido construído sob uma base frágil. Ele se endividara muito além de suas reais condições e era pressionado por credores e fornecedores, também construíra uma morada muito maior do que sua capacidade para regê-la. Vendo aquilo, Adão e Eva perceberam como o pai era de fato, ele que sempre disse saber tudo o que se passava na casa, com todo mundo, na verdade não sabia nem dos próprios negócios e mantinha uma certa unidade na casa só com o uso da força e do terror, ameaçando com punições terríveis e inomináveis maldições aqueles que o questionassem. Assim era Adonai que, mais tarde, quando sua verdadeira face foi descoberta, recebeu uma precisa descrição de um certo vizinho vindo do Prata: “Adonai es un pobre diablo, con un problema demasiado complicado para sus fuerzas. Lucha con la materia como un artista con su obra. Algunas veces, en algún momento logra ser Goya, pero generalmente es un desastre.”
Os irmãos se deixaram levar pelas curiosidades ali guardadas sem perceber que eram observados pelo dono da arca. Não sabiam há quanto tempo ele estava ali, mas viram que ele já não exibia suas feições severas, indefectíveis, senão, apenas o semblante de um velho abatido. Mas foi por pouco tempo, uma fração de segundos talvez e a velha taciturnidade voltou: eles descobriram os segredos do pai.
O que fazem aqui?
Nada, apenas estamos brincando, olhando umas coisas.
Foi idéia dela.
Não foi não, eu apenas vi uma serpente entrando aqui e achei melhor ver onde ela se meteu, afinal poderia se esconder em algum canto que o senhor não visse e ela poderia picá-lo.
Essa não foi uma boa desculpa Eva e quanto a ti, Adão, não vejo só tua irmã aqui, mas a você também e quando um não quer, dois não fazem, tens tanta culpa quanto ela possa ter.
Mas não havia tranca nem nada e achamos que não fosse importante, já que estava tão vulnerável.
Mesmo assim vocês devem obediência a mim e se eu falei para não entrarem aqui não seriam necessárias trancas, minha palavra bastaria, mas vocês me desobedeceram e devem ser castigados. Eu dei tudo para vocês e o que ganhei, senão desobediência?
O senhor nos deu aquilo que achava bom para o senhor, não aquilo que nós realmente queríamos.
Que palavras são estas menina, eu sempre dei tudo do bom e do melhor e nunca deixei te faltar nada, nem a você nem a nenhum de teus irmãos, se não fosse eu vos ter concebido nenhum de vós existiríeis e apesar disso recebo apenas a ingratidão. Agora chega de falatório, não quero mais saber de vocês dois por aqui, saiam imediatamente desta casa e não voltem jamais, nem seus filhos, netos ou bisnetos; todos os vossos descendentes serão banidos deste local e aqui permanecerão apenas aqueles que me obedecerem e me amarem incondicionalmente. Daqui nada levarão senão, e antes que eu mude de idéia, suas vidas.
E assim foram expulsos e foi dada aos guardas e porteiros a ordem de jamais, em hipótese alguma, deixá-los entrar nos domínios de Adonai. Sem dinheiro nem bens, não foram muito longe e acabaram por montar uma espécie de acampamento pelas redondezas, onde Adonai podia avistá-los do alto de sua torre. Passaram fome, frio, sede, mas acabaram se arranjando e por ali foram ficando. Adão aprendeu a caçar, a preparar a terra e a cultivar trigo. Eva pastoreava cabras, fazia pães e colhia frutos na floresta. Irmãos apenas por parte de pai, e um pai ausente, também foram se arranjando nas intimidades e assim nasceram-lhes os filhos. Desta união e de seus filhos, muitas histórias já foram contadas, mas a nós, por ora, interessa-nos saber como andava o velho Adonai.
Do alto de sua torre ele, cada vez mais debilitado, física e moralmente, tentava acompanhar tudo o que acontecia em sua volta. Apenas tentava, pois, com o passar dos anos, quase ninguém mais ligava para ele, havia, sim, algum respeito, algo solene, mais para o campo das aparências em ralação ao ancião, mas de fato, poucos levavam a sério suas ordens e suas ameaças. É certo que ele já havia assassinado muitos de seus filhos e filhas que o desobedeceram e das maneiras mais cruéis possíveis, mas aos poucos as gerações mais novas foram se dando conta de que suas ordens eram delírios, exercícios de sadismo ou pura demência e ele foi ficando cada vez mais isolado em sua torre.
Inconformado com os rumos que sua obra havia tomado e com a rebeldia de seus filhos, brigando entre si, Adonai ainda teve poder para mandar destruir, pelo fogo ou pela água, ruas inteiras, mas isto também não teve o efeito desejado e a corrupção dos preceitos adonaianos continuou com mais intensidade. Então, como a última tentativa de retomar o controle, ele chamou, o único que ainda o ouvia e que a esta altura, havia sido alçado a condição de novo favorito.
Jesus (eis mais um nome que pode nos causar certa confusão histórica, mas as inconcebíveis coincidências grassaram durante a vida de Adonai), meu filho preferido, o único que me ouve e me obedece, teus irmãos e irmãs estão loucos, perdidos pela depravação da carne e pela corrupção do espírito. Só tu podes deter esta desenfreada lascívia que os consome. Quero que tu vás até eles e pregue minha palavra, faça com que eles encontrem o verdadeiro caminho da paz e da harmonia.
Mas pai, eles são muitos e não vão muito com minha cara. Se eu começar a querer dar sermão eles podem acabar comigo.
Não te preocupes meu filho, jamais te abandonarei e além disto, todo sofrimento que porventura eles possam impingir-te, recairá sobre eles em dobro.
Pai, o senhor já não tem mais a mesma força de antes, e eles já não acreditam mais que tu realmente podes cumprir estas tuas promessas, deixa eu aqui, no meu canto, com minhas discípulas, louvando ao senhor, e eles que fiquem lá, com ou sem lascívia.
Não, tu deves ir e deves levar minha palavra e se eles derramarem teu sangue, este servirá para purificar os pecados desta terra.
Como assim? Meu sangue purificando os pecados dos outros? Nem a pau.
Vá de uma vez, antes que eu mesmo te esfole e jogue tua carcaça aos cães.
Táá beeeimm! Mas vou logo avisando, se a coisa engrossar eu vou te chamar.
Vá de uma vez.
Como já vinha ocorrendo em outras oportunidades, o plano de Adonai não logrou êxito e a pregação de Jesus não foi tão convincente. Ele acabou pregado (literalmente) em uma cruz. Fazendo uma análise, à distância, dos fatos, nos parece que Adonai talvez não gostasse tanto de Jesus e apenas quis dar ao seu povo, um brinquedo para descarregarem suas tensões, suas raivas enrustidas e fizessem com ele o que bem entendessem, como fizeram.
Pai, por que me abandonaste?
Adonai não ouviu o último lamento do filho preferido, estava ocupado espionando por buracos de fechaduras, quem se deitava com quem nos quartos da casa.
Passados muitos anos deste terrível episódio, um certo Frederico, um dos tantos descendentes de Adonai, farto de tanta hipocrisia, resolveu por a termo uma farsa que já perdurava mais tempo do que mentes sãs podem suportar. Ele era um tanto intempestivo, muito astuto, de raciocínio afiado, cheio das idéias e sem papas na língua, mas a sua característica mais marcante era sua fealdade. Não sem exagero era chamado de o mais feio dos homens e este avesso de Apolo teve coragem de fazer o que muitos já haviam pensado em fazer, mas nem sabiam direito porque não fizeram. Frederico subiu ao alto da torre e lá matou Adonai. Assim a história daquela casa, que a esta altura já era uma cidade, continuou, como sempre, apenas continuou.

Sunday, November 07, 2010

A verdadeira origem do vento

Bruno queria saber de onde vinha o vento. Tinha ouvido falar em deslocamentos de massas de ar quente que sobem, de ar frio que descem, mas, ainda sem ter ouvido, sabia sem sombra de dúvida, a verdadeira origem do vento: as árvores, quando dançam, quando querem espantar um pouco dos insetos e pássaros ou quando estão com calor, agitam os galhos, abanando-se com as folhas. O ar, ligeiro ganha rumos diversos e sai dizendo-se vento.
O pai segurou sua filha e olhou fixamente no fundo dos olhinhos negros: enxergou um velho chorando, enquanto a criança ria e fazia caretas. Ele sentiu o peso da própria insignificância e fragilidade, mas não podia deixar a pequena perceber a falência do herói. Segurou-a mais um pouco e deu tantos beijos quantos não a sufocassem e foi embora.
Diário de viagens para Nova Orleans

Todas as vezes que estive em Nova Orleans, pude desfrutar dos sons de melancias se partindo no asfalto quente. Não pense que se trata de alguma bizarrice dos negros do Delta do Mississippi. O som açucarado mergulha o visitante na atmosfera entremeada de densidades palpáveis, especialmente por sensações táteis, de algumas regiões nem sempre utilizadas do cérebro. Nova Orleans não cabe em melancias intactas.
O calor parece ter uma relação especial com a cidade. Eleva os vapores dos pântanos, do asfalto e dos suores, adensa a atmosfera. Caso não ocorresse a desorientação dos sentidos, o visitante poderia verificar essa cumplicidade do calor com a cidade. Em Nova Orleans os cinco (ou seis) sentidos ultrapassam suas atribuições originais e alternam suas funções. Em Nova Orleans as pessoas têm mais do que cinco (ou seis) sentidos.
A oscilação histórica da posse das planícies litorâneas do Mississippi fez se alternaram espanhóis, franceses e ingleses no domínio das terras e das gentes. Aos negros coube a escravidão nas plantações de algodão. Esta mistura temperou a cidade com sons de histórias antigas, de sabores agridoces e melodias assíncronas. Lá o tempo também tem uma cadência especial. Quando estive lá, vi como os olhos amarelos dos negros ditavam o ritmo da passagem das horas. Também vi mãos negras escondendo a brancura das palmas, pois as cores não lhes eram todas permitidas, apenas o branco do algodão, o preto da cozinha, o amarelo dos olhos e o azul da alma. Surgiu uma alma blue.
O Blues, das canções carregadas com tristezas atávicas e melodias intensas, pode não ter nascido exatamente em Nova Orleans (há muitos nascedouros possíveis, da África ao Mississippi), mas seu solo aquecido e úmido soube fazer brotar musicalidades nativas, como Jack Dupree, ou compartilhar ritmos com os vizinhos do Delta, B.B. King, Robert Johnson e Charlie Patton. Todas as vezes que vou para lá, vejo negras minhas mãos e sinto azul minha alma.
Em Nola, o visitante sempre perde algum pequeno objeto, do tipo uma lasca de unha, um dente de pente, um botão. Perdi todos estes objetos lá e para recuperá-los, é preciso voltar e procura-los. É assim, para resgatar alguns pequenos fragmentos que sempre retorno, mesmo sem jamais ter ido fisicamente. Para Nova Orleans, podemos ir sempre que escutamos a inconfundível balada do Blues, ou sentimos odores de melancias se partindo no asfalto quente.


Luiz Mendes

Friday, October 19, 2007

Um panaca doando sangue

Já passavam das três quando acordei e, na falta de algo melhor para fazer, um estonteante sentimento humanitário me invadiu. Tinha certeza de que não era vestígio da tonteira provocada pelos golezinhos de pinga tomados no jantar. Sentia a real necessidade de fazer alguma coisa boa, para ajudar as pessoas e sem perda de tempo comecei enumerar as melhores opções: me alistar como voluntário da Cruz Vermelha para atuar na África; missionário no Paquistão, agente de saúde familiar no Iraque, pregador nas penitenciárias do Rio, Doutor Alegria na Santa Casa. Como tudo me pareceu tão difícil e inacessível, diminui o grau de altruísmo: autorizar a cobrança de R$ 5,00 por mês na minha conta telefônica, para a AACD; deixar uns trocados na caixinha da igreja; dar um prato de comida e uma cerveja para aquele mendigo da praça da Bandeira. Precisava me sentir burguês, um bom burguês com a consciência tranqüila. As opções não despertavam um grau de desprendimento intenso o suficiente para aplacar aquele sentimento de entrega existencial. Um mosquito agarrado no meu braço forneceu a inspiração necessária: doar sangue. Nada poderia ser mais altruísta. Entregar o próprio sangue para pessoas desconhecidas, deixar exposto em um saquinho os mais íntimos fluídos corporais, era tudo o que eu precisava.
Achei que era só chegar no banco de sangue, deixar minha contribuição e ir embora, mas tinha um maldito questionário que mais parecia uma mistura da minha mãe quando eu era adolescente com a minha segunda esposa: bebeu? Fumou? Transou com putas ou com veados? Foi ao dentista? Teve quantos parceiros(as) sexuais nos últimos tempos? E maconha ou outros tróços. Venha aqui menino, deixa ver se não andou fazendo uma merda de tatuagem! Não conseguia me concentrar no questionário, só me lembrava da mamãe e daquela de lá. Andou bebendo de novo! Saiu com aquelas vagabundas. Venha cá menino, deixa eu cheirar a tua boca pra ver se não andou bebendo ou fumando nada por aí. Aquele teu amigo, acho que é bicha...
Fui obrigado a fazer o que eu sempre fazia e menti na maioria das respostas, afinal eu só tinha tomado uns goles e daquela vez a Vilma não me cobrou nada, então não era puta. Não poderia deixar passar a vontade de ajudar e não poderia perder a oportunidade. E era uma boa chance de conquistar uns pontos com o Cara lá de cima.
Mas não era só preencher o formulário. Espeta o dedo, mede pressão, termômetro, espera mais um pouco e responder tudo de novo, só que agora era cara a cara. Entrei em uma salinha e a responsável por refazer as perguntas me mandou sentar, sem desviar o olhar da minha ficha. Parecia boazuda e eu tentava distinguir suas formas sob o avental branco semitransparente. Ela se posicionou na sua escrivaninha e continuava olhando apenas para a ficha. Deveria estar me achando o maior panaca que não fode e não faz merda nenhuma, nada de interessante. Finalmente ela me enxerga e começa o questionário. Respondi a mesma porcariada de antes, me senti verdadeiramente o maior panaca que quase não fode e não faz nada de interessante e, como quase nunca consegue convencer uma boa mulher a dar uma trepada, é obrigado a pagar uns trocados por meia hora de sexo e como quase nunca tem esses trocados, quase nunca fode e nem faz nada de interessante. Acho que sou mesmo o maior panaca. Quase perdi o tesão em ajudar os outros.
Esperei mais um pouco até que me aprovaram. Na sala da coleta havia várias cadeiras de dentista, ou iguais às de dentista. Uma enfermeira, não tão boazuda quanto a outra, me mostrou como lavar o braço. Sentei na cadeira de dentista e ela sentou no meu lado, bem perto. Meu braço estava esticado e apoiado em um suporte, calculei que se o esticasse um pouco mais e abrisse a mão, poderia tocar uma de suas tetas. Ela me espetou e adorei quando me mandou abrir e fechar a mão. Estiquei bem os dedos e realmente pude tocar em sua teta. Já estava meio amolecida, mas ainda era uma teta. Ela me olhou com uma expressão maliciosa de cumplicidade. Desviei o olhar e encolhi o braço. Como foram longos aqueles 20 minutos.
Nem doando sangue deixei de ser panaca.