Sunday, November 13, 2011

O distrato

─ Sou parcela do Além



Força que cria o Mal e também faz o Bem!



Mefistófoles, em Fausto de Goethe.






Muitos e mais ilustres autores já trataram de temas infernais ou diabólicos tendo alguns, descrito com minúcias o sítio de perdição ou as relações tumultuadas entre os homens e o Demônio; acho desnecessário, além de ser uma heresia, citá-los. Existiram ainda estudiosos que tentaram, através de bem elaboradas teorias, definir os aspectos destas entidades que tanto medo inspiram nos crentes e, ao mesmo tempo, tanto os atrai. O respeitado Dr Laughton defende em sua obra, Locuções Satânicas, a possibilidade de existir um inferno metafísico, habitado por seres, cujas existências, seriam possíveis de serem explicadas através de teorias da Física Quântica, e que projeções espectrais de nossa consciência (ou de nosso subconsciente), poderiam sentir todos os tormentos deste inferno, mesmo após a morte do corpo. Considerando apenas os trabalhos tidos como sérios, poderíamos mencionar outras teorias de eminentes estudiosos, mas o fato relacionado a estas questões que mais me impressionou, não foi um estudo acadêmico, mas o estranho desaparecimento de um advogado, o Dr Gaston Abranches Carreeiro.



Alguns céticos atribuíram este desaparecimento ao fato do Dr Carreeiro estar envolvido com conhecidos narcotraficantes, tendo sido eliminado por conhecer demais as operações destes criminosos. Bastante plausível esta hipótese, entretanto alguns fatos inexplicáveis ainda pairam sobre esta história.



No verão de 1973, para cumprir as exigências do curso de Direito, iniciei um período de estágio não remunerado na famosa banca do Dr Carreeiro. Entre os clientes habituais do escritório, havia muitos políticos importantes, grandes industriais, além de ricos empresários, apontados à boca miúda, como sendo Barões da Droga. Devido a tão seleta clientela, chamou minha atenção o fato de um completo desconhecido, com modos educados, apesar de acanhado e com um aspecto humilde, marcar um harário com o Doutor, que não cobrava menos de quinhentos cruzeiros por uma simples consulta. Cobrava valores altos justamente para não precisar atender clientes menos importantes, invariavelmente encaminhados para os estagiários. Assim, quando algum destes clientes concordava em pagar pelo atendimento exclusivo do Dr Carreiro, ele o recebia acompanhado por um advogado iniciante ou um estagiário destinado a ser o verdadeiro condutor do processo, cabendo ao Doutor apenas assinar as argumentações e quando estritamente necessário, comparecer a alguma audiência, não deixando de cobrar até os minutos.



Este desconhecido de aparência humilde tendo solicitado uma audiência com o Dr Carreeiro, fora aconselhado pela recepcionista a ser atendido por outro advogado, com a agenda menos ocupada e com honorários mais de acordo com pequenas causas, além de que, o Doutor só teria um horário livre em uma semana. A questão financeira não pareceu ser um obstáculo, pois revelou estar disposto a pagar em dobro para que pudesse ser atendido no mesmo dia e, diante da firme resolução em pagar, ele foi conduzido ao escritório do Dr Carreeiro, após mais de quatro horas de espera. Eu fui escalado para ser seu assistente.



O cliente era um industrial chamado João Walter Gomes e apesar de seu aspecto desleixado, seus modos eram de uma pessoa com certo refinamento; falava com clareza e sua fala destoava do aspecto simplório, mesmo com o evidente estado de inquietação e medo estampado em seu semblante.



─ Muito bem meu senhor, o que o traz até meu escritório?



─ Doutor, antes de explicar as minúcias do meu caso quero informá-lo do meu firme propósito em aceitar todas suas exigências, inclusive quanto aos honorários, contanto que o senhor aceite e conduza pessoalmente este processo.



─ Mas sem saber do que se trata, não posso dar nenhum parecer.



─ Pois bem, quero cancelar um contrato, um contrato muito peculiar.



Estendeu na direção do Doutor, um envelope grande, bastante surrado onde havia um documento manuscrito em tinta escura, marrom talvez. Não pude ler o contrato, estava com o Doutor, mas descobri seu conteúdo após o seu esbravejamento.



─ O senhor está achando que eu não tenho mais nada para fazer? Isto aqui é uma firma séria e respeitada, pouco dada a brincadeiras, portanto se era só isto que o senhor tinha para me mostrar, considere encerrada a consulta.



Bastante irritado por estar perdendo seu precioso tempo, o Dr Carreeiro atirou o documento sobre a mesa e continuou.



─ Contrato de venda da alma ao Diabo! Era só o que me faltava! Faça-me o favor!



─ Tenho ciência da importância de seu tempo, mas, mesmo que o senhor não aceite meu caso, eu já paguei por uma consulta, portanto queira por gentileza escutar o que tenho a lhe falar e depois o senhor estará livre para tecer suas considerações e aceitar ou não este caso.



Ele proferiu estas palavras em um tom de voz baixo, porém firme, encarando diretamente os olhos do Doutor que não teve outra saída que não fosse, pelo menos, escutar aquela lengalenga.



─ Procurarei ser breve e sucinto. Há cerca de cinco anos, minha empresa, uma fabrica de garrafas e artefatos de vidro, começou a apresentar resultados negativos em seus balancetes, mas indiferente aos rumos da empresa, continuei mantendo o mesmo padrão de vida, com freqüentes viagens para a Europa, safáris pela África, festas monumentais freqüentadas e comentadas pela fina flor de nossa sociedade, enfim, mantive-me alheio aos problemas da fábrica até o dia que um dos diretores informou que estávamos à beira da falência. Interrompi todas as minhas atividades sociais e passei a me dedicar exclusivamente ao processo de recuperação da empresa. Telefonei para ministros, generais, empresários, banqueiros, tudo em vão. Até que o inevitável aconteceu. Tivemos a falência decretada e, meus bens particulares, seqüestrados pela justiça. Após este fato vários acontecimentos foram se sucedendo, como em um efeito dominó; tive as portas da sociedade fechadas para eu e minha família, nossos amigos debandaram, minha amante me trocou pelo síndico da massa falida, dívidas que estavam sendo pagas ao longo dos anos foram imediatamente executadas, enfim, de uma hora para outra, eu estava na miséria, não podendo sequer, manter meus filhos na escola, o que foi a gota d´água para minha esposa, que me abandonou levando as crianças. Não tendo mais ninguém a quem recorrer e num momento de insânia, inspirado em Fausto, tencionei invocar o Diabo e fazer um pacto. Recorri ao livro de nigromancia, In Saecula Saeculorum In Albis, e recitei algumas palavras malditas, mas como não fui atendido, recorri a outra maneira de fazer o pacto, descrita no livro e, com meu próprio sangue, redigi este contrato no qual apus minha assinatura. Para meu espanto, no outro dia, já ignorando aquelas besteiras de Satanás, ao pegar o Contrato para destruí-lo, percebi ao lado de minha assinatura a rubrica: LCF. Imaginei estar vendo coisas e me sentindo cada vez mais insano, tomei a decisão de pôr um fim em minha vida miserável. Encontrei um lugar que nos traz água à boca para um afogamento e quando me preparava para atirar-me às águas do rio, um homem me chama e pergunta sobre meu intento. Soluçante, contei-lhe minhas desgraças e meu propósito. Era um missionário espanhol chamado Carlos Herrera. Ele me acalmou, consolou, falou palavras confortantes e me convidou para ir até a casa do mais poderoso dos lideres, a casa de Deus.



Esta conversa aparentemente sem propósito, parecia ter finalmente atraído a atenção do Doutor.



─ Prossiga senhor Gomes.



─ A proposta do missionário me pareceu bem mais vantajosa do que a de Lúcifer: bastava doar dez por cento de meus bens para a igreja e passasse a contribuir mensalmente com mais dez por cento do que eu viesse a ganhar, com a glória de Jesus. Desta forma, segundo ele, recuperaria meus bens alem de garantir um lugar no Paraíso, algo bem melhor do que banhar-se nas águas do Letes. Passei a participar assiduamente dos cultos, doei, mesmo estando temporariamente indisponíveis, parte de meus bens para a igreja e com a graça de Deus, obtive algumas vitórias judiciais no processo falimentar, como o desbloqueio de grande parte de meu capital particular; em seguida consegui reassumir o controle da fábrica, renegociei dívidas em condições favoráveis e após alguns meses, alcancei minha plena reabilitação, muito mais completa do que a de César Birotteau. Recuperei minha família e minha amante e graças a retomada de meus rendimentos, passei a ser o maior doador da igreja. Estava de volta e agora em grande estilo, ao lado de Jesus. Mas havia aquele contrato e nem sei por que, o mantive guardado todo este tempo, sem revelar a ninguém, nem mesmo ao pastor. De uma hora para outra comecei a pensar a todo o instante nele, não me saia do pensamento. Eu orava, tentava esquecer, ignorava, mas ele estava lá, latente, apenas esperando o momento de reclamar seu pagamento. Encontrei na igreja o conforto necessário para manter a tranqüilidade quanto ao destino de minha alma, que já tinha seu lugar assegurado, não obtendo no entanto a mesma segurança quanto aos meus bens e entrei em uma crise depressiva terrível e me isolei completamente, até que recorri mais uma vez, ao In Saecula Saeculorum In Albis e descobri a possibilidade de obter alguma chance se nomeasse um negociador ou representante. É onde o senhor entra.



─ Mas como poderei eu intimar Lúcifer? Devo mandar a notificação para onde diabos afinal? Isto tudo não passa de uma tremenda maluquice.



─ Eis a minha proposta: Como ainda sou um homem rico, estou disposto a pagar muito bem por este distrato, além de pagar mensalmente seus honorários, a título de manutenção do processo, bastando para isto, que o Doutor elabore todas as argumentações, assine e mantenha arquivado em seu escritório até que surja algum fato novo.



A menção de um lauto pagamento e mais um significativo valor todos os meses, por um período indefinido, a se estender por anos, aguçou o interesse do Dr Carreeiro por aquele caso. Vislumbrava a maneira mais fácil de ganhar dinheiro que se apresentara em toda a sua carreira.



─ Quais argumentos, poderíamos apresentar? E como o senhor pretende efetuar estes pagamentos



─ Argumentaremos que minha recuperação se deve ao ingresso na igreja e não pela intervenção de Satanás e estou disposto a assinar um contrato de serviços advocatícios além de deixar um imóvel de bom valor como garantia para pagamento dos valores acordados.



O Dr Carreiro não teve mais dúvidas, no dia seguinte a esta conversa, encarregou-me de acompanhar o cliente até o cartório de imóveis para efetuar a hipoteca e ao cartório de registros e notas, para autenticar o contrato. Neste dia, o senhor Gomes apresentou-se de maneira diversa ao dia anterior, estava bem vestido, barbeado e, principalmente, aparentava uma serenidade própria daquelas pessoas que vivem de bem com a vida, era outra pessoa.



Terminado o estágio, fui trabalhar em um banco e praticamente não tive mais contato com o Doutor, a não ser em encontros fortuitos no fórum. Somente muitos anos depois, li nos jornais sobre seu misterioso desaparecimento. Apesar do caráter puramente lúdico daquele caso de venda da alma, nunca o esqueci, talvez por obra de alguma veia supersticiosa, e esta foi minha primeira lembrança ao ler as manchetes nos jornais. Procurei obter mais informações do caso. Segundo o depoimento de testemunhas, a última pessoa a ser recebida pelo Doutor, antes de sumir, foi um certo Lúcio Fernandez de Dite, personagem desconhecido de todos no escritório e descrito como sendo um cavalheiro muito refinado, que queria tratar de um litígio antigo movido contra ele, por um cliente do Dr Carreeiro, falecido alguns dias antes. Constava ainda nos depoimentos, que nada mais havia sumido do escritório a não ser a pasta do cliente João Walter Gomes. Em nenhum processo, os funcionários da banca encontraram qualquer coisa a respeito deste Lúcio Fernandez. Cada vez mais curioso, fui atrás de informações sobre o senhor João Walter, tendo encontrado, no jornal de uns dias antes, uma nota de falecimento. Investigando as causas da morte, descobri que ele morreu do coração, minutos depois de ter recebido a visita de alguém que se identificou apenas como sendo um velho amigo cujo nome, de acordo com um cartão de visitas encontrado na mão do falecido, era Lúcio Fernandez de Dite.



Já não podia deixar de esclarecer esta história fantástica e procurei encontrar o senhor Lúcio, tarefa bem mais fácil do que poderia supor: ele estava detido em uma delegacia para averiguações, por ser suspeito do desaparecimento do Dr Carreeiro. Valendo-me de minha credencial da OAB, pude solicitar uma visita como se fosse seu defensor e travar uma conversa absurdamente reveladora.



─ Não chamei nenhum advogado. Aliás, não preciso de advogado.



─ Não vim para defendê-lo, apenas fui atraído pelo caso por ter, há muito tempo atrás, conhecido o Dr Carreeiro e também o senhor João Walter Gomes.



Mencionei os dois nomes para ver qual sua reação.



─ Agora estou lembrado. Você é o estagiário que redigiu o distrato do Gomes. Você não passa de uma sombra também.



─ O que o senhor quer dizer com isto?



─ Uma sombra como o Gaston. Fique você sabendo que ele não está desaparecido, ele simplesmente nunca existiu. Não passou de uma projeção espectral do João Walter. Veja a ironia. Ele tentou me enganar, mas acabou procurando ele mesmo para passar o ônus do contrato ao contratar a própria projeção.



─ Não estou entendendo o que o senhor quer dizer.



─ Você acredita que é um ser único e absoluto, mas não passa de um reflexo daquilo que outra pessoa produz. Sua vida boa e confortável não é nada mais que um sonho de algum favelado qualquer, assim como a existência do seu amigo Doutor não passava de um reflexo daquele bobalhão do Gomes, que estava fadado a cair nas minhas garras, não importando o quanto esperneasse.



─ Você quer que eu acredite nestas sandices? Se você fosse quem está querendo insinuar que é, ainda estaria nesta cadeia imunda?



─ Que melhor lugar para um diabo, do que este? Enquanto descanso, recruto novos soldados nas celas e novos aliados nas salas dos advogados.



─ Não seja insano e use um clichê menos óbvio..



─ Insana é o que vocês chamam de vida. Você sabe que estou falando a verdade. ─ Tanto é que já vejo em seus olhos, prestes a se apagarem, o medo de se descobrir o subproduto de um desesperado e não restar para você, nada mais do que uma vaga lembrança, um déjà vu no sonho de outrem.



Não tive mais paciência para suportar tantas demências e saí imediatamente da delegacia. Estava aturdido com aquele palavrório todo e minha cabeça doía. Precisava ir para casa o mais rápido possível. Fui direto para o quarto, sentia urgência em descansar. Caí em um sono profundo, pululado por sonhos inquietantes e desconexos, até acordar, muitas horas depois, em um catre de um barraco da favela. Não sei como fui parar naquele lugar miserável e minha cabeça ainda doía muito. Um gosto forte de água-ardente vagabunda amargava minha boca. Estava na hora de ir trabalhar.



Tinha mais um banco para levantar paredes e na mente, lembranças que não eram minhas.



LM

Sunday, November 06, 2011

A Anfisbena e as cerejas

Plínio e Bruneto Latini a descreveram, cada qual a seu modo, se não a viram, intuíram-na e Sir Thomas Browne a negou, mas isto não impediu a Anfisbena de ter existido. Muito menos impediu-a de ter experimentado do fruto proibido. No Tratadus Originalis, de Augustiano Priemeto a clássica descrição do fruto proibido como sendo uma maçã é categoricamente refutada e, em seu lugar o autor coloca a cereja. A troca do fruto deu origem ao mito no qual o veneno da Anfisbena se teria originado de duas cerejas da árvore do bem e do mal colocadas em cada presa. Tendo a Anfisbena duas cabeças, podemos supor ter sido Deus enganado pelo animal que, de forma sutil, escondeu parte de seu corpo. A maldição divina caiu sobre a serpente a Anfisbena, para não chamar a atenção para si, desde então vive esgueirando-se entre sonhos, mitos e realidade. Não há registros conhecidos descrevendo a cereja carregada de veneno, mas a tradição oral vem colocando esta fruta em lugar de destaque em coberturas de bolos e sorvetes, bem como no toque final de drinques e batidas.

Não satisfeita em ludibriar o Criador, a Anfisbena voltou ao local do crime e municiou-se com considerável quantidade de frutos da árvore do Jardim do Éden. Pequenos, tornaram-se carga fácil de ser transportada e este estoque garantiu a perpetuação dos poderes do animal até os dias de hoje. Dizem que quando a Anfisbena se distrai, deixa cair uma cereja e aquele que a encontra e a devora é tomado por alucinações, mas isto ainda não explicaria como ela consegue extrair veneno mortal da fruta. Theodor Kutb Wufniks III nos apresenta o relato de um caçador das Ilhas Salomão, que teria encontrado algumas cerejas em um ninho abandonado de Anfisbena: "Nunca pensei em experimentar este tipo de fruto, sempre tive em bom termo os tantos alertas acerca de seus perigos, mas um átimo de desassossego, experimentei uma. O que parecia ser algo banal e corriqueiro, mostrou-se uma aventura intensa, da primeira ficou um gosto na boca, não sabia se bom ou ruim, e tive de tomar outra. Enquanto se mastiga, não há nada melhor, instantes depois sua cabeça pesa e se arrepende profundamente de ter sucumbido, mas passados alguns dias, volta aquele gosto na boca, nem bom nem ruim e temos de espremer outra entre os dentes." Segundo Wufniks III, o pobre homem perdeu completamente o juízo e partiu, floresta adentro, determinado a exterminar a Anfisbena, ou, segundo os céticos, a tomar-lhe a carga de cerejas.

LM

Sunday, October 30, 2011

Petits mensagens en bouteilles

Continua a chover e as gentes desta terra pensam que não: não percebem que os pingos de chuva continuam a se jogar das nuvens, mas secam antes de cair nos telhados das pessoas de bem. Deve ser por isto que só eu percebo, deixei de ser uma pessoa de bem. O problema é que como não sou exatamente mau, tenho de ficar no limbo, onde a chuva não é farta, mas as goteiras nunca erram seu alvo.

LM   

Monday, October 17, 2011

Motivos do amanhã


 

Não havia motivos, apenas pequenas saliências nos vãos das idéias e ele percebeu: o amanhã começou mais cedo naquele dia. Tomou o café, — mais forte do que o habitual —, estrangulou um ou dois rinocerontes e saiu. Sair de casa não se classificava entre as coisas mais prazerosas era, antes, um exercício de superação. Não gostava de multidões, de lugares abertos, de sol, vento a balançar-lhe os cabelos, bom dia e afins: preferia a companhia das baratas e dos silenciosos porta-retratos sem fotografias.

Uma vez instalado no seio da sociedade, tratou logo de assumir os trejeitos do personagem mais adequados às rutilâncias do convívio social, da moral e dos bons costumes e adjetivou com qualidades sublimes suas ações cotidianas. Cumprimentou amavelmente a senhora Bastos, devolveu afetuosamente a bola para o menino Eduardo, esquivou-se cavalheiristicamente de olhar para as bem torneadas pernas da datilógrafa Antonia e pediu, educadamente, fogo para acender o cigarro, a um simpático transeunte, que mui gentilmente cedeu-lhe uma fulgurante chama azulada. Era, afinal e ao cabo, um sujeito normal e de bem.

Vomitou escondido do contínuo Aderbal, quatro blocos de concreto, duas braças de capim-serra, e uma travessa de vidro. Auto-flagelar-se era parte do ritual diário de tolerância. Precisava tomar mais café e tolerar sereshumanosquefalavamcoisassemimportânciaotempotodo: Os números da economia indicam um grave retrocesso político-financeiro nas contas da corrupção do poder público envolvido com a conquista do espaço midiático das esferas mais abastadas das classes D, E e F e das classes menos favorecidas pelas chuvas torrenciais que inundam as bolsas dos grotões financistas e das planícies ensolaradas coberta por chalés de verão, hedges funds, corrida eleitoral, não atingiu as metas, o capítulo da novela, vai chover, et cetera e et caterva. Tomou mais café.

Quando a carruagem de Apolo deixava apenas seu rastro crepuscular, o valoroso guerreiro retornou ao seu soturno refúgio, longe dos olhares curiosos de homens e mulheres comuns. Escorria cafeína pelos cabelos e era mais um desempregado. O café não o ajudava mais e sua necessidade imediata era ficar simplesmente bêbado. Talvez assim entendesse porque sua vida não dava certo como a vida das pessoas normais. Bebeu o que encontrou em casa até reduzir seu vocabulário em 98% e imaginou estar sentindo-se só, imaginou estar sofrendo e imaginou sentir dor e saiu. Gostaria que aquela fosse uma noite fria, com uma fina e intermitente chuva a deprimir as pessoas, mas não era. Estava quente e as pessoas nas ruas pareciam especialmente felizes, sem preocupação em dormir cedo. Dezembro é uma merda.

Não sabia o que poderia ser mais patético: sentir-se deprimido às vésperas do Natal ou ver aquela multidão de pessoas felizes e ávidas para comprar qualquer coisa que possa ser carregada para todos verem, como se fosse um atestado de pertença ao reino da felicidade. Andou, ou imaginou ter andado e encontrou na rua uma sacola com panos vermelhos, era uma roupa de Papai Noel, ficaria com ela. Comprou uma cerveja e, num beco, resolveu vestir a roupa, tinha até gorro e barba branca. Tirando o fato de estar cambaleante, era um perfeito bom velhinho.

Preservando sua identidade secreta sob a máscara escarlate, o herói entra em um reduto de vilões, mal-feitores, cafetões e prostitutas, escroques de toda espécie. Eles percebem sua imponente presença e se calam, por uma fração de segundos.

No bar ninguém notou sua presença, não era a única celebridade presente, lá também estavam o Batman, o Diabo e o Homem Invisível, além de mais uns dois Papais Noel. Já era amanhã, em casa os rinocerontes estrangulados já deviam estar começando a feder, o pior é que sempre apareciam mais. Sentiu uma necessidade de pôr algumas fotos nos porta-retratos, talvez amanhã começasse a procurar uma câmera.


 

LM


 

Sunday, October 16, 2011

Uma noite ainda

O caixão no meio da minúscula sala de estar dificultava a circulação de tanta gente. Eram apenas curiosos, querendo dar a última olhadinha no cadáver. O morto, quando vivo não era muito popular. Os curiosos queriam mesmo ter certeza da morte. Algumas tias cochichavam reminiscências pré-históricas. Lembravam, da infância e das travessuras. Dos namoricos pelos cantos da casa e das confusões com os meninos da rua do açougue e do adolescente belo e indomável. Evitavam falar dos últimos anos. Era o suficiente lembrarem-se apenas dos tempos de inocência e rebeldia inofensiva..

    Eram nove horas da noite. O frio aumentava o desconforto dos velantes. O defunto continuaria a interpor-se nos seus caminhos por mais algum tempo. A morte ainda não lhe apagara todos os rastros e já era possível perceber olhares e intenções diversas para a viúva. Ferdinando era só solicitude.

Anabela parecia ter lágrimas acumuladas há muito tempo, mesmo assim, percebia, impassível, os pequenos movimentos ao seu redor. Continuava seu choro sem motivo. Sentia o vazio e a perda de algo ignorado. Estendido em sua sala, o cadáver de alguém que ela amou um dia. Casaram-se, até que a morte os separou.

Já assumindo o papel de viúva, aturava as pessoas olhando-a com compaixão. Tão solícitas e amáveis, tentando consolá-la com uma generosidade ensaiada: "Mas você tem de comer alguma coisa, precisa se alimentar". A comida a constrangia. Em certas ocasiões, comer lhe parecia algo impensável, como se o animalesco se impusesse ao humano. Não aceitava o instinto de sobrevivência do corpo desdenhando os melindres da alma.

    Como uma águia que estende as asas sobre o ninho, Ferdinando se aproximou.

    — Ele sempre te maltratou e você ainda chora. Amava ele ou amava o sofrer?

— Houve um tempo, antes de nos casarmos, que eu o amei. Amei mais do que tudo na vida. Acho que choro por aquele tempo. Ou talvez pelo homem que ele poderia ter sido. Havia algo de muito bom dentro dele, mas ele pensou que poderia se desviar deste caminho doce e depois retornar. Sempre falava que estava passando por uma fase ruim, mas logo tudo passaria. Nunca acreditei nisto, e ainda assim, sempre dava mais uma chance. — Ela falava com convicção, só não conseguia convencer a si mesma. Duvidava daquele amor e o período doce não passara de amores juvenis, embalados por uma liberdade recém conquistada onde tudo era permitido: amar livremente, viajar em asas ácidas, escancarar todos os poros para absorver tudo da vida. Estas lembranças a frustraram, pois de tudo o que experimentou nada permaneceu. Nem a felicidade, nem a tristeza. Tudo passou. Restava um caminhar letárgico rumo à morte. Então o que a impedia de se entregar novamente às paixões e às experiências, era só pegar uma garrafa de vodka e levar Ferdinando para o quarto, quem sabe convidar também aquele negro, vizinho da Sebastiana, que ronda a mesa de canapés. Não seria a primeira vez ou, se preferisse, Margarida já havia dado mostras de sua queda por mulheres, também não seria a primeira vez. Poderia conseguir um pouco de coca ou um baseado. Tinha consciência da própria beleza e do fascínio que exercia em homens e mulheres. No entanto, apenas chorava ao lado do caixão daquele que a humilhou e a fez descer até os porões mais alagados. "Deveria agarrar o Ferdinando aqui mesmo e foder em cima do caixão." O que a impedia? Respeito aos mortos não era, já assistira muitos serem mortos e há muito já não se incomodava com o fato. "Acho que amanhã vou pr'aquela igreja que uma das tias falou. A merda é ter que dar 10% todo mês. Talvez noutra hora, deixa ver o que sobra do inventário."

    Uma das tias trouxe chá.

— Beba querida, vai te fazer bem. E vista um casaco, a noite será gelada.— Se esforçava, com as mesmas palavras de outros velórios.

— Saiu alguma coisa no jornal? — Perguntou distraída Anabela

    — Uma nota no obituário e uma matéria pequena no pé da página policial.

    Ferdinando se maldizia por não ter tido a idéia de trazer um chá ou oferecer o casaco. Também não trouxera nenhum exemplar do jornal. Outra tia reabastecia a garrafa de café e a bandeja de canapés e cochichava com energia para o negro.

— Pára de comer tudo seu morto da fome. Tu não era amigo do finado e nem da viúva e é o que mais come.

Ele fazia de conta que não era com ele e dava mais uma volta ao redor do caixão.

    Aderbal começava a se irritar com os urubus. Margarida fitava Ferdinando, cada vez mais indignada, cada vez mais enciumada. As tias ofereciam mais chá para Anabela enquanto o negro, vizinho de Sebastiana, rondava a mesa.

Uma mistura de odores impregnava a sala. Fumaça dos cigarros, cravos murchos, suores antigos, cachaça e café, tudo se misturando com os sussurros das rezas aprendidas em outros velórios, ditas em atos coreografados e cheias de soluços disfarçados.

    A terra já estava de escancarada, esperariam amanhecer para se livrarem de uma vez do cadáver. Anabela aspirou com força a fumaça do cigarro, deu uma olhada ao redor e retribuiu com um meio sorriso os pêsames do negro. Permanecia sentada muito próxima ao caixão "Caxãozinho vagabundo, já tem até buraco de bicho."

Sunday, October 09, 2011

A verdade

Borges conjeturou estar a verdade nas quarenta sílabas das catorze palavras casuais escritas pelo deus nas listras dos tigres. Afonso Argifontes, no livro As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho, descreveu, através de uma intrincada fórmula matemática, os caminhos para chegar à verdade. Partiu do pressuposto de existirem não uma, mas uma série de verdades aceitas pela sociedade como, verdades verdadeiras. Identificada essa série inicial, Argifontes, sem, no entanto, informar os critérios de seleção das verdades iniciais, enumerou os critérios de aceitação e de promoção das categorias de verdades, baseados em cálculos quantitativos da população da Terra, a distribuição demográfica das gentes nos países e a quantidade de formas possíveis de repetir os enunciados. Também imaginou, ou pensou ter imaginado, um meio de medir, agora qualitativamente, a força dos enunciados escapulidos das bocas dos melhores seres humanos. A definição desta última categoria não ficou exatamente clara nas deliberações argifontianas e, imagino não ser difícil encontrar tal classificação nas páginas das principais publicações, periódicas ou não, dos países avançados e seus análogos, abaixo dos trópicos.

    Faltou, no entanto, Afonso Argifontes explicar-nos como convencer aos menos favorecidos intelectualmente, a aceitarem a definição última do que é a verdade. Arrisco lembrar, para esta tarefa, do caráter messiânico de certas profissões, como a dos jornalistas e dos bookmakers. Também tenho fé na imparcialidade e na lisura dos meios de comunicação de massa, especialmente os providos de grande aparato tecnológico e financeiro, que podem levar aos mais ignóbeis grotões, a luz de formulações como as contidas em As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho.

    Já Marcomino di Lampedusa, primo em elevado grau de Giuseppe, muito provavelmente inspirado nas notas de Afonso Argifontes, percorreu o mundo tomando notas de todas as verdades quanto pudesse anotar. Preencheu 82 volumes com as mais variadas formas das mais puras verdades jamais proferidas por homens e mulheres de bem, membros da fina flor de suas sociedades. Compilou suas notas e publicou, vindo a ser aclamado por público e crítica, Os poderes da verdade — Por comentadores diversos e notas de Resemundo Fialho, cujo intróito cita humildemente Diderot: "Devem exigir que eu procure a verdade, não que a encontre.", como se não tivesse logrado retumbante êxito em sua busca.

    Assim, todo aquele que tiver qualquer dúvida quanto o que é realmente verdadeiro, jamais deverá deixar de consultar as glorificantes páginas do Os poderes da verdade..., sob pena de sucumbir ante o peso das mentiras e das meias verdades. De minha parte, dispenso a aventura perigosa e insana de aproximar-me demais de tigres e símiles.


 

LM

Desejos do Diabo

Ele se disse ser o próprio Diabo, o senhor das trevas, mestre do Inferno e, após esta infernal apresentação, olhava-me fixamente. Depois de um tempo de mútua observação começamos a conversar sobre as propostas e possibilidades daquela noite. Fumávamos, bebíamos cerveja e uma vodka barata vinda de uma garrafa de plástico. Sempre imaginei que ele tivesse gosto mais refinado, pelo menos a cerveja estava bem gelada.

— Tenho sido acusado das maiores injustiças, ele não sabe mais como manter a farsa que se criou em torno da sua igreja e agora tenta encontrar uma justificativa para as próprias mentiras. Veja você, que nem o inferno me pertence, dizem que é meu lar, meu reino, mas não posso nem chegar perto e já sou escorraçado por seus cães de guarda, um bando de lobos em pele de cordeiro, ou melhor, em pele de pombo, aquelas asinhas são ridículas, gosto de imaginar o Batmam com uma capinha emplumada. Minha casa é aqui, embora não possa reclamar, tenho sido muito feliz, sempre tive a mulher que quis na cama que escolhi, sou muito íntimo de algumas das maiores personalidades e as comidas e bebidas daqui não são tão ruins. Mas porque não moro no inferno? Você deve se perguntar. É simples: lá é o porão desta ditadura, é lá que são jogados aqueles que ousaram a pensar de maneira independente, é para lá que vão os que tentam levantar a voz contra os desmandos e as baixezas deste regime. — Achei meio batido esse discurso, mas deixei o cara falando mais merda pra ver até onde ia.

— Sabia que JC foi morto por que tava fazendo a cabeça da negada lá da Palestina e o chefe não gostou? Não foram os judeus e sim o cara quem mandou pendurar o próprio filho, se bem que não sei não se era mesmo filho dele, José andava se esfregando na moça. Bem, isso lá é problema deles e mesmo tendo nascido naquela família, até que o JC não era dos piores, meio pancada, mas boa praça. Bem, deixemos essa conversa e vamos ao que interessa: Compro a tua alma por quinhentos cruzeiros.

— Nem tem mais esse dinheiro. Que diabo mais burro.

— É mesmo? Bem, mas eu quis dizer quinhentos dólares.

— Ta melhorando, já passou até pra dólar.

— E então?

— Quinhentos euros, uns três torrões de erva e mais umas garrafas de vodka russa e podemos discutir os detalhes.

— Bem, vamos aos detalhes: não tenho euros e não sei aonde encontrar erva. Que erva é essa?

— Que caralho de diabo mais tanso. Vai procurar tua turma que já tá me enchendo o saco esse papo de viado. Se não tem dinheiro não leva fungadinha no cangote. Já não ando dando muita sorte ultimamente, pouco serviço, e ainda ter de aturar papo de bicha bêbada. É pra trincar os bago.

— Está aqui, escrito em letras bem legíveis e no jornal, que é pra todo mundo ver: Estivador com diploma universitário. Realizo seus desejos íntimos e profundos.

— Então tá já que tu é um figurão dos infernos, cobro só cem euros.

— Pela alma?

— Não. Só pelo corpo.

— E aquilo sobre quinhentos euros, erva e vodka russa?

— Daí tu leva corpo e alma, mas só por um fim de semana.

— Deus abençoe os classificados.


 

LM

Sunday, October 02, 2011

Orphia

As pessoas nascidas em Orphia podem ser consideradas imortais. Elas morrem, mas algum tempo depois de deixarem esta vida, nascem novamente e o que é mais impressionante, jamais esquecem suas existências anteriores. Não me perguntem como isto acontece, ou porque só em Orphia ocorre este fenômeno, nem os moradores de lá têm estas respostas, apenas relato minha experiência, que pode ser facilmente comprovada por qualquer um, basta passar uma temporada naquela cidade e tirar suas conclusões.

Morei entre os orphianos por quatro anos e, como eles têm a certeza do retorno, não cuidam-se como nós, tampouco temem a morte e isto provoca um alto índice de mortalidade, especialmente pelo suicídio. Eu, da minha parte, teria medo de meter uma bala em meus miolos, ou de atirar-me no rio Ciriano, que corta a cidade. Claro, aqueles a ocuparem altos postos na hierarquia social ou econômica não fazem tanta questão de partirem, especialmente porque não se tem controle algum sobre como retornará. Pode voltar com outro sexo, em outra família, um fortão peso-pesado pode tornar-se um tísico amarelo de 47 kg, rico voltar pobre, bonito tornar-se feio, com outra cor da pele. Sabe-se apenas isto: quem morre renasce e preservará todas as lembranças das vidas anteriores, só não se tem memória da estada no outro lado. Desta forma não se sabe se é melhor manter-se morto ou retornar, nem se há como escolher.

Nos primeiros meses de minha estada em Orphia confesso ter sentido uma ponta de inveja de seus moradores. Poder ter quantas chances quisesse na vida, desistir de uma vida para tentar a sorte em outra, ou manter-se vivo por mais tempo quando encontrasse uma existência que valesse a pena, continuar tantos projetos quantos quisesse, que de outra forma não poderiam ser tocados adiante. Conheci alguns casos assim, um escritor cuja obra, ainda inacabada, já contava com 2701 volumes, um cientista que já havia retomado a mesma experiência 32 vezes e um apaixonado, que tentava conquistar a mesma pessoa por 9 vidas. Este último me confessou pouco se importar como sua paixão retornava, pois era um amor transcendental, metafísico, só não havia ainda convencido a outra parte, mas tudo bem, tinha todo o tempo do mundo.

Outros, mais avarentos, e não eram poucos, enterravam seus tesouros para recuperá-los quando de suas voltas. Por isso o solo de Orphia é todo escavado, esburacado: sempre tinha um vivo, e também não eram poucos, tentando encontrar algum tesouro alheio escondido.

Jurar alguém de morte é uma coisa sem sentido lá e os criminosos também não são condenados à morte, mas à prisão perpétua e nos casos mais graves, a pena extrapola mais do que uma vida. O difícil é encontrar o criminoso em sua nova reencarnação. Nenhuma marca física permanece e se isto ocorre, é por puro acaso, assim, a não ser que a pessoa fale quem foi e prove, fornecendo detalhes precisos, ninguém pode ser reconhecido. Quando descobri isto voltei a conversar com o apaixonado e perguntei como ele poderia reconhecer sua paixão: "Enxergo com o coração", respondeu-me. Lembrei-me da raposa do Pequeno Príncipe e, como a raposa podia fazer isto, aceitei com possível a explicação do apaixonado.

Com o passar dos meses comecei a por em dúvida as vantagens deste eterno retorno. Poucos são os satisfeitos com sua condição. É um sujeito que gostava mais da família anterior do que da atual e sai em busca de seus antigos parentes, considerada por ele sua verdadeira família; casais tentando se reencontrar – mas como fazer isto, se nem sempre retornam com sexos adequados ao seu relacionamento anterior, nem renascem em períodos próximos, além da dificuldade em saber como encontrar quem procurava? –; poderosos tentando recuperar seu antigo status e suas antigas atribuições e, como já relatei, é muito difícil reconhecer um antigo amigo ou parente, tem-se muitos relatos de pessoas que foram enganadas. Uma mulher (era esta sua forma quando falei com ela) a procura de seu marido, relatou-me que, após intensa busca através de investigações, anúncios em jornais e entrevistas, julgou ter encontrado seu amado. Viveram 10 anos em pura alegria até um dia ser procurada por um menino de 12 anos dizendo ser seu antigo (e verdadeiro) marido. Acabou por descobrir ter sido vítima de uma fraude e seu companheiro atual, na vida anterior fora seu psicólogo e por isto soube descrever tantos detalhes de seu verdadeiro amor. Algum tempo depois de ter-me revelado estes fatos, acabou dispensando os dois, o psicólogo e o menino e suicidou-se para tentar melhor sorte na próxima vida.

Outro fato negativo constatado é o nascimento de um antigo inimigo como filho ou irmão do desafeto. Isto provocou muitas mortes em família e mais suicídios. Como podem perceber e como acabei concluindo, as coisas em Orphia não poderiam andar tão bem quanto um observador apressado pudesse imaginar e com o alto índice de insatisfação com a atual condição, com as inúmeras desavenças jamais esquecidas, ninguém querendo abrir mão de seus privilégios e muitos temendo conceber um inimigo, a taxa de casamentos na cidade é praticamente zero e os nascimentos estão continuamente em queda. Sem a lembrança do período entre a morte e a vida, não temos como afirmar se estas almas não nascidas estariam sendo eliminadas permanentemente, ou se encontram outro destino, o fato é que Orphia está desaparecendo e, a continuar neste ritmo, não resistirá mais 40 anos para cair, definitivamente, no esquecimento eterno.

LM


 


 

Sunday, September 25, 2011

A teia

Ao que pus-me a tecer, teias e mais teias, confiante de poder cobrir, em princípio, esta tão miserável árvore que insiste em afirmar ser toda a minha vida, ser meu nascedouro e meu túmulo, onde perpetuarei a minha espécie e de onde tirarei meu sustento. Árvore insignificante, serás a primeira que tomarei por inteira e nada que estiver dentro sairá sem que eu saiba, assim como nada de fora se fará interno sem minha anuência. Tomada com meu manto, a miserável árvore, mais secume menos seiva, mais marrom menos verde, monocromática, será a primeira. Virá o bosque, depois a colina, o vale e, ainda que avançado na idade, o mundo. Uma imensa e translúcida teia que permitiria entrever nos aléns, sem, no entanto, deixar escapar completamente minhas conquistas. Minha urdição e legado.

O que poderia dar errado? Teço como poucos da minha espécie e tenho disciplina, meu esforço é do tamanho das minhas ambições, não perco tempo com futilidades e brincadeiras, apenas trabalho e trabalho e se sinto que tenho de deixar descendência para melhor perpetuar meu domínio, acasalo para que o sangue do meu sangue reine sobre minha obra.

Estava tudo planejado, tudo calculado, tudo previsto, as conseqüências, até deparar-me com o primeiro revés: um galho se partiu com o vento e a extremidade leste da teia balançou no ar. Pela primeira vez percebi a necessidade de rever parte dos planos. Recomeço e tomo a devida precaução contra galhos, aumentando a espessura do fio; isto me atrasou e meu projeto sofreu o primeiro abalo. Novas metas precisaram ser estabelecidas, talvez cobrir apenas o vale, e a frustração quase fez-me desistir.

Um segundo abalo: granizos perfuraram a ala norte e as ramagens superiores ficaram expostas. O trabalho estava quase todo arruinado e eu exausto. Ainda tentei, nova calibragem na espessura do fio, novo ritmo de trabalho, aumento da carga horária e consegui apenas um colapso. E apareceram pássaros, morcegos, outros tipos de ventos, esquilos e minhas teias simplesmente foram se transformando em fiapos aleatórios. Sem forças e desmoralizado desisti. Mas o que sei de teia? O que sei de tecituras? Quem me outorgou o poder de envolver meus amigos (tenho-os?), parentes, amores, em um manto? Não seria uma máscara? Tantas interrogações; passo a me imaginar um analfabeto diante de uma carta. Faço muitas perguntas e nem imagino onde posso obter as respostas. Nada sei que não seja tecer, mas este meu saber não é suficiente para cobrir seque minha casa e por algum tempo pensei que pudesse tudo envolver.

Faço minha última tecitura, meu último manto para envolver apenas eu e meus fracassos.


 

LM

Sunday, September 18, 2011

Há vagas

Após tantos e muitos currículos enviados a todos os departamentos de RH quantos tivessem em Joinville, Charles Trezinni foi chamado para uma pré-seleção. Muniu-se de suas mais bem elaboradas frases de efeito, banho completo, penteado cheio de gel e roupa de domingo e partiu tal qual o General Athikinsons para a conquista de Monte Nalverdense. A vaga era de repositor para trabalhar em um supermercado. Não parecia muito condizente com sua formação e capacidade, mas no aperto se sujeitaria.

(Repositor

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ir para: navegação, pesquisa

Repositor é o profissional que trabalha em empresas de varejo, como supermercados, hipermercados e outros tipos de lojas.

Sua função consiste, basicamente, no abastecimento de mercadorias em gôndolas e prateleiras. O profissional da reposição também é um dos responsáveis pela precificação de produtos e controle de validade de produtos perecíveis através do rodízio de produtos.

Este artigo sobre uma profissão é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.)

    A pré-seleção consistia em uma rápida entrevista, para ver se o sujeito não era retardado e uma prova escrita com grau de dificuldade bastante questionável, para ver se os candidatos eram minimamente alfabetizados. Impetuoso Charles artista irreverente de fina cepa Trezinni maroto dos marotos não se rebaixaria escrevendo bazófias sem botar em evidência toda a sua verve acadêmico-filosófica herdada de anos e anos de estudos cosmológicos da condição humana enquanto ser vivente e pensante possuidor do dom da dominação sobre os demais seres viventes e não viventes e pôs-se a escrever do fundod´almapuradepoetafilósofo para produzir mais um divisor de águas das ciências inexatas.

Fluxo pseudofilosófico acerca dos modelos de trapaçarias

Trapaceio nas orações sussurradas por entre os vão dos dentes quase cariados a mesma trapaça das gargantas-trovões dos donos do poderio. Alheias aos sons das palavras as trapaças camuflam as mentiras das muitas máscaras vendidas nas quermesses de verdades que nem mais camuflam as mentiras embutidas. Não há verdade nas casas honradas assim como não há honra nas negações da verdadeira essência dos baluartes da moral. Mais trapaças a se sobreporem em afirmações efusivas das qualidades em mascarar-me com a maestria dos grandes fingidores. E minhas orações são recebidas nas alturas celestiais pelos santos que embalaram meu terror e minha fé; meu ódio e minha apatia; minha eternidade e minha anemia. Oro também aos homens que derreterão o ouro das minhas moedas dos meus dentes e plantarão o trigo das minhas hóstias sem perguntarem a cor dos meus olhos ou a espessura do meu sangue. Trapaceio as vidas que apresento nos concertos e evidencio as maravilhas da espécie em exibições e vernissages aplaudidas e aprovadas por honrados bastiões da moral. Escrevo sobre flores para não ter que sentir a terra; escrevo sobre os homens para não ter que aspirar seus odores; escrevo sobre a morte para não me acusarem de negar a vida; escrevo sobre a vida para morrer menos a cada dia. Falo de Deus para adiar minha finitude.

O libelo trezinniano caiu nas mãos de um certo José Dias Shulzmamm, chefe dos repositores. José Dias, alma sensível, enxergou-se naquelas palavras. Mandou que trouxessem o impetuoso artista à sua magnânima presença.

— Foste tu quem escreveu estas palavras. E apontou para a folha da prova preenchida por Charles.

— Sim, meu senhor.

Nada mais precisou ser dito e não só Charles Trezinni foi admitido, como ganhou a oportunidade de escolher qual o turno gostaria de trabalhar. Optou pelo horário das duas da tarde às dez da noite, salário de R$ 603,50 mais vale transporte. Os melhores profetas, adivinhos e videntes da cidade já previram: Trezinni se aposentará por tempo de serviço, como repositor, das duas às dez da noite, sendo importunado, de tempos em tempos, pela bursite.

LM

Saturday, September 17, 2011

De tanto correr e brincar na chuva, Carolina pegou um resfriado, complicou, veio uma gripe forte, a pneumonia, uma infecção hospitalar e não resistiu.

Antonio Henrique deleitava-se com o vento entrando livremente em seus poros, envolvendo seu corpo durante os passeios de bicicleta, até ser atropelado por um ônibus que voltava para a garagem da empresa. Foi a óbito no local do acidente.

Com medo do mar e de barcos, Reinaldo, apaixonado por pescaria, pescava apenas na beirada de rios ou na praia. Fisgou um dos grandes e iniciou a luta entre peixe e homem. Estava na barranca do Rio Capim, local seguro, leito com não mais do que 1,6m de profundidade. Escorregou e foi para água, agora a luta era travada no ambiente do animal. Reinaldo afogou-se e seu corpo foi levado pela correnteza para nunca mais ser encontrado.

Luiz Mendes escrevia sobre pessoas mortas. Obituários, pequenas histórias macabras e outras bobagens, quando sentiu um toque, como se fosse uma mão se apoiando sobre seu ombro. Não teve coragem de olhar para trás, gelou inteiro e teve um infarto fulminante.

Agnes não sabe ao certo quantos anos tem. Lembra de uma vez ter comemorado 100 anos, mas já faz muito tempo. Nunca se deita antes de verificar todas as portas e janelas, cerrar as cortinas, tomar meio copo d'água, fechar o gás e as torneiras e apagar todas as luzes. Já na cama, reza um Pai Nosso e três Aves Maria. Este ritual mantém a morte afastada e como faz pouco barulho, seus ruídos não passam de sussurros, a vida também nem a percebe.

LM

Thursday, September 08, 2011

Coleções

Ao entrar na quarta década, encontrei somente uma fileira de portas que dão em quartos sem nada dentro, a casa parece ter crescido, aumentado o número de portas enquanto e eu, encolhia. Não casei, nem tive filhos, muito menos cachorros, e isso me conforta: posso justificar a falta dos itens indispensáveis para ser um responsável pai de família com o vazio por de trás das portas. Tenho, em boa quantidade, telefones de putas pagas, de entregadores de cerveja e pizza, além de fornecedores de crédito consignado a pensionistas e aposentados. Sou velho demais para trabalhar, muito jovem para já estar aposentado e fazer-me de louco elevou minha condição a dependente de mamãe. Falecida, herdei dela a pensão que ela herdara de papai, sargento do exército morto ao cair do telhado do quartel quando tentava resgatar uma pipa. Ele era muito gordo para subir em telhados, muito inábil com pipas e sua morte sustentou minha mãe, cujo casamento já havia acabado de fato, mas não de direito, muito antes da queda, e continuará me sustentando enquanto a vida vibrar dentro do meu corpo, ainda que eu jamais tenha trabalhado. Benditas sejam as instituições legais, por não questionarem com quem se deita tua mulher, desde que tragam, assinados os papéis do tempo em que ainda acreditavam no amor e benditas sejam por não deixarem desamparados os órfãos desvalidos de aptidões laboriosas.

Assim, avanço em anos com casa própria — herdada, desta vez, da mãe do meu pai: desgostosa com a morte do filho, a velha não agüentou muito tempo — renda garantida, nenhuma profissão, três faculdades começadas e trancadas logo no primeiro ano, uma coleção de vinis do Frank Sinatra e uma de canetas promocionais, além de uma bicicleta barra forte e um casal de colerinhos. Há também os amigos, fiéis, companheiros incontestes, freqüentadores assíduos do bar do Jacó. Jogamos dominó, general, caxeta e sinuca. Truco foi tentado, mas, barulhento e insano, causou certo desconforto e, a bem da amizade, deixamos de lado. Em dias de chuva, sinto falta de uma companheira inexistente, não mais uma acompanhante profissional. Quase sinto que estou me perdendo e busco algo de sanidade lendo um pouco de Noll ou Maupassant.

Um poeta louco disse que escrevia para se salvar. Não acredito em salvação na escrita, não acredito na salvação acomodada em qualquer lugar e se escrevo é para deixar registrado um capítulo da história da insanidade urbana na modernidade ou para acumular cadernos que poderei queimar na lareira se o próximo inverno for muito rigoroso. Também li anotações de adolescentes, afirmando: “só escrevo para me salvar”. Pro inferno com a salvação pela escrita. Pro inferno com companheiras. Desisti da redenção e apenas tento manter-me vivo, bêbado, com alguma comida nas tripas e enfiado entre um par de coxas: isto é o salvar-me, não a escrita de desabafos sentimentais, ou historinhas manjadas, carregadas de uma poesia de merda. Vou pro bar do Jacó tomar uma cerveja e comer um rollmops. Há mais filosofia em um rollmops do que em toda a academia cheia de metidos a besta se fazendo passar por intelectuais.

LM

Monday, August 29, 2011

Protofantasmagoria


 

Após uma noite de sonhos agitados, amanheci metamorfoseado em um imenso mamífero, daqueles que plagiam mortos, bípede, implume e desajeitado. Precisava fugir, apenas fugir e nada mais, não da morte e suas intransigências, nem da vida e suas pseudologias, fugir do meu cadáver insepulto de bípede implume, do perdão de quem me amou, das picadas de insetos, das verdades, dos consensos, bons sensos, das linhas paralelas, da cruz e do diabo, dos olhares oblíquos e dissimulados, das listas de coisas das quais preciso fugir e dos animais que de longe se debatem como loucos. Na fuga a presa mostra todo o seu valor antes de virar uma refeição e com tantos motivos quantos coubessem em meus blocos de notas, sabia da necessidade da fuga.

    Durante a carreira desembestada descobri ser toda fuga uma corrida para a morte e suas intransigências e de tanto fugir perdi — caíram dos meus bolsos — outro tanto de coisas e abstrações próprias das listas dos fugitivos: canetas, lembranças, moedas de 5 e 10 centavos, um sabonete de ervas e talvez um ou dois amigos e nacos generosos de vida.

    A fuga cansava-me e não havia onde repousar sem ser encontrado, foi quando descobri não ter dado mais do que 47 passos desde a minha aldeia natal. Desembestada carreira circular, ou voltei sem saber que voltava? Preciso empreender nova fuga, desta vez do meu passado, que encontrei tão bem conservado entre álbuns de fotos e potinhos de pomadas guardados na casa dos meus pais. Até o dia de voltar a ser inseto.

LM

Sunday, August 21, 2011

Cronologia de moscas e sardinhas

Um certo Ulisses, às 15h30 de sua mais longa quinta-feira, muito longe de Ítaca, mais ainda de Dublin, bebia cerveja quente e comia sardinha frita. Sem pressa, comia e bebia e não tinha mais nada a fazer quando acabasse e nenhum lugar para ir, ou que quisesse ir. Apenas comia e bebia. Cerveja quente, faltava potência ao refrigerador do bar, sardinha frita, quando bem fritinha dava para comer até a cabeça, a cauda, a espinha, quando bem fritinha. Torrada, crocante, salgada com cerveja quente.

Aquele homem de barba grisalha e dedos dos pés tortos ligou o rádio com músicas de saudades partidas despedidas desencontros. O locutor tinha saudades de um tempo, quando era ouvido e era levado a sério. Este Ulisses, ouvindo sem levar a sério o locutor e suas músicas, pensou em como uma das suas sardinhas fritas poderia ter deixado sua parceira no mar, uma outra sardinha agora chorando e esta bem frita tendo a cabeça mastigada com cerveja quente.

Pensou por um momento que talvez fosse bom ter alguma coisa para fazer, as sardinhas estavam acabando, a cerveja continuava a vir quente. Não jogaria sinuca, sempre perdia, não queria pagar cerveja que não fosse beber, mesmo quente. Esperar. Não tinha nada a fazer, não tinha odisséia, nem vagaria pela cidade, pequena demais Barra do Sul para isto. Estava sentado de costas para o mar. O mar não o atraia. Às 16h42 percebeu as moscas que já estavam atacando as sardinhas e as carcaças não tão bem fritas desde às 15h49. Uma, duas, cinco, andando nervosamente de um lado para outro, esfregando com entusiasmo as patinhas da frente. Uma caiu na cerveja quente. Morte certa, embriagada ou afogada?

Não encontrou Polifemo, Serraria veio cambaleando cantar as músicas do rádio para Ulisses. Teve Vontade de sair, mas Serraria já estava ao seu lado, pés descalços, sem camisa, o calção velho puído azul claro com listas nos lados era tudo que trazia. Um olho azul e o outro castanho. Enxergava com ambos? Copo de cerveja mais quente agora pela metade e com mosca, deu ao Serraria. As outras moscas não pareceram se importar com a afogada embriagada e continuavam, agora oito, dando pequenos vôos de rápido retorno e andando sobre os escombros das sardinhas. Serraria tomou toda a cerveja e engoliu a mosca. No outro lado da pequena cidade ninguém tecia manto algum e o filho não o viria procurar. O mar não o atraia e Serraria com a mosca no estômago cantava e deixava escapar um borrifo de saliva e cerveja pelo vão da falta de dentes da frente. Ulisses teve de desviar-se do borrifo. Onze moscas foram espantadas quando o prato foi recolhido, um pano sujo xadrez vermelho e branco foi esfregado sobre o balcão. Serraria também foi espantado dali.

Ulisses pediu mais uma cerveja, não conseguiu levantar o braço esquerdo, tentou falar qualquer coisa e a língua estava grossa, enrolou, balbuciou algo desconexo e sentiu uma sombra sobre os olhos. Escutou alguém falar, não compreendeu? Fraqueza. Sentiu latejar forte a cabeça, uma fisgada. Sentiu, ou pensou ter sentido dor, virou-se para o mar, agora o atraia. Começou a cair aos pedaços, primeiro uma perna, depois os braços, o mar ia ficando cada vez mais distante, caiu o tronco e por último o chão veio com força contra o rosto. Lembrou das moscas, da cerveja quente, das sardinhas, não lembrava quem era: às 17h59 era ninguém.

LM

Tuesday, August 09, 2011

La vérité sort de la bouche des buveurs

Sizenando Veroninski contou-me ter morrido de tifo. Por um momento pensei em não acreditar, não costumo acreditar, de pronto, em estranhos e Sizenando era estranho em muitos sentidos. Depois de mais uma ou duas rodadas, acabei pondo em bom crédito sua causa mortis. Refletindo um pouco conclui não haver nada de excepcional nem ser impossível um sujeito contrair tifo e transmutar-se de vivo a morto. Resolvido o motivo do óbito, aceitei tomar parte de mais algumas rodadas e ouvir o que mais o cadáver de Sizenando Veroninski tinha a dizer.

Fiquei sabendo, por exemplo, da sua ímpar profissão: guilhotineiro. Pensei tratar-se de um profissional da indústria gráfica, mas fui logo corrigido, se referia mesmo ao instrumento de decapitar condenados. O funesto ofício, entretanto, não era exatamente sua ocupação, senão a de manter em bons termos a manutenção do artefato de degolação. Afiava a lâmina, encerava as cordas e canaletas, removia resíduos de sangue, verificava as travas, enfim, cuidava de todos os detalhes do mecanismo para que nada desse errado durante seu uso, garantindo assim o bom andamento das execuções.

Confesso ter achado-o um tanto despudorado por narrar com tanta naturalidade os detalhes de um ofício tão funesto, entretanto há que se dar um desconto, alguém tem de fazer o serviço e de preferência bem feito. Imaginem um condenado cujo pescoço não fora eficientemente atravessado pela lâmina, permanecendo meio vivo meio morto, com um enorme talho a escancarar os interiores da nuca. Ou um travamento repentino durante a queda da lâmina? Seria mesmo um despropósito, ainda mais tendo de se recorrer ao arcaísmo de valer-se de um carrasco, daqueles com capuz e a empunhar um enorme machado. E onde encontrar, às pressas, tal profissional habilitado? Não se encontra tão facilmente bons decepadores. Ao cabo, vi que seu ofício era bom e continuamos a conversar.

Contou-me também uma sua aventura em nossa cidade. Como achei uma história um tanto improvável de se por fé, julguei melhor não a reproduzir para ater-me apenas as verdades factuais.

O motivo de estar Sizenando Veroninski cá por estas terras foi sua vontade de promover uma visita a sua irmã, a bela e jovem Ludmila Veroninski. E isto interessou-me sobremaneira. Mas ele se revelou muito fraco para a bebida e quando eu estava prestes a saber mais sobre a moça, vi sua cabeça despencar lentamente em direção à mesa. Ainda tive tempo de salvar um copo pela metade, o que poderia ter-lhe causado grave ferimento e mais nada consegui extrair daquele corpo inerte. Como não tolero bêbados que não conseguem preservar o mínimo de dignidade e se entregam ao torpor em qualquer lugar, deixei-o lá, debruçado sobre as próprias secreções intra-intestinais, peguei a garrafa e saí. O ar frio da noite fez algumas avaliações e mediu 1386,72 ml de diversos tipos de bebidas destiladas em meu interior. Fiz menção de contestar a avaliação, mas vomitei antes, dei mais alguns passos e caí, provavelmente empurrado por algum malandro. Devo ter batido com a cabeça no meio-fio e dali em diante não tenho lembranças, a não ser de sentir o frio carinho da filha do Dr. Joseph-Ignace Guillotin sondando a textura do meu pescoço.

LM

Saturday, July 30, 2011

Falso Ícaro

Um homem vivia em um platô e às vezes ele ia até sua borda para olhar a planície. Ficava pensando como deveria ser bom lá embaixo, mais úmido, quente, cheio de vida. Certo dia, influenciado por um desejo incontrolável, jogou-se lá de cima. Durante a queda pensou que nada melhor do que aquilo poderia existir, o sentimento de liberdade, o vento açoitando-lhe com apaixonante violência, ele parecia um pensamento, livre capaz de qualquer coisa. Quando começou a se aproximar do chão sentiu medo e achou que teria sido melhor sua permanência nas alturas, onde já estava habituado, mas ainda assim ponderou ter valido a pena aqueles instantes mágicos da queda. Já no chão, dolorido até nas idéias, descobriu que o chão da planície, tirando uma ou outra característica geológica, era tão duro quanto o do planalto e para sua decepção, por mais que tentasse pular, alcançava um vôo pouco maior do que um suspiro, jamais poderia repetir a sensação da queda e jamais poderia retornar às alturas. Foi julgado por todos que souberam de sua aventura, uns o condenaram ferozmente por abandonar sua vida para viver uma aventura passageira, outros o reverenciaram como herói por demonstrar tamanha coragem e independência. Alheio aos que o julgavam, procurou não pensar nas conseqüências de seus atos, se teria valido a pena ou não, sua preocupação agora é outra: ouviu falar de um profundo buraco, e hoje passa os dias vagando pela planície a procura deste fosso, para poder precipitar-se, cada vez mais para baixo.

Sunday, July 24, 2011

Poemas à luz da Lua


I

Habita em minha casa,

feita de fábulas, uma Lua.

Talvez não a mais luminosa,

mas que brilha em meus olhos,

como se o mais fosse nada.

Tenho-a bela,

como se o mais fosse intenção.


 

Tal a lenda do santo,

um dragão de feições mórbidas e

rastro carregado de peçonhas,

cumpre seu papel de mal,

e devora a órbita da Lua.


 

O santo foi para um calendário,

as religiões mataram Deus

e o homem vaga à deriva,

com seus venenos e pretensões,

com ganâncias e vaidades.

Embebedando e fazendo cócegas,

tenta afugentar o dragão.


 


II

na última noite do ano

reuni em festa, umas partes de mim

que estavam guardados

um pedacinho ali, outro na gaveta,

adiante do por-do-sol,

em casas com roupa no varal e um,

de bom tamanho, pertinho da Lua

e cantei

e dancei

e vivi

dediquei tudo à Lua e adormeci

sonhei que cantava, dançava e vivia, com a Lua

cheia de si, iluminando a festa


 


 

iii


 

Uma besta na luz da Lua

devorou o brilho de um hemisfério

e consome o pouco sol

que resta em minha alma.


 

Disseram-me para, humilde,

dobrar os joelhes ante Deus.

Só ele pode devolver a luz.


 

Disseram-me para não questionar

Por que então ele tira-me a luz?

Por que criou a besta?


 

Falam-me de fé, de esperança

para por

querosene

creolina

lama

venenos

óleos

poções

onde só deveria ter a Lua.


 

Para orar aos deuses do céu

aos deuses da terra

e destinar 10% aos fazedores de milagres.


 

Sem o amparo da fé,

ofereço minha vida:

por nenhum deus aceita e

sem valor aos homens.


 

A mesma vida

sem o brilho da Lua,

não passa de um artifício.


 

LM

07/11/2008


 


 


 

Thursday, July 21, 2011

Inutiliscência

Outro dia um sujeito de maus bofes me chamou de perfeito inútil. Desferi-lhe um cruzado de direita que raspou aquela cara gorda, acertei apenas vento, para sorte daquele metido a besta. Não deveria ser nada de mais, mais uma discussão no bar, nada muito diferente de tantas outras, a merda é que chamar-me de inútil acertou em cheio no pouco de orgulho que ainda me restava. Senti o golpe. A cada dia fui ficando pior até chegar a conclusão que devo ser o cara mais inútil da face da Terra. Fiz um rápido balanço da minha vida e entre prós e contras percebi que nenhum de meus atos merecia sequer uma nota de roda pé n´algum almanaque de bizarrices.
Entre os feitos positivos estaria o fato de ter concluído a faculdade de jornalismo, conquista com algum tipo de relevância, mas descobri, entre matérias encomendadas, reportagens (se é que se pode chamar reportagem textos com 3000 caracteres) chapa branca e outras obras ficcionais que esta é uma profissão tão inútil quanto a de ascensorista: qualquer um, por mais limitado que seja intelectualmente, consegue apertar o botão do elevador com o número do andar. No final das contas o jornalista finge estar contando alguma verdade enquanto o dono do jornal finge estar dando algum valor para verdade e todos fingem serem importantes e indispensáveis.
Preocupado em dar algum valor à minha vida procurei espelhar-me em exemplos de nobre existência, mas no final das contas, para ter uma vaga nos anais da história o sujeito deve se sacrificar por uma nobre causa. Legal, não fossem as nobres causas outro amontoado de grandes mentiras. Mentira ou não, o importante é se sacrificar: “Ó meu senhor Jesus, eu estou pronto para seguir-te mesmo no cárcere, mesmo até a morte, a imolar a minha vida por teu amor, porque sacrificaste a tua vida por nós.” e assim Antônio virou santo e é lembrado até hoje. Então, tudo a ser feito é se deixar esfolar e, em tempos de pirotecnia midiática, se deixar ser fotografado, filmado, entrevistado enquanto se é esfolado, contanto que seja por uma nobre causa. Até dava para adaptar a fala do santo para um contexto atualizado e substituir JC por algo mais apreensível pelos humanos dos tempos modernos. Algo não tão fugidio quanto aquele último refúgio do canalha nem tão alienante quanto Flamengo ou Ponte Preta, mas algo que santifique o imolado. Pelo jeito continuarei sendo inútil.
Afinal cheguei a conclusão que não sou o único classificado nesta categoria, apenas mais um na multidão, complanosparaofuturo, dezhorasdetrabalhopordia, repetindotodoosantodiasempreasmesmasmentiras, comprar casa financiada, carro financiado, esposa financiado, defender valores supremos como justiça social, liberdade, democracia até perder o emprego o carro a casa o brilho dos olhos e os valores supremos chupando o tutano do sujeito até o bagaço.
E o mais patético disto tudo são os que se dizem cientes da grande mentira que é o sistema e só o reproduzem diariamente para melhor poderem se infiltrar nas entranhas deste sistema e virem a ser o germe da sua destruição. Estes auto enganadores se imaginam escritores, poetas, jornalistas, artistas, agitadores sociais, revolucionários, subversivos, até assentarem, bem gostosinho, suas bundas flácidas nos macios sofás comprados em 10xsem juros. Para provarem sua virulência publicam, em blogs inexpressivos, textos recheados de críticas ácidas e no clube posam como seres superiores. Ninguém lerá seus textos e se alguém o fizer, não dará a menor importância.
Para coroar a farsa, embebedamo-nos e fingimos que temos amigos, fodemos e fingimos que amamos, pastamos e fingimos que nos alimentamos, lemos um monte de merda e fazemos cara de intelectuais metidos em pulôveres verdes, até a hora da nossa morte, amém.

LM

Tuesday, July 05, 2011

Não limpe o meio-fio

Há nos entornos de minha casa, como em qualquer casa, uma calçada, daquelas por onde transitam transeuntes, cãezinhos e demais espécies familiarizadas com este tipo de expediente urbano. Há também, e me parece lógico, mas nunca é demais uma explicação complementar, uma rua rente à referida calçada e, como não poderia deixar de estar em outro local, entre a rua e a calçada existe um meio fio. Dispensarei a apresentação deste último, certo de poder estar tratando com pessoas familiarizadas a este tipo de, repetindo, expediente urbano.
Como em qualquer rua, existe tráfego, de automóveis, caminhões, ônibus, motocicletas, uma e outra bicicleta, talvez alguma carroça e todos estes veículos deslocam mais ou menos quantidades de massa de ar, que por sua vez, deslocam mais ou menos grãos de poeira e areia. Parte desta poeira vai parar nas casas, nos escritórios, em hospitais, etc. já a parte contendo partículas maiores, a areia, fica por ali mesmo, na calçada, na rua, mas especialmente no meio fio. Neste acúmulo de areia não é incomum germinarem plantas, não daquelas ornamentais ou comestíveis, mas daquelas que ninguém quer por perto, as ervas daninhas. E é aqui que Josef K. poderia se sentir familiarizado, pois, como bons cidadãos, eu e minha família resolvemos que não é preciso deixar tudo o que é público ao encargo do poder público e pusemo-nos a varrer e capinar a parte do meio fio que já estava nos domínios do município. Feita a limpeza, o resultado foi o acúmulo de alguns sacos contendo areia e mato. Tirar do meio fio e jogar tal entulho no bueiro (como já vi vizinhos fazendo e só agora entendo os motivos deles) não nos pareceu a escolha mais acertada. Ensacamos, tomando o cuidado de não sobrecarregar no peso de cada saco e deixamos para a coleta de lixo.
Poderia continuar no parágrafo anterior, entretanto, para dar fôlego às idéias daqueles que possam achar-me prolixo, continuo neste outro parágrafo. Passou a coleta de lixo, e outra, e mais outra, e ainda outra e nada de levarem os sacos. Talvez os caminhões da coleta regular só possam coletar lixo, ainda que eu não saiba exatamente o que é classificado como lixo. Ligamos para a concessionária responsável pela a coleta (preciso abrir um parêntese: sempre fui contra esta imposição de termos de pagar a uma empresa particular, sem a opção de escolha, por um serviço que é responsabilidade do município, mas isto é assunto para outra discussão) e recebemos a informação de que eles não coletam este tipo de resíduo. O que fazer? Devolver a areia e o mato ao seu local de origem? Talvez no bueiro? No rio, que é para onde iriam a areia, mato e tudo mais que não entupisse o bueiro? Algum terreno baldio das redondezas? E agora vem a pergunta mais intrigante: se algum fiscal da prefeitura nos flagrasse fazendo qualquer uma das alternativas de descarte acima mencionadas? Deixo a resposta para Josef K, tão habituado a este tipo de situação.

LM

Sunday, June 12, 2011

Naquele dia nada aconteceu. Uma criança de cinco anos fez bolo pela primeira vez. Deus criou o universo. Uma carta de despedida embaixo do travesseiro. O bêbado tentando relembrar as lições de trigonometria do professor Ledoux. Um homem sem camisa e suado ajuntando uma moeda do chão. Um punhado de areia monazítica para enterrar o papagaio morto. Mickey e Pateta sendo retratados com o um casal homossexual. Um micro empresário falido planejando o suicídio. Duas prostitutas granfinas fazendo compras na Daslu. Dezessete mil, 942 mentiras sendo ditas por segundo ao redor do mundo. Duas horas e 32 minutos ensaiando como pedir remédio para hemorróidas. Uma hora e 46 minutos tentando enfiar a bisnaga de pomada para hemorróidas no próprio ânus. Duzentos e trinta e três litros de esperma sendo ejaculados às 15h33 na Terra. Um pedaço de azul indeciso se não é verde. Um pedaço de verde querendo ser azul. Água benta para o moribundo, santos óleos, belas palavras, bonito enterro, vala comum para o danado, corpos carbonizados, sopa de rins, fígado acebolado e moela ensopada. Suruba na caixa de brinquedos, uma Barbie com gonorréia. Um peixe em cima da televisão, antena, quarto minguante para cortar o cabelo nova para plantar crescente cheia para uivar. A lua se põe. Vinte e cinco milhões de palitos de dente usados ao meio dia em um hemisfério. Este digitador morrendo, um cão, animais se debatendo como loucos, vestígios de vida, um cego defronte, um homem perdido em Dublin, a cobra sendo condenada, um abismo. E todo o resto acontecendo como se nada estivesse acontecendo. E mais nada.

LM

Sunday, May 29, 2011

Nada

Assim que terminou o Dia de ficar rico, desligou a tv, fechou as janelas, verificou se a porta estava trancada, fechou o gás e foi escovar os dentes. Sempre o mesmo ritual, sem adiantar nem atrasar, a não ser se o canal alterasse a programação. Sentia-se confortável em ter um ponto de referência para as coisas do dia-a-dia e sempre podia contar com a televisão. Com ela mantinha-se informado, sabia da previsão do tempo, se divertia diante da telinha e, principalmente, sabia a que horas fazer as coisas. Quando terminava o noticiário da manhã era hora de ir ao mercadinho comprar a salada do almoço e assim que terminasse o Manhã da garotada, era hora de almoçar. Para cada atividade do dia sempre tinha um programa que o ajudava decidir se realmente era aquela a melhor hora e ainda por cima podia pegar receitas de pratos diferentes, dicas de moda, saber sobre política e tudo mais que precisasse para ficar sabendo das coisas e poder ter o que conversar com os vizinhos, com o porteiro, com o quitandeiro, com a dona da padaria e com quem mais cruzasse o seu caminho.

Naquela noite deitou-se como sempre fazia, relembrando os programas, pensando em detalhes que haviam passado desapercebidamente até pegar no sono e na manhã seguinte antes mesmo de ir ao banheiro ligou a tv do quarto. Só estática. Mudou de canal e apareceram umas letrinhas verdes que iam pulando uma linha para baixo até chegarem à parte inferior da tela e reaparecerem na parte superior: sem sinal. Foi para a sala, o aparelho ligou, mas também não aparecia nada, em nenhum canal. Olhou para o relógio para certificar-se que não tinha acordado no meio da madrugada, já eram 7 horas. Acendeu e apagou a luz, podia estar com algum problema na rede elétrica, verificou cabo de antena, tomada, conexões, ligou e desligou. Pensou em ligar um rádio, mas lembrou-se que não tinha nenhum. Na padaria sempre tinha uma tv ligada. Era preciso agir rápido e resolveu sair de casa sem mesmo tomar o café da manhã. Abriu a porta e não viu nada. Não havia nada da porta para fora, apenas o vazio. Nem branco, nem preto, apenas o nada, como se fosse o dia anterior ao início da criação. Pensou que talvez fosse ele um deus, ou o Deus e ordenou: Fiat lux! Nada, a luz ignorou-o, assim como todo o resto. Não podia sair assim, não havia nada porta a fora, ou havia apenas o nada. Poderia cair e não mais retornar, ou desmaterializar-se em nada também, melhor era permanecer ali. Fechou a porta, as janelas e cortinas e foi dormir, acordaria e descobriria ter tido apenas um sonho. Dormindo sonhou com formas indescritíveis, ou com coisas sem forma, com vazios e com ausências e acordou. Luzes apagadas, janelas cerradas, podia ser qualquer hora e não se atreveu a olhar no relógio, tinha medo. Medo de levantar da cama, de ligar o aparelho de televisão, de abrir a porta, mas precisava agir. A luz acendeu, mas a tv permaneceu impassível, ligava e nada aparecia além de estática ou de outras formas inúteis. Foi até a porta, abriu e o nada continuava lá. Não foi um sonho.

A todo custo tinha de manter a calma, não perder o raciocínio, se é que já não estava louco. Fez um levantamento detalhado dos mantimentos e estes seriam racionados dali em diante. A água continuava a correr das torneiras, sem saber se isto perduraria, encheu tudo que pudesse reter água. Também a energia elétrica e o gás ainda não haviam sido interrompidos e se continuasse assim poderia contar com uma reserva extra de carne congelada. Achou algumas sementes de pepino e beterraba, desalojou as flores e iniciou um cultivo emergencial de alimentos. Com sorte poderia agüentar por uns três meses, mas se água e a eletricidade continuassem a chegar, poderia viver quase que indefinidamente. Estabeleceu horários, quantidade de alimento diário e toda sorte de regras que um náufrago precisasse seguir para sobreviver até o socorro chegar. Convenceu-se disto: não passava de um simples náufrago.

Depois de um mês quase começou a se acostumar com a situação, ainda que o medo o assombrasse, poderia ficar naquele estado para sempre. Este misto de acomodação e terror o obrigou a reorganizar os afazeres e as tarefas diárias, era preciso quebrar a rotina para manter o espírito alerta, caso contrário corria o risco de se acomodar demais e perder as forças para continuar a lutar. Não deixou de verificar diariamente o sinal da televisão, o fornecimento de água, de gás e o nada além da porta, mas também passou a fazer outras atividades. Pôs-se a escrever cartas, para velhos amigos que se perderam pela vida, para parentes, para desafetos, para ex-amores, para credores para ele mesmo. Cada nova carta revelava motivos antes imperceptíveis que explicavam porque aquele amigo partiu, quando o amor acabou, como se afastou dos parentes e como se transformou em alguém que ele não reconheceria como sendo ele mesmo se fossem apresentados há alguns anos. Depois de três meses já não se importava mais com a televisão e não se importava mais se retornaria para a sua antiga vida, sabia que ninguém estava sentindo sua falta e sabia que o culpado por isto era ele mesmo. Achou por um momento que pudesse estar morto, apenas isto, caído no chão da cozinha e como ninguém o procurou, nem teve um enterro decente, estava naquele limbo e resolveu sair de uma vez. As pernas não obedeceram e não pode se aproximar da porta. Voltou para a sala e prostrou-se diante do aparelho de televisão a estática mostrou a ele o que ele era: nada. Sabia agora que no dia seguinte poderia ligar a televisão e provavelmente veria seus programas novamente, iria até a porta e veria a rua, as pessoas, os pardais; poderia sair de casa para comprar pão e cumprimentar o porteiro, a mulher da padaria, algum vizinho; poderia até ligar para aquele velho amigo, para os filhos e quem sabe até arranjar um novo amor. Sentiu lágrimas, teve vontade de gritar, desta vez a garganta não o obedeceu. Sabia agora muitas coisas, mas o mais terrível era saber que não faria nada daquilo, que simplesmente ligaria a tv do quarto antes de ir ao banheiro e no mais continuaria com sua vida como sempre foi, talvez por uns dois ou três dias teria algum trabalho diferente pondo as coisas em ordem novamente, para depois encapsular-se em sua vida metódica e fria. Chorou até cair no sono.

LM

Sunday, May 15, 2011

O último segredo

O barulho de passos denuncia a aproximação dos guardas. Está chegando ao fim a entrevista e o entrevistador se impacienta. Ele sonda o prisioneiro na tentativa de encontrar alguma brecha na armadura de indiferenças erguida pelo condenado. Não havia a menor necessidade ou disposição para prestar qualquer tipo de serviço a um cúmplice do mesmo sistema que o estava conduzindo à forca.
Como a próxima execução só aconteceria em seis meses e restando pouco tempo para conseguir extrair alguma coisa significativa deste prisioneiro, não seria prudente se exasperar, tentaria aproximar-se com mais cautela. Não podia se arriscar a perder esta oportunidade.
Agora não poderiam mais ficar a sós e se não conseguisse hoje, seria difícil prever a próxima oportunidade. “Estas datas sempre sofrem algum adiamento”. O prisioneiro crispa as mãos. Poderia estar relembrando o crime que o condenou. Seria este o momento ideal para falar alguma coisa. Faltam apenas alguns minutos e o entrevistador, em uma atitude pretensiosa, tenta imaginar o que o outro sente nesta hora. Esforça-se para reproduzir em as aflições alheias, mas percebe que apenas arranha a superfície de uma redoma invisível, utilizada pelo condenado para preservar o mínimo de humanidade que ainda lhe resta. Tão magro ao ponto de os ossos parecem querer perfurar a pele fina, não parece perigoso. Estará arrependido? Improvável. De que adiantaria se arrepender. A cela se transformou no seu mundo e não deve ser tão difícil abandona-lo. A morte se torna mais assustadora quando temos algo a perder. Já não tem muito apego à vida, próprio de quem já não tem nenhum domínio sobre a própria existência. Hora de deitar, de acordar e de comer controladas por estranhos; o que vai comer e quando ir ao banheiro. Vigiado e medido, a vida já não lhe pertence. Nada a esperar senão a morte, esta entidade cheia de enigmas e perguntas sem respostas, cortina leve, possível de atravessar, mas apenas em um sentido. Tão aterrorizante quanto instigadora. Valerá à pena viver desta ou daquela maneira? Vale à pena esperar por outra vida?
—Tem certeza que não quer falar nada? Pode ser uma chance de deixar seu nome gravado na história.
O silêncio carregado de ceticismo respondeu pelo homem sentado de costas para o entrevistador que tentava, em vão, tatear no muro erguido entre ambos.
— Que razão eu teria para ajudá-lo? Você não tem nada que possa me interessar. Ou pode conseguir minha libertação? Acho que não, então fique com suas perguntas e eu fico com minhas respostas, minhas últimas companheiras até o túmulo, além de eu não fazer a menor idéia do que você quer, mas como veio me interrogar, é porque sei algo que te interessa e esta satisfação, de não cooperar com porcos, eu terei antes de morrer.
— Esta sua atitude não passa de uma última tentativa de conferir algum valor para sua morte. Acha que está escondendo uma informação muito preciosa e se sente importante por isto, ainda mais imaginando que está me passando para trás. Posso sair daqui e entrar na próxima cloaca em que esteja enterrado algum outro condenado à morte e, a troco de uma garrafa de água ardente, catalogar espírito e alma do desgraçado. Quando você estiver pendurado pelo pescoço, me enxergará no meio da multidão e poderá ver meu sorriso zombeteiro enquanto comento com alguma velha ao meu lado: “vê aquele verme se contorcendo na ponta da corda, ele tem segredos preciosos para a humanidade e agora, enquanto ele espera quebrar o pescoço, ou ficar sem ar, tais segredos descartáveis escorrem com os dejetos descendo pela perna. Urina, esperma e fezes se misturam reduzindo o último espasmo a uma cena grotesca.” Serão longos estes teus últimos momentos e eu me deliciarei observar esta fisionomia severa e irada ir se transformando na mesma máscara apavorada que se apodera dos condenados e ali saberei tudo o que quero. Mesmo quando você não tiver mais voz, estará me revelando teus segredinhos.
A chave do carcereiro irrompe na fechadura da cela. A hora da execução se aproxima e ao prisioneiro já não existe mais a percepção do transcorrer do tempo. Num instante já se vê com a corda passada pelo pescoço enquanto a multidão raivosa grita a espera de mais um espetáculo. Tudo isso acontece simultaneamente: conversa na cela, em pé no cadafalso, ser conduzido pelos guardas, tudo ao mesmo tempo em que está, há 35 anos, pescando em um riacho perdido na infância ou já velho, brincando com netinhos gorduchos. Uma sucessão de imagens se sobrepõe, mas não são todas imagens da sua vida. Nunca pescou em um aprazível riacho durante sua infância. São imagens atemporais, de passados que não existiram, de possibilidades de futuros pertencentes a um passado incerto. E este presente seria uma lembrança ou uma premonição? Quase sentia ter o poder de escolher os caminhos da sua vida. Caminhos que o levariam a ter lembranças idílicas enquanto é acariciado por uma esposa atenciosa.
Como se tivesse levado um chute nos testículos vislumbra o rosto macerado do entrevistador no meio da multidão, olhando e rindo um riso sarcástico. O estomago fica embrulhado e uma onda de frio percorre seu corpo. Adiantaria alimentar as mesmas ilusões dos outros condenados? Ilusões de arrebentar três vezes a corda e ser aclamado pelo povo como um santo que não pode morrer pelas mãos dos homens; de um indulto, uma clemência em cima da hora. Estas já são ilusões para serem deixadas aos próximos condenados.
Os guardas entram na cela e o entrevistador fala alguma coisa para eles, dando alguma instrução. A hora definitiva chegou.
— Até compreendo o motivo de ter praticado seus crimes. Neste momento sua alma me pertence e mesmo que queira, não pode esconder nada de mim. Agora temos de andar rápido, o cadafalso o espera e o povo está ansioso. Haverá outros mais e não importa quantos precisarão ser enforcados, estarei na cela, e estarei junto à multidão, e serei o grito ensandecido da turba, e serei os olhos do carrasco, serei ainda, o primeiro a carregar os corpos e um dia um de vocês falará. Será a fala dos demais, será uma e serão todas e a verdade me pertencerá. A vida me pertencerá.
— Nada disso tem a menor importância, já não tenho mais medo da morte. Talvez a dor faça meu corpo esboçar alguma reação, mas será apenas um espasmo e não me importo se você descobrirá alguma coisa, pois quando imaginar que descobriu algo, não demorará muito para perceber que não sabe nada. Você será o maior condenado, morrendo várias vezes com os enforcados, até o dia que nem vai perceber a própria morte e tudo terá acabado, como se nunca tivesse existido.
A certeza de chegar ao fim todas as seqüências de passados, presentes e futuros possíveis para sua existência, produziu no condenado uma euforia nervosa. Acabava de descobrir ter sido muitos e nenhum ao mesmo tempo. Então a morte era isto? Enxergar todas as possibilidades possíveis, milhões de combinações e rumos para a própria vida, milhões de vidas e incontáveis experiências. Se, naquele inverno há 15 anos, tivesse atravessado a rua; se tivesse, no natal de 57, virado para a esquerda; na corrida de cavalos tivesse dito sim. “Se” vão preenchendo incontáveis listas de probabilidades que ele já nem sabe mais qual foi a verdadeira, ou se todas foram verdadeiras e agora, no final de tudo, ver estas muitas histórias como a um sonho distante. Foi todos e não foi nenhum, apenas o fim é único, mas não a forma do fim, como se fosse possível chegar até este fim por múltiplos caminhos até atingi-lo. O ponto final e o ponto de partida.
A corda esticou sem quebrar o pescoço. Sinal de mais alguns momentos de espetáculo para a multidão, até que o condenado pare de se contorcer. No meio da massa ruidosa, o entrevistador anota todas as impressões enquanto, de algum ponto da memória, se vê criança, pescando peixinhos dourados em um riacho. A multidão se agita. O condenado se debate freneticamente. A turba, excitada com a cena bizarra, se acotovela e se amontoa, espremendo e sufocando o entrevistador até a queda. No chão lamacento, ele vê peixinhos dourados e algumas verdades, que já não servem para mais nada.

LM

Wednesday, April 06, 2011

Óbitos

Tem uns dias em que eu queria que o mundo explodisse, ou pelo menos desse um tempo e aquele era definitivamente um dia daqueles. Acordei com uma tremenda dor de cabeça e um gosto de sola de sapato na boca. Já ouvi gente falando de gosto de cabo de guarda chuva, mas como nunca experimentei cabo de guarda chuva, não sei que gosto tem, acredito que seja parecido com o gosto de sola de sapato. Precisava urgente escovar os dentes e dar uma cagada. Catei algum jornal velho e fui para o banheiro. Não sei como tomei gosto por aquilo, só sei que gosto de ler o obituário, ver aqueles nomes de pessoas mortas me relaxa, talvez porque eu saiba que nunca vou ler o meu nome ali. Relaxado com a leitura a tarefa fica mais fácil. Mal comecei a mentalizar os defuntos a porcaria do telefone começou a gritar na sala. Deixei tocar. Nem nessas horas um homem de bem tem sossego? Luiz Mendes, jornaleiro, 48 anos deixa mulher e 8 filhos. Vítima de um parafuso desprendido de algum avião que sobrevoava a cidade. Sepultamento hoje às 17h no Cemitério Municipal. Esse ficou com um parafuso a mais. E o telefone voltou a castigar minhas idéias, não teve jeito e levantei para atender, deixei as calças penduradas no prego da parede e saí do banheiro só de camiseta. A velhota do prédio da frente, sempre bisbilhotando na janela, esperou eu me virar para ela e se fez de assustada, saiu fechou a persiana fazendo o sinal da cruz. Tenho certeza que continuou espionando.
─ Quem é?
─ Bom dia, por gentileza, com quem estou falando?
─ Perguntei primeiro. Com quem quer falar?
─ Com o senhor Charles Trezinni.
─ Sou eu. Quem diabos está atrapalhando minha cagada matinal.
─ Desculpe por interromper sua caminhada, senhor Trezinni. Meu nome é Mara e sou do programa de relacionamento do banco...
Merda de bancos, não descobriram que sou um duro e não tenho nada para me relacionar com eles. Ligam em cada horinha. Voltei para meu trono. Verônica Shullzenn Haffstantler, do lar, 87 anos, viúva, deixa 4 filhos, 5 netos e 2 bisnetos. Sepultamento hoje às 9h no Cemitério Parque Resplendor Eterno. Pelo nome pomposo essa deve ter deixado uma bela herança para os filhos se engalfinharem. Já tava tempo demais no banheiro e não podia adiar mais, era hora de sair para a vida e encarar o mundo, mas já que estava lá não custava ficar mais um pouquinho e tocar uma bronha antes de tão árdua tarefa. Dei a descarga para não ter meus pensamentos eróticos contaminados com o cheiro daquela bosta toda. Continuei sentado no bacio e me vi no espelho. Tinha um espelho enorme na frente do bacio. Nunca entendi porque aquilo no banheiro, mas já estava no apartamento e não seria eu quem iria tirá-lo. Mas naquele dia me deu vontade acertar uma tijolada bem dada nele. Enxerguei refletido no espelho, um velho calvo, com o que restava dos cabelos formando um emaranhado de fios sebentos grudando no pescoço, sentado em um trono de merda, vestido apenas com uma camiseta daquelas que os candidatos distribuíam com seus números e fotos: Ribeiro Borges para deputado estadual. A cara do Ribeiro Borges aparecia sorridente como se fosse ele o mais feliz dos homens, ou como que dizendo como ficaria o mais feliz dos homens se fosse eleito. O velho refletido estava com as pernas finas abertas, a barriga saliente servia de apoio para o braço direito projetar a mão até um ridículo amontoado de pentelhos com muitos fios brancos. Mesmo vendo aquela imagem patética continuei a bolinar-me, mas não adiantava, meu cacete mais parecia uma gelatina ou uma lesma. Recostei-me mais, ficando meio sentado, meio deitado e encostei a cabeça na parede para olhar para o teto. Não suportava mais olhar para aquele espelho. Continuei a tentativa de acordar a lesma, era uma questão de honra. Uma mosca entrou pela janela pôs-se a zunir ao meu redor. Não era uma mosca comum, mas uma daquelas varejeiras gigantes, verde-metálica, barulhenta como um liquidificador velho. Desse jeito não dava. Tive de levantar e começar a caçada ao animal. Ainda estava só com a camiseta do Ribeiro Borges e postei-me no meio do banheiro, hirto como um perdigueiro, chinelo à mão esperando um movimento em falso da desgraçada para desferir o golpe certeiro. Senti um vento frio gelando minha bunda, ela passou triscando meu nariz, mas não me movi. Segui os movimentos acrobáticos e o zunido, enfim pousou na pia. A chinelada foi certeira, mas um caco de louça voou e foi parar em cima do meu pé. Deve ter pego alguma veiazinha ou algo parecido para sair tanto sangue de um corte tão pequeno. Tirei a camiseta e enfiei a cara do Ribeiro Borges para estancar a hemorragia. A bronha estava comprometida. Precisava tentar só mais uma vez. Tentei lembrar detalhes picantes da minha última transa. Só consegui lembrar de estar vomitando ao lado da cama de um motelzinho vagabundo. Não foi uma boa lembrança. Não tinha nenhuma revista pornô por perto, só o jornal com os obituários. Lembrei da Verônica Shullzenn Haffstantler e a punheta morreu de vez. Comecei então a enxergar a velha em com sua mortalha semi-despida me esperando na cama em alguma pose sensual. Definitivamente era hora de deixar aquela punheta para outro dia e sair daquele banheiro emoscarado e assombrado e sair para a vida, encarar o mundo, ou ir para o bar do Jacó beber algumas para dar azo às idéias e ficar rezando para que aquele dia acabasse. A vida e o mundo poderiam me esperar mais um pouco.

LM

Sunday, April 03, 2011

Caridade

─ Posso doar seu troco para a Campanha da Bondade?
─ Como assim?
─ Suas moedinhas senhor, parte do seu troco eu encaminho para a campanha.
─ Mas eu nem peguei as moedas ainda.
─ Não tem problema, eu encaminho pelo sistema do cupom.
─ E o que é feito com o dinheiro?
─ É destinado para uma entidade assistencial.
─ Qual?
─ Não sei exatamente qual, mas o senhor pode visitar nosso site na internet e acompanhar os resultados da campanha.
─ Sei. Posso inscrever minha instituição para receber a grana?
─ Não sei exatamente senhor, mas se o senhor quiser, pode acessar nosso site na internet.
─ Sei. E lá, no site na internet, vai ter alguém que pode me responder se posso inscrever minha instituição e deixar o número da minha conta.
─ Não sei exatamente senhor, mas o...
─ Você não sabe responder outra coisa? Não precisa responder. Eu preciso me inscrever para receber esta grana, o nome é um sinal, Campanha da Bondade, é bem sugestivo, deve ser para fazer alguma coisa boa e nada melhor do que me ajudar a voltar a ser uma pessoa boa.
─ Não sei se é assim que funciona a campanha senhor.
─ Eu era uma pessoa boa, ajudava velhinhos e cegos a atravessarem a rua, dava esmolas nos sinaleiros, cumprimentava meus vizinhos, não chutava cachorrinhos, só que isto é ficou para trás, estou me tornando uma pessoa má, dia após dia, cada vez mais mau, mais egoísta e mesquinho. O mote da minha campanha é irrepreensível: Ajude um homem bom não se tornar mau. Faça sua doação e preserve a bondade.
─ Não sei o que dizer senhor.
─ Já sabia. Me dê logo minhas moedinhas.

LM
Redecaptado

por Paulo Horn

Naquela quinta-feira, enquanto tentava compreender o porquê de tantos carros estarem nas ruas, lembrou-se de que este dia era um dia atípico apenas para ele. Voltando do velório pensava em como tudo ao seu redor estava morrendo e batia a tristeza. O que mais sentia falta era de sua cabeça. Poucos dias antes da morte prematura da Senhorita Vanessa sua cabeça havia sofrido um mal súbito inexplicável e em poucas horas definhou. Ficara estarrecido com a perda, mas logo depois que a morte secou-lhe o membro e viu de alguma forma bizarra sua cabeça cair e rolar pelo chão, começou a brotar uma nova do espaço vazio.
Nos curtos momentos que antecederam o nascimento da nova cabeça sentiu um grande medo de se tornar o oposto de uma carranca, um corpo sem cabeça pendurado na sala de alguém, ao lado de outras peças exóticas de mau gosto. No entanto sua cabeça foi brotando lentamente e já no dia do velório da Senhorita Vanessa tinha um corpo completo novamente.
Olhou por horas a fio sua nova cabeça no espelho, reconhecendo-se. Não havia nada de diferente da cabeça anterior. Deixou de lado a inspeção para visitar a recém falecida e passando muito protetor solar com medo de que sua cabeça ressecasse e viesse a cair novamente chamou um táxi para levá-lo até a capela mortuária onde se encontrava o corpo. Por todo o caminho teve sensações desconhecidas, como se os últimos 35 anos de sua vida tivessem desaparecido e as sensações adquiridas com o tempo tivessem sido lavadas de seu corpo, rolado para longe junto com sua cabeça.
Ficou impaciente em todo sinal vermelho que pararam no caminho. Sentiu pena de um cachorro magricelo que se abrigava do sol em baixo da mesa de xadrez da praça. Ficou inquieto com a lentidão do taxista e apreensivo se não perderia o enterro. Parecia que havia entrado em um processo de redefinição de si, como se suas entranhas tivessem sido expostas e lavadas, cada desenho rabiscado em sua cabeça tivesse que ser retocado. Desceu quase em frente ao cemitério e caminhou por entre as ruelas cercadas de túmulos, atravessando até a capela. O perfume de flores que tantas vezes lhe fez mal no passado agora acariciava seu rosto. Ficou preocupado, pois com a descoberta de ter perdido uma alergia que lhe acompanhara a vida toda teve certeza que aqueles desenhos feitos na cabeça que secara não necessitavam apenas de uns poucos retoques, de uma passada de tinta mais forte. De alguma forma teria que redesenhar o que perdera.
A Senhorita Vanessa estava cercada de coroas de flores e ao se aproximar sentiu como se fosse a primeira vez que a via. Depois de todos esses anos voltara a se apaixonar por ela e agora ela estava morta. Sentiu-se tonto e seus joelhos fraquejaram. Redescobriu como era chorar aos prantos e soube então o que era esse vazio que tanto se atribui à solidão. Lembrou do esquecimento quando fecharam a tampa do caixão e o rosto da Senhorita Vanessa foi sumindo lentamente. Reconheceu a impotência ao ver o caixão ser depositado na sepultura e a solidão se estendendo pela tarde enquanto todos iam seguindo com suas vidas e ele ficava só no cemitério, perdido com as redescobertas que agora desejava esquecer. Ficou desnorteado.
Perdeu-se no caminho de casa e aumentava cada vez mais a confusão dentro de sua nova cabeça. Queria voltar a ter sua cabeça antiga, queria que esta secasse e ele nunca mais precisasse lembrar tudo que redescobrira. Queria poder esquecer a Senhorita Vanessa e que um dia a amou, mas o vazio não deixava e sua cabeça não dava sinas de que adoeceria novamente. Perdia sua mente à progressão que sua cabeça se tornava mais viva. Voltou para frente do espelho e já não mais se reconhecia. Renegava esse novo ser que aparecia no reflexo. Sua antiga cabeça era uma casca seca jogada no lixo da cozinha. Por três dias seguidos sentiu e mais sentiu, mas não agüentou mais.
Quando redescobriu o desespero cortou sua cabeça com o machado de incêndio do corredor do prédio em que morava. Foi a única vez que redescobriu a decapitação.