Sunday, May 13, 2012

O outro

    Antes de Isidore embarcar para Paris, o senhor Medina, imaginando uma viagem motivada pelo amor, recita alguns trechos dos Les Cahnts de Maldoror para o filho. O rapaz ouve em silêncio.

    − A dama que me espera em Paris apreciará a poesia da nossa gente. − Murmura, mais para si do que para o pai.

    Parado na frente do Hospital da Salpêtrièri, Isidore se sente ridículo por não ter procurado contatar o hotel antes de viajar. Colhe informações com os passantes e descobre ter sido demolido o antigo prédio, para dar lugar a este anexo do histórico Hôpital dês Invalides. Falta pouco tempo para seu aniversário e ainda não reuniu todos os ingredientes nem encontrou um hotel adequado. Olha para o edifício branco e se irrita com sua boa saúde. Nenhuma dor, nada de febre, tosse ou manchas vermelhas. Apenas a habitual palidez aristocrática herdada da mãe.

    Na Escola da Sagrada Família, em Montevidéu, quando aprendeu a conhecer poesia, descobriu de onde viera seu nome. Foi lá também que descobriu com quantos anos e de que maneira morreria. O estudante Isidore Lucien Herrera Medina, além do mesmo nome, nasceu no mesmo dia da morte de Isidore Lucien Ducasse, o Conde de Lautréamont: 24 de novembro de 1870. Naquela época ele percebeu que receber o nome do Conde exercera uma influência que Joaquim, Ernesto ou Ramon não exerceriam. Foi quando começou a se interessar pela escarlartina.

    Isidore custa a aceitar a idéia de não ocupar um quarto no hotel da Faubourg-Montmartre, número 7. Sem outra alternativa, se instala num hotel na Place St.-Sulpice com a Garnicière para fazer as últimas anotações nos seus Cantos. O quarto bem aquecido não tem as mesmas paredes desbotadas, como o Conde tanto apreciava.

    Reunidos os ingredientes, prepara a mistura de metileno, anfetamina, plantas alucinógenas e vinho. Mergulha nos abismos dos lençóis de seda até despertar preguiçosamente. Isidore procura por Deus ou pelo Diabo. Desorientado, lembra do mal-estar generalizado se espalhando pelas entranhas. Reconhece o quarto do hotel, seus manuscritos sobre a mesa e suas roupas espalhadas. Imaginou não deixar memória de si, mas ainda está no hotel. Já é dia 25. Ele continuará vivendo e morrerá como qualquer um, menos como o outro Isidore.


 

LM


 

Os nãos de um dia, ou de uma vida

Não há vagas

Não vendemos fiado

Não aceitamos cheques

Não pise na grama

Não me provoque

Não jogue lixo no chão

Não fale com o motorista

Não fume

Não de comida aos animais

Não mude de assunto

Não ultrapasse na faixa contínua

Não bata a porta

Não aceitamos devolução

Não aceitamos reclamações posteriores

Não suje as ruas

Não tomarás Seu santo nome em vão

Não entre sem camisa

Não diga que eu não avisei

Não entre, cão bravo

Não pense que está sendo fácil para mim

Não fazemos troca

Não matarás

Não é o que você está pensando

Não adulterarás

Não compreendo

Não cobiçarás a mulher do próximo

Não havia mais nada a fazer


 

e os sims se negam.

Sunday, May 06, 2012

Körlük

A partir de Orphia, seguindo o poente em direção às montanhas do leste, o viajante encontra um grande deserto cortado pelo esquecido rio Çevir. Acompanhando o rio até quase o meio do deserto, está a cidade de Körlük. Diz-se de Körlük que lá todos os adultos são cegos sem, no entanto, haver uma explicação científica para tal peculiaridade, apenas sabe-se que esta patologia não afeta as crianças. Estas nascem perfeitas, gozando da mais absoluta saúde e assim permanecem até a adolescência, quando começam a perder a visão gradativamente, para entrarem na idade adulta, sem enxergarem mais nada.

Muitos tratamentos foram tentados e muitas experiências foram feitas, todas infrutíferas. Outra dificuldade às pesquisas é o fato de os cientistas não terem certeza absoluta dos diagnósticos oftálmicos, pois há a suspeita de que a endemia não se manifeste de maneira igual em todos os indivíduos. Desta forma existe uma divisão em três grandes grupos, sendo um formado por pessoas que teriam plena capacidade visual, mas por motivos insondáveis, comportam-se como se nada enxergassem. São os que enxergam, mas fingem que não veem e, muitas vezes, até parece que não querem mesmo ver nada diante de si. O segundo grupo é composto por pessoas desprovidas completamente da capacidade visual e, para posarem como seres normais, falseiam sua incapacidade e simulam que enxergam tudo perfeitamente. Eles não veem nada, mas insistem em afirmar o contrário, se portando como se realmente enxergassem e isto produz leituras equivocadas da realidade ao redor destas pessoas. Já o terceiro grupo é formado tanto por pessoas dotadas do sentido da visão quanto os desprovidos desta faculdade, o que os une é sua vontade, por assim dizer, de enxergar mais do que realmente existe. Tais pessoas afirmam que veem aquilo que jamais existiu, juram terem enxergado coisas fabulosas, enfim, querem enxergar mais do que a realidade e acabam não vendo nem o que se passa sob seus narizes.

Algumas famílias, percebendo que as crianças não eram acometidas pelas distorções na visão, começaram a emigrar para outras cidades, outras, impossibilitadas de seguirem todos, mandaram apenas seus filhos pequenos para serem criados em terras distantes. Tais artifícios parecem terem sucesso limitado, pois é certo que estas crianças tem preservada sua visão ao se afastarem de sua cidade natal, mas parece que ao retornarem para Körlük, em alguns meses os distúrbios começam a se manifestar e os regressos passam a apresentar os mesmos distúrbios dos demais körlükienses adultos. Com ou sem artifícios, em Körlük, apenas as crianças enxergam.


 

LM


 


 

Sunday, April 29, 2012

Antroponímia

Percorrendo as páginas de classificados a procura de um emprego, conheci Cecilia Gallerani. Ela oferecia vaga de auxiliar de produção em uma fábrica de artefatos de cimento. Não era o que procurava, mas o nome da contratante ficou reverberando em minha cabeça e não pude mais continuar a busca. Fui ao endereço.

— Precisamos de braços fortes, não me parece muito o seu caso.

— Sou magro, mas sou muito forte. Tentava iludi-la com este artífice. E mais do que forte, sou muito resistente, posso trabalhar por longos períodos sem parar. Mal podia caminhar por uma quadra sem ter de parar umas duas vezes e acho que ela percebeu.

— Mesmo assim, o senhor não se encaixa no perfil de funcionários que procuramos, eu e minha sócia somos muito exigentes e mesmo sabendo de sua vontade em trabalhar, não podemos deixar de analisar todos os requisitos.

— Tudo bem, eu não consigo erguer um saco de cimento mesmo. Este é mesmo seu nome?

— Como assim?

— É um nome famoso e já conheci muitas Cecílias, mas nenhuma Gallerani.

— Então o senhor sabe quem foi Cecília Gallerani?

Esta Cecília era muito feia, quase pensei que fosse um homem, era alta magra, olhos fundos que mal davam para ver de que cor eram, mas realmente tinha mãos delicadas, pareciam não pertencer aquele corpo ossudo e másculo.

— Sei. E acho que suas mãos são muito mais bonitas e delicadas do que a dela. A senhora tem algum animal de estimação.

— Não. Estamos precisando de alguém para o escritório. O senhor tem alguma experiência?

— Uma vez escrevi roteiros de teatro para um grupo de atores amadores. Não encenaram nenhuma das minhas peças. Também já trabalhei em um tele marketing.

— Talvez sirva, quando há um atraso em alguma encomenda, precisamos inventar uma boa história para os clientes e recebemos muitos telefonemas.

Ela mandou que eu voltasse no outro dia para falar com a sócia também. Se eu já me impressionara com o primeiro nome, o segundo foi ainda mais sugestivo, muito embora a dona do segundo nome não fosse exatamente meu modelo ideal para ostentá-lo: Yoni Pertunda. Jamais pude conceber que uma pessoa real pudesse apresentar-se com tal nome, mas de fato a senhora Yoni Pertunda assim o fez e, da minha parte, tive de fazer um odioso esforço para não soltar uma gargalhada, nem para fazer uns dois ou três trocadilhos. Yoni Pertunda, era mesmo este seu nome. Ela era menos sorumbática do que a sócia, entretanto isto não significava grande acréscimo ao conjunto. Baixinha, pouco mais de um metro e meio, uns dez quilos acima do peso tolerável, despontava de seu rosto miúdo um imponente nariz, algo tortuoso. Definitivamente, se colocassem-na em uma daquelas salas que vemos em filmes policiais, para reconhecimento dos suspeitos de um crime, ao lado de outras mulheres, jamais imaginaria aquele ser caricato como detentor do nome Yoni Pertunda. Yoni Pertunda, não canso de repetir.

— Senhor Trezinni, o senhor escreveu peças de teatro?

— Nunca foram apresentadas.

— Mas sabe escrever histórias?

— Sim, escrevo regularmente para um site, ou blog, de um amigo meu, nada profissional, apenas para dar um força para este meu amigo, ele botou na cabeça que quer ser escritor, mas não tem muitas ideias boas. O cara é meio lesado.

— Um site, ou blog. Sabe o endereço?

— Não lembro direito, sei que como ele é meio metido a literato, é nome do cavalo de um alguém famoso, alguma coisa Rocinante. Acho que tem alguma coisa haver com Dante, ou outra antiguidade.

— Rocinante é o cavalo de Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, nada tem a ver com Dante, nem contemporâneos foram, com uma lacuna de pelo menos trezentos anos.

— Então!

Mesmo com minha gafe histórica, misturando Cervantes com Dante, fui contratado, também não precisaria citar nenhum dos dois autores em nenhuma atividade naquele serviço, eu precisaria apenas preencher notas fiscais de venda, emitir faturas, conferir as notas de entrada de mercadorias, controlar as contas a pagar e, de vez em quando, fazer alguma carta, ou e-mail, para clientes, credores, bancos, repartições, essas coisas de escritório. Também atendia telefone e anotava recados, eu era uma secretária.

Nunca fui de misturar-me muito, e como, além de mim só tinha as duas sócias no escritório, limitava-me a bons dias e até mais, com o pessoal da produção. Mesmo com elas não conversava muito. Se eu era calado, elas pareciam que estavam em eterno estado de mau humor. Acho que como moravam juntas e viviam brigando e como tinham de trabalhar no mesmo local, ficavam se alfinetando e mantendo aquela atitude rabujenta. Para mim estava bom, pelo menos me deixavam sossegado.

Tive certeza de que minha teoria de serem um casal estava correta quando dona Yoni Pertunda (sim, era mesmo este seu nome) aproveitou-se de uma ida ao banco da sócia para vir falar comigo.

— Você só se faz de bobo, não é?

— Tento ficar no meu canto.

— Ela é muito dominadora e muito ciumenta. Imagine que deu pra ter ciúmes de você?

— Não quero nem imaginar. De onde ela tirou estas ideias?

— É que eu tenho elogiado seu trabalho, sua postura discreta, sua cultura, ela me disse como fez referência à mão da Cecília Gallerani, ainda que não soubesse de Rocinante. De toda forma, é possível que eu tenha comentado em casa mais de você do que dos outros funcionários, talvez mais do que o recomendável.

Com certeza, eram um casal, e Yoni Pertunda não poderia fazer outro papel, senão o da fêmea da relação e esta fêmea estava prestes a me dar uma cantada. Olhei mais atentamente para ela, queria ver se era possível encarar. Já acordei com barangas bem estranhas, mas era quando eu bebia, como estava sob um rigoroso tratamento médico, para ver se recuperava meu fígado sem a necessidade de cirurgia, talvez não desse conta do recado. Pensei em fazer papel de viado, mas era capaz de a coisa vazar e algum dos peões da fábrica aparecer aqui querendo me comer. Por que nenhuma gostosinha me procurava para ter essas conversinhas? Eu devia ter algum imã para esquisitices, pelo menos não era nenhum alemãozão (lembrando bem, esta Cecília até que era parecida com um alemão de dois metros que conheci em outro emprego). Engoli em seco e resolvi dar umas apalpadas naquelas banhas. Nos agarramos ali mesmo, tinha de me abaixar para beijar sua boca pequena. Ela foi logo apertando minhas bolas, mas logo se afastou.

— Eu sabia, tu é um tremendo safado. Um pedaço gostoso de safadeza. Faz tempo que não experimento um pintinho nervosinho, não vejo a hora.

Ela deu um endereço para nos encontrarmos depois do expediente. Disse que me levaria para o motel mais bacana da cidade e que eu não me arrependeria. Para Cecília, falaria que ia para a academia e deu uma risadinha marota, dizendo que estava precisando malhar um pouco.

Reassumimos a postura profissional e logo dona Cecília retornou, me olhou como se estivesse pressentindo algo. Fiquei com medo, ela era de dar medo. Finalmente consegui ver seus olhos e não gostei do que vi. E se ela descobrisse e aparecesse? Tenho certeza de que era o tipo de gente que anda armada. Encarar estas duas malucas e sóbrio era arriscado, seria eu o pertundado. Esta yoni não valia o esforço. Não fui ao encontro e não voltei mais ao trabalho. Procuro novo emprego nos classificados, desta vez não irei naqueles que tenham nomes emblemáticos.


 

LM

Tuesday, April 24, 2012

Infinitos

Conheceram-se como se conhecem as pessoas, freqüentando lugares em comum, se encontrando pelos caminhos, falando do tempo ou daquela notícia comentada por todos, afinal, se conheceram, observando, porém, a regra do convívio social de manterem-se pelo menos a um metro de distância um do outro. Rompida a barreira da falta de familiarização, começaram a ter conversas mais elaboradas, além da previsão do tempo, falaram de gostos pessoais, contaram de suas famílias, deixaram escapar uma e outra ponta de confidência, esboços de suas angústias, fragmentos de suas personalidades, sempre a um metro de distância e sempre em encontros absolutamente casuais. Em algum momento começaram a programar seus horários para o para não ficarem exclusivamente à mercê do acaso. Mantiveram por um tempo a burla da coincidência, foram pouco a pouco diminuindo a distância dos corpos, leves esbarrares, apenas das costas das mãos, quase imperceptíveis encontros de ombros durante rápidas caminhadas, para logo retomarem a distância de segurança. Passaram a se cumprimentar com apertos de mãos, o primeiro rápido como uma idéia esquecida, depois, aumentos mínimos, meio segundo de cada vez, até entregarem a mão sem querer que fosse devolvida. Passaram a falar deles, de como tinham gostos parecidos, de como os outros não entendem isto ou aquilo, ainda resguardando a distância. Riam soltos, risos autênticos, um achava graça da piada mais sem graça que o outro contasse, gostavam de falar de cinema, literatura, política, gostavam até mesmo quando seus gostos não coincidisse. Um dia conversavam sobre nada, conversavam apenas para que suas vozes ultrapassassem o limiar da barreira métrica não permitida aos seus corpos, quando perceberam que haviam avançado até deixarem suas bocas a um palmo de distância. Podiam sentir a respiração, o hálito, o cheiro por de trás dos perfumes, quase podiam sentir os pulsares do coração. Ficaram assim por um tempo indefinido, entre uma explosão e um nascimento, entre um relâmpago e uma translação e descobriram matizes diferentes na cor dos olhos, pequenas marcas nas peles, pelinhos translúcidos nos rostos, cicatrizes de eras desconhecidas e descobriram-se uno. Rompido o metro regulamentar, desalojar-se das roupas e percorrerem-se nas peles descobertas foi como uma avalanche: instantânea e arrasadora.

Tão instantâneo e arrasador quanto o entregar-se, foi o momento em que perceberam que haviam experimentado do fruto da árvore da ciência do bem e do mal e já não cabiam mais em seus paraísos. Teriam que evitar os olhares das pessoas das suas famílias, dos guardiães da moral e dos bons costumes da sociedade. Seriam condenados, reconhecidos nas ruas e teriam seus nomes atirados ao lixo, jamais teriam paz, morreriam indubitavelmente. Pactuaram que aquela fora a primeira e última vez e que deveriam se evitar dali para diante; que aquilo era muito errado; que fraquejaram apenas uma vez e que não mais iria ocorrer. Mentiam e no dia seguinte engoliam-se, regurgitavam-se e viravam-se ao avesso, havia ainda o remorso e o medo, mas havia também um descobrir-se, um saber ser capaz de entregar-se, de encarar seus juízes e dissimular: descobriam a infâmia e também descobriram o perdão e perdoaram-se por serem humanos, ainda que não fossem perdoados pelos outros, perdoaram-se por serem fracos, ainda que não conhecessem alguém forte e perdoaram-se por terem ultrapassado o limite de distância, pois sentiam que poderiam percorrer infinitos pontos dentro do intervalo de um metro, para sempre.


 

LM

Thursday, April 19, 2012

O ataque das formigas perfumadas (para as crianças que ainda não sabem de orgulho)


 

De uma hora para outra, as formigas deixaram de assaltar o pote de açúcar, os vidros de mel e melado, os biscoitos e calharam de atacar o banheiro. A princípio mal era perceptível o vai e vem de suas perninhas apressadas e, como não havia alimento naquele cômodo, não levantaram suspeitas. Aos poucos o movimento dos formicídeos foi aumentando e só então é que seu real intento ficou claro: não procuravam alimentos, investiam sobre apetrechos de maquiagem e perfumaria, como batons, gloss, fixador, desodorante, perfumes, loção após barba, cremes, nenhum item do gênero ficava impune ao avanço das formigas. Até produtos não apenas estéticos, mas de higiene, como sabonete e creme dental, também sofreram baixas consideráveis.

    Intrigada com o descaso aos regalos da cozinha, em detrimento dos acessórios de toucador, Luana pôs-se a investigar. Disfarçou-se de formiga, muniu-se de utensílios de detetive e seguiu os passinhos das diminutas ladras. Esgueirou-se por ladrilhos, tubulações desativadas, frinchas nas paredes até chegar à presença da rainha das formigas. Boa diplomata que era, apresentou-se à soberana e perguntou qual o motivo de tão abrupta mudança de predileção.

    — É simples, disse a rainha. Sempre nos alimentamos do mesmo tipo de comida consumida pelos humanos e sempre permanecemos nos labirintos e subterrâneos a nos esconder, agora, deixamos de roubar-lhes seus alimentos, para roubar-lhes sua vaidade. Quem sabe assim, sem tanta vaidade, deixem de ser tão orgulhosos e soberbos e passem a respeitar os diferentes e os mais fracos.


 

LM


  

Sobre encerramentos e arte

  1. Após seis anos finalmente a obra estava pronta. Tinha conteúdo, forma, objetivos, suporte iconográfico, enfim, uma lista de designações e adjetivos do mundo da arte e um sentimento a ser absolvido. Pensou em enviar para a galeria, num último instante teve um lampejo suicida e acabou com o que havia de vida na obra. A arte sangrou.


     

  2. Guardou uns tantos segredos nas entrelinhas. Tinha a esperança de que alguém, como ao encontrar na praia uma garrafa atirada ao mar por um náufrago, entendesse seu pedido de socorro. O bilhete naufragou dentro da garrafa.


 

  1. Era moderno, mais, ultracontemporâneo, vanguardista e conceitual, ainda que não soubesse muito bem o significado destes títulos. Sabia de suas criações com tampinhas de garrafa, serragem, limalha de ferro enferrujada, colas, cores encontradas nas sobras de tinta das latas resgatadas do lixo junto com outros parasitas. Falavam-no artista, a dialogar com nomes de pessoas que ele não sabia se existiam e até acreditava mesmo ter conversado com aqueles inexistentes, mas deveria ter esquecido sobre o que falaram. Quando acreditou ser uma celebridade, já não havia lembranças dele nos cadernos descolados: o mundo da arte agora estava apaixonado por um produtor de vídeos experimentais sem imagens.


 

  1. Ela chorou a morte. Ela não era ela, era a personagem, seu choro era cênico e sua vida o roteiro e a plateia um imenso ciclope fixando seu desproporcional olho em seu corpo prestes a ser devorado. Já não sabia quem era ela e quem era a personagem, já não cabia mais o choro e a lágrima, insistia em não sair de cena.


 

LM


 


 


 


 


 


 


 

Sunday, April 08, 2012

A carne da sexta


 

"et non ulla creatura invisibilis em

conspectu eius et omnia autem nuda

aperta sunt oculis anúncio QUEM nobis sermo"

Hebreus 4:13


 

Cresci temendo a sexta-feira santa, não podíamos falar alto, sorrir, brincar ou qualquer coisa que não remetesse a uma circunspecta tristeza e isto tudo enchia-me de temor. Qualquer coisa era motivo para ser condenado ao flagelo do fogo eterno, mais ainda desrespeitar o mais triste de todos os dias. Os pais saiam — e não acho que fossem para igreja, ou fazer qualquer tipo de penitência — e as mães ficavam em casa rezando e chorando de tristeza pela morte de nosso salvador. As crianças, proibidas de fazer qualquer coisa, se reuniam e logo começávamos a nos provocar, até chegar uma das chorosas mães com um cinto ou varinha na mão. Levávamos a maior bronca e algumas varadas, tínhamos de nos comportar como se nosso pai ou irmão mais velho tivesse sido brutalmente torturado e executado para salvar nossas vidas miseráveis. Também era um dia de passar fome, não que isso fosse novidade, mas aquela era uma fome imposta, mesmo se tivesse comida em casa.

Passados mais de quarenta anos daqueles tristes e temidos dias, acordei uma certa manhã, com a maior ressaca de minha vida. Não lembrava como tinha voltado para meu quarto, nem onde passei a noite, lembro apenas de ter sido escalado para trabalhar no feriado da sexta e no domingo e quando olhei para o relógio, quase meio dia, sabia que nem adiantava mais ir para o serviço, era só passar na segunda e acertar as contas. Não tinha me tocado que feriado era aquele, até cair a ficha: era uma sexta-feira santa. Sem grana e sem nenhum lugar para ir, resolvi que era mais do que passada a hora de acertar as contas com aquele dia tão terrível da minha infância e decidi ir para a missa.

Quando entrei na igreja e vi aquelas velhinhas com seus xales pretos cochichando suas rezas, tive medo como se ainda fosse aquele pirralho magricelo e cabeçudo. Tratei de me acomodar logo em um banco e, como os demais, pus-me de joelhos para rezar. Não sabia mais rezar, então tive de improvisar. Misturei Pai Nosso com Ave Maria, Credo com salve Rainha e quando vi que a coisa não ia adiantar, desisti de das orações. Fiquei ainda algum tempo de joelhos, já que não sabia rezar, pelo menos faria alguma penitência, ficaria assim até a missa começar. Mas a porcaria da missa não começava nunca, sentei, meus joelhos ardiam, e perguntei para uma das velhinhas que horas a missa ia começar. Ela me olhou com aqueles olhos de quarenta e tantos anos atrás, jogou-me no inferno e disse que não tem missa na Sexta Feira Santa, apenas um profundo pesar pela morte de Nosso Senhor e um momento de reflexão e de arrependimento pelos nossos pecados.

Sem grana, quase tudo fechado, joelhos doídos, ainda um pouco tonto, estomago começando a roncar, fiquei ali sentado, olhando para o enorme crucifixo do altar. Um casal sentou no banco da frente, deveriam ser os mais jovens ali. Ele com um paletó preto, surrado e ela com um vestido azul escuro, um ou dois números menor do que o número dela. Tinha uma bunda bem grande e a roupa apertada fazia aumentar ainda mais, mesmo assim ainda era uma bunda bem gostosa. Eles se ajoelharam e, para poder olhar mais de perto aquela bunda, me ajoelhei também. Apoiei os cotovelos no encosto do banco da frente segurei minha testa com os dedos entrelaçados. Dava para ficar olhando sem ninguém notar. Não teve jeito, com o olhar fixo nas nádegas da devota, tive uma ereção, mas, sei lá porque, levantei a cabeça e dei de cara com o Cristo do crucifixo me olhando. Eu jurava que antes ele tava de olhos fechados e agora daquele jeito, bem abertos, olhando diretamente para mim. Olhei para os lados e tive a impressão de que todas as velhinhas estavam olhando para mim também. Jesus deve ter falado para elas o que eu estava fazendo, espero que não tenha contado para a bunduda nem para o marido dela. Era hora de sair da igreja. Mas não pude ir muito longe, estava muito fraco e tive de sentar na escada da saída. Minha cabeça doía, meu estomago doía, meus joelhos doíam tudo começou a girar. Fiquei ali um tempo enquanto fiéis taciturnos entravam e saiam da igreja. Neste entra e sai, alguns, tocados pela santidade do dia, resolveram depositar esmolas ao meu lado. Não percebi de imediato, mas logo vi algumas moedas e cédulas se acumulando. Jesus deve ter falado para eles que eu tava com fome, sede e sem grana. A bunduda de vestido azul se abaixou e deixou uma moeda. Tive vontade de segurar sua mão e agradecer, mas não consegui levantar a cabeça, vi apenas sua perna, vestido e depois sua bunda rebolando ao lado do homem de paletó surrado. Tive vontade de voltar a frequentar a igreja para ver se arranjava uma gostosona daquelas, talvez voltasse a considerar isto em outro dia. Fiquei ali até acabar o movimento e uns sacristãos fecharem a igreja. Estava aliviado por estar acabando a sexta feira santa e agradecido por só ter uma por ano. A grana das esmolas deu para comprar alguma comida e bebida para manter-me bêbado durante o final de semana. Apesar da bunduda, não perdi o medo da sexta feira santa.


 

LM

Saturday, March 31, 2012

Ato de contrição

Entendia tudo perfeitamente, tinha domínio da situação, mesmo sabendo-se omisso. Não era sua culpa, ele apenas fazia seu papel, desempenhava suas funções, nada deixava faltar não lhe mentia, se muito, deixava de informar, era, pois, salvo algum pequeno defeito, coisa mínima, tal qual todo e qualquer outro, apenas. Não, não haveria de dar-lhe motivos, não suportaria a humilhação de vê-la acusando-o, jogando na cara todo tipo de mal falares, antes ser ele a parte ofendida. Resignar-se-ia. Estoico, suportaria a infâmia, a afronta com serena altivez, como um samurai, orgulhoso de seus mortais ferimentos, inabalável em sua crença moral. Mas como faria cair em desgraça? Já não tinha o mesmo viço de quando se conheceram, mas ainda havia traços de uma beleza ancestral, mantinha uma pose digna e não perdera o charme. Até já percebera certos olhares em sua direção. Os filhos longe, encontrou tempo para cuidar de si mesma, se arrumar melhor, para usar maquiagem, ainda tinha atributos para seduzir muitos homens. Mas como faria? Só assim poderia perdoa-la, mostrar a grandeza de seu amor, falaria como foi o culpado por não ouvir-lhe os clamores, por não ter prestado atenção em suas carências e ela, humilhada pela compaixão e pelo amor que perdoa, não poderia mais criticar seus pequenos defeitos e caprichos. Enfim poderia trocar a toalha de banho dia sim dia não, usar camisas que precisem ser passadas a ferro, receber seus amigos em casa, almoçarem ao meio dia em ponto (mesmo aos domingos), ficar até mais tarde nas reuniões da associação sem ter de ouvir um injusto sermão. Quando a lista de coisas que queria e poderia fazer começou a aumentar e a incluir desejos e fantasias que achava já terem sidos extintos, receou ter feito uma terrível descoberta: após 22 anos de casamento, se haviam tornado dois estranhos sob o mesmo teto. Seu plano perdeu o sentido. Mesmo que ela se deitasse com outro, teriam de tornar a se conhecer. Ficou com medo de, de fato, não ter tanto sangue frio, o melhor a fazer era procurá-la, conversar, convidá-la para saírem. Com oito passos estaria no quarto dela. Ela estava deitada sobre a cama, nua como há muito não a via, olhar fixo no teto, braços abertos, tudo imensamente vermelho, como em um sonho. Ele perdeu-se em divagações, se respeitaria a vontade dela, se deveria falar algo, se ela ouviria algo, se não deveria fazer o mesmo, se deveria deixá-la só pela última vez, se poderia vender a casa e comprar um pequeno apartamento, se chamava alguém, se deveria fazer amor com ela, se deveria voltar e apagar a luz da sala, se abriria uma cerveja, se... Não sabe se falou ou pensou ter falado em perdoá-la ou pedir perdão. Por um instante longo demais para ser real, enquanto via pulsos terminando o jorro, escolheu uma das alternativas de suas divagações. Era o que deveria ser feito naquele momento, mais nada.

LM

Sunday, March 25, 2012

A Deus, a inocência


Cansados das injustiças, guerras, fome, destruição do planeta e outras tantas mazelas recaindo sobre a raça humana, os mais destacados filósofos, juristas, estadistas, artistas, embaixadores, artesãos, médicos, sociólogos, sacerdotes, antropólogos, industriais e demais próceres da espécie, reuniram-se em assembleia para apontar o culpado por tantas tragédias e em seguida puni-lo. Certos de não ser tarefa das mais fáceis, combinaram que todos os participantes desnudar-se-iam de suas paixões e manteriam o foco apenas na razão, concluíram que a emoção havia motivado de maneira intempestiva muitas iniquidades.  O primeiro a tomar a palavra, um jurista com inclinações filosóficas não perdeu tempo e foi logo apontando seu maior suspeito:
            — Nada mais claro e razoável para mim e, após minha breve argumentação os senhores hão de concordar, de que se há um culpado, é justamente aquele que tem o maior poder, quem de fato pode transformar as coisas e, acima de tudo, quem fez as coisas como são. Se eu construo uma casa e esta desmorona, quem é o culpado? Se faço um refogado e carrego demais no sal, tornando-o intragável, de quem é a culpa? Se educo um filho de maneira libertária, sem disciplina, sem orientá-lo devidamente, apenas ameaçando-o: não faça nada errado (sem explicar porque), senão sentirá a minha ira, de quem é culpa pelo adulto frívolo e individualista que se tornará? Assim, quem senão o criador desta obra imperfeita seria o culpado por tantos males?
            Um clérigo de renome internacional, famoso por sua natureza justa e sua busca pela verdade tomou a palavra.
            — Caros irmãos, é bem tentador por nossos fracassos nas mãos do Pai, seria muito cômodo, traria uma certa liberdade para podermos fazer aquilo que melhor nos aprouvesse, independente de causar muitos males a nosso semelhantes, entretanto lhes pergunto: Que tipo de filho seria eu, se reconhecesse um erro em meu pai e ainda assim continuasse a reproduzir este erro? Uma vez que reconheço um possível erro em meu pai, já não sou mais inocente se repetir tal desvio. Isto não significa ter havido erro na obra divina, posto não ser este nosso lugar, mas apenas uma passagem para a vida eterna. Uma larga lagarta que põe-se a comer sua folha ideal para nutri-la, caso resolva querer voar antes de ser borboleta e perder-se em uma vida desregrada e errática, certamente terá uma vida de lagarta desgraçada, amaldiçoará o céu e a terra por sua infelicidade e purgará os efeitos deletérios de seu desvio de conduta e, ao final, não ganhará os ares, pois nem borboleta será. Mas como investigamos um culpado, creio que devemos pensar não em um personagem, mas em um sistema de trocas.
            Como o assunto sairia da esfera religiosa, um economista e humanista, coisa que nunca se viu,  parceiro do clérigo nas investigações, assumiu o posto de orador.
            — Quando meu colega fala em sistema de trocas, devemos pensar basicamente em como se dão as relações comerciais, onde um determinado bem é comercializado não por seu valor de produção, mas por seu valor simbólico dentro de um sistema aparentemente simples de oferta e procura. A aparente simplicidade deste sistema pode nos induzir ao erro de que os preços são regulados por mecanismos racionais de custos, capacidade do mercado em comprar tais bens e a vontade dos consumidores em adquirirem estes bens, como não é tão simples assim, os donos dos meios de produção estabelecem preços elevados, muito mais elevados do que seria necessário para cobrir os custos de produção e auferirem boas margens de lucros aos envolvidos no processo de produção e comercialização, para seus produtos ou serviços e, se o mercado aceitar tais preços e comprarem, eles ainda sobem mais um pouco os preços para criarem uma sensação de que aquele bem é altamente desejável; aliam a este mecanismo uma intensa campanha midiática, para referendar seus discursos.  Isto torna, o que deveria ser um processo de troca, de um bem ou serviço por uma quantidade de dinheiro (suficiente para ressarcir dignamente os vendedores), em um sistema de acumulação de capital. O advento da revolução industrial apenas mecanizou o processo de acumulação que já existia. Antes os nobres ou senhores de terras acumulavam riquezas à custa do trabalho dos camponeses e agora os financistas acumulam riquezas à custa do trabalho e do consumo dos cidadãos. Assim, o principal culpado por este modelo é, na verdade, o modelo de acumulação de capital.
            A partir deste ponto as discussões começaram a tomar um rumo mais acalorado, cada qual defendendo seu ponto de vista: o artista defendendo que a falta de arte produz nos homens um distanciamento de sua humanidade e que expressando-se pela arte as pessoas poderiam extravazar todas as suas pulsões e desprenderem-se da materialidade destruidora, geradora de matizes conflitantes do eu com sua psique e apenas a transfiguração do lugar comum em arte é que poderá redimir os seres humanos; já o diplomata bradava que aboliu-se o diálogo em detrimento de uma retórica imposicionista, baseada na força e não na igualdade dos sujeitos.
            Lá pelas tantas, concluíram que apesar de ser tentadora a proposta do jurista em apontar Deus como culpado, desistiram da ideia pela impossibilidade de aplicação de punição. Da mesma forma foram desistindo de aplicar a pena capital em outros acusados ao longo dos debates, por as acusações não terem embasamento suficiente, ou por serem muito difíceis de serem compreendidas, ou por requererem um esforço de associação muito grande e foram, pouco a pouco, absolvendo o mercado, o sistema capitalista, o autoritarismo, a democracia, as religiões, o ouro, o machismo, o feminismo, o petróleo, a natureza, os extra-terrestres, o Natal, as olimpíadas, Henry Ford, Gengis Khan, Lenin, Marx, o capitalismo, Maomé, Jesus Cristo (esta acusação foi a mais fácil de derrubar, pois se Jesus, Deus e o Divino Espírito Santo eram, ou são, um só, o que cabe a um cabe ao outro), Buda, Darwin, o vírus da gripe, o sol, o sal da água do mar,  a teroria da relatividade, a lei da gravidade, o povo badari, Lucy (dos australopithecus), Homero, Moisés, Noé, Adão, Eva, o amor, Judas, Lilith, Bahamut, a escrita (e os sumérios, por extensão), o vinho, o sexo até que uma falha no sistema elétrico do prédio onde se reuniam os deixou no escuro. Sem terem mais como se entenderem, decidiu-se, por unanimidade, que os trabalhos deveriam ser interrompidos e recomeçados em outra ocasião, em outro local e com data ainda a ser definida. Como não elegeram quem deveria tomar estas providências, os ilustres e proeminentes baluartes de nossa civilização aguardam nova convocação.

LM

Wednesday, March 21, 2012

Vultos, amendoins e outras alucinações filosóficas

Quando Vurto chegou, a festa já estava a mil, ele também, como sempre. Muita cachaça e comprimidos para dor de cabeça e quanto mais louco, mais babava pelo canto da boca e mais se enchia de um pedantismo embrulhado. Citava tudo quanto era porcaria de poeta, filósofo, escritor ou qualquer merda que pudesse fazê-lo parecer inteligente. Diziam que havia sido professor universitário e se aposentou com um laudo de insanidade depois de tirar o cacete em plena sala de aula e sair mijando em cima dos alunos, por isto alguns também o chamavam de professor.

— E aí professor Vurto, achou mais algum gênio no fundo da garrafa?

— Vai se foder, Buck também entornava umas e outras e era gênio, sim senhor.

— Gênio ou não ele ficava no lado de fora das garrafas e permanecia algum tempo sóbrio, pelo menos para escrever e publicar alguma merda.

          Um pirralho avermelhado, meio murcho, com cara de amendoim velho se interessou por nossa conversa. Eu já tinha topado com este amendoim velho em outras festas e já ouvira algumas histórias sobre ele, acho que só era convidado por caridade e como ninguém conversava com o moleque, não perdeu a oportunidade.

        
O senhor se referiu ao Charles Bu... — O amendoinzinho tentou completar o nome, mas Vurto se antecipou.

 
        
Senhor o cacete e antes de se referir ao Hank, tem de tentar chupar o próprio pau.     

Camila Boquete surgiu como que por encanto entre os dois. Normalmente estava com a cara enfiada entre algum par de coxas e sempre prestava atenção na conversa dos outros.

          — Porra Vurto, tu sempre dá um jeito de foder com alguém. O moleque não tem pau. Um cachorro escapou da corrente e fez o bilau dele de salsicha. Comeu tudinho. Mataram o bicho, mas só encontraram pelanca.

          — Ah então, é um d'Os Filhotes do Vargas Llosa!? — Babando como nunca continuou. — Como eu ia saber, ele tem cara de amendoim, não de carne moída.

        O pirralho, coisa que parecia impossível, avermelhou ainda mais e saiu sem dizer nada, fiquei com pena do carinha, mas já tinha meus problemas e também não estava ali para entrar na Ordem dos Beneditinos.

        — E você Vurto, já tentou chupar o próprio pau?

        Não sei que diabos deu em Vurto, não respondeu e também ficou sério, em seguida bradou:

        — Porra! Vou ser o Pangloss deste merda de Cândido.

Em seguida saiu e nunca mais os vi. Dizem que embarcaram em um navio mercante no porto de Itajaí e foram para a Indonésia.


 

LM

Tuesday, March 13, 2012

A realidade estampada nos jornais segundo Charles Trezinni

Todo cronista com um espaço a ser preenchido periodicamente em alguma publicação já se viu acometido por uma insubordinada crise de falta de assunto. Há quem afirme ser tecnicamente impossível não ter do que falar, mas apenas humano não saber como falar de algo. Diante do branco da tela (ou da folha, para os saudosistas) um escritor oprimido pela falta de ideias é tentado a falar justamente de como não sabe o que falar e divaga sobre insignificâncias do tipo: a fronha do seu travesseiro; um pardal no fio de luz; uma leiteira com leite de ontem; um besouro se debatendo como louco; dois cacos de uma louça quebrada; fragmentos de um cartão de visitas lavado no bolso da camisa; um calendário do ano anterior com datas de compromissos circuladas com esferográfica; problemas de rima em poemas escritos no caderno da escola; a falta que faz a ponta apontada em um lápis e outras ninharias. Um artista talentoso poderia extrair, de qualquer um destes temas, um vigoroso e profundo texto. Penso em James Joyce, Clarice Lispector e Katherine Mansfield, só para citar alguns, embora o primeiro pudesse alongar-se para além de setecentas páginas em seu texto-caminhada.

Na insistência da falta de assunto (mantenhamos este viés) o cronista pode ir para o bar. Nada é mais fácil do que descrever os tipos e as cenas em tal ambiente. Sempre aparecerá um sujeito com a cara de um personagem da Mad falando que os filmes bons são os do Schwarzenegger, do Stallone do Bruce Willis e outros durões, se lembrasse de mais algum nome. Dá para observar outro cara no balcão observando milimetricamente todos que entram e saem do boteco — deve ser um cronista captando instantes suburbanos da realidade quotidiana das almas citadinas para versejar por uma obra costumbrista, forte e retumbante —. Ou o casal de lésbicas tentando imprimir normalidade ante olhares de censura da plateia conservadora. Cada uma destas cenas teriam combustível para render linhas e linhas da mais genuína literatura com observações perspicazes sobre porra nenhuma.

Ainda no bar e já tomado pelos vapores etílicos, o cronista poderia também posar de escritor observador e sensível a captar instantâneos fugazes com as mais sutis variações psicológicas da alma humana e escrever outro tanto de material miasmático. Ao final teria observado de fato algumas coisas, inventado outro tanto, delirado uma porção e estava o texto pronto para ser enviado ao jornal, olhado de relance por um editor que nunca lê nada e aquele punhado de porcaria ganharia os contornos da tinta e, posto que fora publicado, tornar-se-ia a fina flor da realidade nativa, até a próxima edição, quando seria alçada ao seu legítimo lugar: embrulhando peixes ou sendo lambuzada de merda no rabo de algum bêbado.

 
 

LM

Monday, March 12, 2012

quinta


...faz frio estranhou a baixa temperatura para aquela época do ano olhou pela janela e pensou em como o parreiral reagiria com a as mudanças de clima dos últimos tempos e em como estas mudanças o afetavam homem e vindima precisavam aguentar até aparecer um comprador para a quinta olhou novamente pela janela e teve vontade de desistir de por a venda arranjaria outra saída arranjaria um empréstimo hipotecando a propriedade faria uma venda antecipada da produção haveria outra saída e se vendesse não fazia a menor ideia de como falaria ao pai que deveriam desocupar a quinta ir para onde morariam na casinhola da rua do Horto em Armamar lá a calefação era das piores e já não tinha mais força para o corte da lenha o Brasil era agora uma lenda antiga do tempo das histórias ao redor do fogo de quando sonhava em tocar a quinta dos avós deixadas pros lados da rua da Cova da Moura da rua do Cabo da rua da Fonte das história dos tios contando quem era a moura e de ter nosso bisavô feito a cova tinha medo da moura e não podia ir dormir sem olhar em baixo da cama e dentro do guarda roupas estava certo de que ela estaria escondida esperando anoitecer para vir fazer alguma maldade durante o sono agora a moura é apenas um nome qualquer de rua e ele nem isso teve vontade de chorar mas naquela idade o choro já não comove choro de velho é melindre velho chora por qualquer coisa não seria levado a sério seu pranto ainda que estivessem só suas lágrimas ainda que apenas ele soubesse estar chorando choro de velho ninguém liga choram à toa e recolheu seu pesar escutou o som arrastado quase inaudível dos passos do pai era hora da sopa era estranho aquele frio fora de época sopa com batatas cenoura galinha uns e outros temperos era tudo que sabia fazer de sopa não encontrava batata-doce talvez algum dia perguntaria ao pai se ele gostava da sopa como ele estava pequeno fora tão grande forte capaz de erguer uma tora sozinho ouvia muitas histórias sobre os feitos do pai ele não as contava não era de falar de si mas ouvia histórias dos tios de como ele fazia e desfazia não tinha medo de jagunço nem de polícia e agora nem consegue levantar os pés do chão para caminhar e não poderá ser enterrado nos fundos da capela da quinta às vezes o encontrava chorando nada de mais poderia ser só lacrimação involuntária coisa de velho ou saberia de alguma coisa agora gostaria que a moura viesse à noite e o levasse nos levasse pensou em deixar a porta destrancada...

Tuesday, March 06, 2012

Síndrome

As autoridades de saúde de Joinville ainda não perceberam, mas está em pleno curso na cidade, outrora das bicicletas, uma epidemia, a SSAFREM, ou Síndrome do Saia da Frente que a Rua é Minha. Esta síndrome, silenciosa enquanto os acometidos não assumem as direções de seus automóveis, provoca, além de um desespero aterrorizante com o passar dos segundos, a necessidade de o indivíduo se deslocar ininterruptamente quando dirigindo.

É muito fácil reconhecer uma vítima deste mal das pós-modernidade, o sujeito humano, independente de gênero, credo, etnia, classe social ou nível de escolaridade, não suporta ter de trafegar com seu veículo com outro veículo à sua frente, mesmo que o veículo da frente esteja trafegando na velocidade máxima permitida para a via. O portador da síndrome fica irritado, buzina, dá sinal de luz, xinga a mãe do condutor do veículo à sua dianteira e espuma pelo(s) canto(s) da boca. Caso o pobre coitado do condutor, o da dianteira, estiver um pouco abaixo da velocidade máxima permitida para a via onde trafegam, ele estará correndo sério risco de vida ou de morte, como queiram, talvez risco à sua integridade e do seu veículo fique melhor colocado, não obstante ao risco, que continua elevado.

Outro sintoma da nefasta síndrome pode ser percebido no momento em que um civilizado motorista resolve obedecer às leis de trânsito e dar a preferência a um pedestre na faixa. Vindo atrás do civilizado motorista um pobre diabo acometido pelo mal, ele pisa bruscamente no freio, fazendo gritarem os pneus no asfalto e levantar fumaça de borracha queimada, em seguida aciona o dispositivo de sinalização auditiva veicular, conhecido como buzina, de maneira ininterrupta. Igual ao exemplo anterior, os impropérios contra a mãe do civilizado motorista também são endereçadas ao pedestre, aquele que ousou a atravessar na faixa de pedestres. Ele também espuma pelo canto(s) da boca(s).

As autoridades de saúde precisam agir com urgência, este mal pode se disseminar e tomar conta de nossa cidade, das flores e afugentar os príncipes que dão título a outro adjetivo joinvilense. Além disto estou cheio de ter minha mãe vilipendiada diariamente porque afronto os portadores da síndrome, andando na velocidade máxima permitida nas vias públicas, ou dando a preferência aos transeuntes nas faixas de pedestres.

Wednesday, February 29, 2012

Cachorro

Toc, toc, toc.

— Dona Vera, o dona Vera! É o Bruno do 10!

— Que foi? Isso lá são horas?

— É que tem um cachorro no meu quarto.

— Um cachorro?

— É.

— Isso não é bom, não é bom. Não aceitamos animais, muito menos um cachorro e dentro do quarto, isso não é bom.

— Ele tá lá.

— Vamos dar uma olhada. Isso não é bom.

— É um cachorro mesmo. Quando o viu pela primeira vez?

— Dona Vera, se liga, hoje eu saí para estudar e não tinha cachorro nenhum e ai, quando voltei, ele tava lá, por isso fui chamá-la.

— Ele te atacou, te mordeu, te arranhou?

— Não, só ficou me olhando.

— Vou chamar meu irmão, o Vilson, ele leva jeito com animais.

Toc, toc, toc.

— Abre logo Vilson, sou eu, a Vera!

— Que bosta, isso lá são horas de aparecer gritando na porta de gente?

— Tem um cachorro no prédio, no quarto desse infeliz.

— Ele latiu?

— Não, só ficou me olhando.

— Vamos ver isso, vou pegar umas coisinhas pra lidar com cachorros.

— Veja, ele ainda tá lá, bem onde o encontrei.

— Filha da puta, não é que é mesmo uma porra dum cachorro. Tenho que falar com o Dr. Uribe.

— Doutor? É o Vilson... tem um cachorro aqui... isso, um perro... tá bom... tá bom... sei... não, ele não latiu... tá, a gente espera... até.

— O doutor está vindo.

— Carajo, és un perro mismo y mui hermoso, sin embargo és un perro. Llamen aos bomberos!

Uóóóuuóó.

— Onde está o animal?

— Ali, por ali, naquele quarto.

— Quem mora no quarto?

— Eu.

— Hum! Vamos dar uma olhada nisso de perto mocinho. Meu Deus, pela Virgem Santa, é mesmo a porra de um cachorro! Isto está fora de nossa alçada, podemos, no máximo, dar suporte operacional, mas vamos ter de chamar a polícia. E quanto a você, não saia daqui.

Uóóóuuóó.

— Onde está o suspeito?

— Ali, perto da porta. Lá dentro está o cachorro.

— MÃOS NA PAREDE! ABRA AS PERNAS!

— O que foi que eu fiz?

— CALA A BOCA E PÕE AS MÃOS NA PAREDE!

— O cachorro, ele tá lá dentro...

— Fica quietinho e só fale quando te perguntar alguma coisa.

— AAAI, meu braço! Tá quebrando! Caralho!

— ATENÇÃO! O cachorro tá se mexendo. Parece... é isso mesmo! Ele vai cagar! AFASTEM-SE!

— E eu? Meu braço tá quebrado.

— Vilson, pega o guri e traga pra cá, ele nunca incomodou antes, sempre tão quieto, deve ser algum mal entendido.

— Mas não é o braço que tá quebrado, e não a perna!

— Capitão, o agente canídeo defecou.

— Rapaz, vá lá dentro e limpe aquela merda!

— Meu braço... tem um cachorro lá dentro...

— Não tente desviar a atenção com essa história de cachorro, você é o único responsável por essa confusão toda. Temos aqui dezenas de bons profissionais prontos a arriscar suas vidas para livrar a cara de bundões como você. Agora deixa de frescura, vá até lá e limpe aquela merda!

— Ele fez alguma coisa quando você o encontrou?

— Não, capitão, só ficou me olhando.

— Isso não tá nada bom, tem mesmo um cachorro lá dentro. Precisamos chamar a Força Nacional de Segurança Pública.


 

LM

Sunday, February 26, 2012

Ao rei

Fui chamado em presença do rei Hamurabi. Devo apresentar-me a Vossa Majestade ao terceiro pôr do sol do recebimento deste comunicado. Estremeço-me, meu espírito aflige-se, três dias ainda, não conseguirei alimentar-me nem dormir, preciso controlar-me, não posso aparecer diante de tão elevada persona como se um zumbi fosse. Glória apavorante. Dos meus vizinhos, pelo menos metade deles arrancaria dois dedos dos pés para poderem ser recebidos pelo rei do mundo. O que poderá querer Vossa Majestade deste humilde servo? Terror! Teriam descoberto ser eu o autor daquelas malditas tábuas apócrifas, frutos dos desvarios juvenis? De nada adiantará prostrar-me ao chão e, em lágrimas, revelar o quanto renego aqueles dias e tudo que fiz nos momentos de intempestividade, o quanto amaldiçôo minha mão por ter escrito tamanhas insanidades. Não pode ser, já se passaram tantos anos, nem os mais proeminentes sábios e magos conseguiriam descobrir o autor dos escritos. Talvez o rei queira apenas recompensar-me por todos os anos de dedicação e trabalhos bem feitos em nome de Vossa Majestade Real e me conceda alguma graça, uma satrapia, afinal tenho me dedicado em enaltecer o nome do rei todo poderoso todos os dias de minha vida. Não devo preocupar-me, mas os olhos e ouvidos do rei estão por toda parte, estou perdido. Esqueça, tolo, nada deverá de mal acontecer-me, quem não deve não teme, a não ser que alguns dos tantos parasitas invejosos que orbitam o palácio tenham orquestrado calúnias para minha perdição perante nosso soberano. Serei açoitado mil vezes antes de ter minha cabeça separada do corpo. Urge fugir, irei para o Egito. Isto não é atitude de um homem corajoso, ficarei e enfrentarei meus detratores, até a morte, se preciso for. Não tombarei sem antes lutar o bom combate, sem mostrar todo o brio e valor dos da minha linhagem e, perecendo, acorrerão poetas cantando loas em minha lápide e as donzelas chorarão por um marido tão valoroso quanto eu. Quanto de suprimento e ouro consigo arranjar antes do amanhecer? Pegarei um camelo dos mais robustos, talhado para longas jornadas, subornarei os guardas para que não delatem minha partida e empregarei fuga através do deserto em direção ao Egito. Clamarei hospitalidade nas casas nobres pelo caminho para os pernoites e antes de a lua completar um ciclo já estarei nas terras banhadas pelo grande Nilo. Apresentar-me-ei com outro nome e oferecerei meus préstimos para a glória do meu novo rei. Creditarei meu exílio à morte prematura de minha amada esposa e, ficar em minha casa remeteria à sua amarga ausência. Como ficarão, de fato, minha esposa e meus filhos? Se Hamurabi descobrir minha fuga os porá a ferros e, se não os enforcar, os fará de escravos para serem vendidos na feira. Não poderei viver com esta culpa, eles não podem perderem-se por minha causa. O que o rei quer comigo? Não poderei suportar o lento caminhar do tempo, tenho que fazer algo. E se for apenas para apresentar o balanço anual das colheitas de damasco? Esta cicuta deve resolver.

LM

Tuesday, February 21, 2012

Vive la médiocrité: Auto ajuda para repensar o sucesso

Em minha última viagem à Marabá, tive o prazer de entabular das mais ricas discussões com meu muito amigo e compadre G. Estando eu em férias e aproveitando o conteúdo tautológico de nossas análises, ele me convidou para fazer uma palestra na universidade local acerca das existências ímpares de três dos exemplos mais bem acabados da inquietante condição humana: Pierre Menard, Brás Cubas e Memnon, o sábio. Não foi espantoso ter encontrado acadêmicos desconhecedores da história destes três ícones, se não, ter encontrado quem, antes de ouvir meus argumentos, objetar a existência de um paralelismo atávico entre eles. Trago aqui um resumo das palavras proferidas durante a conferência.


 

Discussão sobre o psicologismo intrínseco em Pierre Menard, Brás Cubas e Memnon, o sábio e a mediocridade


 

O que buscamos ao longo de nossas vidas? Um existencialista empedernido poderia objetar qualquer outra afirmativa que não fosse viver, já um minimalista acrescentaria o prefixo sobre. Um estóico apenas se diria ocupado em suportar o fardo e não teria nada a acrescentar, enquanto um hedonista estaria ocupado em excessos. A lista de comparações poderia estender-se enfadonhamente, fazendo analogias entre crentes e laicos, hegelianos e nietzschianos e assim por diante. Mas a resposta é: sucesso.

Antes de ser mal interpretado, entenda-se sucesso como a melhor realização daquilo que mais próximo está do caráter de cada indivíduo. Um lenhador sonha em ser o melhor lenhador que se tem notícia; um médico idem; assim como uma dona de casa ou um taxista. Pierre Menard não queria ser apenas o respeitável escritor que fora, queria ir adiante, queria, se não ser, ao menos escrever o que Cervantes escreveu. Notem, ele já havia alcançado uma condição proeminente, mesmo assim queria ir além, não bastava fazer a melhor exegese do Quixote, urgia escrever, anacronicamente, o Quixote, como se Cervantes não o tivesse feito.

O bon vivant Brás Cubas, tendo de despender o mínimo esforço para viver, perdeu-se com a idéia fixa do seu emplastro medicinal que curaria a eterna melancolia dos homens. Para qualquer vivente esta seria uma tarefa hercúlea, para quem de nada necessitava na, uma missão messiânica.

Quanto ao sábio Memnon, outro que de nada nesta vida lhe faltava. Tinha dinheiro, amigos fiéis, uma posição social reconhecida, entretanto queria mais, queria ser perfeitamente sábio e não entreviu maiores obstáculos para alcançar seu intento. A história nos mostra quão enganado estava nosso sábio.

Como vimos, os três exemplos não eram de homens quaisquer, eles tinham posições de destaque nas suas sociedades, tinham fortuna, eram inteligentes e bem relacionados, mas lhes faltava algo a mais do que a fortuna, lhes faltava o sucesso, serem reconhecidos como os mais proeminentes entre seus pares, almejavam mudar a história e conseguiram, no máximo, entrarem para história como exemplos picarescos, perderam-se os três, cada qual ao seu modo e jamais conseguiram atingir plenamente seus intentos. Agora volto à pergunta inicial de nossa discussão para reafirmar minha resposta. Poderia elencar uma vasta relação de outros exemplos similares, por ora bastam os já citados para afirmar que a busca pelo sucesso nada mais é do que a precipitação do fracasso. Vivamos na mediocridade e não nos perderemos. Não tratem o termo medíocre de maneira pejorativa, pois nada mais é do que permanecer na média, sem faltas, tampouco excessos. Vivendo na mediocridade não teremos os arroubos das paixões, nem os disparates furiosos da busca pelo sucesso. Também não cairemos do alto e se cairmos, não estaremos tão longe do chão. Viva a mediocridade.


 

P.S. Estamos trabalhando para que a transcrição completa da conferência seja publicada em breve, sob a forma de livro. Enviei-a à Sorbonne para chancela daquela instituição e estamos direcionando esforços para que o lançamento da obra ocorra na sede do Parlamento Europeu, com cobertura dos mais importantes veículos de comunicação. Será um sucesso.


 

LM


 

Sunday, February 19, 2012

Três atos da morte

I - Heráldica


 

De Portugal, levas de figuras inconvenientes foram convidadas a se aventurarem até as Índias. Em 1806, embarcaram aqueles lusíadas menos valorosos. Entre os expatriados, a Sebastião Açuz Mendes, coube o privilégio de ser o elo a unir os Mendes da Rua Torres, em Joinville, à Europa.

    Entre o primeiro e o mais novo Mendes, cinco gerações de degenerados, escravos, prostitutas, ladrões, viciados, poetas, falsários, pagãos, suicidas e o que é mais impressionante: nenhum assassino. Sebastião não derramou sangue alheio e sua descendência, mesmo na ignorância deste detalhe, também não o fez.

    Em 2006, Sebastião da Silva Mendes, acusado de um assassinato que não cometeu, é preso. Morre durante uma rebelião.


 


 


 

II - O truco


 

Jarbas embaralhou bem as cartas e entregou-as ao Vargas.

    — Corta! — ordenou.

    — Não carece de me dar ordens! — disse no tom ameaçador dos truqueiros, tentando aumentar a animação.

    Rei de paus, pica fumo e desafios fingidos. As imprecações eram proferidas de modo teatral. Mais pareciam senhoras no bingo da igreja se fazendo de valentes.

    — Mata agora — desafiou Miguel deixando o copas cair suavemente na mesa.

    Por que será que a gente não acostuma com a morte? Falou de maneira apática Jarbas, ao mesmo tempo em que jogava o gato.

    — Que horas ele morreu? — Perguntou Antonelo, parecendo estar fora de sintonia.— Eu não entendo. — Continuou.

    — Que horas morreu o Pedro Caixa d'Água ou o copas do Miguel? — Troçou Vargas, distraindo o companheiro para poder pegar o baralho antes da sua vez.

    — Há muita coisa que a gente não entende.— Jarbas deu um tapa não mão do Vargas para recuperar as cartas roubadas. — Como um baralho voltar para a mão de um ladrão, por exemplo, ou o que tem quando acaba a negrona.

    — Vamos tomar uma pinguinha? — Disse Antonelo, recuperando a sintonia.


 


 

III - Através do vinho


 

Ouço Gardel vibrar através de uma copa de tinto e creio uma Argentina particular, com Martin Fierro, Negro Uribe, Baltazar e um Borges íntimo. Escrevo tudo em papeizinhos — para não esquecer nada —, meto-os nos bolsos e perco-os pelo caminho. Enquanto busco as respostas que neles amarrei, giro mais uma vez o tambor. Não acredito na sorte e me amaldiçôo por estar escrevendo em português, por não saber mais dançar tango e por escutar o clique inofensivo do cão. Giro mais uma vez.


 

LM

Sunday, February 12, 2012

Sanguínea

N.A.: Este conto foi publicado há alguns anos em uma revista, livro de coletâneas, ou algo parecido, cujo título não me ocorre, mas assim que souber, informarei. Desculpem a falta de originalidade por não estar postando nada novo, mas tenho encontrado cada vez menos tempo para novas criações, desta forma lanço mão do expediente de auto-plágio.

Eles não acreditavam nas mentiras. Todos mentem. Não haveria uma vida pela frente. Não havia um nome a zelar. Não havia o desejo de serem vítimas. Mas ele buscou a morte, tencionou a vida e antes de dar o último tapa desprezou o arrependimento. Ordenou pela última vez: "enterrem minha carcaça enquanto ainda respiro, o cheiro da terra há de me ser agradável e à escuridão, já me acostumei. Sinto falta da minha primeira escuridão." O último, foi o mais forte dos tapas, depois, o mais animalesco beijo. Naquele dia não houve penetração. Naquele dia ela não obedeceria.

Antes de nascer, Gallimard já trazia uma cicatriz no púbis. Um vergão grosseiro, vermelho, pulsando irregularmente, abrigando culpas subcutâneas. A marca de uma cesariana mal feita, apressada, quando ele não era mais do que um girino. A marca a ser carregada pela continuidade da vida para lembrar de onde veio M. De um pseudo-útero ao útero da mãe.

A presença de Gallimard já oprimia M e quando foram expulsos da casa primeva, ela se recusou a sair. 18 minutos após o nascimento do primeiro, o fórceps a convenceu. Não queria sair, sabia que lá fora teria de olhar para a cicatriz. Queria poder evitar.

A bizarra marca se preservou, mesmo nas suas mais sutis reentrâncias, até o corpo de Gallimard se decompor. Ele viveu por 34 anos, 7 meses e 3 dias. A cicatriz, um pouco mais. M contaria a história.

Não eram gêmeos, eram pai e filha, ainda que fossem irmãos. Natureza reconfigurada. Diferente de algum tubarão devorador de concorrentes já no ventre materno, Gallimard concebeu outra vida. Gerou sua rival da sua carne. Não a devoraria, a subjugaria. Teria um sparring para treinar seu instinto de dominação. Uma fêmea, filha e irmã. Várias faces incestuosas.

Existiu uma família com pai, mãe e irmãos, mas a cicatriz estava presente, pulsando sob o emaranhado de pêlos, revivendo um pacto anterior à luz.

M nunca tocava no assunto. Evitava falar sobre aquilo como se agindo assim, não materializasse o sonho. Mas ela sentia os odores da cicatriz e isso a remetia à suas obrigações de boa filha, boa irmã e dócil fêmea. A família de aparências era ideal para justificar a constante união. Ela cheirava, mordia, depositava seus líquidos, mas não olhava para a cicatriz, era a última fronteira do pudor familiar e não suportaria ultrapassa-la.

Não seria ela quem executaria a última ordem. Não lhe agradava fazer algo contra o irmão 18 minutos mais velho, o pai que a pariu e o homem que melhor sabia como puxar seus cabelos. Também não seria ela quem impediria. Apenas olhou Gallimard sangrar até a morte.

Hoje ela ainda sente o cheiro e o gosto do suor da cicatriz e tem nojo, tem tesão, raiva, saudades. Depois reza para algum deus sádico que a violentou quando ainda era um feto. Um deus que não a deixa esquecer das lembranças de de dentro do útero e também não a deixa parar de sangrar. Os sangues de cada mês acompanharão M tanto quanto o sinal acompanhou Gallimard. Não lhe foi dado o direito de secar e conhecer a redenção. Sangrará até a morte.

Thursday, February 09, 2012

Quadrilátero, ou o terceiro caso

Antes de deixá-los, é preciso pôr a termo um e outro detalhe de minha vida pregressa, para adentrar na posteridade de alma lavada. Quis dar a este documento o título de testamento, posto estar deixando um legado, todavia não há bens em quantidade suficiente para regalar todos meus afetos e uns tantos de desafetos, aos quais gostaria de deixar algo para não esquecerem-se tão rapidamente de mim. Na falta de bens deixarei umas tantas revelações, se calharem a alguma coisa, dar-me-ei por satisfeito, em negativa, será o desvencilhamento das coisas corpóreas, espero.

Estando já me aguardando mamãe e papai, a quem finalmente conhecerei, quero destinar minhas primeiras últimas palavras à minha fiel e dedicada esposa, tão solicita durante 35 anos. Em reconhecimento aos seus méritos, serei direto: não resisti a certos encantos de outra mulher e sucumbi ao desejo da carne, desta forma, tomei para mim uma amante, desde os primeiros anos de nosso casamento até quase os tempos de hoje. Não te inquietes, cara esposa, pois tomei todas as precauções para que tu ou qualquer de nossos amigos e parentes não viesse a saber deste meu pequeno pecado. Revelo isto agora, não sem certo peso na consciência, mas preciso fazê-lo para provar-te que não era tão estúpido quanto me julgavas, nem tão insensível, também não sou tão palerma quanto me acusaste inúmeras vezes, apenas sempre foi de minha natureza, buscar o embate de idéias ao invés da luta, assim, para evitar o confronto com alguém que tanto prezava, arranjei outra, que, sem maiores responsabilidades, me ouvia, nos pequenos espaços de tempo, sem acusar-me ou censurar-me. Estando ela, desde o primeiro instante, ciente que jamais te deixaria, nunca exigiu nada mais do que algumas horas por semana. E o restante do tempo poderia dedicar-me a ti e as crianças que o bom Deus não permitiu nascerem. Entendo se não me perdoares, entretanto saiba que meu coração somente a ti pertenceu e, se me for dado tal privilégio no além, continuará pertencendo. Mais do que a tentação da carne, cultivei este caso para ter alguém a quem falar minhas idéias, minhas ideologias, pois tu foste sempre tão pragmática com as coisas da nossa casa e da nossa vida, mas tão alheia às coisas da política, da filosofia e das ciências e não queria importuná-la com tais assuntos, pertencentes ao mundo além do lar. Como já disse um sábio: "Haverá sempre um homem que, embora sua casa desmorone, estará preocupado com o universo. Haverá sempre uma mulher que, embora o universo desmorone, estará preocupada com sua casa."

Para aquela que foi a segunda em minha vida também gostaria de deixar umas palavras, desta vez a despedida definitiva, tantas vezes antes ensaiada. Você sempre se mostrou atenta à minhas palavras e até se esforçava por parecer interessada e agradeço por isto, mas jamais você contestava, complementava, argüia. Repito, sou muito grato por ter me ouvido, especialmente não estando assim tão interessada, mas foi por este pequeno detalhe que acabei arranjando uma terceira mulher em minha vida. Você sempre deixou bem claro que jamais sentiria ciúmes de minha esposa, mas viraria uma onça se soubesse que eu havia arranjado a outra da outra. Sabia de suas reais intenções animalescas e sua disposição para deixar suas emoções aflorarem e transformar-se, efetivamente, em uma fera, por tal motivo, preservei com maior diligência a discrição quanto este terceiro caso. Ela me ouvia, assim como você, mas tinha suas idéias, às vezes até conflitantes com as minhas e entabulávamos extensas discussões acerca dos mais variados assuntos, discussões que poderiam durar meses. Como não dispunha de tanto tempo assim para ficarmos juntos, ela assentiu em nos vermos uma ou duas vezes por mês, entretanto mantínhamos uma profícua troca de correspondências. Ela me ouvia e me respondia.

À terceira não precisarei deixar muitas palavras, apenas um adeus, pois já havíamos discutido até a forma de minha despedida e a morte, muitas vezes, foi tema de nossas discussões. Aliás, ela foi contra este modelo adotado, preferiria que as coisas tivessem ficado como estavam, ocultas, cada qual em sua alcova, preservando-se as aparências para evitar celeumas, nossa correspondência só seria revelada (talvez publicada) quando os envolvidos diretamente no quadrilátero estivéssemos mortos. Achei muito trágico e, diante do fim próximo, achei melhor fazer agora tais revelações, nunca tive coragem de fazê-las antes.


 

LM