Thursday, September 08, 2011
Ao entrar na quarta década, encontrei somente uma fileira de portas que dão em quartos sem nada dentro, a casa parece ter crescido, aumentado o número de portas enquanto e eu, encolhia. Não casei, nem tive filhos, muito menos cachorros, e isso me conforta: posso justificar a falta dos itens indispensáveis para ser um responsável pai de família com o vazio por de trás das portas. Tenho, em boa quantidade, telefones de putas pagas, de entregadores de cerveja e pizza, além de fornecedores de crédito consignado a pensionistas e aposentados. Sou velho demais para trabalhar, muito jovem para já estar aposentado e fazer-me de louco elevou minha condição a dependente de mamãe. Falecida, herdei dela a pensão que ela herdara de papai, sargento do exército morto ao cair do telhado do quartel quando tentava resgatar uma pipa. Ele era muito gordo para subir em telhados, muito inábil com pipas e sua morte sustentou minha mãe, cujo casamento já havia acabado de fato, mas não de direito, muito antes da queda, e continuará me sustentando enquanto a vida vibrar dentro do meu corpo, ainda que eu jamais tenha trabalhado. Benditas sejam as instituições legais, por não questionarem com quem se deita tua mulher, desde que tragam, assinados os papéis do tempo em que ainda acreditavam no amor e benditas sejam por não deixarem desamparados os órfãos desvalidos de aptidões laboriosas.
Assim, avanço em anos com casa própria — herdada, desta vez, da mãe do meu pai: desgostosa com a morte do filho, a velha não agüentou muito tempo — renda garantida, nenhuma profissão, três faculdades começadas e trancadas logo no primeiro ano, uma coleção de vinis do Frank Sinatra e uma de canetas promocionais, além de uma bicicleta barra forte e um casal de colerinhos. Há também os amigos, fiéis, companheiros incontestes, freqüentadores assíduos do bar do Jacó. Jogamos dominó, general, caxeta e sinuca. Truco foi tentado, mas, barulhento e insano, causou certo desconforto e, a bem da amizade, deixamos de lado. Em dias de chuva, sinto falta de uma companheira inexistente, não mais uma acompanhante profissional. Quase sinto que estou me perdendo e busco algo de sanidade lendo um pouco de Noll ou Maupassant.
Um poeta louco disse que escrevia para se salvar. Não acredito em salvação na escrita, não acredito na salvação acomodada em qualquer lugar e se escrevo é para deixar registrado um capítulo da história da insanidade urbana na modernidade ou para acumular cadernos que poderei queimar na lareira se o próximo inverno for muito rigoroso. Também li anotações de adolescentes, afirmando: “só escrevo para me salvar”. Pro inferno com a salvação pela escrita. Pro inferno com companheiras. Desisti da redenção e apenas tento manter-me vivo, bêbado, com alguma comida nas tripas e enfiado entre um par de coxas: isto é o salvar-me, não a escrita de desabafos sentimentais, ou historinhas manjadas, carregadas de uma poesia de merda. Vou pro bar do Jacó tomar uma cerveja e comer um rollmops. Há mais filosofia em um rollmops do que em toda a academia cheia de metidos a besta se fazendo passar por intelectuais.
LM
Monday, August 29, 2011
Protofantasmagoria
Após uma noite de sonhos agitados, amanheci metamorfoseado em um imenso mamífero, daqueles que plagiam mortos, bípede, implume e desajeitado. Precisava fugir, apenas fugir e nada mais, não da morte e suas intransigências, nem da vida e suas pseudologias, fugir do meu cadáver insepulto de bípede implume, do perdão de quem me amou, das picadas de insetos, das verdades, dos consensos, bons sensos, das linhas paralelas, da cruz e do diabo, dos olhares oblíquos e dissimulados, das listas de coisas das quais preciso fugir e dos animais que de longe se debatem como loucos. Na fuga a presa mostra todo o seu valor antes de virar uma refeição e com tantos motivos quantos coubessem em meus blocos de notas, sabia da necessidade da fuga.
Durante a carreira desembestada descobri ser toda fuga uma corrida para a morte e suas intransigências e de tanto fugir perdi — caíram dos meus bolsos — outro tanto de coisas e abstrações próprias das listas dos fugitivos: canetas, lembranças, moedas de 5 e 10 centavos, um sabonete de ervas e talvez um ou dois amigos e nacos generosos de vida.
A fuga cansava-me e não havia onde repousar sem ser encontrado, foi quando descobri não ter dado mais do que 47 passos desde a minha aldeia natal. Desembestada carreira circular, ou voltei sem saber que voltava? Preciso empreender nova fuga, desta vez do meu passado, que encontrei tão bem conservado entre álbuns de fotos e potinhos de pomadas guardados na casa dos meus pais. Até o dia de voltar a ser inseto.
LM
Sunday, August 21, 2011
Cronologia de moscas e sardinhas
Um certo Ulisses, às 15h30 de sua mais longa quinta-feira, muito longe de Ítaca, mais ainda de Dublin, bebia cerveja quente e comia sardinha frita. Sem pressa, comia e bebia e não tinha mais nada a fazer quando acabasse e nenhum lugar para ir, ou que quisesse ir. Apenas comia e bebia. Cerveja quente, faltava potência ao refrigerador do bar, sardinha frita, quando bem fritinha dava para comer até a cabeça, a cauda, a espinha, quando bem fritinha. Torrada, crocante, salgada com cerveja quente.
Aquele homem de barba grisalha e dedos dos pés tortos ligou o rádio com músicas de saudades partidas despedidas desencontros. O locutor tinha saudades de um tempo, quando era ouvido e era levado a sério. Este Ulisses, ouvindo sem levar a sério o locutor e suas músicas, pensou em como uma das suas sardinhas fritas poderia ter deixado sua parceira no mar, uma outra sardinha agora chorando e esta bem frita tendo a cabeça mastigada com cerveja quente.
Pensou por um momento que talvez fosse bom ter alguma coisa para fazer, as sardinhas estavam acabando, a cerveja continuava a vir quente. Não jogaria sinuca, sempre perdia, não queria pagar cerveja que não fosse beber, mesmo quente. Esperar. Não tinha nada a fazer, não tinha odisséia, nem vagaria pela cidade, pequena demais Barra do Sul para isto. Estava sentado de costas para o mar. O mar não o atraia. Às 16h42 percebeu as moscas que já estavam atacando as sardinhas e as carcaças não tão bem fritas desde às 15h49. Uma, duas, cinco, andando nervosamente de um lado para outro, esfregando com entusiasmo as patinhas da frente. Uma caiu na cerveja quente. Morte certa, embriagada ou afogada?
Não encontrou Polifemo, Serraria veio cambaleando cantar as músicas do rádio para Ulisses. Teve Vontade de sair, mas Serraria já estava ao seu lado, pés descalços, sem camisa, o calção velho puído azul claro com listas nos lados era tudo que trazia. Um olho azul e o outro castanho. Enxergava com ambos? Copo de cerveja mais quente agora pela metade e com mosca, deu ao Serraria. As outras moscas não pareceram se importar com a afogada embriagada e continuavam, agora oito, dando pequenos vôos de rápido retorno e andando sobre os escombros das sardinhas. Serraria tomou toda a cerveja e engoliu a mosca. No outro lado da pequena cidade ninguém tecia manto algum e o filho não o viria procurar. O mar não o atraia e Serraria com a mosca no estômago cantava e deixava escapar um borrifo de saliva e cerveja pelo vão da falta de dentes da frente. Ulisses teve de desviar-se do borrifo. Onze moscas foram espantadas quando o prato foi recolhido, um pano sujo xadrez vermelho e branco foi esfregado sobre o balcão. Serraria também foi espantado dali.
Ulisses pediu mais uma cerveja, não conseguiu levantar o braço esquerdo, tentou falar qualquer coisa e a língua estava grossa, enrolou, balbuciou algo desconexo e sentiu uma sombra sobre os olhos. Escutou alguém falar, não compreendeu? Fraqueza. Sentiu latejar forte a cabeça, uma fisgada. Sentiu, ou pensou ter sentido dor, virou-se para o mar, agora o atraia. Começou a cair aos pedaços, primeiro uma perna, depois os braços, o mar ia ficando cada vez mais distante, caiu o tronco e por último o chão veio com força contra o rosto. Lembrou das moscas, da cerveja quente, das sardinhas, não lembrava quem era: às 17h59 era ninguém.
LM
Tuesday, August 09, 2011
Sizenando Veroninski contou-me ter morrido de tifo. Por um momento pensei em não acreditar, não costumo acreditar, de pronto, em estranhos e Sizenando era estranho em muitos sentidos. Depois de mais uma ou duas rodadas, acabei pondo em bom crédito sua causa mortis. Refletindo um pouco conclui não haver nada de excepcional nem ser impossível um sujeito contrair tifo e transmutar-se de vivo a morto. Resolvido o motivo do óbito, aceitei tomar parte de mais algumas rodadas e ouvir o que mais o cadáver de Sizenando Veroninski tinha a dizer.
Fiquei sabendo, por exemplo, da sua ímpar profissão: guilhotineiro. Pensei tratar-se de um profissional da indústria gráfica, mas fui logo corrigido, se referia mesmo ao instrumento de decapitar condenados. O funesto ofício, entretanto, não era exatamente sua ocupação, senão a de manter em bons termos a manutenção do artefato de degolação. Afiava a lâmina, encerava as cordas e canaletas, removia resíduos de sangue, verificava as travas, enfim, cuidava de todos os detalhes do mecanismo para que nada desse errado durante seu uso, garantindo assim o bom andamento das execuções.
Confesso ter achado-o um tanto despudorado por narrar com tanta naturalidade os detalhes de um ofício tão funesto, entretanto há que se dar um desconto, alguém tem de fazer o serviço e de preferência bem feito. Imaginem um condenado cujo pescoço não fora eficientemente atravessado pela lâmina, permanecendo meio vivo meio morto, com um enorme talho a escancarar os interiores da nuca. Ou um travamento repentino durante a queda da lâmina? Seria mesmo um despropósito, ainda mais tendo de se recorrer ao arcaísmo de valer-se de um carrasco, daqueles com capuz e a empunhar um enorme machado. E onde encontrar, às pressas, tal profissional habilitado? Não se encontra tão facilmente bons decepadores. Ao cabo, vi que seu ofício era bom e continuamos a conversar.
Contou-me também uma sua aventura em nossa cidade. Como achei uma história um tanto improvável de se por fé, julguei melhor não a reproduzir para ater-me apenas as verdades factuais.
O motivo de estar Sizenando Veroninski cá por estas terras foi sua vontade de promover uma visita a sua irmã, a bela e jovem Ludmila Veroninski. E isto interessou-me sobremaneira. Mas ele se revelou muito fraco para a bebida e quando eu estava prestes a saber mais sobre a moça, vi sua cabeça despencar lentamente em direção à mesa. Ainda tive tempo de salvar um copo pela metade, o que poderia ter-lhe causado grave ferimento e mais nada consegui extrair daquele corpo inerte. Como não tolero bêbados que não conseguem preservar o mínimo de dignidade e se entregam ao torpor em qualquer lugar, deixei-o lá, debruçado sobre as próprias secreções intra-intestinais, peguei a garrafa e saí. O ar frio da noite fez algumas avaliações e mediu 1386,72 ml de diversos tipos de bebidas destiladas em meu interior. Fiz menção de contestar a avaliação, mas vomitei antes, dei mais alguns passos e caí, provavelmente empurrado por algum malandro. Devo ter batido com a cabeça no meio-fio e dali em diante não tenho lembranças, a não ser de sentir o frio carinho da filha do Dr. Joseph-Ignace Guillotin sondando a textura do meu pescoço.
LM
Saturday, July 30, 2011
Falso Ícaro
Um homem vivia em um platô e às vezes ele ia até sua borda para olhar a planície. Ficava pensando como deveria ser bom lá embaixo, mais úmido, quente, cheio de vida. Certo dia, influenciado por um desejo incontrolável, jogou-se lá de cima. Durante a queda pensou que nada melhor do que aquilo poderia existir, o sentimento de liberdade, o vento açoitando-lhe com apaixonante violência, ele parecia um pensamento, livre capaz de qualquer coisa. Quando começou a se aproximar do chão sentiu medo e achou que teria sido melhor sua permanência nas alturas, onde já estava habituado, mas ainda assim ponderou ter valido a pena aqueles instantes mágicos da queda. Já no chão, dolorido até nas idéias, descobriu que o chão da planície, tirando uma ou outra característica geológica, era tão duro quanto o do planalto e para sua decepção, por mais que tentasse pular, alcançava um vôo pouco maior do que um suspiro, jamais poderia repetir a sensação da queda e jamais poderia retornar às alturas. Foi julgado por todos que souberam de sua aventura, uns o condenaram ferozmente por abandonar sua vida para viver uma aventura passageira, outros o reverenciaram como herói por demonstrar tamanha coragem e independência. Alheio aos que o julgavam, procurou não pensar nas conseqüências de seus atos, se teria valido a pena ou não, sua preocupação agora é outra: ouviu falar de um profundo buraco, e hoje passa os dias vagando pela planície a procura deste fosso, para poder precipitar-se, cada vez mais para baixo.
Sunday, July 24, 2011
Poemas à luz da Lua
I
Habita em minha casa,
feita de fábulas, uma Lua.
Talvez não a mais luminosa,
mas que brilha em meus olhos,
como se o mais fosse nada.
Tenho-a bela,
como se o mais fosse intenção.
Tal a lenda do santo,
um dragão de feições mórbidas e
rastro carregado de peçonhas,
cumpre seu papel de mal,
e devora a órbita da Lua.
O santo foi para um calendário,
as religiões mataram Deus
e o homem vaga à deriva,
com seus venenos e pretensões,
com ganâncias e vaidades.
Embebedando e fazendo cócegas,
tenta afugentar o dragão.
II
na última noite do ano
reuni em festa, umas partes de mim
que estavam guardados
um pedacinho ali, outro na gaveta,
adiante do por-do-sol,
em casas com roupa no varal e um,
de bom tamanho, pertinho da Lua
e cantei
e dancei
e vivi
dediquei tudo à Lua e adormeci
sonhei que cantava, dançava e vivia, com a Lua
cheia de si, iluminando a festa
iii
Uma besta na luz da Lua
devorou o brilho de um hemisfério
e consome o pouco sol
que resta em minha alma.
Disseram-me para, humilde,
dobrar os joelhes ante Deus.
Só ele pode devolver a luz.
Disseram-me para não questionar
Por que então ele tira-me a luz?
Por que criou a besta?
Falam-me de fé, de esperança
para por
querosene
creolina
lama
venenos
óleos
poções
onde só deveria ter a Lua.
Para orar aos deuses do céu
aos deuses da terra
e destinar 10% aos fazedores de milagres.
Sem o amparo da fé,
ofereço minha vida:
por nenhum deus aceita e
sem valor aos homens.
A mesma vida
sem o brilho da Lua,
não passa de um artifício.
LM
07/11/2008
Thursday, July 21, 2011
Outro dia um sujeito de maus bofes me chamou de perfeito inútil. Desferi-lhe um cruzado de direita que raspou aquela cara gorda, acertei apenas vento, para sorte daquele metido a besta. Não deveria ser nada de mais, mais uma discussão no bar, nada muito diferente de tantas outras, a merda é que chamar-me de inútil acertou em cheio no pouco de orgulho que ainda me restava. Senti o golpe. A cada dia fui ficando pior até chegar a conclusão que devo ser o cara mais inútil da face da Terra. Fiz um rápido balanço da minha vida e entre prós e contras percebi que nenhum de meus atos merecia sequer uma nota de roda pé n´algum almanaque de bizarrices.
Entre os feitos positivos estaria o fato de ter concluído a faculdade de jornalismo, conquista com algum tipo de relevância, mas descobri, entre matérias encomendadas, reportagens (se é que se pode chamar reportagem textos com 3000 caracteres) chapa branca e outras obras ficcionais que esta é uma profissão tão inútil quanto a de ascensorista: qualquer um, por mais limitado que seja intelectualmente, consegue apertar o botão do elevador com o número do andar. No final das contas o jornalista finge estar contando alguma verdade enquanto o dono do jornal finge estar dando algum valor para verdade e todos fingem serem importantes e indispensáveis.
Preocupado em dar algum valor à minha vida procurei espelhar-me em exemplos de nobre existência, mas no final das contas, para ter uma vaga nos anais da história o sujeito deve se sacrificar por uma nobre causa. Legal, não fossem as nobres causas outro amontoado de grandes mentiras. Mentira ou não, o importante é se sacrificar: “Ó meu senhor Jesus, eu estou pronto para seguir-te mesmo no cárcere, mesmo até a morte, a imolar a minha vida por teu amor, porque sacrificaste a tua vida por nós.” e assim Antônio virou santo e é lembrado até hoje. Então, tudo a ser feito é se deixar esfolar e, em tempos de pirotecnia midiática, se deixar ser fotografado, filmado, entrevistado enquanto se é esfolado, contanto que seja por uma nobre causa. Até dava para adaptar a fala do santo para um contexto atualizado e substituir JC por algo mais apreensível pelos humanos dos tempos modernos. Algo não tão fugidio quanto aquele último refúgio do canalha nem tão alienante quanto Flamengo ou Ponte Preta, mas algo que santifique o imolado. Pelo jeito continuarei sendo inútil.
Afinal cheguei a conclusão que não sou o único classificado nesta categoria, apenas mais um na multidão, complanosparaofuturo, dezhorasdetrabalhopordia, repetindotodoosantodiasempreasmesmasmentiras, comprar casa financiada, carro financiado, esposa financiado, defender valores supremos como justiça social, liberdade, democracia até perder o emprego o carro a casa o brilho dos olhos e os valores supremos chupando o tutano do sujeito até o bagaço.
E o mais patético disto tudo são os que se dizem cientes da grande mentira que é o sistema e só o reproduzem diariamente para melhor poderem se infiltrar nas entranhas deste sistema e virem a ser o germe da sua destruição. Estes auto enganadores se imaginam escritores, poetas, jornalistas, artistas, agitadores sociais, revolucionários, subversivos, até assentarem, bem gostosinho, suas bundas flácidas nos macios sofás comprados em 10xsem juros. Para provarem sua virulência publicam, em blogs inexpressivos, textos recheados de críticas ácidas e no clube posam como seres superiores. Ninguém lerá seus textos e se alguém o fizer, não dará a menor importância.
Para coroar a farsa, embebedamo-nos e fingimos que temos amigos, fodemos e fingimos que amamos, pastamos e fingimos que nos alimentamos, lemos um monte de merda e fazemos cara de intelectuais metidos em pulôveres verdes, até a hora da nossa morte, amém.
LM
Tuesday, July 05, 2011
Há nos entornos de minha casa, como em qualquer casa, uma calçada, daquelas por onde transitam transeuntes, cãezinhos e demais espécies familiarizadas com este tipo de expediente urbano. Há também, e me parece lógico, mas nunca é demais uma explicação complementar, uma rua rente à referida calçada e, como não poderia deixar de estar em outro local, entre a rua e a calçada existe um meio fio. Dispensarei a apresentação deste último, certo de poder estar tratando com pessoas familiarizadas a este tipo de, repetindo, expediente urbano.
Como em qualquer rua, existe tráfego, de automóveis, caminhões, ônibus, motocicletas, uma e outra bicicleta, talvez alguma carroça e todos estes veículos deslocam mais ou menos quantidades de massa de ar, que por sua vez, deslocam mais ou menos grãos de poeira e areia. Parte desta poeira vai parar nas casas, nos escritórios, em hospitais, etc. já a parte contendo partículas maiores, a areia, fica por ali mesmo, na calçada, na rua, mas especialmente no meio fio. Neste acúmulo de areia não é incomum germinarem plantas, não daquelas ornamentais ou comestíveis, mas daquelas que ninguém quer por perto, as ervas daninhas. E é aqui que Josef K. poderia se sentir familiarizado, pois, como bons cidadãos, eu e minha família resolvemos que não é preciso deixar tudo o que é público ao encargo do poder público e pusemo-nos a varrer e capinar a parte do meio fio que já estava nos domínios do município. Feita a limpeza, o resultado foi o acúmulo de alguns sacos contendo areia e mato. Tirar do meio fio e jogar tal entulho no bueiro (como já vi vizinhos fazendo e só agora entendo os motivos deles) não nos pareceu a escolha mais acertada. Ensacamos, tomando o cuidado de não sobrecarregar no peso de cada saco e deixamos para a coleta de lixo.
Poderia continuar no parágrafo anterior, entretanto, para dar fôlego às idéias daqueles que possam achar-me prolixo, continuo neste outro parágrafo. Passou a coleta de lixo, e outra, e mais outra, e ainda outra e nada de levarem os sacos. Talvez os caminhões da coleta regular só possam coletar lixo, ainda que eu não saiba exatamente o que é classificado como lixo. Ligamos para a concessionária responsável pela a coleta (preciso abrir um parêntese: sempre fui contra esta imposição de termos de pagar a uma empresa particular, sem a opção de escolha, por um serviço que é responsabilidade do município, mas isto é assunto para outra discussão) e recebemos a informação de que eles não coletam este tipo de resíduo. O que fazer? Devolver a areia e o mato ao seu local de origem? Talvez no bueiro? No rio, que é para onde iriam a areia, mato e tudo mais que não entupisse o bueiro? Algum terreno baldio das redondezas? E agora vem a pergunta mais intrigante: se algum fiscal da prefeitura nos flagrasse fazendo qualquer uma das alternativas de descarte acima mencionadas? Deixo a resposta para Josef K, tão habituado a este tipo de situação.
LM
Sunday, June 12, 2011
LM
Sunday, May 29, 2011
Assim que terminou o Dia de ficar rico, desligou a tv, fechou as janelas, verificou se a porta estava trancada, fechou o gás e foi escovar os dentes. Sempre o mesmo ritual, sem adiantar nem atrasar, a não ser se o canal alterasse a programação. Sentia-se confortável em ter um ponto de referência para as coisas do dia-a-dia e sempre podia contar com a televisão. Com ela mantinha-se informado, sabia da previsão do tempo, se divertia diante da telinha e, principalmente, sabia a que horas fazer as coisas. Quando terminava o noticiário da manhã era hora de ir ao mercadinho comprar a salada do almoço e assim que terminasse o Manhã da garotada, era hora de almoçar. Para cada atividade do dia sempre tinha um programa que o ajudava decidir se realmente era aquela a melhor hora e ainda por cima podia pegar receitas de pratos diferentes, dicas de moda, saber sobre política e tudo mais que precisasse para ficar sabendo das coisas e poder ter o que conversar com os vizinhos, com o porteiro, com o quitandeiro, com a dona da padaria e com quem mais cruzasse o seu caminho.
Naquela noite deitou-se como sempre fazia, relembrando os programas, pensando em detalhes que haviam passado desapercebidamente até pegar no sono e na manhã seguinte antes mesmo de ir ao banheiro ligou a tv do quarto. Só estática. Mudou de canal e apareceram umas letrinhas verdes que iam pulando uma linha para baixo até chegarem à parte inferior da tela e reaparecerem na parte superior: sem sinal. Foi para a sala, o aparelho ligou, mas também não aparecia nada, em nenhum canal. Olhou para o relógio para certificar-se que não tinha acordado no meio da madrugada, já eram 7 horas. Acendeu e apagou a luz, podia estar com algum problema na rede elétrica, verificou cabo de antena, tomada, conexões, ligou e desligou. Pensou em ligar um rádio, mas lembrou-se que não tinha nenhum. Na padaria sempre tinha uma tv ligada. Era preciso agir rápido e resolveu sair de casa sem mesmo tomar o café da manhã. Abriu a porta e não viu nada. Não havia nada da porta para fora, apenas o vazio. Nem branco, nem preto, apenas o nada, como se fosse o dia anterior ao início da criação. Pensou que talvez fosse ele um deus, ou o Deus e ordenou: Fiat lux! Nada, a luz ignorou-o, assim como todo o resto. Não podia sair assim, não havia nada porta a fora, ou havia apenas o nada. Poderia cair e não mais retornar, ou desmaterializar-se em nada também, melhor era permanecer ali. Fechou a porta, as janelas e cortinas e foi dormir, acordaria e descobriria ter tido apenas um sonho. Dormindo sonhou com formas indescritíveis, ou com coisas sem forma, com vazios e com ausências e acordou. Luzes apagadas, janelas cerradas, podia ser qualquer hora e não se atreveu a olhar no relógio, tinha medo. Medo de levantar da cama, de ligar o aparelho de televisão, de abrir a porta, mas precisava agir. A luz acendeu, mas a tv permaneceu impassível, ligava e nada aparecia além de estática ou de outras formas inúteis. Foi até a porta, abriu e o nada continuava lá. Não foi um sonho.
A todo custo tinha de manter a calma, não perder o raciocínio, se é que já não estava louco. Fez um levantamento detalhado dos mantimentos e estes seriam racionados dali em diante. A água continuava a correr das torneiras, sem saber se isto perduraria, encheu tudo que pudesse reter água. Também a energia elétrica e o gás ainda não haviam sido interrompidos e se continuasse assim poderia contar com uma reserva extra de carne congelada. Achou algumas sementes de pepino e beterraba, desalojou as flores e iniciou um cultivo emergencial de alimentos. Com sorte poderia agüentar por uns três meses, mas se água e a eletricidade continuassem a chegar, poderia viver quase que indefinidamente. Estabeleceu horários, quantidade de alimento diário e toda sorte de regras que um náufrago precisasse seguir para sobreviver até o socorro chegar. Convenceu-se disto: não passava de um simples náufrago.
Depois de um mês quase começou a se acostumar com a situação, ainda que o medo o assombrasse, poderia ficar naquele estado para sempre. Este misto de acomodação e terror o obrigou a reorganizar os afazeres e as tarefas diárias, era preciso quebrar a rotina para manter o espírito alerta, caso contrário corria o risco de se acomodar demais e perder as forças para continuar a lutar. Não deixou de verificar diariamente o sinal da televisão, o fornecimento de água, de gás e o nada além da porta, mas também passou a fazer outras atividades. Pôs-se a escrever cartas, para velhos amigos que se perderam pela vida, para parentes, para desafetos, para ex-amores, para credores para ele mesmo. Cada nova carta revelava motivos antes imperceptíveis que explicavam porque aquele amigo partiu, quando o amor acabou, como se afastou dos parentes e como se transformou em alguém que ele não reconheceria como sendo ele mesmo se fossem apresentados há alguns anos. Depois de três meses já não se importava mais com a televisão e não se importava mais se retornaria para a sua antiga vida, sabia que ninguém estava sentindo sua falta e sabia que o culpado por isto era ele mesmo. Achou por um momento que pudesse estar morto, apenas isto, caído no chão da cozinha e como ninguém o procurou, nem teve um enterro decente, estava naquele limbo e resolveu sair de uma vez. As pernas não obedeceram e não pode se aproximar da porta. Voltou para a sala e prostrou-se diante do aparelho de televisão a estática mostrou a ele o que ele era: nada. Sabia agora que no dia seguinte poderia ligar a televisão e provavelmente veria seus programas novamente, iria até a porta e veria a rua, as pessoas, os pardais; poderia sair de casa para comprar pão e cumprimentar o porteiro, a mulher da padaria, algum vizinho; poderia até ligar para aquele velho amigo, para os filhos e quem sabe até arranjar um novo amor. Sentiu lágrimas, teve vontade de gritar, desta vez a garganta não o obedeceu. Sabia agora muitas coisas, mas o mais terrível era saber que não faria nada daquilo, que simplesmente ligaria a tv do quarto antes de ir ao banheiro e no mais continuaria com sua vida como sempre foi, talvez por uns dois ou três dias teria algum trabalho diferente pondo as coisas em ordem novamente, para depois encapsular-se em sua vida metódica e fria. Chorou até cair no sono.
LM
Sunday, May 15, 2011
O barulho de passos denuncia a aproximação dos guardas. Está chegando ao fim a entrevista e o entrevistador se impacienta. Ele sonda o prisioneiro na tentativa de encontrar alguma brecha na armadura de indiferenças erguida pelo condenado. Não havia a menor necessidade ou disposição para prestar qualquer tipo de serviço a um cúmplice do mesmo sistema que o estava conduzindo à forca.
Como a próxima execução só aconteceria em seis meses e restando pouco tempo para conseguir extrair alguma coisa significativa deste prisioneiro, não seria prudente se exasperar, tentaria aproximar-se com mais cautela. Não podia se arriscar a perder esta oportunidade.
Agora não poderiam mais ficar a sós e se não conseguisse hoje, seria difícil prever a próxima oportunidade. “Estas datas sempre sofrem algum adiamento”. O prisioneiro crispa as mãos. Poderia estar relembrando o crime que o condenou. Seria este o momento ideal para falar alguma coisa. Faltam apenas alguns minutos e o entrevistador, em uma atitude pretensiosa, tenta imaginar o que o outro sente nesta hora. Esforça-se para reproduzir em as aflições alheias, mas percebe que apenas arranha a superfície de uma redoma invisível, utilizada pelo condenado para preservar o mínimo de humanidade que ainda lhe resta. Tão magro ao ponto de os ossos parecem querer perfurar a pele fina, não parece perigoso. Estará arrependido? Improvável. De que adiantaria se arrepender. A cela se transformou no seu mundo e não deve ser tão difícil abandona-lo. A morte se torna mais assustadora quando temos algo a perder. Já não tem muito apego à vida, próprio de quem já não tem nenhum domínio sobre a própria existência. Hora de deitar, de acordar e de comer controladas por estranhos; o que vai comer e quando ir ao banheiro. Vigiado e medido, a vida já não lhe pertence. Nada a esperar senão a morte, esta entidade cheia de enigmas e perguntas sem respostas, cortina leve, possível de atravessar, mas apenas em um sentido. Tão aterrorizante quanto instigadora. Valerá à pena viver desta ou daquela maneira? Vale à pena esperar por outra vida?
—Tem certeza que não quer falar nada? Pode ser uma chance de deixar seu nome gravado na história.
O silêncio carregado de ceticismo respondeu pelo homem sentado de costas para o entrevistador que tentava, em vão, tatear no muro erguido entre ambos.
— Que razão eu teria para ajudá-lo? Você não tem nada que possa me interessar. Ou pode conseguir minha libertação? Acho que não, então fique com suas perguntas e eu fico com minhas respostas, minhas últimas companheiras até o túmulo, além de eu não fazer a menor idéia do que você quer, mas como veio me interrogar, é porque sei algo que te interessa e esta satisfação, de não cooperar com porcos, eu terei antes de morrer.
— Esta sua atitude não passa de uma última tentativa de conferir algum valor para sua morte. Acha que está escondendo uma informação muito preciosa e se sente importante por isto, ainda mais imaginando que está me passando para trás. Posso sair daqui e entrar na próxima cloaca em que esteja enterrado algum outro condenado à morte e, a troco de uma garrafa de água ardente, catalogar espírito e alma do desgraçado. Quando você estiver pendurado pelo pescoço, me enxergará no meio da multidão e poderá ver meu sorriso zombeteiro enquanto comento com alguma velha ao meu lado: “vê aquele verme se contorcendo na ponta da corda, ele tem segredos preciosos para a humanidade e agora, enquanto ele espera quebrar o pescoço, ou ficar sem ar, tais segredos descartáveis escorrem com os dejetos descendo pela perna. Urina, esperma e fezes se misturam reduzindo o último espasmo a uma cena grotesca.” Serão longos estes teus últimos momentos e eu me deliciarei observar esta fisionomia severa e irada ir se transformando na mesma máscara apavorada que se apodera dos condenados e ali saberei tudo o que quero. Mesmo quando você não tiver mais voz, estará me revelando teus segredinhos.
A chave do carcereiro irrompe na fechadura da cela. A hora da execução se aproxima e ao prisioneiro já não existe mais a percepção do transcorrer do tempo. Num instante já se vê com a corda passada pelo pescoço enquanto a multidão raivosa grita a espera de mais um espetáculo. Tudo isso acontece simultaneamente: conversa na cela, em pé no cadafalso, ser conduzido pelos guardas, tudo ao mesmo tempo em que está, há 35 anos, pescando em um riacho perdido na infância ou já velho, brincando com netinhos gorduchos. Uma sucessão de imagens se sobrepõe, mas não são todas imagens da sua vida. Nunca pescou em um aprazível riacho durante sua infância. São imagens atemporais, de passados que não existiram, de possibilidades de futuros pertencentes a um passado incerto. E este presente seria uma lembrança ou uma premonição? Quase sentia ter o poder de escolher os caminhos da sua vida. Caminhos que o levariam a ter lembranças idílicas enquanto é acariciado por uma esposa atenciosa.
Como se tivesse levado um chute nos testículos vislumbra o rosto macerado do entrevistador no meio da multidão, olhando e rindo um riso sarcástico. O estomago fica embrulhado e uma onda de frio percorre seu corpo. Adiantaria alimentar as mesmas ilusões dos outros condenados? Ilusões de arrebentar três vezes a corda e ser aclamado pelo povo como um santo que não pode morrer pelas mãos dos homens; de um indulto, uma clemência em cima da hora. Estas já são ilusões para serem deixadas aos próximos condenados.
Os guardas entram na cela e o entrevistador fala alguma coisa para eles, dando alguma instrução. A hora definitiva chegou.
— Até compreendo o motivo de ter praticado seus crimes. Neste momento sua alma me pertence e mesmo que queira, não pode esconder nada de mim. Agora temos de andar rápido, o cadafalso o espera e o povo está ansioso. Haverá outros mais e não importa quantos precisarão ser enforcados, estarei na cela, e estarei junto à multidão, e serei o grito ensandecido da turba, e serei os olhos do carrasco, serei ainda, o primeiro a carregar os corpos e um dia um de vocês falará. Será a fala dos demais, será uma e serão todas e a verdade me pertencerá. A vida me pertencerá.
— Nada disso tem a menor importância, já não tenho mais medo da morte. Talvez a dor faça meu corpo esboçar alguma reação, mas será apenas um espasmo e não me importo se você descobrirá alguma coisa, pois quando imaginar que descobriu algo, não demorará muito para perceber que não sabe nada. Você será o maior condenado, morrendo várias vezes com os enforcados, até o dia que nem vai perceber a própria morte e tudo terá acabado, como se nunca tivesse existido.
A certeza de chegar ao fim todas as seqüências de passados, presentes e futuros possíveis para sua existência, produziu no condenado uma euforia nervosa. Acabava de descobrir ter sido muitos e nenhum ao mesmo tempo. Então a morte era isto? Enxergar todas as possibilidades possíveis, milhões de combinações e rumos para a própria vida, milhões de vidas e incontáveis experiências. Se, naquele inverno há 15 anos, tivesse atravessado a rua; se tivesse, no natal de 57, virado para a esquerda; na corrida de cavalos tivesse dito sim. “Se” vão preenchendo incontáveis listas de probabilidades que ele já nem sabe mais qual foi a verdadeira, ou se todas foram verdadeiras e agora, no final de tudo, ver estas muitas histórias como a um sonho distante. Foi todos e não foi nenhum, apenas o fim é único, mas não a forma do fim, como se fosse possível chegar até este fim por múltiplos caminhos até atingi-lo. O ponto final e o ponto de partida.
A corda esticou sem quebrar o pescoço. Sinal de mais alguns momentos de espetáculo para a multidão, até que o condenado pare de se contorcer. No meio da massa ruidosa, o entrevistador anota todas as impressões enquanto, de algum ponto da memória, se vê criança, pescando peixinhos dourados em um riacho. A multidão se agita. O condenado se debate freneticamente. A turba, excitada com a cena bizarra, se acotovela e se amontoa, espremendo e sufocando o entrevistador até a queda. No chão lamacento, ele vê peixinhos dourados e algumas verdades, que já não servem para mais nada.
LM
Wednesday, April 06, 2011
Tem uns dias em que eu queria que o mundo explodisse, ou pelo menos desse um tempo e aquele era definitivamente um dia daqueles. Acordei com uma tremenda dor de cabeça e um gosto de sola de sapato na boca. Já ouvi gente falando de gosto de cabo de guarda chuva, mas como nunca experimentei cabo de guarda chuva, não sei que gosto tem, acredito que seja parecido com o gosto de sola de sapato. Precisava urgente escovar os dentes e dar uma cagada. Catei algum jornal velho e fui para o banheiro. Não sei como tomei gosto por aquilo, só sei que gosto de ler o obituário, ver aqueles nomes de pessoas mortas me relaxa, talvez porque eu saiba que nunca vou ler o meu nome ali. Relaxado com a leitura a tarefa fica mais fácil. Mal comecei a mentalizar os defuntos a porcaria do telefone começou a gritar na sala. Deixei tocar. Nem nessas horas um homem de bem tem sossego? Luiz Mendes, jornaleiro, 48 anos deixa mulher e 8 filhos. Vítima de um parafuso desprendido de algum avião que sobrevoava a cidade. Sepultamento hoje às 17h no Cemitério Municipal. Esse ficou com um parafuso a mais. E o telefone voltou a castigar minhas idéias, não teve jeito e levantei para atender, deixei as calças penduradas no prego da parede e saí do banheiro só de camiseta. A velhota do prédio da frente, sempre bisbilhotando na janela, esperou eu me virar para ela e se fez de assustada, saiu fechou a persiana fazendo o sinal da cruz. Tenho certeza que continuou espionando.
─ Quem é?
─ Bom dia, por gentileza, com quem estou falando?
─ Perguntei primeiro. Com quem quer falar?
─ Com o senhor Charles Trezinni.
─ Sou eu. Quem diabos está atrapalhando minha cagada matinal.
─ Desculpe por interromper sua caminhada, senhor Trezinni. Meu nome é Mara e sou do programa de relacionamento do banco...
Merda de bancos, não descobriram que sou um duro e não tenho nada para me relacionar com eles. Ligam em cada horinha. Voltei para meu trono. Verônica Shullzenn Haffstantler, do lar, 87 anos, viúva, deixa 4 filhos, 5 netos e 2 bisnetos. Sepultamento hoje às 9h no Cemitério Parque Resplendor Eterno. Pelo nome pomposo essa deve ter deixado uma bela herança para os filhos se engalfinharem. Já tava tempo demais no banheiro e não podia adiar mais, era hora de sair para a vida e encarar o mundo, mas já que estava lá não custava ficar mais um pouquinho e tocar uma bronha antes de tão árdua tarefa. Dei a descarga para não ter meus pensamentos eróticos contaminados com o cheiro daquela bosta toda. Continuei sentado no bacio e me vi no espelho. Tinha um espelho enorme na frente do bacio. Nunca entendi porque aquilo no banheiro, mas já estava no apartamento e não seria eu quem iria tirá-lo. Mas naquele dia me deu vontade acertar uma tijolada bem dada nele. Enxerguei refletido no espelho, um velho calvo, com o que restava dos cabelos formando um emaranhado de fios sebentos grudando no pescoço, sentado em um trono de merda, vestido apenas com uma camiseta daquelas que os candidatos distribuíam com seus números e fotos: Ribeiro Borges para deputado estadual. A cara do Ribeiro Borges aparecia sorridente como se fosse ele o mais feliz dos homens, ou como que dizendo como ficaria o mais feliz dos homens se fosse eleito. O velho refletido estava com as pernas finas abertas, a barriga saliente servia de apoio para o braço direito projetar a mão até um ridículo amontoado de pentelhos com muitos fios brancos. Mesmo vendo aquela imagem patética continuei a bolinar-me, mas não adiantava, meu cacete mais parecia uma gelatina ou uma lesma. Recostei-me mais, ficando meio sentado, meio deitado e encostei a cabeça na parede para olhar para o teto. Não suportava mais olhar para aquele espelho. Continuei a tentativa de acordar a lesma, era uma questão de honra. Uma mosca entrou pela janela pôs-se a zunir ao meu redor. Não era uma mosca comum, mas uma daquelas varejeiras gigantes, verde-metálica, barulhenta como um liquidificador velho. Desse jeito não dava. Tive de levantar e começar a caçada ao animal. Ainda estava só com a camiseta do Ribeiro Borges e postei-me no meio do banheiro, hirto como um perdigueiro, chinelo à mão esperando um movimento em falso da desgraçada para desferir o golpe certeiro. Senti um vento frio gelando minha bunda, ela passou triscando meu nariz, mas não me movi. Segui os movimentos acrobáticos e o zunido, enfim pousou na pia. A chinelada foi certeira, mas um caco de louça voou e foi parar em cima do meu pé. Deve ter pego alguma veiazinha ou algo parecido para sair tanto sangue de um corte tão pequeno. Tirei a camiseta e enfiei a cara do Ribeiro Borges para estancar a hemorragia. A bronha estava comprometida. Precisava tentar só mais uma vez. Tentei lembrar detalhes picantes da minha última transa. Só consegui lembrar de estar vomitando ao lado da cama de um motelzinho vagabundo. Não foi uma boa lembrança. Não tinha nenhuma revista pornô por perto, só o jornal com os obituários. Lembrei da Verônica Shullzenn Haffstantler e a punheta morreu de vez. Comecei então a enxergar a velha em com sua mortalha semi-despida me esperando na cama em alguma pose sensual. Definitivamente era hora de deixar aquela punheta para outro dia e sair daquele banheiro emoscarado e assombrado e sair para a vida, encarar o mundo, ou ir para o bar do Jacó beber algumas para dar azo às idéias e ficar rezando para que aquele dia acabasse. A vida e o mundo poderiam me esperar mais um pouco.
LM
Sunday, April 03, 2011
─ Posso doar seu troco para a Campanha da Bondade?
─ Como assim?
─ Suas moedinhas senhor, parte do seu troco eu encaminho para a campanha.
─ Mas eu nem peguei as moedas ainda.
─ Não tem problema, eu encaminho pelo sistema do cupom.
─ E o que é feito com o dinheiro?
─ É destinado para uma entidade assistencial.
─ Qual?
─ Não sei exatamente qual, mas o senhor pode visitar nosso site na internet e acompanhar os resultados da campanha.
─ Sei. Posso inscrever minha instituição para receber a grana?
─ Não sei exatamente senhor, mas se o senhor quiser, pode acessar nosso site na internet.
─ Sei. E lá, no site na internet, vai ter alguém que pode me responder se posso inscrever minha instituição e deixar o número da minha conta.
─ Não sei exatamente senhor, mas o...
─ Você não sabe responder outra coisa? Não precisa responder. Eu preciso me inscrever para receber esta grana, o nome é um sinal, Campanha da Bondade, é bem sugestivo, deve ser para fazer alguma coisa boa e nada melhor do que me ajudar a voltar a ser uma pessoa boa.
─ Não sei se é assim que funciona a campanha senhor.
─ Eu era uma pessoa boa, ajudava velhinhos e cegos a atravessarem a rua, dava esmolas nos sinaleiros, cumprimentava meus vizinhos, não chutava cachorrinhos, só que isto é ficou para trás, estou me tornando uma pessoa má, dia após dia, cada vez mais mau, mais egoísta e mesquinho. O mote da minha campanha é irrepreensível: Ajude um homem bom não se tornar mau. Faça sua doação e preserve a bondade.
─ Não sei o que dizer senhor.
─ Já sabia. Me dê logo minhas moedinhas.
LM
por Paulo Horn
Naquela quinta-feira, enquanto tentava compreender o porquê de tantos carros estarem nas ruas, lembrou-se de que este dia era um dia atípico apenas para ele. Voltando do velório pensava em como tudo ao seu redor estava morrendo e batia a tristeza. O que mais sentia falta era de sua cabeça. Poucos dias antes da morte prematura da Senhorita Vanessa sua cabeça havia sofrido um mal súbito inexplicável e em poucas horas definhou. Ficara estarrecido com a perda, mas logo depois que a morte secou-lhe o membro e viu de alguma forma bizarra sua cabeça cair e rolar pelo chão, começou a brotar uma nova do espaço vazio.
Nos curtos momentos que antecederam o nascimento da nova cabeça sentiu um grande medo de se tornar o oposto de uma carranca, um corpo sem cabeça pendurado na sala de alguém, ao lado de outras peças exóticas de mau gosto. No entanto sua cabeça foi brotando lentamente e já no dia do velório da Senhorita Vanessa tinha um corpo completo novamente.
Olhou por horas a fio sua nova cabeça no espelho, reconhecendo-se. Não havia nada de diferente da cabeça anterior. Deixou de lado a inspeção para visitar a recém falecida e passando muito protetor solar com medo de que sua cabeça ressecasse e viesse a cair novamente chamou um táxi para levá-lo até a capela mortuária onde se encontrava o corpo. Por todo o caminho teve sensações desconhecidas, como se os últimos 35 anos de sua vida tivessem desaparecido e as sensações adquiridas com o tempo tivessem sido lavadas de seu corpo, rolado para longe junto com sua cabeça.
Ficou impaciente em todo sinal vermelho que pararam no caminho. Sentiu pena de um cachorro magricelo que se abrigava do sol em baixo da mesa de xadrez da praça. Ficou inquieto com a lentidão do taxista e apreensivo se não perderia o enterro. Parecia que havia entrado em um processo de redefinição de si, como se suas entranhas tivessem sido expostas e lavadas, cada desenho rabiscado em sua cabeça tivesse que ser retocado. Desceu quase em frente ao cemitério e caminhou por entre as ruelas cercadas de túmulos, atravessando até a capela. O perfume de flores que tantas vezes lhe fez mal no passado agora acariciava seu rosto. Ficou preocupado, pois com a descoberta de ter perdido uma alergia que lhe acompanhara a vida toda teve certeza que aqueles desenhos feitos na cabeça que secara não necessitavam apenas de uns poucos retoques, de uma passada de tinta mais forte. De alguma forma teria que redesenhar o que perdera.
A Senhorita Vanessa estava cercada de coroas de flores e ao se aproximar sentiu como se fosse a primeira vez que a via. Depois de todos esses anos voltara a se apaixonar por ela e agora ela estava morta. Sentiu-se tonto e seus joelhos fraquejaram. Redescobriu como era chorar aos prantos e soube então o que era esse vazio que tanto se atribui à solidão. Lembrou do esquecimento quando fecharam a tampa do caixão e o rosto da Senhorita Vanessa foi sumindo lentamente. Reconheceu a impotência ao ver o caixão ser depositado na sepultura e a solidão se estendendo pela tarde enquanto todos iam seguindo com suas vidas e ele ficava só no cemitério, perdido com as redescobertas que agora desejava esquecer. Ficou desnorteado.
Perdeu-se no caminho de casa e aumentava cada vez mais a confusão dentro de sua nova cabeça. Queria voltar a ter sua cabeça antiga, queria que esta secasse e ele nunca mais precisasse lembrar tudo que redescobrira. Queria poder esquecer a Senhorita Vanessa e que um dia a amou, mas o vazio não deixava e sua cabeça não dava sinas de que adoeceria novamente. Perdia sua mente à progressão que sua cabeça se tornava mais viva. Voltou para frente do espelho e já não mais se reconhecia. Renegava esse novo ser que aparecia no reflexo. Sua antiga cabeça era uma casca seca jogada no lixo da cozinha. Por três dias seguidos sentiu e mais sentiu, mas não agüentou mais.
Quando redescobriu o desespero cortou sua cabeça com o machado de incêndio do corredor do prédio em que morava. Foi a única vez que redescobriu a decapitação.
Tuesday, March 08, 2011
Não me é confortável ser cabotino, mas diante da situação devo fazer um esforço e falar de minhas qualidades. Ainda assim, após apresentar-me e a minhas qualidades, listarei pequenos depoimentos que colhi de alguns amigos, forma ideal de falar de si.
Antes da jactância, preciso deixar claro que não sou muito exigente quanto ao tipo de trabalho a ser exercido, já exerci muitas atividades e creio ter certa facilidade para aprender coisas novas. Obsta apenas certas faixas salariais, abaixo dos dez salários mínimos. Não sou homem de muitos excessos, mas acabei cultivando alguns pequenos prazeres e seria muito penoso abrir mão deles, acarretando inclusive em possível perda de produtividade. Também não trabalho sábados e domingos. Crente que sou, guardo o sétimo dia da semana, que alguns dizem ser o sábado, outros o domingo então, para não incorrer em erro diante do Senhor, resolvi guardar os dois, lembrando que os antigos judeus, já na sexta-feira à tarde começavam a guardar o sábado, assim também procederei, mas parcialmente, pois durante o hapyy hour da sexta também podem se fechar muitos bons negócios.
Agora falarei de minhas habilidades. Trato habilidade como uma categoria diversa de qualidades por serem atributos que podemos aprender com a prática, enquanto no caráter o processo de formação se dá de maneira bastante diversa. Escrevo razoavelmente, não como um literato, mas bem o suficiente para manter-me empregado em qualquer jornal médio. Tenho carteira “C”, mas posso fazer uma extensão e promover um upgrade para “D”. Possuo vasta experiência administrativa e financeira e, apesar de uma ou duas empresas que me foram confiadas terem sucumbido ante o mercado, esta minha experiência é valiosa para novos empreendedores evitarem certos equívocos de gestão. Tenho formação superior em Comunicação Social com ênfase em jornalismo, embora não precise mais de diploma para ser jornalista, mas aprendi outras coisas na faculdade que são muito úteis em outras áreas, como revelar fotografias tiradas em máquinas analógicas (sim, aquele em que a gente se tranca dentro de um quarto escuro e banha os filmes em produtos químicos) e como fingir que entende um pouco de tudo sem entender nada de nada. Também sei fazer e soltar pipa, embocar bilboquê, soltar pião, a escalação completa do time do Flamengo de 1981 que se não são atributos diretamente profissionais, podem ser elementos constitutivos de uma bem elaborada e produtiva palestra motivacional para departamentos inteiros de uma indústria, por exemplo. Também tenho experiência militar, freqüentei o serviço militar obrigatório por dez meses, onde aprendi a útil tática da camuflagem: se ninguém o ver, quer fazendo algo de bom ou de ruim, ninguém te importuna.
Não é bom alongar-me muito em detalhes e penso já ser mais do que hora de falar das qualidades. Nunca aprendi como distinguir se alguém está mentindo para mim e se a mentira for consistente, é muito fácil fazer com que eu acredite. Logo, nunca aprendi a mentir. Tento, já menti muito, mas sempre com o receio de que meu interlocutor me questionasse mais uma vez e eu botasse tudo a perder. Não sou bom líder, talvez por não ser tão enérgico ou por ser muito transparente, embora tenha alguma experiência em cargos de chefia. Sou muito pouco carismático, daqueles que as pessoas logo esquecem e que ninguém percebe se passar pela frente, mas talvez isto seja uma coisa boa, ainda estou pensando em que.
“É muito honesto, trabalhador, responsável, competente e dedicado. Pode confiar nele sem nenhuma preocupação que ele cuida de tudo melhor do que se fosse dele mesmo. Meus filhos eu eduquei tudo com muito sacrifício, mas todos só me deram alegrias. Só o Charles ainda não se encontrou naquilo que gosta, mas tenho certeza de que se ele ter uma chance, não vai decepcionar.” Marieta Trezinni – mãe.
“O cara é o maior papo dez, gente boa pra valer mesmo, altos camarada, se tem alguém que é fineza ponta firme é o Charles. Valeu véio, se cuida.” Pedro Almodóvar da Silva – amigo
O pen drive com os demais depoimentos se extraviou.
Aqueles que me conhecem, ajudem-me, postem suas impressões, positivas, de preferência, ou não tão injuriosas.
Charles Trezinni
Sunday, February 27, 2011
Saiu da cama e foi direto pro banheiro. Urinou uns três litros, lavou as mãos e o rosto. Não escovou os dentes. Nunca escovava os dentes ao acordar: se já havia escovado antes de dormir e não comera nada durante a noite, não tinha motivos para escovar novamente. No máximo uma enxaguada rápida. Após se justificar para a pasta e escova de dentes, vestiu-se e saiu. Era o dia da entrevista. Precisava tomar uma xícara de café.
Uma firma de Curitiba estava recrutando vendedores para a região. Não exigiam experiência. Parecia bom. Já estava ficando complicado viver da pensão da mãe. Algo parecido com a consciência começava a pesar-lhe. Ainda mais agora, aos quarenta. E a mãe já estava um pouco acabada. Tinha de mudar, especialmente agora que a velha entrara para uma dessas igrejas evangélicas. Já não liberava mais tanta grana, principalmente para bebida. Mulher então, nem pensar. Ta certo que a cachacinha do boteco da esquina não era nada cara e com dez paus conseguia serviço completo com alguma puta gorda do centro.
O maior problema era ter de mentir todas as vezes. Não admitia ter de mentir sempre que fosse pedir mais dinheiro. Precisava arranjar um emprego.
— Fuma?
— Não. — Mentiu.
— Bebe?
— Só no sábado, e socialmente. — Mentiu novamente.
— Tem algum vício?
Pensou em responder a Igreja. Achou que era forçar demais.
— Costumava jogar um bingozinho no galpão da igreja.
— O senhor já teve alguma experiência com vendas?
— Nenhuma.
— Já leu a bíblia?
— Já li Nietzsche.
— Nós vendemos bíblias. O senhor acha que consegue vender bíblias?
— Por Cristo! Aquele filho da puta vai se arrepender de ter escrito tanta bobagem e por ter matado o Barbudo. Vou infestar esta cidade com os livros do Cara.
Descobriu que vender bíblias não era tão fácil assim. Após uma semana só conseguiu vender duas: uma pra mãe e outra trocou por três fódas com a puta gorda do centro.
Após três semanas sem vender mais nada, resolveu entregar as bíblias restantes e acertar as contas. Enquanto esperava o ônibus, na fila do terminal central, resolveu ler um pouco e como só tinha bíblias, achou que serviriam pra alguma coisa. Pegou uma e mandou ver, se empolgou e sem perceber lia em alta voz. Eclesiástico capítulo 3, versículos 33 ao 34 e capítulo 4 até o versículo 11. Quando terminou tinha um punhado de notas miúdas e moedas colocadas ao lado da bolsa de bíblias. Arrecadou vinte e oito reais. Comprou cerveja, uma cachaça da boa e procurou uma puta menos gorda. Devolveu as bíblias, menos uma.
Escolheu um ponto movimentado no terminal e agora lê, a todos os pulmões, um trecho do livro santo, semana após semana, sempre de terça à quinta-feira.
LM
O pai falava, quando muito, umas dez palavras por dia. Sempre austeras, de sem retrucamento e destinadas aos assuntos eleitos mais importantes. Não assentia tagarelices e cortava as falas, com olhar cheio de significações ou com um grunhido algo animalesco. Reinava a mudez, como se já tivessem falado tudo. Habitavam nos silêncios da casa, com as falas das sombras. Assim, no semi-silêncio as meninas cresceram, mais com as coisas, menos com as palavras— com quase nada de risos.
Viviam: o pai fazendo vezes da mãe, mal e mal, sem dar conta de ser ele mesmo, as meninas, fazendo-se de filhas. Na quietude da casa os mais insignificantes ruídos ganhavam cara de trovão: um estalar do madeirame, um assovio do vento, duas ou três rolinhas ciscando no telhado, o latido pro ar do cachorro e algum pensamentozinho que pudesse escapar das cabeças mais distraídas. Calhava que da rudeza do seu ensimesmamento, o pai também deixava transbordar um fiapo de pensar. Misto de lembrança com cisma; sentimento com atavismo; querer com dever. Seguia um profundo suspiro.
Quando em domingos cheios de sol, azuis como um cartão postal, o silêncio por pouco era superado por esboços de risos, aprovar o gostosume da galinha ensopada, polenta farta, repolho frito, radiche e uma tirinhas de torresmo frito, bem salgado, pra jogar sobre o prato cheio de não poder. Obrigados, passa a carne, mais polenta, um copo d’água, bater de talheres na louça, vento balançando o pé de limão no quintal, e o almoço ia. Elas limpavam tudo bem rapidinho e o pai, como todos os domingos, dormia. Nenhum piu, sussurros ou cochichos enquanto ele não acordava. Era o dia da felicidade, quando desconfiavam que amavam-se, sem saber de todo, sem expressar, sem falar. Do jeito duro para não perder o respeito das filhas, reverenciando o pai sem poder correr-lhe ao colo. Formal, rodeado de quases, mas quietos, amavam-se.
Anos e velhice avançaram e o homem sentiu todo o pesadume. A morte fez-se e o pai, querendo recuperar o tempo perdido, ou talvez sentindo apenas medo, quis conversar: “minhas filhas, falem comigo, sinto medo do mar de silêncio que está chegando, falem, mostrem sua voz.” Mas não sabiam o que falar, a não ser “sim, pai!”.
LM
Thursday, February 17, 2011
Quem conheceu Roldo Bonadiman ou ouviu falar de seus feitos, jamais teve motivo para duvidar que suas palavras fossem um recorte bastante fiel da realidade. Foi preso pelos Camisas Negras, conseguiu fugir antes de ser executado, liderou inúmeros grupos armados de resistência pelos subúrbios de Roma e, em 28 de abril de 1945, ajudou a pendurar o Duce e sua amante no telhado de um posto de gasolina. Roldo podia ter inúmeros defeitos, mas mentiroso não era, muito menos lunático, o que fiquei sabendo tarde demais e, apesar da fama de aventureiro ─há quem o tenha classificado como mercenário─ ele era também um artista e mantinha intensa correspondência com muitos outros artistas e intelectuais, especialmente durante o pós-guerra. É uma hipótese plausível afirmar ter iniciado neste período sua amizade com Paul Celan e como não sei dizer ao certo como isto se deu, assumo tal hipótese como verdade. Minha convicção está no fato de Hans Bender ─provável elo entre os dois─ citar, em um artigo de 1959, um sarau onde se apresentariam Celan e Bonadiman. O certo é que os dois trataram de erigir uma sólida amizade, mesmo que algum observador distante pudesse objetar que tão aparentes diferenças de personalidades seriam incompatíveis em uma amizade duradoura.
Quanto a mim, conheci Roldo Bonadiman em 1995. Fomos apresentados na casa de minha mãe, durante um jantar dado por ela a um pequeno grupo de velhos amigos. Fiquei sabendo de sua influência na decisão de meu falecido pai, de migrar da Itália para o Brasil. Para mim isto bastou como apresentação e, como já estava há alguns meses sem ver mamãe, fiquei no jantar mais tempo do que minha paciência com aqueles velhos rituais de relembrar o passado poderia usualmente tolerar. Fiquei vagando entre conversas sobre a guerra, sobre cadáveres de parentes invocados pelas lembranças, por lombadas de livros da minha infância ─ainda na estante, como a me esperarem─ e por toneladas de um nostálgico sentimento de procura do tempo perdido. Pouco a pouco os convidados foram se retirando, até ficar apenas Bonadiman, que olhava através da janela para algum ponto entre a noite e a história. Mamãe dormitava no sofá. Ele pareceu ter percebido que eu o vigiava e antes mesmo de virar-se começou a falar.
─ Charles Trezinni, não é mesmo? Conheci seu pai, um homem com qualidades pouco vistas nos homens de hoje. Era uma das poucas pessoas que verdadeiramente seria capaz de morrer por alguém. ─ Pensei em formular algum tipo de resposta ou continuidade a sua fala, mas antes de eu abrir a boca ele continuou. ─ Ele sempre dizia que era muito fácil sair por aí falando que morreria por fulano, ou por beltrano, pois o sujeito, lá no fundo, sabia que ninguém viria tomar-lhe a vida para cobrar tal afirmação, mesmo quando diante de algum enfermo, se fala que queria estar padecendo no lugar daquela pessoa, mas sabe-se que Deus, ocupado demais com suas tramas inacabadas, não virá fazer cumprir tal desejo.
─ Do que sei, ao contrário de mamãe, ele era um ateu convicto. Lembro pouco dele, mas não esqueço das broncas que ele dava em mamãe enquanto ela me ensinava a rezar.
─ Era o tipo de ateu que falava com Deus, falava de Deus, mesmo que fosse para amaldiçoá-lo.
Após este breve diálogo calamo-nos por alguns minutos. Fez-se um silêncio opressivo, podíamos escutar a respiração sonolenta de mamãe e cada tic e cada tac do relógio de parede parecia levar bem mais do que um segundo para vibrar na semi-escuridão. O relógio começou a armar seu mecanismo para soar um quarto de hora qualquer e poderia jurar que havia produzido o mesmo som de alguma máquina medieval de tortura, enclausurada no mais frio porão da Inquisição. Exagero ou não, aqueles minutos pareceram horas e não sei por qual motivo, senti, naquele momento, que poderia matá-lo ali mesmo, talvez até devesse fazê-lo.
─ Ângelo Trezinni teria lido aquelas palavras, mas eu não tive coragem. Nunca tive medo de morrer, mas o que Celan me pediu estava além de minhas forças. Ele me escreveu em abril de 70 e pedia que fosse vê-lo urgentemente em Paris. Já andava apresentando sintomas depressivos e não tardei em pegar o primeiro trem. Em Paris nos encontramos no Jardin des Plants, próximo da Pont d’Austerlitz, ele estava cadavérico, com olhar distante, sua aparência pouco lembrava o poeta que havia conhecido anos antes. Nos abraçamos longamente e pude sentir que ele estava gelado. Começamos a conversar e a caminhar em direção à ponte.
─Meu velho amigo Roldo Bonadiman, como é bom vê-lo, tocá-lo, sentir seu cheiro ouvir sua voz.
─ Também estou muito feliz por revê-lo, mas o que o aflige?
─ Descobri... a arte, descobri o poema que não existe... nem podia existir, o poema absoluto. Nada me aflige mais do que a vida, nada me aflige meu amigo. Encontrei a mim mesmo e agora nada mais há, devo espiar minha culpa, a culpa por trazer à tona algo que não cabe aos humanos a menos que se homenageie o absurdo, ou, se cabe, que seja em um plano diferente e note que não falo plano superior, senão, apenas, diferente, que seja entre rochedos e campinas, onde poderei tornar-me uma cabeça de Medusa e congelar toda imagem pura e transformar toda palavra em uma imagem e toda imagem em uma palavra e onde nem Mallarmé sonhou, transfigurar toda arte, toda emoção em um poema. Eu desvendei este poema absoluto. Não... nada me aflige, pelo contrário, sinto apenas sede. Não! Apenas sinto o mundo, suas belezas e também suas guerras. Ouço o amor dos apaixonados, ouço também o desferir de cada golpe mortal das batalhas.
─ Estás falando muito rápido, não estou conseguindo acompanhar tuas idéias, mas sinto tua emoção e isto me alegra e me assusta, quero ajudá-lo, mas não sei posso, nem sei se você precisa de minha ajuda. Diga-me, meu amigo, o que posso fazer, pelo menos para dividir contigo o peso de tua, podemos chamar, descoberta?
─ Apenas leia o que está escrito nesta folha, não é mais do que uma linha, não tem nenhuma palavra que tu não conheças, tampouco está em uma língua estranha, mas nela está contida toda a Beleza. Meu tempo acabou, ousei a cometer o pecado desvendar um mistério vedado aos homens.
Estávamos sobre a Pont d’Austerlitz, peguei a folha, dobrada ao meio, era muito gasta, exalava cheiro de bolor e suor. Aquela folha pesou em minha mão como nada antes em minha vida, senti todo o peso de definições que nunca antes imaginei conseguir postular, senti o peso de todas as páginas em branco oprimindo o poeta e tremi. Não tive coragem de desdobrá-la, muito menos de profanar aquilo que ali estava escrito, mas sabia que segurava algo grandioso, mais grandioso do que jamais ousarei a me imaginar. Ele apenas olhou-me, nada disse e atirou-se nas águas do Sena. Nada fiz para impedi-lo e senti que nada deveria fazer. Coloquei a folha no bolso e saí dali sem ter rumo certo, modificado para sempre. Sabia que jamais teria coragem suficiente para tentar ler aquelas palavras. Em junho daquele ano conheci um escritor uruguaio cujo nome me escapa, mas lembro de estarmos em um café em Paris conversando sobre algo que poderia ser o poema latino na história da Morte, ou sobre os preparativos para a Copa do Mundo de futebol, quando ele avistou um seu amigo. Era Borges, acompanhado por outro senhor, a servir-lhe de guia. Sentaram-se conosco para tomar um café. Senti que se havia alguém com quem eu pudesse dividir o fardo que Paul me havia entregue, era com o argentino. Falei-lhe de minha amizade com Celan e como o vira morrer, óbvio que mostrou-se enfadado com aquela conversa desconexa, mas quando entreguei-lhe a folha, quis saber do que se tratava. Expliquei da maneira mais breve e direta que pude. Borges segurou a folha por alguns minutos e ficamos os quatro calados, esperando por um gesto seu. Perguntou-me se eu era capaz de ler para ele. Me amaldiçoei por ter encontrado alguém com coragem para desvendar aquele segredo, mas que não podia enxergar, senti toda a humilhação do mundo e nada pude falar. Ainda em silêncio devolveu-me a folha, levantou-se e antes de sair disse: “O dia que estiver preparado me procure, venha a sós. Nada tenho a perder, apenas espero a morte chegar, não a temo, mas não consigo antecipá-la. Não vejo e se ousar escutar o poema, talvez eu comece a vagar pela Argentina, como um mendigo e isto me basta, mantive-me conservador por muito tempo.”
Lembrei-me do conto O espelho e a máscara e duvidei de Roldo, qualquer um poderia ter lido a história e inventado aquilo. Ele me pareceu uma espécie de Forrest Gump italiano e, ainda sentindo a necessidade de matá-lo, intimei-o.
─ Tem a folha?
─ Sim.
─ Dê-me a.
─ Jovem, o que entende de arte, de beleza, de poesia?
─ Não vou fazer uma explanação de meus conhecimentos acerca da filosofia da arte, tampouco de um termo tão difuso quanto a beleza. Muitos e mais bem conceituados filósofos já discorreram sobre estes temas e apenas limito-me a encarar a arte como algo que só cabe em sua definição quando acompanhado por uma adjetivação tal que só possa ser empregada para ela e quanto ao belo, repudio tudo aquilo que é considerado belo pelos esnobes do mundo da arte. E a poesia, apenas sinto-a, ou não vale a pena.
Roldo Bonadiman não falou mais e como estivesse participando de um ritual, retirou solenemente a carteira do bolso do paletó e sacou uma folha muito velha e gasta. Entregou-me com reverência, foi até mamãe, abaixou-se para beijá-la. Ela despertou, se despediram e voltou a dormir. Não lembro se Roldo saiu da casa ou simplesmente desapareceu. Fiquei na sala, imóvel, até o amanhecer. Os primeiros raios de sol como que me resgataram de um estado de torpor e aproveitei as primeiras luzes do dia para desdobrar aquele pedaço de papel. Olhei e, como na história de Roldo, não havia mais do que uma única linha. Li e penso ter tentado pronunciar as palavras, mas senti-me abatido demais para poder abrir a boca e senti que estaria blasfemando violentamente se fizesse vibrar no ar o som daquele poema. Pensei em rezar, mas já havia esquecido todas as preces e já havia esquecido Deus, lembrei apenas de uma passagem na Bíblia onde ele fala a Moisés: “Não me poderá ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá.... tu me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.” Se Deus existisse, eu tinha acabado de ver sua face, mas como ele não se pronunciou, pensei ter descoberto o sentido da vida. Nada fazia sentido. Julguei que o melhor a fazer era sair e jogar-me sob as rodas de um trem no primeiro trilho que encontrasse.
Escrevi estas minhas últimas palavras e deixei a casa. De minha boca nenhum som sairá enquanto permanecer nesta vida, mais nenhuma palavra ou imagem será desenhada por minhas mãos e ninguém verá este papel que trago desde Celan, Bonadiman, Borges e quantos outros ignoro, conquanto não possa destruí-lo. Se encontrar meio de por fim à minha existência, farei, se faltar-me forças é porque devo expiar minha culpa e vagar pelo mundo e se a loucura se apossar de minha mente, tomarei por um elogio da providência.
LM – 17/2/11
por Paulo Horn
Olhando no espelho depois de lavar o rosto pela manhã, Silvia enraiveceu com as marcas de olheira esculpidas em sua face que não estavam aí no ano passado. Às sete horas da manhã Dona Marta levanta-se e, pegando um copo de café recém coado pelo filho, vai para a janela da sala de estar e escondida atrás da fina cortina vigia a rotina da rua Plínio de Camaro. Ao voltar para casa após o ano novo, Marcos encontrou um sabiá morto na escada do segundo andar. Mariana esperara até a noite para desligar o telefone celular depois de ter passado o dia inteiro aguardando uma chamada de seu ex-namorado. O ex-namorado de Mariana passara o dia no trânsito engarrafado de volta para casa e pensava na mala por fazer para a viagem de amanhã, quando teria de passar na lavanderia e pegar as roupas deixadas depois do natal e correr para o aeroporto, torcendo para que o tráfego aéreo estivesse mais tranqüilo do que o de volta do fim de ano. O sol dentro da rua deixava os carros na rodovia com o motor fervendo e a fila pela marginal atravessava as muitas praias do litoral. Vivinho vendia laranjas para os motoristas enfadados enquanto sua irmã, a poucos metros oferecia balas e chicletes. O calor embaçara o primeiro dia do ano.
Na rua Plíno de Camaro as crianças corriam mais rápido nesta época. Normalmente deserta durante o tempo de escola, onde todos tinham vários cursos e os adultos pareciam ainda mais atarefados e estafados, a rua ganhava uma nova energia com o período de férias e com as visitas de parentes para as festas de fim de ano. Sueli veio passar o natal na casa da avó e descobriu que gostava de gatos, mas não podia chegar muito perto por que além da alergia que também agora descobrira, os bichos da vó haviam acabado de ter filhotes e não se deve perturbar os recém nascidos por pelo menos três semanas. Na parte de trás da casa da vó de Sueli morava Valéria, garota de vinte e poucos anos que veio para a cidade para estudar e, com as despesas de livros e o salário baixo de atendente em um salão de beleza próximo, alugou um quarto com banheiro na casa da viúva, que ficou feliz de ter alguém por perto para não ter que jogar fora o café, uma vez que nunca soube fazer pouco. Sueli ficou encantada com Valéria e toda vez que dava meio dia saia em disparada para frente de casa para receber a moça e perguntar se podia ir com ela ao salão, ver as cores malucas que dava para criar misturando esmaltes.
Marcos pegou com um saco plástico o pássaro morto na escada e o fedor putrefato do bicho lhe deu náuseas. A casa ficara trancada por uma semana e o cheiro concetrara na escada. Abriu as janelas e pegou um esfregão na lavanderia, passando muita água sanitária para tirar o cheiro de morte da escada. Poucas horas dali sua irmã traria o gato para passar uns tempos na casa já que o bicho não havia se acostumado com a sacada do apartamento, tendo pulado do primeiro andar e quebrado um dente numa perigosa aterrissagem de cara, comprovando para os transeuntes que nem todos os gatos caem de pé. Com o gato de dente quebrado no colo sua irmã tentou convencê-lo de que ele ficaria melhor em uma casa com quintal e ganhou o argumento com a interferência da ex-namorada de Marcos que achou o bicho fofinho. O gato era uma bola de pêlo gorda e preta, com um tamanho desproporcional e temperamento levemente suicida. O saco com o pássaro morto levou para fora, junto com outros sacos de lixo para que o caminhão levasse durante a noite. Botou junto com os orgânicos.
Juliana começou a ler Ulisses quando tinha dezenove anos. Mais um ano se passou e ela não saiu da página 134, a mesma de quatro anos atrás, quando exausta com seus olhos e confusa com a mistura de suas idéias e com a confusa mente por trás do livro, deixou-o com uma fita verde marcando a leitura numa estante de seu quarto e pegou uns dias de folga das leituras. Agora, na limpeza anual de papéis e na organização da estante, vendo o livro imóvel no mesmo lugar teve certeza de que nunca terminaria este livro. Sérgio recebera um vale-livro de presente de sua esposa no natal e tinha muitas dúvidas. Primeiro perguntava-se se um vale livro não era uma constatação de que mesmo casados ha tanto tempo ela não sabia nada sobre seus gostos. Ou então poderia ser um caso de desapego depois de tanto tempo de casado, de não agüentar mais ele a ponto de não dispensar esforços nem para escolher um título qualquer. E mais, o que compraria?
Mariana não desceu para o jantar e só quando teve certeza que todos já haviam se recolhido aos seus quartos foi buscar algo para matar a fome que acompanhou sua frustração no primeiro dia do ano. Depois do encontro na praia, na véspera do ano novo teve certeza que tudo poderia voltar a ser como há tempos não era. Simples. Sorriria com gosto pelos momentos vindouros, mas isso foi antes do ano novo. Não recebera nenhuma ligação desde a virada do ano. Um pedaço de torrada e um copo de água mineral com gás depois e a fome também havia lhe deixado sozinha com milhares de idéias. Nenhuma boa. Pegou o celular e mandou uma mensagem de feliz ano novo para sua tia, pois ela nada tinha culpa das expectativas frustradas que vieram com o dia primeiro. Puxou da gaveta um bloco de papel canson e uns quantos giz de cera. Desenhou o ano novo em um azul escuro como o mar na noite. Molhou um pouco as cores e passou o dedo, amassando o giz contra o papel. A tinta ficara impregnada no dedo e, passando nas bochechas como uma pintura de guerra, preparou-se para mais um tempo de batalhas. Armar-se-ia contra o ano, talvez amanhã.
Dona Marta cozinhou arroz e feijão e um pedaço de carne em uma panela de pressão. Seu filho não viria para o almoço, mas a comida feita ficaria para a janta. Assistiu à reprise dos especiais de fim de ano e depois a novela da tarde. Preferia a movimentação pela manhã, quando os carteiros faziam entregas e as crianças corriam pela rua em bando. Gostava de ver os jovens, aqueles que há dias eram crianças, hoje tentando se comportar como adultos, andando de mãos dadas; gostava de ver as indiscrições, as brigas de casais, gostava de ver a vida dos outros pela janela. Tinha um único outro grande amor: um pé de carambola que sua avó havia plantado naquele terreno quase oitenta anos antes. Durante um tempo Dona Marta ficou preocupada com o ataque das crianças ao pé na época de fruta e comprou um cachorro grande, destes policiais para tomar conta do terreno. Comprou do filho de Dona Eulália que era veterinário e trabalhava em um Pet Shop no centro. No quarto mês deu o bicho para uma irmã que morava no sitio, depois de ver várias vezes o cachorro mijar no pé de carambola.
O gato da irmã de Marcos não saia mais da escada e isso preocupava o rapaz. Era sinal de que o pássaro morto ainda não havia saído de sua casa, e o gato sentia isso. No lugar onde achou a carcaça do sabiá ficara uma leve mancha e toda vez que Marcos tocava o gato da escada via de relance uma forma de bico de pássaro que cantava com a corrida do bicho. Silvia passou mais maquiagem do que de costume e saiu apressada para o ponto de ônibus. Se perdesse o das 7 horas chegaria atrasada no primeiro dia de trabalho do ano e começar com o pé esquerdo era prenúncio de maus ventos para um ano que tinha começado já mofando. Esquecera das rugas, criando mais e mais com as preocupações do dia a dia. Na escada da casa de Marcos o gato dormia sob a sombra de uma samambaia pendurada por sua ex-namorada alguns meses antes. Dentro do vaso o rapaz encontrou o que foi o ninho do pássaro morto, ainda com um pedaço da casca de ovo de onde ele surgiu. Pelo vão do telhado volta e meia entrava algum pássaro e Marcos agora considerava colocar um forro para que não houvesse mais ninhos nem bichos mortos quando chegasse a casa.
O ex-namorado de Mariana estava no convés do navio tomando cerveja esperando pela saída do cruzeiro. Meses atrás seus pais haviam decidido não alugar uma casa na praia como de costume e ao invés disso economizaram uma quantia para levar os filhos em um cruzeiro de sete dias pela costa brasileira. Dali, Mariana era a areia da praia já longe e ele se sentia como a maré que sempre voltava até ela, mas não tinha desejo de ficar. Dividindo o quarto com sua irmã, passou os primeiros dois dias navegando sem nenhuma parada. Durante o dia passeou pelo navio, entrando em alguns restaurantes para pegar bebida. Almoçou perto da piscina junto com os pais e as irmãs, mas não gostou de ver aquele monte de gente de molho desde a manhã. Fazia tempo que não via areia e não havia sinal de telefone para ligar para Mariana. Talvez melhor. Perdeu trinta reais no cassino aquela noite. Juliana já começava a encaixotar suas coisas para a mudança. Sua colega de apartamento havia terminado a faculdade e agora sozinha já não podia bancar o aluguel. Depois de conversar com três pessoas, decidiu que era melhor alugar uma quitinete perto da faculdade para não correr o risco de ter que morar com alguém tão cheio de manias como ela mesma. Tinha dividido suas coisas em quatro grupos fundamentais. Primeiro encaixotou todas as roupas e acessórios que tinha, deixando uma pequena bolsa preparada perto do colchão com as roupas que usaria nos próximos dois dias (uma calça jeans desbotada e uma camiseta roxa com a estampa florida para o primeiro dia e um vestido listrado preto e amarelo para o segundo). A segunda coisa que encaixotou foram os dois aparelhos de som que tinha (uma maletinha bege que aberta virava uma vitrola já com amplificador que havia ganhado quando fez nove anos de sua mãe e um aparelho de cd comprado com o dinheiro de uma série de correções de monografias que atrasou em um ano a sua própria formatura). Depois vieram os utensílios domésticos, como panelas e partos, talheres copos, vasos e amontoado ao meio (pois uma nova categoria não se sustentaria sozinha dentro de uma caixa) os poucos quadros e pôsteres que tinha como decoração. Pro fim vieram os livros, organizados através de sua nomenclatura definida pelas normas técnicas. Deixara de fora da caixa apenas o Ulisses e à noite encarava a edição às escuras.
Sérgio perdeu o prazo para trocar o vale-livro, mas o manteve guardado dentro de sua carteira do mesmo jeito que manteve a dúvida em sua cabeça pelos meses seguintes. Valéria tingiu o cabelo de vermelho por meia hora e depois se arrependeu. Teve que esperar uma semana insatisfeita até que o movimento no salão diminuísse para voltar à cor anterior. Sueli queria pintar seu cabelo também, mas a vó não deixou. Imagine a neta chegando na casa da filha com o cabelo vermelho como um pica-pau. Mas Sueli sonhava que tinha o cabelo vermelho como o fogo, assim como Valéria e as duas saiam de mãos dadas pelo céu, substituindo o sol e trazendo o amanhecer. A mãe de Sueli aparecia todo fim de semana para ver a filha e descansar da correria de começo de ano. Trabalhava em uma panificadora e tinha os braços cansados de amassar pão todo dia. Sentava-se sempre numa poltrona antiga na casa da mãe, uma com braços acolchoados bem em frente à janela e dali por várias vezes observou a mãe a observar a rua. De vez em quando se sentava à sombra do pé de carambola para ver a filha correndo pela rua com as outras crianças e recordava que quando criança morria de vontade de brincar naquela árvore, botar um balanço ou simplesmente subir em seus galhos para lá de cima ver melhor os pássaros baterem as asas, mas pela obsessão da mãe nunca pode chegar perto do pé. Uma vez, quando mal havia aprendido a andar de bicicleta e suas pernas ainda não tinham firmeza no pedalar, perdeu o controle em uma pedrinha e foi bater de frente na árvore. Ficou três dias de castigo, sem brincar com as outras crianças, lavando a louça e estudando matemática na sala onde a mãe podia vigiar. Vingou-se comendo escondida as carambolas que caíram na batida.
Tudo parecia diferente neste começo de ano, exatamente como pareceu diferente no começo do ano anterior e do outro ainda. A Rua Plínio de Camaro aos poucos foi retornando à morosidade com a chegada de fevereiro. Todos corriam com seus medos e lembranças e com a espera de que o ano ainda poderia melhorar ou ainda voltar a ser o que era. Todos sentiam saudade, vontade, desejo de algo e corriam tentando descobrir do que. Todos se escondiam um pouco mais atrás de livros e sorrisos; da velocidade do dia que reclamavam uns para os outros, mas que a noite deitados em suas camas com a preocupação que vem do silencio, davam graças a deus pelo tempo que não falha. Apenas o gato da irmã de Marcos continuava deitado na escada onde o pássaro do ano novo pousou. Era um bom ano para descansar.
Thursday, February 10, 2011
Não gosto de botecos, muito menos daqueles com chão sujo e não fosse pelo preço da cerveja, jamais os freqüentaria. É o ponto de partida da noite e o de regresso pela manhã de toda sorte de seres: bichas, lésbicas, putas, estudantes pequenos burgueses querendo dar uma de descolados, poetas, funcionários públicos do décimo escalão e super heróis. Até gosto de presenças tão ecléticas, mas tenho especial antipatia por super heróis. Sempre tem um disposto a vir na direção da gente com as mais inconvenientes propostas. O último foi o Batman, com máscara, capa preta, cinto de utilidades e tudo.
Como já disse, o preço da cerveja motivou minha escolha e a mesa do fundo dava um certo isolamento, tão essencial ao ato de escrever a respeito da condição humana e suas angústias. Trabalhava seriamente com a discrição devida aos gênios em ação, amparado pela garrafa e entrincheirado na mesa. Qualquer um com bom senso suficiente teria percebido a gravidade do momento e ter-se-ia posto distante e era exatamente isto o que eu mais queria. Minhas precauções foram inúteis, mas perdoei a primeira interrupção por tratar-se de meu velho amigo Werner: um importantíssimo militar, preterido nas promoções por uma grande conspiração política e que por isso ainda ostenta a divisa de soldado. Meu amigo soldado, sempre foi um bom companheiro de copo e até não é mau sujeito, mas está sempre de taciturno e preocupado com a possível presença dos seus perseguidores. Ocultos sob a despretensão de uma mesa de bar, já tratamos dos mais importantes assuntos do país naquele boteco. De nossas conversas já saíram até planos, perfeitamente factíveis, de derrubar o governo e instaurar o mais puro comunismo, além de outros, menos importantes, como criar um site que divulgaria documentos secretos do governo estadunidense.
Na noite em questão, estávamos traçando os rumos da América Latina, tão cara às nossas preocupações quando o Batman nos interrompeu. A julgar pelo heróico entusiasmo, poderia afirmar que estava embriagado, mas depois de descobrir sua identidade, percebi que qualquer estado de espírito era possível ao mascarado.
— Eu te conheço! Eu te conheço! — Veio até nossa mesa exclamando e apontando para mim
— Eu também te conheço, você é o Batman.
— Tu é o Trezinni, da garagem, eu sou o Oliveira, filho do Oliveira.
Fui atingido pelo olhar de reprovação reprovação, pois estávamos salvando o governo da Bolívia de um golpe urdido por Washington.
— Aaahhh! O Oliveira, filho do Oliveira. Logo te reconheci.
— Esse cara é meu amigo. — O Batman apontava para mim enquanto segurava o braço de Werner. — Nós aprontamos poucas e boas no exército, ele também era amigo do meu pai.
— É, eu era.
— Mas amigão, eu tenho que ir. Você viu minha foto no jornal? Fui eu quem paralisou a sessão da Câmara ontem, antes de ser levado pela polícia, mas eles não vão me impedir assim, eu tenho um plano.
E pelo brilho no olhar, perceptível por trás da máscara, era de se supor que ele tinha mesmo um plano grandioso. Ou tava chapado. Pobre alma, ingênuo sonhador, imaginando que sua fantasiosa intervenção pudesse promover qualquer mudança no cenário da cidade. No máximo conseguiu chamar a atenção de uma imprensa faminta por factóides, paralisar a sessão da Câmara por uns minutos e rivalizar em comicidade com o festival de palhaçadas promovidas por nossos políticos.
— Agora que eu sei que tu tens amigos importantes na Liga da Justiça, nossa tarefa de implantar uma sociedade alternativa pode ficar mais fácil. — Ironizou meu amigo.
Amigos na Liga da Justiça. Ele continuou por um bom quarto de horas a me troçar, insinuando que talvez eu também tivesse uma identidade secreta, o Super-Homem, ou quem sabe o Robin, talvez o Lanterna Verde.
Sobre meu sonhador amigo super herói não ouvi falar mais nada, a não ser que estava trabalhando em uma loja do centro, anunciando as promoções, sempre mascarado. Não sei se isto faz parte do plano ou se fez um acordo com seus inimigos. Enquanto isto eu e meu amigo soldado, verdadeiros revolucionários, continuamos debruçados sobre a mesa do fundo, em nosso QG provisório: estamos arquitetando um plano para re-estatizar a Vale do Rio Doce e explodir o Cristo Redentor.
Sunday, February 06, 2011
Anunciaram, de pronto, sem mesuras de julgamento, minha execução: senti todo o alívio possível de ser sentido. Imaginava-me jovem, pouco mais que um terço de vida, mas, herança dos suicidas da família, obsedava-me não, obcecava-me a morte, o milagre da morte, minha única e mais cara certeza. Da origem, trago apenas lembranças vagas: um irmão pendurado pelo pescoço, um tio botando cicuta nas tripas, a mãe se atirando da ponte e alguns nomes de lugares. Lembro de alguém ter mencionado Londres; outros, jurando intimidade, afirmavam jamaicano. Sem o timbre do Estado no papel, poderia ser de qualquer lugar: já fui de Bonn, Paissandu, Buffalo, Dublin, nomes de cidades, agora, invisíveis.
Também incerto era meu nome. Já fui Jonh, Alfredo, Etcheverria, Ernest, Haward, Te-Hoba, Rigel. Qualquer um poderia pôr-me em conta de louco, qualquer um, bastava trazer os bons costumes no bolso e encontraria um pervertido adorador da morte, profanador de cadáveres. Soube-me homem, no amor inumano, demasiado humano, sem espírito, com alma. De frieza austera, mas sem a pecha da reprovação; a mais autentica combinação de cores, partindo do arroxeado nos lábios à pureza da palidez; minha total liberdade para o amor eterno das carnes, enquanto não se consumiam pelos vermes, eis as lembranças dos meus vícios-amores e a causa da minha condenação, libertação. Possuí, virulento de paixão, muitos corpos, com fúria, tesão, mas o amor destinei a apenas uma, indesejada das gentes que não conhecem sua verdadeira face.
Eram soldados, havia patentes, ouvia ordens para os preparativos e descobri fuzilamento. Não pensei e, se para ter o que falar, ou gabolice, creio, ter gritado, com contenção calculada, medindo as palavras: minha irmã virá me buscar. Arrependi-me. Ela viria de qualquer maneira, naquele muro, daqui a dez anos, pela fome, por vícios, pestes, susto, mas viria e senti como se estivesse blasfemando. Não me bastava o amor? Tinha de tripudiar sobre os cadáveres respirante daqueles amedrontados? Mudei minha fala, vibrando, então, minha boca completa de dentes, com toda a voz reprimida em anos de representação, e ordenei um executem-me logo. Trago gosto, alívio e, do feito, alegria, para parecer heróico.
Olhei, como me ensinaram e nunca tive vontade, fixamente, nos dezesseis olhos por trás dos fuzis e percorri matizes desconhecidos, repletos de novidades, matizes de azul, castanho, negro e, apesar do descobrimento, da contemplação do que poderia ser a outra face da minha amada, não consegui enxergar-me naqueles pequenos lagos salgados. Tentei aos bocaditos, um pouco, um fiapo, em cada um; pontos dispersos, sem um inteiro, fragmentos. Faltava imagem, busquei palavra, um nome familiar, uma carta, um bilhete deixado no vagão do trem, e eu também não estava lá. Tinha apenas, melhor, a segurança da morte, momento aziago, veio um calafrio, arrepio de delírio e fraqueza, que se fez insistente quando sumiu o chão da minha certeza: tinha ciência da morte, mas, assentara, cruel, a dúvida: e da finitude?
A voz do comandante do pelotão, naquele instante, passou para o campo das abstrações: era apenas um leve brisa açoitando, com delicadeza imprópria, arbustos semi-secos, prestes a se desfolharem no outono. Perdi a capacidade de compreender a fala dos homens, também a minha. Existiam apenas as coisas, privadas de nomenclaturas. Tentei ordenar rapidez na minha execução, talvez tenha dito isto mesmo, ou balbuciado, quase. Não eram mais palavras, eram, antes, pedaços de ar carregados com sombras, mãos, suores, pedras, vindas de um jardim ancestral, anterior aos caminhos possíveis e antes de serem sombras, mãos, suores ou pedras. Pensei em rezar, para quem? Extinguiram-se as palavras e já não mais sabia do amor, da fé, de lembranças, infinito, finitude, dúvida.
MODELO PARA AMAR
Encontrei no sofá tudo aquilo que perdi em você.
Poemas estúpidos à noite,
rugindo pela tevê
o som que me afasta aos poucos,
tudo vai sumindo
entre goles de vodca com suco de manga
e o sol bem no alto de um domingo qualquer, comigo pensando em você descendo o seu prédio e eu do outro lado da rua, não sei se você me viu e se me viu não sei se não quis me olhar ou se pensou ser melhor não me olhar e falar com outras pessoas, sair pelos ladrilhos da calçada caminhando sem se virar para trás. Mas eu sentado aqui, no canto do bar percebi que fumar já não me ajudava e que no dia seguinte eu teria a certeza de que cigarros de menta não têm o mesmo gosto quando não vem da tua boca. Mesmo assim eu trago e bebo, bebo e penso e lembro; lembro que você estava aqui discutindo sobre tudo, sobre arte, sobre música, sobre deus e sobre eu e você e minha barba e seus óculos e sobre o tamanho dos teus peitos e a cor da minha lente de contato. Tudo já estava ali, neste mesmo lugar, no canto da mesa do bar com a cerveja e as páginas do jornal amareladas que eu não tinha vontade de ler, mas que por alguma razão pareciam sempre puxar meus olhos e estava bem grande ali escrito catástrofe e eu pensava sim, é isso mesmo, tudo vai desabando, encharcando e as paginas virando com o vento e sempre a catástrofe aparecendo, e eu pedi o cardápio para ver se outras palavras apareciam e encobriam a idéia fixa de você.
Decidi que deveria começar a mudar meus hábitos, ou então deveria contornar o tempo, o que fosse mais fácil. Vamos ver, se eu voltasse no tempo ao momento em que te vi entrando pela porta do bar e sentando no balcão ao lado dos bebuns habituais, eu deveria ter me embriagado ainda mais para não te perceber, ou talvez eu devesse ter sido direto, levantado e ido falar com você, deixado você perceber que na verdade eu estava bêbado e que quanto mais eu bebo mais confiante eu fico, mesmo que eu saiba que depois de uma rejeição sua eu ficaria muito triste e talvez eu nem voltasse para minha mesa e agora me lembrei que estavam todos lá, o velho, o novo, aqueles que são eu e os que eu não conheço, e o cardápio eu sei de cor, mas mesmo assim não consigo decidir se tomo uma cerveja ou peço um café. Já bate as seis e daqui a pouco chega o velho e o novo, os que são eu e os que eu não conheço e eu ainda não decidi o que tomar, se vou comer, se vou ficar, se quero fumar e se quero o sabor de menta dos teus beijos nos beijos de qualquer uma.
Percebi que era um modelo para amar quando estava bêbado.
Mas assim, ao cair da tarde eu já penso que deveria pegar um animalzinho para me fazer companhia nestas horas tristes, neste sofá caseiro. Sim é isso, vou buscar um gato que é um bicho triste, um gato velho de preferência que não goste de meninices, de correrias, de bolinhas de papéis nem de solas de sapato e que fique deitado ronronando enquanto eu tomo vodka com o suco que tiver na geladeira. Pois bem, me visto rápido e saio, penso, mas será que devo pegar mesmo um gato que é um bicho que muito se assemelha à mulher, que é esquivo e curvo e fino e forte e mentiroso e fruído e franco e que pode esfregar a cabeça na minha mão sem ao menos gostar de mim. Talvez seja melhor eu não pegar bicho nenhum e não compartilhar o meu sofá, nem minha solidão nem minha tristeza, nem muita embriaguez nem esperança. Mas sei que sou ingênuo, sou um modelo para amar e por isso sei que mesmo que não queira gato nenhum vou atrás de uma mulher para cuidar de mim, mesmo que no final ela apenas me afunde depois de breves momentos de beleza. Sim, talvez seja essa a sina de ser um modelo para amar, ficar dependurado em molduras, galerias, telas de computador, esmaltes de unha, camisetas de garotas, carteiras, tênis, livros, lábios, lustres, listras, passos, poças, postes, cruzes, cristos, cistos, sapos, sacos, simples, sacos, velas, bolos, bolsas, beijos, beijos, beijos.
Talvez este modelo para amar deva, seja... eu.
Eu vi um cone quando sai de casa. Vi também um pássaro, um carro, um ponto, uma nuvem, uma volta, uma coisa, um coiso, um caso, mas nada de um modelo para mim. Meu modelo percorria o infinito das coisas escondidas e bebidas. O velho me ligou dizendo que ia para o bar e que também iriam o novo e aqueles que eu não conheço e eu perguntei daqueles que são eu, mas ele não soube me responder, disse que não falava comigo e com eles desde sábado e eu disse que sábado foi ontem, mas não, sábado foi sábado e hoje o velho está mais velho, o novo não está mais novo e todos que eu não conheço eu conheço um pouco e aqueles que são eu mesmo sumidos continuam sendo eu. Sentei no meu canto, com o velho e outro velho, pedi minha cerveja e fiquei ali escutando as peripécias da vida de aposentado dos velhos e pensando nas peripécias da vida de velho dos jovens que também sou eu, sentados em bares, tomando cervejas, comendo bolinhos, fugindo do sol, olhando as nuvens, fumando cigarros, lendo romances, perdendo romances, lembrando romances, romanceando lembranças com o coração partido na ponta da vista. Na ponta do peito percebi que a vida dos velhos era quase como a vida daqueles que são eu e a minha, só que eles dispõe do tempo como arrogância, como pressuposto para soltar um eu já te avisei, eu sei por que já vivi, mesmo que seja apenas para garantir a última palavra, um ar de sobriedade que pode-se perceber ser uma mentira olhando fundo nos olhos dos velhos, por entre as rugas e vendo fundo, longe, mas intacto o coração partido de toda a juventude do mundo.
Um modelo para amar não deveria passar tanto tempo sozinho numa mesa de bar, numa cama, num sofá, numa praia, numa pedra, numa cama, numa cama, numa sorte, numa tarde, numa cinza, numa, numa, numa. Acendi um cigarro e para a felicidade do velho e do velho apaguei antes de chegar na metade, pois acho que meu corpo não agüenta mais, meu estômago se revira aos avessos e eu tomo um gole por cima pra tirar o gosto, mas nada dele sair, nada do cigarro contorcido no cinzeiro virar cinzas, do dia acinzentar e cair a chuva para refrescar e me fazer deitar no sofá de casa, assistindo tevê sem me importar com canal; com bananas amassadas e picadas e batidas no liquidificador com vodka, leite e suco de manga, com bebedeiras, brigas, braços, abraços, com falta, com fita, flauta, fórmulas para completar o modelo que sou eu. Mas eu não estou no sofá e sim no canto do bar, com o velho e o velho e o novo recém chegado, com aqueles que não conheço e sentindo falta daqueles que são eu. É bom lembrar ou explicar que aqueles que são eu também se mostram como modelos para amar, cada um ao seu modo, mas indiscerníveis como grupo. A ubiqüidade com que se dão os movimentos e pensamentos e anseios e desejos e fomentos até famintos cairmos pelos dias, pelas valas, pelos ventos, pelo tempo, pelos tapas, pelas taras define nossa condição de modelos para amar sem amor nos contentos, sem contento nos caminhos, sem caminho, sem carinho, sem calmante, sem corante, sem cor, como uma pintura descascada na casa do coração.
Pois bem! Cansado como estou decidi ficar no bar, pois mesmo em casa me manteria maquinando formas de auto-sabotagem que me conduziriam ao infinito de coisas escondidas e bebidas, de modelos para amar próximos que não aceitam que talvez eu seja o modelo para amar perfeito para combinar com ela e montar um par nas calçadas do acaso confuso; talvez eu deva, eu seja e você saiba e seja e deva dizer que não devemos ser modelos um do outro, e assim saímos tangenciando a própria tangente do destino, do acaso e dos casos que não casam, dos amores não amados e dos amados não amores. Gostaria agora de ter um pouco de menta nos meus lábios. Estraçalhado como um bom modelo para amar, insurgi-me contra todas as garotas belas que me rejeitam e, imponente em minha embriaguez, decidi que conquistaria a garota linda sentada do outro lado do bar, mandando-lhe um bilhete com um poema estúpido à noite. E como seu sorriso foi uma arma em minhas mãos, decidi que o flerte era meu campo de batalha e fiquei com toda a importância, com toda a vantagem do seu sorriso ao meu bilhete em mãos, apenas esperando que ela passasse em minha frente para poder dar a cartada, a grande cartada de um amor louco, burro e bêbado. E ela passou magnífica e eu corri; corri entre as paredes de pessoas atrás de você, corri na chuva até seu carro somente para ter minha armada destroçada pela sua rejeição, sincera e cortante; sincera e reinante. Terminei a noite sentado no sofá, pensando nos poemas que disse, nos cortes que tive, nas máscaras que usei, nas mudas que plantei, nas plantas que pisei correndo no encalço daquela moça, apenas para ficar tão pisoteado como pisoteei.
Suco de manga com vodca não dá um bom café da manhã, por isso eu misturo café com cachaça e vejo que trava tudo no alto da garganta, pior do que o cigarro de menta que não veio dos lábios dela.
Percebi sóbrio que sou um modelo pra amar melancólico. E por isso eu bebo e modelo o amor sem perceber que ele me modela mais e mais e mais.