Sunday, July 08, 2012

Três coisas que eu gostaria de saber fazer

    Até aqueles caras que tocam duas ou três notas e no mais, dão apenas batidas nas cordas do violão já me humilham ante minha total inaptidão para a música. Não tenho voz para cantor e não me arrisco nem em karaokês domésticos, isto ainda passa, mas não saber tocar algum instrumento musical me oprime profundamente, poderia ser qualquer um, flauta doce, chocalho, pandeiro, muito embora meu verdadeiro fascínio seja pelo violão. Pode ser que existam outros instrumentos mais nobres, ou mais difíceis para aprender, mais sofisticados talvez, mas é tirando notas na simplicidade da viola, na sua comovente sinceridade que me vejo quando sonho estar tocando algum instrumento.

    Quando jovem almejava tal habilidade para impressionar as meninas nas festas de escola, ou nos entardeceres na praia. Não preciso dizer que faltavam-me muitos atributos para impressionar as garotas, não era forte, bonito, inteligente, ou rico; não sabia surfar, nem tinha alguma habilidade que me fizesse ser notado, então sonhava com algo que não poderia ser tão difícil assim de conseguir: um violãozinho ordinário não era coisa cara e aprender a dedilhá-lo não deveria ser coisa inatingível. Estava enganado. Até arranjei um violão de segunda mão, de marca conhecida, mas daí a tirar alguma música dele foi um abismo intransponível. Tentei em outras oportunidades, com iguais fracassos. Agora, com os dedos fracos e menos ágeis, enterro definitivamente este sonho.     

Sei fritar ovo, fazer arroz soltinho, macarrão al dente e, se a carne for de bom corte, assar um churrasco razoável. Temperar salada não conta, então eis todo meu repertório culinário. Em adolescente li um livro onde o personagem principal dominava as mais variadas técnicas de cozinha e era capaz de fazer um verdadeiro banquete com dois pães velhos, alguns temperos, um pouco de azeite, algum fruto do mar ou qualquer sobra de corte de carne. Além de cozinhar magistralmente, o personagem era um grande sedutor e maior ainda aventureiro. Em minha mente semi-infantil condicionei uma coisa à outra: um bom cozinheiro seria sempre um grande amante e viveria sempre em grande estilo. Deveriam proibir as crianças dotadas de parcos recursos intelectuais de lerem livros deste tipo. Logo saí eu, tal qual um dom Quixote – ele envenenado pelos livros de cavalaria, eu por heróis cozinheiros – a queimar cozidos, estragar peixes, esturricar carnes, e achando que estava abafando, principalmente quando fazia toda aquela gororoba intragável ser acompanhada por aqueles ordinários vinhos da garrafa azul. Ao menos o manchego teve seu escudeiro, quanto a mim, tive de lavar os pratos e jogar as sobras (e sempre sobrava quase tudo) só.

    Haveria ainda outras tantas coisas a acrescentar a esta lista de insucessos, como pescar, cultivar um canteiro de cebolinhas e salsinhas, cavalgar, fazer e empinar pipas, mas seria uma lista muito enfadonha e correria o risco de ser taxado como um cara chato que não sabe fazer nada. Há ainda uma frustração mais singela, talvez até me digam, mais sem sentido, pois poucos são os que conseguem algum sucesso com tal habilidade e, em alguns casos de êxito, nem há tal necessidade. Evitarei alongar-me ao falar desta minha inaptidão, para poupar meus poucos leitores, que talvez já tenham até descoberto a que me refiro. Gostaria de saber escrever.


 

LM

Saturday, June 30, 2012

Salomão Silva, o arcadiano da rua das putas, ou a imitação de Funes

Penso ter sido Funes o primeiro caso relatado e descrito em publicações científicas. Borges soube bem, como sempre, fazer uma descrição poética do passar dos dias deste memorioso, não sem antes, presumo, ter se debruçado sobre os relatos médicos do doutor Aquilino Pontes de Villa Real, onde este estranho aumento da capacidade de retenção de informação do cérebro humano é descrito. Adoto o sábio procedimento do argentino e também evitarei fazer uso da palavra recordo. Antes, penso ter sido assim que aconteceu, ou quase, quando estava passando em frente a uma loja de roupas usadas, nas imediações das ruas de prostituição do centro, quando esbarrei com um sujeito que saia da loja. Era Salomão Silva (fiquei sabendo mais tarde). Desculpei-me pelo encontrão e sem alterar o ar de enfado que já antes enraizara-se em seu rosto, respondeu que isto iria acontecer, não deveria preocupar-me com isto. Pensei em falar qualquer outra coisa, nada ocorreu e calei, ele também, mas não saímos da calçada. Para emitir som e sabendo que não me faria compreender (me estava incomodando ficar ali parado) pronunciei et in Arcadia ego e ele começou a entrecortar frases em línguas outras, suspeito, "auch ich war in Arkadien geboren" e "moi, aussi, je fus pasteur em Arcadie. Desfez-se um pouco do ar de enfado e esboçou um começo de sorriso ao confidenciar-me, sem saber exatamente porque, que estava a enumerar algumas possibilidades de desdobramentos desta frase, inimagináveis para Sir Joshua Reynolds, muito menos para o rei Jorge III. Fiquei um pouco confuso, havia lido sobre Arcadia, no dia anterior, as argumentações de W. Weisbach na Gazette des Beaux-Arts de 1937 e uma passagem da Le vite de' pittori, scultori, et architetti moderni de G. P. Bellori. Este livro é de 1672 e não conheço muitas traduções ou exemplares no Brasil, logo imaginei tratar-se de algum historiador. E ele continuou, empolgado, a citar estudos acerca do tema: Wielhelm Gustaffsön, nas Parafrases inter-relacionais, de 1633; Os evangelhos apócrifos de Judas Iscariot, escrito em 1599 por Estevan Garcya Orlentiano de Toledo. Obras que eu apenas escutara breves referências, quase lendárias e aquele estranho não apenas as citava, como recitava trechos que, com meu parco latim e meu pior ainda alemão, apenas intuia.

    Encheu-me de curiosidade e de ânimo conversar com tão culto senhor, apresentamo-nos e expliquei que estava fazendo um estudo sobre história da arte no medievo e perguntei-lhe qual sua titulação (nós, homens civilizados damos extrema importância aos títulos) e ele limitou-se a dizer que jamais frequentara escolas. Disse-me ser dono daquele brechó, um lugar de coisas do passado, e que falou já ter-me visto passando por ali. Objetei, não recordava (em negativa posso valer-me desta palavra) de ter andado por rua tão mal afamada. Ele ignorou minha resposta e prosseguiu: "A primeira vez foi em 1976, 26 de abril, às 15h33 de mãos dadas com um senhor, (seu pai)", ele descreveu as minhas vestimentas e de meu pai, evitarei entrar nestes pormenores, além de serem irrelevantes, não ousaria a tentar fazê-lo, mas este primeiro resgate do passado avivou minha memória e penso que realmente ocorreu. Comuniquei-lhe que talvez fosse apenas aquela vez, em infância, sem dar-me conta que aquele estranho acabara demonstrar ter mais lembranças minhas do que eu mesmo. Novamente ele ignorou-me e começou a fazer uma lista de outras datas em que passei em frente a sua loja, foram 87 vezes e, num jorro ininterrupto, porém coeso, ele descreveu não só datas, mas minhas roupas, horário, clima, quantas vezes conversei com as putas, se estava só. Falou-me de coisas que queria ter esquecido, ou antes, fingia que nunca aconteceram, mesmo que ainda fizessem parte de meu presente: O que estaria então fazendo em tão má afamada rua? Evitei responder, enquanto isto Salomão Silva falava de mim. Por ter recordações de detalhes ínfimos das minhas 87 passagens em frente da sua loja, ele pode deduzir informações que estavam além do seu campo de visão. O dia da morte de meu pai, do meu casamento, da minha separação, do nascimento dos meus filhos, até falou que algumas roupas minhas já tinham ido parar em sua loja e falou para quem as havia vendido.

    Não pude deixar de fazer relação com Funes e tentei mencionar tal fato, Salomão adiantou-se e falou que Funes teve a má sorte de ter sua revelação após sua queda, enquanto ele já nasceu assim e tem recordações a partir do sexto mês de gestação de sua mãe, quando não passava de um feto. Poderia ter ignorado tudo aquilo, taxar como coisa de louco, entretanto sentia serem verdadeiras suas lembranças, especialmente após tantos e tão precisos relatos a meu respeito. Convide-o para sairmos da calçada, sugeri um bar ali perto, era um boteco que nunca fechava as portas e nossa conversa durou o restante do dia e toda a noite. Falou-me de suas lembranças, tantas que não caberiam nem em modernos computadores, descreveu-me todos os estudos sobre a Arcadia que havia lido, mas quando perguntei sobre sua família ele calou. Lembrava de coisas que aconteceram quando ele ainda estava no ventre materno, mas coisas dele, apenas dos outros, não tinha lembranças dele, de como ele era quando criança, ou quando era mais jovem, se amores teve, se casou-se, ou se teve filhos, suas lembranças eram de outras pessoas. Recordava de pessoas que podem ter sido seus parentes, sabe o que fizeram em cada dia, cada minuto, mas não consegue ver-se nestas lembranças e desde um tempo impreciso (eis o único lapso em sua memória) vive só, como uma imensa biblioteca vazia de pessoas.

    Senti um profundo pesar, maior ainda respeito, durante a noite, enquanto ouvia Salomão Silva falar, elaborei planos para usufruir daqueles precisos registros do tempo, ao amanhecer desisti. Percebi que apesar de tão assombrosa quantidade de recordações, ele não sabia exatamente quem era, tampouco sabia organizar suas lembranças de forma a produzir novos conhecimentos, era incapaz de formular um juízo de valor, muito menos de tecer algum comentário que remetesse à abstração, antes apenas citava autores, filósofos, noticias de jornal, transeuntes que falavam sobre determinado tema, mas sua própria opinião estava soterrada sob inimaginável quantidade de informação. Desisti de minhas intenções, especialmente quando percebi que, apesar de não ter memória própria, de viver só, de não poder formular um raciocínio próprio, ele não era infeliz. Às vezes enfadava-se, mais com as lembranças dos outros do que com sua própria condição, parecia não se dar conta da própria existência e não seria eu quem o tiraria de seu sono cheio de sonhos dos outros.

     Nos despedimos, falei que jamais esqueceria nossa conversa (arrependi-me de proferir tamanha blasfêmia na frente de Salomão Silva) ele falou a mesma coisa (com absoluta propriedade). Em casa pus-me a registrar este fabuloso encontro e dei-me conta de estar reproduzindo o mesmo modelo de Salomão Silva, pois escrevia sobre um memorioso, coisa já feita por Borges, achando estar fazendo algo muito importante e quanto mais eu tentasse reescrever para dar ares de assunto novo e autoral, mais eu me frustrava, percebia estar mais ainda tentando imitar o argentino, ou antes, reescrever o Funes, como Menard tentou reescrever o Quixote. Acabei duvidando de minha memória. Teria sonhado tudo aquilo? Salomão Silva não existe fora de meus devaneios? Estava apenas plagiando a ideia de Menard? Eu teria ido àquela rua ontem e mais 87 vezes? Pensei em terminar este relato com a morte de Salomão Silva, mas se ele realmente existisse, teria de matá-lo, tal pensamento fez percorrer um tremor por meu corpo, havia me deixado influenciar demais por acontecimentos confusos de uma noite longa, a mais extensa das noites de minha vida. Resolvi deixar de delírios, colocar as ideias no lugar, iria à loja de Salomão Silva naquele instante. Apavorei-me com a possibilidade: se fosse e ele não existisse, estaria definitivamente louco e não passava de um insignificante imitador de Borges, um macaco fazendo caretas para se parecer com um homem; se ele lá estiver, corro o risco de saber-me apenas mais uma de suas inumeráveis recordações.

 
 

LM

Sunday, June 24, 2012

Não espere de mim nada mais do que a razão, ainda que ela falhe

Ele sempre foi o mais talentoso, o mais elegante, mais inteligente, espirituoso e uma série de adjetivos que escuso reproduzi-los para não parecer que meus atos tiveram como motivação a inveja. Não, afianço-lhes não se tratar disto, embora todos nos sentíssemos eclipsados. Ouvi, não sem objeções, de vários dos do nosso grupo, desabafos com tons de desilusão por se acharem tão bons, e, talvez, até melhores do que ele, sem, no entanto, terem a chance de poderem brilhar sem serem vistos como um satélite. Inveja? Não de minha parte, agi de acordo com a razão pura.

A primeira série de homenagens fúnebres ocorreu alguns dias após a primeira crise. Os médicos não deram muitas esperanças e, diferenças à parte, todos sentíamos um profundo respeito e, ainda, nutríamos bons bocados de nossa velha amizade. Enquanto havia um resquício de lucidez, promovemos declamações leituras dramáticas, exposição de trabalhos seus, retrospectivas, tudo em alucinante corrida contra a morte. Burla feita, à medicina e a indesejada das gentes, quer seja por efeito de tamanha dose de remédios espirituais, quer seja por pura pachorra, ele, ou seu corpo, prolongam sua estada. Toda a emoção das despedidas antecipada reverberou entre nós e até ameaçamos uma reaproximação. Plenamente recuperado, voltamos ao nosso secundário papel enquanto ele brilhava, Fênix, mais do que nunca.

Evito falar em tempo, posto, não me ter dado conta de quanto se passou, talvez um ano, ou pouco mais e nova crise, muito mais arrasadora, sem qualquer esperança. Feita a primeira, faríamos a segunda despedida ao lado de nosso amigo, ainda em vida. Novas leituras, exposições, declamações, encenações, choros, revelações, mais algumas performances e o quadro permanecia inalterado, passando a estável, até recuperar-se, dantescamente emergia de mundos impenetráveis. Falseio ao querer fazer-me preciso, ainda mais se tratando de matéria, justamente, imprecisa, mas houvesse meio de medir, poderia apostar em menos entusiasmo e emoção nas segundas exéquias. Apenas impressão, nada mais.

Fizemos ainda uma terceira despedida. Limitar-me-ei a informar apenas isto.

Se já existia alguma frustração, algum sentimento de injustiça, arrisco até, alguma dose de inveja, repito, não de minha parte, tantas homenagens fúnebres sem cadáver o elevaram a condição de celebridade. Sua fama alcançou alturas incríveis, enquanto nós, mantínhamo-nos presos ao chão, ao labor braçal e bruto dos servos a suster os nobres.

Nada mais havia a ser feito, não poderia deixá-lo envelhecer e minguar, não agora. Haveria de imortaliza-lo e para isto era preciso terminar o que a natureza havia apenas ameaçado. Fui à sua casa, era desnecessário anunciar-me, tinha-me quase como um familiar. Encontrei-o ainda em pijamas, lembrei de uma passagem ocorrida nove dias antes da morte de Kant e pensei em conceder-lhe das Gefühl für Humanität – o senso de humanidade – e permitir-lhe trajar-se de maneira solene como a situação exigia, mas ele não teria mais nove dias.

 
 

LM

Friday, June 08, 2012

Nomes

Não me proponho, com muita frequência, contar a história de nomes próprios, muito menos sendo de parentes. Abro uma exceção, mais por um carinho, dos tempos de criança, reservado a quem escolheu o nome, do que ao personagem batizado. Antes de chegar ao nome, falemos brevemente de meu tio Bartolomeu Mendes. Ele se dizia cantador e violeiro de fina cepa, minhas lembranças não contam a mesma coisa. Não consigo esquecer a maneira furiosa como ele agredia as cordas do violão enquanto maltratava tons e versos. Como gostava muito dele – era o único adulto da família que se dignava a falar e brincar com as crianças -, credito o desafino e a inépcia a algum gole a mais de cachaça ingerido antes das apresentações.

Para meu tio Bartolomeu, as coisas jamais pareciam seguir a normalidade dos demais senhores sisudos de nossa família e quando seu filho, Quininho, nasceu ele ainda tinha dúvidas se o batizaria Cabotino ou Baldaquino. Naquela época não havia exames de ultrassom e não recordo se havia uma opção feminina e talvez seja melhor nem saber. Resolvida, sabe-se lá como, a dúvida, Bartolomeu apresentou ao mundo seu filho Baldaquino Mendes, logo alcunhado de Quininho. Não tivesse sido esta a escolha, certamente teria como apelido Tininho. Não teve perdas ou ganhos.

Quer seja por ignorância, ou por falta de interesse em pesquisar, apenas na graduação fiquei sabendo o significado do nome posto, bem como da opção preterida. Tenho dúvidas se alguém da família saberia. Arrependo-me de não ter procurado os significados antes, poderia ter perguntado ao tio Bartolomeu de onde buscara inspiração. Agora resta apenas a versão de Quninho, de que seu nome é uma homenagem a um importante artista dos estrangeiros.

Feita esta breve hagiografia, um tanto do tio Bartolomeu, outro, etimológica, do nome de meu primo, descobri, não sem surpresa, que os Mendes, enfim, terão seu Cabotino. Recebi o convite, um tanto intempestivo, do casamento de Quininho. Justifica a pressa, o comunicado, no mesmo convite, que um impaciente herdeiro está a caminho. Baldaquino está com bodas marcadas com Arlequina Beviláqua e aguardam, ansiosos, o nascimento de Baldaquino Bartolomeu Cabotino Beviláqua Mendes.


 

LM


 


 

Sunday, May 27, 2012

História de uma criança sem nome, sem passado, sem futuro

A mãe andava pelas ruas do centro, entre clientes e fornecedores. Do pai, soube que há alguns anos estava preso n'alguma penitenciária do interior, mais nada. Vivia como dava com a avó, um dia comendo pouco, no outro quase nada. Quando começaram a despontar dois protomamilos percebeu que também poderia ganhar algum dinheiro com seu corpo franzino. Os primeiros clientes foram alguns moleques da rua, mas eles não pagaram, deram apenas umas pedras de crack. Um homem em um carrão a levou para o motel. Queria que ela chupasse e engolisse, ela o mordeu. Apanhou, foi violentada de todas as formas e não recebeu pelo serviço. Foi a primeira surra das ruas, tinha doze anos. Aos dezesseis assaltava, matava, roubava, mas não cedia mais seu corpo. Foi presa aos dezessete, depois de vingar-se daquele mesmo sujeito que a violentou aos doze. Ele era um cidadão de bem, pai de família, respeitado homem de negócios, temente a Deus. Os telejornais bradavam por justiça, chamavam-na de monstro, assassina fria. Ainda legalmente menor, os representantes da sociedade, da família, clamavam na televisão por mudanças na lei. Era inconcebível pensar que aquela criatura repulsiva, que ousara a ferir de morte um cidadão de bem, pudesse ganhar a inocência assim que completasse a maioridade. No outro dia, aliviados, os formadores de opinião noticiavam a morte da assassina, ela se havia enforcado com o sutiã na cela da detenção. Ele teve uma belíssima missa de sétimo dia na catedral, ela foi enterrada como indigente.

LM

Farfallândia

N.A.: Desde quando expliquei para Luana que tinha um blog e o que era, ela me cobra para eu postar suas histórias, de preferência com a personagem principal com o seu nome. Tentei explicar que mesmo usando nomes de pessoas que conhecemos, a partir do momento em que vai para uma história, passa a ser o personagem e não mais a pessoa. Ela não quis saber dessas coisas, então, eis mais um pequeno conto de ventos e outras fantasias, com minha personagem favorita.

  
 

Em Farfallândia viviam as mais belas borboletas, cheias de cores, tantas que um pintor, daqueles dados a ataques de tragicidade, seria capaz de cortar um braço para ter em sua paleta tamanha quantidade de variantes cromáticas. Apesar da infinidade de tons desfilando em asas ligeiras, cada borboleta tinha apenas uma cor, nada de misturas, mas eram tantas as cores que não seria nenhuma surpresa descobrir não haver repetição, cada borboletinha com sua tonalidade própria.

A vida seguia em seu curso normal naquela vila multicolorida quando, até que em uma noite especial, em que a lua tanto encheu-se de brilho para exibir o maior luar já visto, nasceu uma borboletinha diferente, com asas completamente brancas. Nunca isto havia acontecido em Farfallândia então, vendo aquela criaturinha com asas brancas como uma pálida lua cheia, seus pais deram-lhe o nome de Luana.

A enluarada borboletinha cresceu alegre e amada, ela era muito simpática, carinhosa e, graças a sua cor singular, todos na vila a conheciam. Então chegou o a época de ir para escola. Luana estava ansiosa para poder conhecer novos amiguinhos, mas no primeiro dia de aula ela percebeu que não seria assim tão fácil quanto imaginava. As outras borboletinhas, que nunca tinham visto borboleta com asas sem o tradicional colorido, começaram a rir e fazer perguntas que Luana não sabia responder.

— Cadê sua cor?

— Você vai ficar colorida como a gente?

— Isso dói?

— Você pode voar?

As pequenas borboletas não sabiam que apesar da coloração diferente, Luana era uma borboleta igual a qualquer outra e podia fazer as mesmas coisas que as outras borboletas de sua idade. Isto deixou Luana muito triste e ela resolveu ir embora de Farfallândia. Tinha ouvido histórias sobre um mestre das cores, um artista muito habilidoso que morava no outro lado do bosque e decidiu procurá-lo. Não sabia ainda como este mestre das cores poderia ajudá-la, mas estava resolvida e partiu.

Não foi muito difícil encontrar a casa do mestre das cores, ele morava em uma cabana cercada por flores de todas as cores, ao lado da casinha, corria um riacho que desaguava em uma cascatinha. Os respingos levantados pela queda d´água se encontravam com os raios do sol e formavam um arco-íris permanente. Tudo ali era colorido, parecia ter sido cuidadosamente decorado por um meticuloso artista. O lugar era tão bonito que Luana nem teve medo e foi logo chamando pelo dono da casa.

— Olá! Senhor mestre pintor! Senhor mestre das cores! Gritou Luana

— Pois não. Em que posso ajudá-la? Respondeu o mestre, que não era um mestre, mas uma mestra, saindo de dentro da casinha.

— Oi! Meu nome é Luana, meu nome é assim porque nasci em uma noite de lua cheia e minhas asas são brancas como o luar e eu venho de Farfallândia.

— Olá! Eu sou Tarsila do Arco-íris, meu nome é assim por causa do arco-íris perto de minha casa.

As duas logo começaram a conversar e perceberam que seriam boas amigas e Luana até esqueceu o motivo de sua viagem, até que Tarsila perguntou.

— Mas o que você faz por aqui, tão longe de seus amigos?

Luana contou como estava triste por não ter cores tão vibrantes em suas asas como as outras borboletas e queria saber se Tarsila poderia ajudar a colorir suas asas. A mestra das cores deu uma grande gargalhada.

— Não seja tola minha amiguinha! Você já se olhou no espelho? Suas asas são as mais luminosas e brilhantes que já vi, como se fosse o próprio brilho do luar e elas são brancas porque têm todas as cores misturadas.

— Como assim? Todas as cores? Quis saber Luana.

— Vou te explicar. Falou a mestra. Nossos olhos não conseguem enxergar direito as cores, e o que vemos é o reflexo da luz. Isto é meio complicado, mas é mais ou menos assim e quando misturamos a luz de todas as cores sabe que cor temos?

— Uma cor multicolorida? Falou Luana.

— Não. Temos a cor branca. Então minha amiguinha, suas asas refletem todas as cores das asas das outras borboletas e é por isso que ela fica branca quando olhamos. Seu colorido único traz as cores de todas as outras borboletas e eu nunca vi asas tão brilhantes quanto as suas.

—Puxa vida, então eu não preciso ter vergonha de minha palidez.

—Nunca e se os outros riem de você, é porque não sabem direito das coisas. Agora volte para sua família e tenha muito orgulho de suas maravilhosas asas.

Luana voltou para Farfallaândia, mas algo terrível estava prestes a acontecer em sua vila. Um enorme e esfomeado sapo encontrara a vila e se preparava para um delicioso e colorido banquete. Vendo aquilo e vendo suas amiguinhas em desespero, Luana não teve dúvidas e rapidamente bolou um plano. Ela voou em direção ao sapão. Abriu suas enormes e brilhantes asas na frente do guloso, que vendo aquele espetáculo, esqueceu das outras borboletas e saiu pulando em direção aquele intenso brilho. Luana foi voando lentamente em direção a um abismo que existia ali perto, sempre tomando cuidado para manter-se a uma distância segura do sapão. Hipnotizado pelo espetáculo das asas da corajosa borboletinha, ele nem percebeu que pulava para uma grande queda. Depois de ter se esborrachado e quase morrido, o sapo guloso não quis mais saber de atacar borboletas, coloridas ou não.

Em Farfallândia todos receberam Luana com muita festa e pompa e depois daquele dia, ninguém mais riu das suas brancas e brilhantes asas. Dizem até, que algumas borboletas mais invejosas até quiseram se pintar de branco para ficarem parecidas com Luana, mas o máximo que conseguiram foi borrar suas asas.

 
 

LM

Sunday, May 13, 2012

O outro

    Antes de Isidore embarcar para Paris, o senhor Medina, imaginando uma viagem motivada pelo amor, recita alguns trechos dos Les Cahnts de Maldoror para o filho. O rapaz ouve em silêncio.

    − A dama que me espera em Paris apreciará a poesia da nossa gente. − Murmura, mais para si do que para o pai.

    Parado na frente do Hospital da Salpêtrièri, Isidore se sente ridículo por não ter procurado contatar o hotel antes de viajar. Colhe informações com os passantes e descobre ter sido demolido o antigo prédio, para dar lugar a este anexo do histórico Hôpital dês Invalides. Falta pouco tempo para seu aniversário e ainda não reuniu todos os ingredientes nem encontrou um hotel adequado. Olha para o edifício branco e se irrita com sua boa saúde. Nenhuma dor, nada de febre, tosse ou manchas vermelhas. Apenas a habitual palidez aristocrática herdada da mãe.

    Na Escola da Sagrada Família, em Montevidéu, quando aprendeu a conhecer poesia, descobriu de onde viera seu nome. Foi lá também que descobriu com quantos anos e de que maneira morreria. O estudante Isidore Lucien Herrera Medina, além do mesmo nome, nasceu no mesmo dia da morte de Isidore Lucien Ducasse, o Conde de Lautréamont: 24 de novembro de 1870. Naquela época ele percebeu que receber o nome do Conde exercera uma influência que Joaquim, Ernesto ou Ramon não exerceriam. Foi quando começou a se interessar pela escarlartina.

    Isidore custa a aceitar a idéia de não ocupar um quarto no hotel da Faubourg-Montmartre, número 7. Sem outra alternativa, se instala num hotel na Place St.-Sulpice com a Garnicière para fazer as últimas anotações nos seus Cantos. O quarto bem aquecido não tem as mesmas paredes desbotadas, como o Conde tanto apreciava.

    Reunidos os ingredientes, prepara a mistura de metileno, anfetamina, plantas alucinógenas e vinho. Mergulha nos abismos dos lençóis de seda até despertar preguiçosamente. Isidore procura por Deus ou pelo Diabo. Desorientado, lembra do mal-estar generalizado se espalhando pelas entranhas. Reconhece o quarto do hotel, seus manuscritos sobre a mesa e suas roupas espalhadas. Imaginou não deixar memória de si, mas ainda está no hotel. Já é dia 25. Ele continuará vivendo e morrerá como qualquer um, menos como o outro Isidore.


 

LM


 

Os nãos de um dia, ou de uma vida

Não há vagas

Não vendemos fiado

Não aceitamos cheques

Não pise na grama

Não me provoque

Não jogue lixo no chão

Não fale com o motorista

Não fume

Não de comida aos animais

Não mude de assunto

Não ultrapasse na faixa contínua

Não bata a porta

Não aceitamos devolução

Não aceitamos reclamações posteriores

Não suje as ruas

Não tomarás Seu santo nome em vão

Não entre sem camisa

Não diga que eu não avisei

Não entre, cão bravo

Não pense que está sendo fácil para mim

Não fazemos troca

Não matarás

Não é o que você está pensando

Não adulterarás

Não compreendo

Não cobiçarás a mulher do próximo

Não havia mais nada a fazer


 

e os sims se negam.

Sunday, May 06, 2012

Körlük

A partir de Orphia, seguindo o poente em direção às montanhas do leste, o viajante encontra um grande deserto cortado pelo esquecido rio Çevir. Acompanhando o rio até quase o meio do deserto, está a cidade de Körlük. Diz-se de Körlük que lá todos os adultos são cegos sem, no entanto, haver uma explicação científica para tal peculiaridade, apenas sabe-se que esta patologia não afeta as crianças. Estas nascem perfeitas, gozando da mais absoluta saúde e assim permanecem até a adolescência, quando começam a perder a visão gradativamente, para entrarem na idade adulta, sem enxergarem mais nada.

Muitos tratamentos foram tentados e muitas experiências foram feitas, todas infrutíferas. Outra dificuldade às pesquisas é o fato de os cientistas não terem certeza absoluta dos diagnósticos oftálmicos, pois há a suspeita de que a endemia não se manifeste de maneira igual em todos os indivíduos. Desta forma existe uma divisão em três grandes grupos, sendo um formado por pessoas que teriam plena capacidade visual, mas por motivos insondáveis, comportam-se como se nada enxergassem. São os que enxergam, mas fingem que não veem e, muitas vezes, até parece que não querem mesmo ver nada diante de si. O segundo grupo é composto por pessoas desprovidas completamente da capacidade visual e, para posarem como seres normais, falseiam sua incapacidade e simulam que enxergam tudo perfeitamente. Eles não veem nada, mas insistem em afirmar o contrário, se portando como se realmente enxergassem e isto produz leituras equivocadas da realidade ao redor destas pessoas. Já o terceiro grupo é formado tanto por pessoas dotadas do sentido da visão quanto os desprovidos desta faculdade, o que os une é sua vontade, por assim dizer, de enxergar mais do que realmente existe. Tais pessoas afirmam que veem aquilo que jamais existiu, juram terem enxergado coisas fabulosas, enfim, querem enxergar mais do que a realidade e acabam não vendo nem o que se passa sob seus narizes.

Algumas famílias, percebendo que as crianças não eram acometidas pelas distorções na visão, começaram a emigrar para outras cidades, outras, impossibilitadas de seguirem todos, mandaram apenas seus filhos pequenos para serem criados em terras distantes. Tais artifícios parecem terem sucesso limitado, pois é certo que estas crianças tem preservada sua visão ao se afastarem de sua cidade natal, mas parece que ao retornarem para Körlük, em alguns meses os distúrbios começam a se manifestar e os regressos passam a apresentar os mesmos distúrbios dos demais körlükienses adultos. Com ou sem artifícios, em Körlük, apenas as crianças enxergam.


 

LM


 


 

Sunday, April 29, 2012

Antroponímia

Percorrendo as páginas de classificados a procura de um emprego, conheci Cecilia Gallerani. Ela oferecia vaga de auxiliar de produção em uma fábrica de artefatos de cimento. Não era o que procurava, mas o nome da contratante ficou reverberando em minha cabeça e não pude mais continuar a busca. Fui ao endereço.

— Precisamos de braços fortes, não me parece muito o seu caso.

— Sou magro, mas sou muito forte. Tentava iludi-la com este artífice. E mais do que forte, sou muito resistente, posso trabalhar por longos períodos sem parar. Mal podia caminhar por uma quadra sem ter de parar umas duas vezes e acho que ela percebeu.

— Mesmo assim, o senhor não se encaixa no perfil de funcionários que procuramos, eu e minha sócia somos muito exigentes e mesmo sabendo de sua vontade em trabalhar, não podemos deixar de analisar todos os requisitos.

— Tudo bem, eu não consigo erguer um saco de cimento mesmo. Este é mesmo seu nome?

— Como assim?

— É um nome famoso e já conheci muitas Cecílias, mas nenhuma Gallerani.

— Então o senhor sabe quem foi Cecília Gallerani?

Esta Cecília era muito feia, quase pensei que fosse um homem, era alta magra, olhos fundos que mal davam para ver de que cor eram, mas realmente tinha mãos delicadas, pareciam não pertencer aquele corpo ossudo e másculo.

— Sei. E acho que suas mãos são muito mais bonitas e delicadas do que a dela. A senhora tem algum animal de estimação.

— Não. Estamos precisando de alguém para o escritório. O senhor tem alguma experiência?

— Uma vez escrevi roteiros de teatro para um grupo de atores amadores. Não encenaram nenhuma das minhas peças. Também já trabalhei em um tele marketing.

— Talvez sirva, quando há um atraso em alguma encomenda, precisamos inventar uma boa história para os clientes e recebemos muitos telefonemas.

Ela mandou que eu voltasse no outro dia para falar com a sócia também. Se eu já me impressionara com o primeiro nome, o segundo foi ainda mais sugestivo, muito embora a dona do segundo nome não fosse exatamente meu modelo ideal para ostentá-lo: Yoni Pertunda. Jamais pude conceber que uma pessoa real pudesse apresentar-se com tal nome, mas de fato a senhora Yoni Pertunda assim o fez e, da minha parte, tive de fazer um odioso esforço para não soltar uma gargalhada, nem para fazer uns dois ou três trocadilhos. Yoni Pertunda, era mesmo este seu nome. Ela era menos sorumbática do que a sócia, entretanto isto não significava grande acréscimo ao conjunto. Baixinha, pouco mais de um metro e meio, uns dez quilos acima do peso tolerável, despontava de seu rosto miúdo um imponente nariz, algo tortuoso. Definitivamente, se colocassem-na em uma daquelas salas que vemos em filmes policiais, para reconhecimento dos suspeitos de um crime, ao lado de outras mulheres, jamais imaginaria aquele ser caricato como detentor do nome Yoni Pertunda. Yoni Pertunda, não canso de repetir.

— Senhor Trezinni, o senhor escreveu peças de teatro?

— Nunca foram apresentadas.

— Mas sabe escrever histórias?

— Sim, escrevo regularmente para um site, ou blog, de um amigo meu, nada profissional, apenas para dar um força para este meu amigo, ele botou na cabeça que quer ser escritor, mas não tem muitas ideias boas. O cara é meio lesado.

— Um site, ou blog. Sabe o endereço?

— Não lembro direito, sei que como ele é meio metido a literato, é nome do cavalo de um alguém famoso, alguma coisa Rocinante. Acho que tem alguma coisa haver com Dante, ou outra antiguidade.

— Rocinante é o cavalo de Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, nada tem a ver com Dante, nem contemporâneos foram, com uma lacuna de pelo menos trezentos anos.

— Então!

Mesmo com minha gafe histórica, misturando Cervantes com Dante, fui contratado, também não precisaria citar nenhum dos dois autores em nenhuma atividade naquele serviço, eu precisaria apenas preencher notas fiscais de venda, emitir faturas, conferir as notas de entrada de mercadorias, controlar as contas a pagar e, de vez em quando, fazer alguma carta, ou e-mail, para clientes, credores, bancos, repartições, essas coisas de escritório. Também atendia telefone e anotava recados, eu era uma secretária.

Nunca fui de misturar-me muito, e como, além de mim só tinha as duas sócias no escritório, limitava-me a bons dias e até mais, com o pessoal da produção. Mesmo com elas não conversava muito. Se eu era calado, elas pareciam que estavam em eterno estado de mau humor. Acho que como moravam juntas e viviam brigando e como tinham de trabalhar no mesmo local, ficavam se alfinetando e mantendo aquela atitude rabujenta. Para mim estava bom, pelo menos me deixavam sossegado.

Tive certeza de que minha teoria de serem um casal estava correta quando dona Yoni Pertunda (sim, era mesmo este seu nome) aproveitou-se de uma ida ao banco da sócia para vir falar comigo.

— Você só se faz de bobo, não é?

— Tento ficar no meu canto.

— Ela é muito dominadora e muito ciumenta. Imagine que deu pra ter ciúmes de você?

— Não quero nem imaginar. De onde ela tirou estas ideias?

— É que eu tenho elogiado seu trabalho, sua postura discreta, sua cultura, ela me disse como fez referência à mão da Cecília Gallerani, ainda que não soubesse de Rocinante. De toda forma, é possível que eu tenha comentado em casa mais de você do que dos outros funcionários, talvez mais do que o recomendável.

Com certeza, eram um casal, e Yoni Pertunda não poderia fazer outro papel, senão o da fêmea da relação e esta fêmea estava prestes a me dar uma cantada. Olhei mais atentamente para ela, queria ver se era possível encarar. Já acordei com barangas bem estranhas, mas era quando eu bebia, como estava sob um rigoroso tratamento médico, para ver se recuperava meu fígado sem a necessidade de cirurgia, talvez não desse conta do recado. Pensei em fazer papel de viado, mas era capaz de a coisa vazar e algum dos peões da fábrica aparecer aqui querendo me comer. Por que nenhuma gostosinha me procurava para ter essas conversinhas? Eu devia ter algum imã para esquisitices, pelo menos não era nenhum alemãozão (lembrando bem, esta Cecília até que era parecida com um alemão de dois metros que conheci em outro emprego). Engoli em seco e resolvi dar umas apalpadas naquelas banhas. Nos agarramos ali mesmo, tinha de me abaixar para beijar sua boca pequena. Ela foi logo apertando minhas bolas, mas logo se afastou.

— Eu sabia, tu é um tremendo safado. Um pedaço gostoso de safadeza. Faz tempo que não experimento um pintinho nervosinho, não vejo a hora.

Ela deu um endereço para nos encontrarmos depois do expediente. Disse que me levaria para o motel mais bacana da cidade e que eu não me arrependeria. Para Cecília, falaria que ia para a academia e deu uma risadinha marota, dizendo que estava precisando malhar um pouco.

Reassumimos a postura profissional e logo dona Cecília retornou, me olhou como se estivesse pressentindo algo. Fiquei com medo, ela era de dar medo. Finalmente consegui ver seus olhos e não gostei do que vi. E se ela descobrisse e aparecesse? Tenho certeza de que era o tipo de gente que anda armada. Encarar estas duas malucas e sóbrio era arriscado, seria eu o pertundado. Esta yoni não valia o esforço. Não fui ao encontro e não voltei mais ao trabalho. Procuro novo emprego nos classificados, desta vez não irei naqueles que tenham nomes emblemáticos.


 

LM

Tuesday, April 24, 2012

Infinitos

Conheceram-se como se conhecem as pessoas, freqüentando lugares em comum, se encontrando pelos caminhos, falando do tempo ou daquela notícia comentada por todos, afinal, se conheceram, observando, porém, a regra do convívio social de manterem-se pelo menos a um metro de distância um do outro. Rompida a barreira da falta de familiarização, começaram a ter conversas mais elaboradas, além da previsão do tempo, falaram de gostos pessoais, contaram de suas famílias, deixaram escapar uma e outra ponta de confidência, esboços de suas angústias, fragmentos de suas personalidades, sempre a um metro de distância e sempre em encontros absolutamente casuais. Em algum momento começaram a programar seus horários para o para não ficarem exclusivamente à mercê do acaso. Mantiveram por um tempo a burla da coincidência, foram pouco a pouco diminuindo a distância dos corpos, leves esbarrares, apenas das costas das mãos, quase imperceptíveis encontros de ombros durante rápidas caminhadas, para logo retomarem a distância de segurança. Passaram a se cumprimentar com apertos de mãos, o primeiro rápido como uma idéia esquecida, depois, aumentos mínimos, meio segundo de cada vez, até entregarem a mão sem querer que fosse devolvida. Passaram a falar deles, de como tinham gostos parecidos, de como os outros não entendem isto ou aquilo, ainda resguardando a distância. Riam soltos, risos autênticos, um achava graça da piada mais sem graça que o outro contasse, gostavam de falar de cinema, literatura, política, gostavam até mesmo quando seus gostos não coincidisse. Um dia conversavam sobre nada, conversavam apenas para que suas vozes ultrapassassem o limiar da barreira métrica não permitida aos seus corpos, quando perceberam que haviam avançado até deixarem suas bocas a um palmo de distância. Podiam sentir a respiração, o hálito, o cheiro por de trás dos perfumes, quase podiam sentir os pulsares do coração. Ficaram assim por um tempo indefinido, entre uma explosão e um nascimento, entre um relâmpago e uma translação e descobriram matizes diferentes na cor dos olhos, pequenas marcas nas peles, pelinhos translúcidos nos rostos, cicatrizes de eras desconhecidas e descobriram-se uno. Rompido o metro regulamentar, desalojar-se das roupas e percorrerem-se nas peles descobertas foi como uma avalanche: instantânea e arrasadora.

Tão instantâneo e arrasador quanto o entregar-se, foi o momento em que perceberam que haviam experimentado do fruto da árvore da ciência do bem e do mal e já não cabiam mais em seus paraísos. Teriam que evitar os olhares das pessoas das suas famílias, dos guardiães da moral e dos bons costumes da sociedade. Seriam condenados, reconhecidos nas ruas e teriam seus nomes atirados ao lixo, jamais teriam paz, morreriam indubitavelmente. Pactuaram que aquela fora a primeira e última vez e que deveriam se evitar dali para diante; que aquilo era muito errado; que fraquejaram apenas uma vez e que não mais iria ocorrer. Mentiam e no dia seguinte engoliam-se, regurgitavam-se e viravam-se ao avesso, havia ainda o remorso e o medo, mas havia também um descobrir-se, um saber ser capaz de entregar-se, de encarar seus juízes e dissimular: descobriam a infâmia e também descobriram o perdão e perdoaram-se por serem humanos, ainda que não fossem perdoados pelos outros, perdoaram-se por serem fracos, ainda que não conhecessem alguém forte e perdoaram-se por terem ultrapassado o limite de distância, pois sentiam que poderiam percorrer infinitos pontos dentro do intervalo de um metro, para sempre.


 

LM

Thursday, April 19, 2012

O ataque das formigas perfumadas (para as crianças que ainda não sabem de orgulho)


 

De uma hora para outra, as formigas deixaram de assaltar o pote de açúcar, os vidros de mel e melado, os biscoitos e calharam de atacar o banheiro. A princípio mal era perceptível o vai e vem de suas perninhas apressadas e, como não havia alimento naquele cômodo, não levantaram suspeitas. Aos poucos o movimento dos formicídeos foi aumentando e só então é que seu real intento ficou claro: não procuravam alimentos, investiam sobre apetrechos de maquiagem e perfumaria, como batons, gloss, fixador, desodorante, perfumes, loção após barba, cremes, nenhum item do gênero ficava impune ao avanço das formigas. Até produtos não apenas estéticos, mas de higiene, como sabonete e creme dental, também sofreram baixas consideráveis.

    Intrigada com o descaso aos regalos da cozinha, em detrimento dos acessórios de toucador, Luana pôs-se a investigar. Disfarçou-se de formiga, muniu-se de utensílios de detetive e seguiu os passinhos das diminutas ladras. Esgueirou-se por ladrilhos, tubulações desativadas, frinchas nas paredes até chegar à presença da rainha das formigas. Boa diplomata que era, apresentou-se à soberana e perguntou qual o motivo de tão abrupta mudança de predileção.

    — É simples, disse a rainha. Sempre nos alimentamos do mesmo tipo de comida consumida pelos humanos e sempre permanecemos nos labirintos e subterrâneos a nos esconder, agora, deixamos de roubar-lhes seus alimentos, para roubar-lhes sua vaidade. Quem sabe assim, sem tanta vaidade, deixem de ser tão orgulhosos e soberbos e passem a respeitar os diferentes e os mais fracos.


 

LM


  

Sobre encerramentos e arte

  1. Após seis anos finalmente a obra estava pronta. Tinha conteúdo, forma, objetivos, suporte iconográfico, enfim, uma lista de designações e adjetivos do mundo da arte e um sentimento a ser absolvido. Pensou em enviar para a galeria, num último instante teve um lampejo suicida e acabou com o que havia de vida na obra. A arte sangrou.


     

  2. Guardou uns tantos segredos nas entrelinhas. Tinha a esperança de que alguém, como ao encontrar na praia uma garrafa atirada ao mar por um náufrago, entendesse seu pedido de socorro. O bilhete naufragou dentro da garrafa.


 

  1. Era moderno, mais, ultracontemporâneo, vanguardista e conceitual, ainda que não soubesse muito bem o significado destes títulos. Sabia de suas criações com tampinhas de garrafa, serragem, limalha de ferro enferrujada, colas, cores encontradas nas sobras de tinta das latas resgatadas do lixo junto com outros parasitas. Falavam-no artista, a dialogar com nomes de pessoas que ele não sabia se existiam e até acreditava mesmo ter conversado com aqueles inexistentes, mas deveria ter esquecido sobre o que falaram. Quando acreditou ser uma celebridade, já não havia lembranças dele nos cadernos descolados: o mundo da arte agora estava apaixonado por um produtor de vídeos experimentais sem imagens.


 

  1. Ela chorou a morte. Ela não era ela, era a personagem, seu choro era cênico e sua vida o roteiro e a plateia um imenso ciclope fixando seu desproporcional olho em seu corpo prestes a ser devorado. Já não sabia quem era ela e quem era a personagem, já não cabia mais o choro e a lágrima, insistia em não sair de cena.


 

LM


 


 


 


 


 


 


 

Sunday, April 08, 2012

A carne da sexta


 

"et non ulla creatura invisibilis em

conspectu eius et omnia autem nuda

aperta sunt oculis anúncio QUEM nobis sermo"

Hebreus 4:13


 

Cresci temendo a sexta-feira santa, não podíamos falar alto, sorrir, brincar ou qualquer coisa que não remetesse a uma circunspecta tristeza e isto tudo enchia-me de temor. Qualquer coisa era motivo para ser condenado ao flagelo do fogo eterno, mais ainda desrespeitar o mais triste de todos os dias. Os pais saiam — e não acho que fossem para igreja, ou fazer qualquer tipo de penitência — e as mães ficavam em casa rezando e chorando de tristeza pela morte de nosso salvador. As crianças, proibidas de fazer qualquer coisa, se reuniam e logo começávamos a nos provocar, até chegar uma das chorosas mães com um cinto ou varinha na mão. Levávamos a maior bronca e algumas varadas, tínhamos de nos comportar como se nosso pai ou irmão mais velho tivesse sido brutalmente torturado e executado para salvar nossas vidas miseráveis. Também era um dia de passar fome, não que isso fosse novidade, mas aquela era uma fome imposta, mesmo se tivesse comida em casa.

Passados mais de quarenta anos daqueles tristes e temidos dias, acordei uma certa manhã, com a maior ressaca de minha vida. Não lembrava como tinha voltado para meu quarto, nem onde passei a noite, lembro apenas de ter sido escalado para trabalhar no feriado da sexta e no domingo e quando olhei para o relógio, quase meio dia, sabia que nem adiantava mais ir para o serviço, era só passar na segunda e acertar as contas. Não tinha me tocado que feriado era aquele, até cair a ficha: era uma sexta-feira santa. Sem grana e sem nenhum lugar para ir, resolvi que era mais do que passada a hora de acertar as contas com aquele dia tão terrível da minha infância e decidi ir para a missa.

Quando entrei na igreja e vi aquelas velhinhas com seus xales pretos cochichando suas rezas, tive medo como se ainda fosse aquele pirralho magricelo e cabeçudo. Tratei de me acomodar logo em um banco e, como os demais, pus-me de joelhos para rezar. Não sabia mais rezar, então tive de improvisar. Misturei Pai Nosso com Ave Maria, Credo com salve Rainha e quando vi que a coisa não ia adiantar, desisti de das orações. Fiquei ainda algum tempo de joelhos, já que não sabia rezar, pelo menos faria alguma penitência, ficaria assim até a missa começar. Mas a porcaria da missa não começava nunca, sentei, meus joelhos ardiam, e perguntei para uma das velhinhas que horas a missa ia começar. Ela me olhou com aqueles olhos de quarenta e tantos anos atrás, jogou-me no inferno e disse que não tem missa na Sexta Feira Santa, apenas um profundo pesar pela morte de Nosso Senhor e um momento de reflexão e de arrependimento pelos nossos pecados.

Sem grana, quase tudo fechado, joelhos doídos, ainda um pouco tonto, estomago começando a roncar, fiquei ali sentado, olhando para o enorme crucifixo do altar. Um casal sentou no banco da frente, deveriam ser os mais jovens ali. Ele com um paletó preto, surrado e ela com um vestido azul escuro, um ou dois números menor do que o número dela. Tinha uma bunda bem grande e a roupa apertada fazia aumentar ainda mais, mesmo assim ainda era uma bunda bem gostosa. Eles se ajoelharam e, para poder olhar mais de perto aquela bunda, me ajoelhei também. Apoiei os cotovelos no encosto do banco da frente segurei minha testa com os dedos entrelaçados. Dava para ficar olhando sem ninguém notar. Não teve jeito, com o olhar fixo nas nádegas da devota, tive uma ereção, mas, sei lá porque, levantei a cabeça e dei de cara com o Cristo do crucifixo me olhando. Eu jurava que antes ele tava de olhos fechados e agora daquele jeito, bem abertos, olhando diretamente para mim. Olhei para os lados e tive a impressão de que todas as velhinhas estavam olhando para mim também. Jesus deve ter falado para elas o que eu estava fazendo, espero que não tenha contado para a bunduda nem para o marido dela. Era hora de sair da igreja. Mas não pude ir muito longe, estava muito fraco e tive de sentar na escada da saída. Minha cabeça doía, meu estomago doía, meus joelhos doíam tudo começou a girar. Fiquei ali um tempo enquanto fiéis taciturnos entravam e saiam da igreja. Neste entra e sai, alguns, tocados pela santidade do dia, resolveram depositar esmolas ao meu lado. Não percebi de imediato, mas logo vi algumas moedas e cédulas se acumulando. Jesus deve ter falado para eles que eu tava com fome, sede e sem grana. A bunduda de vestido azul se abaixou e deixou uma moeda. Tive vontade de segurar sua mão e agradecer, mas não consegui levantar a cabeça, vi apenas sua perna, vestido e depois sua bunda rebolando ao lado do homem de paletó surrado. Tive vontade de voltar a frequentar a igreja para ver se arranjava uma gostosona daquelas, talvez voltasse a considerar isto em outro dia. Fiquei ali até acabar o movimento e uns sacristãos fecharem a igreja. Estava aliviado por estar acabando a sexta feira santa e agradecido por só ter uma por ano. A grana das esmolas deu para comprar alguma comida e bebida para manter-me bêbado durante o final de semana. Apesar da bunduda, não perdi o medo da sexta feira santa.


 

LM

Saturday, March 31, 2012

Ato de contrição

Entendia tudo perfeitamente, tinha domínio da situação, mesmo sabendo-se omisso. Não era sua culpa, ele apenas fazia seu papel, desempenhava suas funções, nada deixava faltar não lhe mentia, se muito, deixava de informar, era, pois, salvo algum pequeno defeito, coisa mínima, tal qual todo e qualquer outro, apenas. Não, não haveria de dar-lhe motivos, não suportaria a humilhação de vê-la acusando-o, jogando na cara todo tipo de mal falares, antes ser ele a parte ofendida. Resignar-se-ia. Estoico, suportaria a infâmia, a afronta com serena altivez, como um samurai, orgulhoso de seus mortais ferimentos, inabalável em sua crença moral. Mas como faria cair em desgraça? Já não tinha o mesmo viço de quando se conheceram, mas ainda havia traços de uma beleza ancestral, mantinha uma pose digna e não perdera o charme. Até já percebera certos olhares em sua direção. Os filhos longe, encontrou tempo para cuidar de si mesma, se arrumar melhor, para usar maquiagem, ainda tinha atributos para seduzir muitos homens. Mas como faria? Só assim poderia perdoa-la, mostrar a grandeza de seu amor, falaria como foi o culpado por não ouvir-lhe os clamores, por não ter prestado atenção em suas carências e ela, humilhada pela compaixão e pelo amor que perdoa, não poderia mais criticar seus pequenos defeitos e caprichos. Enfim poderia trocar a toalha de banho dia sim dia não, usar camisas que precisem ser passadas a ferro, receber seus amigos em casa, almoçarem ao meio dia em ponto (mesmo aos domingos), ficar até mais tarde nas reuniões da associação sem ter de ouvir um injusto sermão. Quando a lista de coisas que queria e poderia fazer começou a aumentar e a incluir desejos e fantasias que achava já terem sidos extintos, receou ter feito uma terrível descoberta: após 22 anos de casamento, se haviam tornado dois estranhos sob o mesmo teto. Seu plano perdeu o sentido. Mesmo que ela se deitasse com outro, teriam de tornar a se conhecer. Ficou com medo de, de fato, não ter tanto sangue frio, o melhor a fazer era procurá-la, conversar, convidá-la para saírem. Com oito passos estaria no quarto dela. Ela estava deitada sobre a cama, nua como há muito não a via, olhar fixo no teto, braços abertos, tudo imensamente vermelho, como em um sonho. Ele perdeu-se em divagações, se respeitaria a vontade dela, se deveria falar algo, se ela ouviria algo, se não deveria fazer o mesmo, se deveria deixá-la só pela última vez, se poderia vender a casa e comprar um pequeno apartamento, se chamava alguém, se deveria fazer amor com ela, se deveria voltar e apagar a luz da sala, se abriria uma cerveja, se... Não sabe se falou ou pensou ter falado em perdoá-la ou pedir perdão. Por um instante longo demais para ser real, enquanto via pulsos terminando o jorro, escolheu uma das alternativas de suas divagações. Era o que deveria ser feito naquele momento, mais nada.

LM

Sunday, March 25, 2012

A Deus, a inocência


Cansados das injustiças, guerras, fome, destruição do planeta e outras tantas mazelas recaindo sobre a raça humana, os mais destacados filósofos, juristas, estadistas, artistas, embaixadores, artesãos, médicos, sociólogos, sacerdotes, antropólogos, industriais e demais próceres da espécie, reuniram-se em assembleia para apontar o culpado por tantas tragédias e em seguida puni-lo. Certos de não ser tarefa das mais fáceis, combinaram que todos os participantes desnudar-se-iam de suas paixões e manteriam o foco apenas na razão, concluíram que a emoção havia motivado de maneira intempestiva muitas iniquidades.  O primeiro a tomar a palavra, um jurista com inclinações filosóficas não perdeu tempo e foi logo apontando seu maior suspeito:
            — Nada mais claro e razoável para mim e, após minha breve argumentação os senhores hão de concordar, de que se há um culpado, é justamente aquele que tem o maior poder, quem de fato pode transformar as coisas e, acima de tudo, quem fez as coisas como são. Se eu construo uma casa e esta desmorona, quem é o culpado? Se faço um refogado e carrego demais no sal, tornando-o intragável, de quem é a culpa? Se educo um filho de maneira libertária, sem disciplina, sem orientá-lo devidamente, apenas ameaçando-o: não faça nada errado (sem explicar porque), senão sentirá a minha ira, de quem é culpa pelo adulto frívolo e individualista que se tornará? Assim, quem senão o criador desta obra imperfeita seria o culpado por tantos males?
            Um clérigo de renome internacional, famoso por sua natureza justa e sua busca pela verdade tomou a palavra.
            — Caros irmãos, é bem tentador por nossos fracassos nas mãos do Pai, seria muito cômodo, traria uma certa liberdade para podermos fazer aquilo que melhor nos aprouvesse, independente de causar muitos males a nosso semelhantes, entretanto lhes pergunto: Que tipo de filho seria eu, se reconhecesse um erro em meu pai e ainda assim continuasse a reproduzir este erro? Uma vez que reconheço um possível erro em meu pai, já não sou mais inocente se repetir tal desvio. Isto não significa ter havido erro na obra divina, posto não ser este nosso lugar, mas apenas uma passagem para a vida eterna. Uma larga lagarta que põe-se a comer sua folha ideal para nutri-la, caso resolva querer voar antes de ser borboleta e perder-se em uma vida desregrada e errática, certamente terá uma vida de lagarta desgraçada, amaldiçoará o céu e a terra por sua infelicidade e purgará os efeitos deletérios de seu desvio de conduta e, ao final, não ganhará os ares, pois nem borboleta será. Mas como investigamos um culpado, creio que devemos pensar não em um personagem, mas em um sistema de trocas.
            Como o assunto sairia da esfera religiosa, um economista e humanista, coisa que nunca se viu,  parceiro do clérigo nas investigações, assumiu o posto de orador.
            — Quando meu colega fala em sistema de trocas, devemos pensar basicamente em como se dão as relações comerciais, onde um determinado bem é comercializado não por seu valor de produção, mas por seu valor simbólico dentro de um sistema aparentemente simples de oferta e procura. A aparente simplicidade deste sistema pode nos induzir ao erro de que os preços são regulados por mecanismos racionais de custos, capacidade do mercado em comprar tais bens e a vontade dos consumidores em adquirirem estes bens, como não é tão simples assim, os donos dos meios de produção estabelecem preços elevados, muito mais elevados do que seria necessário para cobrir os custos de produção e auferirem boas margens de lucros aos envolvidos no processo de produção e comercialização, para seus produtos ou serviços e, se o mercado aceitar tais preços e comprarem, eles ainda sobem mais um pouco os preços para criarem uma sensação de que aquele bem é altamente desejável; aliam a este mecanismo uma intensa campanha midiática, para referendar seus discursos.  Isto torna, o que deveria ser um processo de troca, de um bem ou serviço por uma quantidade de dinheiro (suficiente para ressarcir dignamente os vendedores), em um sistema de acumulação de capital. O advento da revolução industrial apenas mecanizou o processo de acumulação que já existia. Antes os nobres ou senhores de terras acumulavam riquezas à custa do trabalho dos camponeses e agora os financistas acumulam riquezas à custa do trabalho e do consumo dos cidadãos. Assim, o principal culpado por este modelo é, na verdade, o modelo de acumulação de capital.
            A partir deste ponto as discussões começaram a tomar um rumo mais acalorado, cada qual defendendo seu ponto de vista: o artista defendendo que a falta de arte produz nos homens um distanciamento de sua humanidade e que expressando-se pela arte as pessoas poderiam extravazar todas as suas pulsões e desprenderem-se da materialidade destruidora, geradora de matizes conflitantes do eu com sua psique e apenas a transfiguração do lugar comum em arte é que poderá redimir os seres humanos; já o diplomata bradava que aboliu-se o diálogo em detrimento de uma retórica imposicionista, baseada na força e não na igualdade dos sujeitos.
            Lá pelas tantas, concluíram que apesar de ser tentadora a proposta do jurista em apontar Deus como culpado, desistiram da ideia pela impossibilidade de aplicação de punição. Da mesma forma foram desistindo de aplicar a pena capital em outros acusados ao longo dos debates, por as acusações não terem embasamento suficiente, ou por serem muito difíceis de serem compreendidas, ou por requererem um esforço de associação muito grande e foram, pouco a pouco, absolvendo o mercado, o sistema capitalista, o autoritarismo, a democracia, as religiões, o ouro, o machismo, o feminismo, o petróleo, a natureza, os extra-terrestres, o Natal, as olimpíadas, Henry Ford, Gengis Khan, Lenin, Marx, o capitalismo, Maomé, Jesus Cristo (esta acusação foi a mais fácil de derrubar, pois se Jesus, Deus e o Divino Espírito Santo eram, ou são, um só, o que cabe a um cabe ao outro), Buda, Darwin, o vírus da gripe, o sol, o sal da água do mar,  a teroria da relatividade, a lei da gravidade, o povo badari, Lucy (dos australopithecus), Homero, Moisés, Noé, Adão, Eva, o amor, Judas, Lilith, Bahamut, a escrita (e os sumérios, por extensão), o vinho, o sexo até que uma falha no sistema elétrico do prédio onde se reuniam os deixou no escuro. Sem terem mais como se entenderem, decidiu-se, por unanimidade, que os trabalhos deveriam ser interrompidos e recomeçados em outra ocasião, em outro local e com data ainda a ser definida. Como não elegeram quem deveria tomar estas providências, os ilustres e proeminentes baluartes de nossa civilização aguardam nova convocação.

LM

Wednesday, March 21, 2012

Vultos, amendoins e outras alucinações filosóficas

Quando Vurto chegou, a festa já estava a mil, ele também, como sempre. Muita cachaça e comprimidos para dor de cabeça e quanto mais louco, mais babava pelo canto da boca e mais se enchia de um pedantismo embrulhado. Citava tudo quanto era porcaria de poeta, filósofo, escritor ou qualquer merda que pudesse fazê-lo parecer inteligente. Diziam que havia sido professor universitário e se aposentou com um laudo de insanidade depois de tirar o cacete em plena sala de aula e sair mijando em cima dos alunos, por isto alguns também o chamavam de professor.

— E aí professor Vurto, achou mais algum gênio no fundo da garrafa?

— Vai se foder, Buck também entornava umas e outras e era gênio, sim senhor.

— Gênio ou não ele ficava no lado de fora das garrafas e permanecia algum tempo sóbrio, pelo menos para escrever e publicar alguma merda.

          Um pirralho avermelhado, meio murcho, com cara de amendoim velho se interessou por nossa conversa. Eu já tinha topado com este amendoim velho em outras festas e já ouvira algumas histórias sobre ele, acho que só era convidado por caridade e como ninguém conversava com o moleque, não perdeu a oportunidade.

         —
O senhor se referiu ao Charles Bu... — O amendoinzinho tentou completar o nome, mas Vurto se antecipou.

 
        —
Senhor o cacete e antes de se referir ao Hank, tem de tentar chupar o próprio pau.     

Camila Boquete surgiu como que por encanto entre os dois. Normalmente estava com a cara enfiada entre algum par de coxas e sempre prestava atenção na conversa dos outros.

          — Porra Vurto, tu sempre dá um jeito de foder com alguém. O moleque não tem pau. Um cachorro escapou da corrente e fez o bilau dele de salsicha. Comeu tudinho. Mataram o bicho, mas só encontraram pelanca.

          — Ah então, é um d'Os Filhotes do Vargas Llosa!? — Babando como nunca continuou. — Como eu ia saber, ele tem cara de amendoim, não de carne moída.

        O pirralho, coisa que parecia impossível, avermelhou ainda mais e saiu sem dizer nada, fiquei com pena do carinha, mas já tinha meus problemas e também não estava ali para entrar na Ordem dos Beneditinos.

        — E você Vurto, já tentou chupar o próprio pau?

        Não sei que diabos deu em Vurto, não respondeu e também ficou sério, em seguida bradou:

        — Porra! Vou ser o Pangloss deste merda de Cândido.

Em seguida saiu e nunca mais os vi. Dizem que embarcaram em um navio mercante no porto de Itajaí e foram para a Indonésia.


 

LM

Tuesday, March 13, 2012

A realidade estampada nos jornais segundo Charles Trezinni

Todo cronista com um espaço a ser preenchido periodicamente em alguma publicação já se viu acometido por uma insubordinada crise de falta de assunto. Há quem afirme ser tecnicamente impossível não ter do que falar, mas apenas humano não saber como falar de algo. Diante do branco da tela (ou da folha, para os saudosistas) um escritor oprimido pela falta de ideias é tentado a falar justamente de como não sabe o que falar e divaga sobre insignificâncias do tipo: a fronha do seu travesseiro; um pardal no fio de luz; uma leiteira com leite de ontem; um besouro se debatendo como louco; dois cacos de uma louça quebrada; fragmentos de um cartão de visitas lavado no bolso da camisa; um calendário do ano anterior com datas de compromissos circuladas com esferográfica; problemas de rima em poemas escritos no caderno da escola; a falta que faz a ponta apontada em um lápis e outras ninharias. Um artista talentoso poderia extrair, de qualquer um destes temas, um vigoroso e profundo texto. Penso em James Joyce, Clarice Lispector e Katherine Mansfield, só para citar alguns, embora o primeiro pudesse alongar-se para além de setecentas páginas em seu texto-caminhada.

Na insistência da falta de assunto (mantenhamos este viés) o cronista pode ir para o bar. Nada é mais fácil do que descrever os tipos e as cenas em tal ambiente. Sempre aparecerá um sujeito com a cara de um personagem da Mad falando que os filmes bons são os do Schwarzenegger, do Stallone do Bruce Willis e outros durões, se lembrasse de mais algum nome. Dá para observar outro cara no balcão observando milimetricamente todos que entram e saem do boteco — deve ser um cronista captando instantes suburbanos da realidade quotidiana das almas citadinas para versejar por uma obra costumbrista, forte e retumbante —. Ou o casal de lésbicas tentando imprimir normalidade ante olhares de censura da plateia conservadora. Cada uma destas cenas teriam combustível para render linhas e linhas da mais genuína literatura com observações perspicazes sobre porra nenhuma.

Ainda no bar e já tomado pelos vapores etílicos, o cronista poderia também posar de escritor observador e sensível a captar instantâneos fugazes com as mais sutis variações psicológicas da alma humana e escrever outro tanto de material miasmático. Ao final teria observado de fato algumas coisas, inventado outro tanto, delirado uma porção e estava o texto pronto para ser enviado ao jornal, olhado de relance por um editor que nunca lê nada e aquele punhado de porcaria ganharia os contornos da tinta e, posto que fora publicado, tornar-se-ia a fina flor da realidade nativa, até a próxima edição, quando seria alçada ao seu legítimo lugar: embrulhando peixes ou sendo lambuzada de merda no rabo de algum bêbado.

 
 

LM

Monday, March 12, 2012

quinta


...faz frio estranhou a baixa temperatura para aquela época do ano olhou pela janela e pensou em como o parreiral reagiria com a as mudanças de clima dos últimos tempos e em como estas mudanças o afetavam homem e vindima precisavam aguentar até aparecer um comprador para a quinta olhou novamente pela janela e teve vontade de desistir de por a venda arranjaria outra saída arranjaria um empréstimo hipotecando a propriedade faria uma venda antecipada da produção haveria outra saída e se vendesse não fazia a menor ideia de como falaria ao pai que deveriam desocupar a quinta ir para onde morariam na casinhola da rua do Horto em Armamar lá a calefação era das piores e já não tinha mais força para o corte da lenha o Brasil era agora uma lenda antiga do tempo das histórias ao redor do fogo de quando sonhava em tocar a quinta dos avós deixadas pros lados da rua da Cova da Moura da rua do Cabo da rua da Fonte das história dos tios contando quem era a moura e de ter nosso bisavô feito a cova tinha medo da moura e não podia ir dormir sem olhar em baixo da cama e dentro do guarda roupas estava certo de que ela estaria escondida esperando anoitecer para vir fazer alguma maldade durante o sono agora a moura é apenas um nome qualquer de rua e ele nem isso teve vontade de chorar mas naquela idade o choro já não comove choro de velho é melindre velho chora por qualquer coisa não seria levado a sério seu pranto ainda que estivessem só suas lágrimas ainda que apenas ele soubesse estar chorando choro de velho ninguém liga choram à toa e recolheu seu pesar escutou o som arrastado quase inaudível dos passos do pai era hora da sopa era estranho aquele frio fora de época sopa com batatas cenoura galinha uns e outros temperos era tudo que sabia fazer de sopa não encontrava batata-doce talvez algum dia perguntaria ao pai se ele gostava da sopa como ele estava pequeno fora tão grande forte capaz de erguer uma tora sozinho ouvia muitas histórias sobre os feitos do pai ele não as contava não era de falar de si mas ouvia histórias dos tios de como ele fazia e desfazia não tinha medo de jagunço nem de polícia e agora nem consegue levantar os pés do chão para caminhar e não poderá ser enterrado nos fundos da capela da quinta às vezes o encontrava chorando nada de mais poderia ser só lacrimação involuntária coisa de velho ou saberia de alguma coisa agora gostaria que a moura viesse à noite e o levasse nos levasse pensou em deixar a porta destrancada...

Tuesday, March 06, 2012

Síndrome

As autoridades de saúde de Joinville ainda não perceberam, mas está em pleno curso na cidade, outrora das bicicletas, uma epidemia, a SSAFREM, ou Síndrome do Saia da Frente que a Rua é Minha. Esta síndrome, silenciosa enquanto os acometidos não assumem as direções de seus automóveis, provoca, além de um desespero aterrorizante com o passar dos segundos, a necessidade de o indivíduo se deslocar ininterruptamente quando dirigindo.

É muito fácil reconhecer uma vítima deste mal das pós-modernidade, o sujeito humano, independente de gênero, credo, etnia, classe social ou nível de escolaridade, não suporta ter de trafegar com seu veículo com outro veículo à sua frente, mesmo que o veículo da frente esteja trafegando na velocidade máxima permitida para a via. O portador da síndrome fica irritado, buzina, dá sinal de luz, xinga a mãe do condutor do veículo à sua dianteira e espuma pelo(s) canto(s) da boca. Caso o pobre coitado do condutor, o da dianteira, estiver um pouco abaixo da velocidade máxima permitida para a via onde trafegam, ele estará correndo sério risco de vida ou de morte, como queiram, talvez risco à sua integridade e do seu veículo fique melhor colocado, não obstante ao risco, que continua elevado.

Outro sintoma da nefasta síndrome pode ser percebido no momento em que um civilizado motorista resolve obedecer às leis de trânsito e dar a preferência a um pedestre na faixa. Vindo atrás do civilizado motorista um pobre diabo acometido pelo mal, ele pisa bruscamente no freio, fazendo gritarem os pneus no asfalto e levantar fumaça de borracha queimada, em seguida aciona o dispositivo de sinalização auditiva veicular, conhecido como buzina, de maneira ininterrupta. Igual ao exemplo anterior, os impropérios contra a mãe do civilizado motorista também são endereçadas ao pedestre, aquele que ousou a atravessar na faixa de pedestres. Ele também espuma pelo canto(s) da boca(s).

As autoridades de saúde precisam agir com urgência, este mal pode se disseminar e tomar conta de nossa cidade, das flores e afugentar os príncipes que dão título a outro adjetivo joinvilense. Além disto estou cheio de ter minha mãe vilipendiada diariamente porque afronto os portadores da síndrome, andando na velocidade máxima permitida nas vias públicas, ou dando a preferência aos transeuntes nas faixas de pedestres.