Tuesday, February 19, 2013

Diálogo possível entre quem vai e quem leva



— Porque tanto me procura? Se querer, acho fácil, fácil.
            — Nada!  Não faço nem nunca fiz. Um, dois, três. Valha-me Deus!
            — E foram muitas...
            — Mente.
            — Preciso mesmo... Pobre néscio.
            — E já não temos mais nada a tratar. Vou! Passe bem!
            — Cedo. Deixa contar. Lembra em fevereiro de 72, dia 18? Enfiou um grampinho de cabelo na tomada. Te safou a tensão 110, fosse 220... E 30 de março de 73, subiu na casa pra pegar a pandorga, escorregou e quase cai em cima do monte de lenha, lá tinha uma ponta esperando e teu pai nunca soube porque da goteira na sala. Teve também 15 de janeiro de 74, quando resolveu descer o morro da rua do Convento de bicicleta, nem preciso falar mais nada. Depois, em 78, achou o revólver do pai e se achou o próprio Bat Masterson. Em 26 de outubro de 84, comprou a primeira moto, não usava capacete, bebia mais da conta e sempre achava que a motoca não andava nada. Caiu pela primeira vez em 7 de novembro, depois em 29 de dezembro, 6 de janeiro e em 22 de março, nessa a moto se escangalhou e foi para o ferro velho.
            — Coisas de moleque. Quem não fez?
            — E as de adulto? Tenho uma lista com 19 situações de depois dos 30, sem falar no cigarro, bebida demais, exercício de menos, comida porcaria.
            — Ninguém é de ferro. Um ou outro pecadinho, coisa à toa.
            — Não julgo pecados, só busco, levo e entrego, mas você anda a minha procura.
            — Largue mão.
            — Nem era para ser agora, mas...
            — Qual é, tenho umas coisas pra acertar. Sabe, honesto, não quero deixar dívida.
            — Que piada. Já chega, vamos embora!
            — Fodeu! E o que tem do outro lado?
            — Excelente pergunta! Excelente! Pensei que não iria perguntar. Lá você será recepcionado por uma porção de anjos que vão tirar suas lembranças terrenas dando um relaxante banho em uma enorme banheira com água perfumada com pétalas de rosas. Normalmente são lindas anjas, ninfas com asas que te banham e depois elas o levam para conhecer o local. Claro, nem tudo é essa maravilha, você vai ter que falar com o guardião do portão celestial e ele vai decidir se pode ou não entrar. Normalmente ele é bem complacente e até hoje só uns poucos gatos pingados não puderam entrar: Judas, Cássio e Bruto, depois Hitler, Stalin e Nietzsche, além de Giordano Bruno, Sartre e Ulisses, acho que não lembro de mais nenhum. Uma vez aceito, poderá gozar de todos os prazeres que te foram negados nesta vida e passar a eternidade da melhor maneira que te aprouver, junto às anjas e ninfas.
            — Cara, que pira! Vam’bora duma vez!
            — Néscio.
            — Que?
            — É pra já...  

LM

Sunday, January 27, 2013

A mais linda das putas


As pessoas acreditam nas suas verdades, naquilo que imaginam ser a verdade, mas não sabem que a verdade não passa de uma puta, uma linda e sedutora puta, daquela que, a troco de qualquer ninharia, se entrega para o galã fazendo juras de amor eterno e de fidelidade canina. Pobre ingênuo, ela será somente dele até aparecer outro que lhe ofereça qualquer quinquilharia. Mesmo assim o conquistador exulta de prazer e, orgulhoso de sua conquista, se exibe e se vangloria de sua amada para todos e a defende aguerridamente dos outros pretendentes que afirmam serem os legítimos possuidores do amor, do corpo e da alma da volúvel dama.
Enquanto os contendores degladiam-se, insaciável, ela sai procurando novo amor, oferecendo-se para qualquer um que a queira possuir.

 N.A.: Para não me confundirem machista, aqueles que desejarem, poderão inverter os sexos dos personagens. Ficaria como segue abaixo, mas como não sou politicamente correto, a versão verdadeira é a primeira e quem quiser usar a segunda, que vá à merda.

As pessoas acreditam nas suas verdades, naquilo que imaginam ser a verdade, mas não sabem que a verdade não passa de um puto, um lindo e sedutor puto, daquele que, a troco de qualquer ninharia, se entrega para a dama fazendo juras de amor eterno e de fidelidade canina. Pobre ingênua, ele será somente dela até aparecer outra que lhe ofereça qualquer quinquilharia. Mesmo assim a conquistadora exulta de prazer e, orgulhosa de sua conquista, se exibe e se vangloria de seu amado para todas e o defende aguerridamente das outras pretendentes que afirmam serem as legítimas possuidoras do amor, do corpo e da alma do volúvel cavalheiro.
Enquanto as contendoras degladiam-se, insaciável, ele sai procurando novo amor, oferecendo-se para qualquer uma que o queira possuir.
 
LM

Listas sem explicação de coisas nem sempre explicáveis


Vivo com listas, essencialmente. Poderia fazer listas de quase tudo quanto sou e vivo. Algumas já as faço, por obrigação: compras, coisas para fazer durante o dia, locais para ir (do contrário, passo indiferente em frente aos lugares que devo parar), coisas que fiz durante o dia, coisas para fazer no dia seguinte. Algumas destas listas diárias têm sub-listas, divisões esquemáticas para simplificar a ordenação lógica. Nada nelas é importante, mas fazê-las me faz sentir mais importante.
Também faço listas de bens: livros, canetas, utensílios domésticos, roupas, amigos. O item livros dá origem a outras listas, como literatura, prosa, poesia, filosofia, estrangeiros, artes, inúteis; assim como os demais itens dos bens geram suas respectivas divisões lógicas. Se considerar aqueles que ainda me convidam para ir a suas casas, a lista dos amigos torna-se ínfima, aumenta um pouco se acrescentar os que aceitam os convites para virem à minha.
Umas são extensas, com centenas de itens, outras exíguas, contam com apenas um verbete. Eis alguns exemplos: 

Lista mínima de pequenos prazeres:
1.     Toalha de banho lavada e secada ao sol, sem passar (fica áspera).
2.     Uma hora a mais de sono.
3.     Uma hora a menos de serviço.
4.     Cerveja bem gelada à beira da praia às 18h45 em dezembro.
5.     Noites de outono.
6.     Pão francês com ovo frito e café preto às 8h30.
7.     Não trabalhar sábado nem domingo.
8.     Abrir um livro novo e sentir o cheiro das palavras.
9.     Abrir um livro usado e sentir o cheiro das memórias.
10.  Colher uma fruta e comê-la à sombra da árvore. 

Lista de coisas impossíveis, mas sonhadas:
1.     Ficar rico.
2.     Aprender a tocar violão.
3.     Entender as mulheres.
4.     Após uma noite de sonhos inquietantes, acordar metamorfoseado em um cara legal e popular.
5.     Ter uma adega subterrânea com vinhos daqueles que os entendidos dizem ao beber “Tem consistência do primeiro orvalho da primavera da Nova Zelândia e um leve toque de amoras cozidas no vapor de águas do degelo do Aconcágua...”.
6.     Morar em uma biblioteca tipo a de Washington.
7.     Poder viajar para qualquer lugar, a hora que quiser, levando quem eu quiser.

 Mulheres que gostaria de ter transado, mas jamais encostei sequer um dedo (e provavelmente nem se lembram mais de mim):
1.     Lourdes Maria. Era filha de uma vizinha quando eu tinha 10 anos, ela devia ter uns 14 ou 15. Nunca vi criatura mais linda. Foi a musa das minha primeiras masturbações. Ela mudou-se e nunca mais a vi. Ouvi rumores de que havia entrado para o ramo da prostituição.

2.     Eliane. Estudou comigo na sétima e oitava séries. Não era a garota mais bonita da turma, mas a única que falava comigo. Divina. Da turma, apenas ela fez faculdade, hoje é médica e mora no Canadá.

3.     Cátia. Foi minha vizinha no prédio para onde me mudei quando fui morar sozinho, aos 27 anos. Um pouco acima do peso, mas muito simpática, tinha um traseiro realmente notável, era esposa do síndico e corria o boato que dava para todos os moradores do prédio. Dispensável dizer que menos para mim.

4.      Arlineusa. O nome não é dos melhores, mas era encantadora. Trabalhava no bandejão onde eu almoçava quando trabalhei na Bosch. Sempre colocava um pedaço a mais de carne no meu prato. Nunca pude falar com ela, a fila me empurrava e só soube seu nome olhando o crachá. Um vez tentei espera-la na saída do restaurante, mas não a reconheci no meio das outras meninas que saiam no mesmo horário, sem o guarda-pó e touca brancos, não sabia da cor dos cabelos e não portavam os crachás. Deveria ter chamado pelo nome, não teriam duas, mais uma vez emudeci.  Não tive mais notícias dela.
Poderia acrescentar mais algumas garotas, como ainda não perdi as esperanças, ainda não cabem, por hora, nesta lista.
 

Lista de doenças das quais já fui acometido:
1.     Caxumba.
2.     Sarampo.
3.     Catapora.
4.     Icterícia, mas quando criança, falavam amarelão mesmo.
5.     Pedra no rim.
6.     Dor de ouvido.
7.     Dor de dente.
8.     Inflamação da vesícula.
9.     Diarreia.
10.  Febre amarela (odeio esta cor).
11.  Gonorreia.
12.  Virose (acho que todos os tipos).
13.  Pneumonia.
14.  Gripe (pelo menos umas 52 vezes).
15.  Unha encravada.
16.  Todo o tipo de dor de cabeça.
17.  Dor de cotovelo.
18.  Depressão.
19.  Surto psicótico.
20.  Transtorno obsessivo compulsivo.
21.  Transtorno bipolar.
22.  Leptospirose. 

Temo não resistir ao item 23 desta lista.

 LM

Saturday, January 05, 2013

Gosto de sangue na boca do lobo

 
Entre Natal e Ano Novo um abandono meio que toma conta da cidade, casas com jornais acumulando-se na varanda e um cachorro uivando de fome (sem ter os pedidos ouvidos, obriga-se a comer a ração com cara de serragem já úmida de dias chuvosos e rodeada de lesmas), uns comércios abertos outros fechados e a noite entra em período de trégua, sem as graças enfeitadas sob o luar. Os dias e noites se parecem, sem distinção de se domingo ou terça-feira. Ônibus preguiçosos amarelam a rua de hora em hora e na calçada semi-deserta um lobo solitário, caçador sanguinário, evita os clarumes dos postes. Ele aguça a visão, escuta o ar, fareja e então sente o cheiro indefectível de Cashmere Bouquet. Os sentidos estão alerta, o coração pulsa tenso e ele vai em direção à presa. Inocente sob a luz do último poste, não percebeu o perigo, o lobo já sente o gosto de sangue.
Maldição, esqueceu as palavras, tenta e lembra da mãe puxando o terço. Não, Aves-Marias não. A presa o viu. Passar reto? Ela se vira, está pronta para a fuga. Ave Maria cheia de graça. Ela tem rugas demais, mas é esguia. Bunda com enchimento? A caça arreganha as presas, faltam-lhe os dentes dos caninos para trás. Cara de cavalo, magra, um palmo mais alta do que o lobo solitário, ralos cabelos aloirados. Puta que o pariu, é um travesti.
— Oi gatinho.
— Oi.
— Quer se divertir um pouco? Tenho tudo que tu procura, tanto faz, tu que escolhe amor.
— Como assim tudo?
— Se quiser um cuzinho bem apertadinho e úmido, tá aqui. Agora se quiser ser comido bem gostosinho, tenho uma pica bem dura, não muito grossa, pra não machucar. Tu é tão novinho...
Escuta passos atrás. Não pode se virar, deve ser o resto da manada vindo em defesa da desgarrada. É preciso fugir, não poderá enfrentar a todos. Volta para a penumbra, aperta o passo e vira na próxima esquina. Finalmente um lugar seguro. Entra no Bar e Lanchonete Central e pede uma cerveja, um conhaque e um X-salada-egg no balcão. Disfarça, tira a carteira do bolso e conta o dinheiro para ter certeza de que vai poder pagar a conta. Não vai poder pedir outra cerveja, a garrafa já está quase no fim, é melhor deixar o restinho pra quando vier o X.  
Alguém senta na banqueta ao lado. É a, ou o cara de cavalo.
— Oi gatinho, saiu tão apressadinho. Paga um lanche?
— Só tenho grana pro meu.
— Tu é tão novinho, tão bonitinho, perdido na noite. A tia Rose cuida de tu. Deixa que eu pago pra tu, amorzinho.
Ela pediu outra cerveja, bem gelada, ele deixou de lado o restinho da sua garrafa e tomou de uma só vez um copo, desceu bem, toma rápido e sem fazer cara para mostrar que é durão.
Setenta e sete por cento dos ataques de lobos em caçadas resultam em fracasso. Já foram três esta noite. O lobo toma mais um copo de cerveja, sente o gosto do sangue.  
 

LM   

Sunday, December 30, 2012

2013

            O mundo não acabou, nem este raquítico blog, ainda que um certo senhor Charles Trezinni tenha tentado (ver post de 05/09/2012), mas fez-se justiça e meus milhares de seguidores poderão dormir tranquilos.
            Agradeço às manifestações de solidariedade e à pujante audiência registrada e aos meus seguidores e também aos meus detratores, 2013 neles.

LM  

Parte V (Última)

                            Eu queria algo que pudesse perder. Eu a tinha, mas ela não era minha, e eu queria poder perdê-la e para isto acontecer ela deveria ser minha. Essa foi a ideia mais estúpida que já tive em toda minha vida. Não foi exatamente uma ideia, acho mesmo que a coisa foi acontecendo e só agora, depois de alguns anos, consigo enxergar  como de fato aconteceu. Eu era um idiota maior ainda do que sou agora.
                            Cheio dos sentimentos confusos, resolvi conversar ao invés de simplesmente calar a boca e trepar.
— Às vezes eu acho que você me usa, como se eu fosse só um pinto.
— E não é? Eu já tenho marido e to bem feliz com ele, claro que tu é só um pinto.
— Isso não te parece meio frio?
— Quer uma namoradinha? Acho que escolheu a garota errada.
— Não, não quero ninguém me enchendo o saco, só acho que a gente deveria conversar um pouco de vez em quando.
— Tudo bem. Fala!
— Como assim?
— Tu não quer conversar? To te ouvindo.
— Você é meio fria.
— Sou prática. Se eu quiser conversar, saio com uma amiga, ou fico em casa, sei lá. Cala essa boca e me beija!
                            Nunca consegui me impor para uma mulher (por isto resolvi viver sozinho) e a obedeci. Beijei-a, mas naquela noite não a xinguei, nem a apertei, apenas desempenhei mecanicamente meu papel. Ela era tudo que um homem sonha em uma mulher: bonita, sensual, boa de cama, não me enchia o saco, queria apenas transar e eu poderia sair com outras garotas. Apesar de ter elaborado algumas teorias, ainda não descobri direito porque aquela situação me incomodava. Uma das hipóteses que me vem à cabeça era eu me sentir amedrontado por ela estar no comando. Era estranho, nunca falamos do marido dela, dos filhos, era como se ela simplesmente não desse a mínima para eles. Nunca tive família e talvez isto tenha me afetado, sei lá.
                            Depois daquele dia não saímos mais. Quando ela ia ao almoxarifado, se comportava como se tudo estivesse perfeitamente normal, pedia a peça ou ferramenta e antes de ir embora falava como estava meio complicado pra sair e assim que arranjasse um tempo ia me avisar, pra gente se encontrar. Depois de uns dois ou três meses nessa conversa mole, eu já não tava nem aí para o serviço e fui mandado embora. Entreguei umas brocas de tamanho diferente e toda uma linha de blocos de motor virou sucata.
                            Após de ter saído da fábrica nunca mais ouvi falar da Cleide, nem a procurei, fui cuidar da minha vida. Virei barman, motorista, porteiro de zona, ajudante de pedreiro, mendigo, obreiro de uma igreja evangélica, frentista e acabei me aposentando depois de levar um tiro no braço durante um assalto. O tiro limitou os movimentos da minha mão esquerda e como estava em horário de expediente, o advogado da empresa deu um jeito de me aposentar por invalidez. Agora sou um inválido oficial, vivo a custa do Estado e como o salário não dá pra muita coisa, divido um pequeno apartamento de dois quartos com o Nicolau. Ele ficou viúvo e não quis ir morar com nenhum dos filhos, ou eles não o quiseram. Maldita velhice.
                            Tudo isto parece ter acontecido há séculos e cada vez que conto esta história, esqueço partes importantes, invento outras, aumento ou diminuo a importância dos acontecimentos, tanto que já nem lembro direito o que é lembrança ou delírio. Chego mesmo a duvidar da existência da Cleide e quando pergunto para o Nicolau se ele lembra de algo, apenas faz um meneio com a cabeça e resmunga algo, sem dizer nada. Devo estar vendo muita novela, se não morrer de tédio até final do ano, vou ver se arranjo um jeito de acelerar a natureza.
 

LM     

Saturday, December 15, 2012

Parte IV

                            Foi meio estranho, eu já estava achando que ela só fazia aquele tipo fatal pra me provocar, como provocaria qualquer otário, até travarmos um daqueles diálogos improváveis no almoxarifado, ela tinha ido buscar algumas brocas.
— O que vai ser hoje gatona?
— Pro serviço... brocas.
— E pra fora do serviço?
— Não sei ainda.
— O que um cara tem que fazer pra sair como uma gata como você?
— Depende. Se for um cara legal, bom amigo, bom pai de família, daí não tem chance, assim já tenho um em casa. Se for um cara querendo se divertir e se for um cara que saiba como tratar uma mulher, é só convidar.
— Que tal hoje, depois do serviço?
— Não dá, o Renato vem me pegar todos os dias.
— Aham! Então quando?
— Saio para caminhar todas as noites, lá pelas oito. Tenho até às dez.
                            Marcamos o encontro e o mais estranho é que foi preciso falar muita coisa, fazer galanteios, esse tipo de frescura, ela sabia exatamente o que queria. Fomos a um motelzinho barato, pedi uma cerveja, falamos algumas coisas superficiais e de repente nos agarramos e nos beijamos feito loucos. Arrancamos nossas roupas, não tínhamos tempo a perder com conversas, nossos minutos estavam cronometrados. Foi uma transa muito louca, ela me xingava, me chamava de tarado filho da puta, me baita, cuspia na minha cara dizendo que eu não passava de um maldito vagabundo, e cada xingamento pedia para eu meter mais forte, com raiva, afinal ela era uma menina má que precisava ser castigada, então me pedia para eu botar força e enfiar com raiva.
                            Ficamos uma hora e meia neste frenesi, ela me xingando de filho de uma cadela sarnenta, eu a chamando de vadia sem vergonha, minha putinha porca e nos abraçávamos, nos enroscávamos como se fossemos duas cobras entrelaçadas. Não dava pra saber onde começava um e onde terminava o outro. Ao final eu estava exausto, parecia que tinha brigado por umas duas horas e apanhado uma bela surra. Por um instante ela estava luminosa, mas logo voltou a assumir aquela pose de pantera caçando, esquiva, insinuante, fugidia. Saímos, não falamos quase nada, nos despedimos sem nos beijar. Antes de ir pra minha casa a chamei e perguntei.
— Quando nos encontramos de novo?
— Você até que se comportou bem, tenha paciência, eu te aviso.
                            Os dias seguintes foram um suplício. Eu andava obcecado, só pensava naquela transa, parecia até um garoto depois da primeira fóda. Era só ela aparecer no almoxarifado que eu tinha que ir pra trás das prateleiras tocar uma bronha. Já nem prestava atenção direito no trabalho, entregava material trocado, não dava baixa direito nas saídas e não registrava as entradas. Até que o Lourival me chamou.
— Vai tomar no cu. Você tá querendo sair. É só falar, não fica de sacanagem que eu te ferro, seu merda.
— Não é isso, cara, é que ando com uns problemas, não posso sair agora, eu vou dar um jeito de melhorar.
— Se eu te chamar aqui mais uma vez vai ser pra dar um chute na tua bunda.
— Deixa comigo, não vou dar mole. Quando eu quiser sair te aviso antes.
                            Foram quatro longas semanas, tive de me concentrar, para de me masturbar no serviço e fazer meu servicinho mal feito, até que ela deu o sunal.
— Hoje à noite, no mesmo lugar e hora. Vai quente homem solitário.
                            A segunda transa foi ainda mais louca do que a primeira. Ela parecia estar possuída. Ficava o tempo todo me xingando e provocando “O que você quer aqui seu bosta? Quer me comer? Então fóde feito homem.”, me chamando de filho de uma égua. Não dava tempo para eu descansar, depois de ter gozado a primeira vez, fui tomar uma cerveja, nem pude terminar de beber e ela veio atrás, me abraçou e agarrou minhas bolas, e enquanto se abaixava pra fazer um boquete ia me xingando mais “Seu bundão de merda, se quiser descansar fica em casa se embebedando sozinho, bota essa coisa mole pra funcionar antes que eu arranque tuas bolas.”. E enquanto me sugava até a alma, arranhava minha bunda, minhas pernas, me batia, era mesmo uma pervertida gostosa.
                            Entramos em um acordo tácito. Não falávamos quase nada, quando ela queria sair, dava uma passada no almoxarifado e dizia o horário. No motel de sempre também mal conversávamos, fora os xingamentos mútuos durante a transa, trocávamos no máximo meia dúzia de palavras. Era para ser perfeito, mas eu comecei a querer mais, já tinha o corpo, o prazer carnal, tudo o que poderia me importar, mesmo assim comecei a ficar incomodado. O que eu poderia querer a mais? Não tinha compromisso, podia sair com os amigos, arranjar outras garotas, não precisava dar satisfação alguma, ela não me cobrava nada, não exigia que eu percebesse quando tinha cortado o cabelo, ou quando tinha feito a sobrancelha, era só obtermos prazer sem culpa nem compromisso. O que mais eu poderia querer?

Continua...

LM

Saturday, December 08, 2012

Parte III


                Era para ter falado pouco, ando meio prolixo e repetitivo. Deve ser a idade, maldita velhice me fazendo esquecer as coisas, contar sempre as mesmas histórias (é que nada de novo acontece, as pessoas deveriam saber disto) e o que é pior, estou ficando açucaradamente sentimental. Outro dia chorei na frente da TV, estava passando um desenho com uns cavalinhos e uns caçadores e o herói e toda a mesma baboseira de sempre e eu, durão, cara de mau, poucos amigos, o cara que falava na lata sem ter medo das consequências, que encarou a turma dos Cavalazzi sozinho e que botou pra correr o Afonsinho Canivete ali, chorando pelos cavalinhos. Também Choro quando lembro da Cleide, talvez não seja só a velhice, a solidão deve estar me afetando. Vou comprar alguns bichos, gato, cachorro, tartaruga, sei lá.

                Afinal revelamos o amigo secreto. Fizemos um churrasco num dos quiosques da recreativa. Linguicinha banhenta, filé simples (duro pra caralho), pão e salada de tomate com cebola. Pra beber tinha cerveja, caipirinha de pinga, samba (igualzinho a festa dos gerentes e diretores). Foi uma mistura infernal. Sei o que tinha para comer porque vomitei pelo meu quarto e banheiro depois da festa e ali estava todo o cardápio, um pouco mais melecado.

                A hora da entrega dos presentes é sempre igual foi uma chatice sem tamanho. Um bando de gente sem graça tentando fazer piadas e dando pistas idiotas para falar quem tinham pego e fazendo outras babaquices. Devo ser muito chato mesmo. Chegou minha vez, chamei o Nicolau, sem fazer gracinha alguma e entreguei o presente, um par de Kichutes 43. Fui vaiado, não fiz as firulas esperadas. A Cleide pegou o Lourival, maldito sacana, ganhou uma garrafa de vinho, que ela entregou como quem diz: “Vem gatão, despeje este vinho ordinário no meu corpo e lambe tudinho, bem gostoso, seu safadinho.” Ali eu soube que iria pegar aquela potranca, também sabia que ela tava fazendo aquela cena pra mim.

                Apesar da frivolidade, a festa revelou-me muitas coisas. Mostrou como eram as garotas sem o brim engraxado e pude constatar que a Cleide era realmente uma tremenda gata, a melhor de todas. Tinha outras que também dava para passar na cara, tipo a Lurdinha, meio baixinha mais gostosinha (deu até uma rima infame); a Eliana, mesmo um pouco acima do peso e a Verônica, apesar de já estar meio velhusca, mas eu nunca fui de escolher minuciosamente mesmo. Apesar de todas aquelas garotas, no dia seguinte acordei com a mesma companheira de sempre: uma tremenda ressaca. Felizmente tinha o sábado e o domingo para me recuperar.

                O primeiro dia após as festas de confraternização é algo surreal, as pessoas estão de saco cheio por terem de aguentar seus empregos medíocres e mal remunerados, mesmo assim tentam fazer caras alegres, como se estivessem reverberando a felicidade mágica da festinha de final de ano da turma. No fundo estão todos querendo que os colegas se fodam e se pudessem pisar uns nos pescoços dos outros para ganhar uma promoção ou uns trocados a mais no salário, fariam sem pestanejar. Igualzinho ao dia seguinte dos gerentes e diretores, menos a parte do mal remunerado. Mas o primeiro dia depois daquela festa foi especial para mim, convidei a Cleide para sir e ela aceitou. Tinha só que arranjar um horário possível, afinal ela era casada e tinha dois filhos.

               

Continua...

 

LM

Sunday, December 02, 2012

Parte II


Dei uma pequena desviada, voltemos à Cleide. Ela era normal, outra operária, falava pouco e não se misturava muito. Quando vinha ao almoxarifado mal dizia algum cumprimento formal, fazia o pedido assinava a ficha sem olhar para mim. Nada nela chamava a atenção e se lembro de tantos detalhes foi porque um dia ela me falou algo estranho e a partir dali passei a prestar mais atenção nela.

                — Você não liga de ficar aí, sozinho, o dia inteiro?

                — É melhor assim. Não sou muito bom em conviver entre as pessoas.

                — É melhor assim... Tchau!

                Parece besteira, mas fiquei com aquilo na cabeça. O que ela queria dizer? Foi quando comecei a observá-la e foi quando percebi que ela andava com leveza, não como as outras meninas, que andavam como se estivessem sempre carregando um saco de cavaco. Ela não, se movia como uma pantera, em silêncio, movimentos contidos para ocupar o mínimo espaço e nas poucas vezes que era possível ver os negros olhos sob a aba do capacete, a gente encontrava um olhar que parecia estar te fulminando. Era uma grande gata caçando. Precisava ver o que havia por baixo de todo aquele brim.

                Faltavam poucos dias para o natal de 86, sempre tinha alguém organizando um encerramento, um amigo secreto e outras bobagens. Quem quisesse participar assinava ao lado do nome em uma lista fixada no quadro de avisos. Já estava indo para meu quarto natal e nunca participei de nada. Este ano mudei de ideia. A essa altura eu já estava com pensamento fixo em Cleide, embora ela continuasse apenas me fulminando com o olhar e falando duas ou três palavras cada vez que ia ao almoxarifado. E estava tão infantilmente vidrado que tinha certeza de que iria pegá-la no sorteio de amigo secreto. Já estava tudo planejado, cada palavra, o abraço na hora da entrega do presente, que tipo de lembrança comprar, tudo certo para depois daquele dia apenas marcar o encontro. Chegou o dia e peguei justamente o Nicolau.

                Naquela semana ela veio pegar umas brocas.   

— Pegou quem homem solitário?

— Pode falar antes da entrega dos presentes?

— O que você acha?

— Acho que não. Foda-se. Foi o Nicolau.

— Uau! O negão do esmeril.

— É. Não peguei quem eu queria.

— Não vai querer saber quem eu peguei?

— Não, mas quero saber o que vai dar.

— Essa que é a melhor parte.
            Ela cravou-me os olhos fulminantes e não disse mais nada, virou-se como uma gata saciada foi caminhando mexendo as ancas como se estivesse saindo do banho prestes a deixar cair a toalha e pular na cama para transar como louca. Pude ver tudo isso sob aquela roupa grossa e fiquei tão excitado que não teve jeito, tive que ir atrás das prateleiras de peças e tocar uma punheta com a mão suja de graxa. Quando tava quase terminando alguém me chama no balcão. Era o Nicolau, sempre ele.

Continua...

LM

Thursday, November 29, 2012

Cala a boca e faça esse teu servicinho mal feito


Quis contar esta história usando o mínimo possível as palavras. Não me dou bem com elas, são traiçoeiras e quando penso que estou dizendo aquilo que quero dizer, elas simplesmente mudam de sentido e dizem exatamente o contrário, ou pior,  pois contrário indica a existência de apenas duas versões e as palavras parecem ter muito mais do que só duas versões. Viram, nem comecei a contar minha história e já gastei meio parágrafo dizendo nadas, entupindo as leitoras com um punhado de palavras. Vou tentar ser direto, vamos à história.

                Quando conheci Cleide, não prestei muita atenção. Tinha problemas demais para prestar atenção em todas as garotas que eram contratadas na fábrica. Eu era encarregado do setor de almoxarifado, serviço tranquilo, entregar umas peças e ferramentas a quem solicitasse, anotar nas fichas e passar a maior parte do dia fazendo de conta que estava muito ocupado. Não era um serviço tão ruim, mesmo assim era um saco e pagavam uma miséria. Como ia dizendo, a Cleide era mais uma das garotas da fábrica, todas de brim azul, sapatão, capacete, óculos de proteção, luvas, avental, ou seja, não dava para distinguir muito bem quais eram as gostosas. Uma ou outra eu pensava “Essa eu pegava”. O resto era a mesma coisa que beijar o Nicolau do esmeril.

                Uma vez andei saindo com uma das operárias, a Marli, até que era ajeitada, mas não deu muito certo, começou a pegar no meu pé, arranjava qualquer motivo pra ir ao almoxarifado. Ela achava que eu tinha um grande cargo porque não precisava ir para a fundição e virou a me pedir dinheiro. Dizia que era emprestado, mas nunca falava em pagar. Fiz as contas depois de um mês e descobri que era mais barato dar uma passada na zona uma ou duas vezes por semana. Assim eu ia me ferrar e, ou eu saia, ou dava um jeito de conseguir que a mandassem embora. O Lourival do setor pessoal me devia um favorzinho. Fomos a uma farra e ele bebeu demais. Foi trabalhar ainda de ressaca e, achando que tava abafando, quebrou o vidro do alarme de incêndio e apertou o botão. Para livrar a cara dele assumi inventando um acidente enquanto eu movimentava uma gaiola cheia de pacotes de peças e ferramentas, entre um setor e outro. A história colou e o Lourival ficou me devendo uma pedra. E a Marli foi pro espaço.

 

Continua...

 
LM

Friday, November 23, 2012

Profissões


Quando você procura desesperadamente um assunto para escrever e não encontra e acaba caindo na maldita armadilha de escrever sobre a falta do que escrever, desista, você não é um escritor, está apenas fazendo cena para parecer mais inteligente ou interessante do que realmente é. Normalmente quem mais faz isto são aqueles escritores mais fajutos, que se dizem verdadeiros talentos. Para estes iluminados, o assunto vem direto do céu, com todo o resto: assunto, enredo, palavras, tudo. O escolhido pelos deuses da literatura só precisa colocar no computador o recado dos céus. Quando os deuses saem para um passeio ou estão simplesmente cagando, nosso pobre escritor não sabe sobre o que escrever e fica enchendo o saco de sua meia dúzia de leitores com um monte de merda do tipo: “Hoje nada me ocorria, lembrei-me da noite anterior, cuja fronha do travesseiro cheirava a alfazema...” Ele não sabe o que é alfazema e o travesseiro deve ter uma morrinha de baba acumulada, bem distante de qualquer odor floral.

Eu sempre tenho algum assunto que poderia usar para escrever algo, o problema é que nem sempre as palavras aparecem decentemente. Digito alguma coisa e leio apenas um monte de porcaria com um assunto que poderia render uma boa história. Outro dia resolvi contar a história de um sujeito que perdeu uma das mãos trocando o pneu do carro, mas ficou tão ruim que minha vontade foi de que minha cabeça estivesse sob o carro do sujeito da mão decepada. Fica evidente o quão limitado sou como escritor, mas me consolo lembrando de um bando que consegue não encontrar nenhum assunto quando se tem um milhão de assuntos por dia para serem usados.

Manuel de Barros escreveu que qualquer coisa é matéria prima para poesia e se ele falou, quem sou eu para discordar. Um exemplo disto foi quando estava escrevendo estas considerações. Um cara tocou o interfone, fui ver, era um maluco pedido uns trocados para comprar comida. O cara estava quase se recuperando de um porre e precisava mais combustível para queimar. Seu corpo já não era mais um corpo, apenas uma fornalha tocada a álcool. Pedi para ele esperar um pouco, eu ia ver se achava algumas moedas, antes preguntei o que ele fazia quando não estava nas ruas. “Era escritor, e dos bons, mas um dia estava sem assunto e meu editor não quis esperar e me mandou à merda.” Não acreditei muito naquela história e até desconfio que alguém deu uma garrafa para aquele miserável bater na minha porta e falar aquilo. Sempre tem alguém querendo rir ás custas da gente.

Procurei algo pra dar ao sujeito, não tinha dinheiro, só cartão de crédito na carteira, fui ao balcão das bebidas e fiz uma limpa. Catei aquelas bebidas que a gente compra ou ganha, mas nunca bebe: uma garrafa de menta (era verde, mas não tenho certeza se era menta), duas cidras, um vinho doce e uma garrafa de graspa. Coloquei tudo numa sacola e levei até o portão. Quando entreguei o embrulho para ele, dei uma de bom camarada, de coroa legal e falei: “Parceiro, não fale por aí que era escritor, ninguém liga para escritores, diga que era um advogado que não conseguiu livrar da cadeia um cliente seu que você tinha certeza da inocência e o cara acabou sendo assassinado na prisão, daí você se desencantou com o sistema e resolveu abandonar a vida para errar pelo mundo.”

Estava muito satisfeito comigo, com minha boa ação do dia e não esperava muitas respostas, quando o bebum me respondeu: “Cara, essa também é boa, vou usar. Antes eu dizia que era médico e larguei tudo depois que uma criança morreu em minhas mãos, na sala de cirurgia, mas um dia, quando acabei de contar a história, veio uma gritaria do interior da casa, fiquei por ali olhando e o camarada que tava falando comigo veio correndo e me agarrou pelo braço aos berros dizendo que eu ainda era médico e que a sogra dele tava tendo um ataque. Foi a maior merda, me livrei do cara e saí correndo.”

Pelo jeito o bebum deve ter sido mesmo escritor.
 
LM

Sunday, November 11, 2012

Um lugar


Acordou como quem volta da morte, sem lembranças ou esperanças, não havia passado nem futuro e o presente era pálido e impreciso. Pouco sabia de si, sabia apenas do despertar. Sem passado, tentou estabelecer lembranças a partir do momento em que acordara, mas não podia distinguir onde estava, quanto tempo se passara, como era seu rosto, por fim desistiu e contentou-se em permanecer apenas no presente, o futuro seria muito mais penoso de intuir.

Tentou identificar onde poderia estas, havia uma luz difusa, pálida, vinda de todos os lados e conjeturou ser aquele lugar o limbo, haviam elementos suficientes para supor isto.

 

Ouvi-lo, em dor o coração me lança,

Pois muitos conheci de alta valia,

A quem do Limbo a suspensão alcança.

 

E por uma centelha de lembrança almejou a suspensão daquele sítio onde o nada impera, onde o bem e o mal não habitam e nem querem habitar, onde o choro é por algo que se não conhece nem se sabe alcançável. E a mesma centelha de antes o fez tremer: se fosse o limbo, então estaria morto. Mas se estivesse morto, certamente estaria no inferno e ali não poderia ser o inferno, afinal o inferno são os outros. Beliscou-se e sentiu a carne, apalpou-se e sentiu o calor, soprou e sentiu o ar dos pulmões. Eram indícios de ainda estar vivo. Sentiu medo, mesmo assim começou a explorar o local. Tentou estabelecer dimensões de onde estava, mas percebeu a inutilidade disto, porém inquietou-se tentando saber de onde poderia ter tirado tal ideia. Tentou seguir em direção ao centro, temendo imensamente encontrar um poço. Pouco sabia de poços, muito menos porque teme-los, de qualquer modo nada havia onde parecia ser o centro.

Exausto, deitou-se e dormiu. Teve sonhos impróprios, inquietantes e nos sonhos ele próprio agitava-se como louco e, de longe, parecia uma mosca. Pensou em sonhar mais do que um sonho, em sonhar uma realidade possível, longe daquele não-lugar, entretanto este mesmo pensamento já era apenas um sonho e por fim acordou mais exausto do que antes.

Precisava sair, fugir, ir para outro lugar, ninguém viria para salvá-lo. Tomou distância e correu a com toda a energia e arremessou-se contra a parede projetando a cabeça. Por um brevíssimo instante pode escutar os estalos secos do  dos ossos do crânio quebrando e o espatifar dos miolos. Depois tudo voltou ao silêncio.

Ficou desacordado por tanto tempo quanto uma vida e o recobrar da consciência não passava de uma ameaça de despertar, como quando se está em profundo sono prestes a acordar, mas ainda sem forças para fazê-lo. Não conseguia abrir os olhos, tampouco tinha conhecimento se permanecia no local de antes. Também não distinguia nenhum som ou qualquer indício exterior. Conseguiu lembrar-se da pancada na cabeça e pensou que desta vez poderia estar mesmo morto, pois não conseguia mover-se. Mesmo lembrando do incidente, teve dúvidas dos motivos que o levaram a tomar tal atitude. Não sabia se tentava arrebentar a parede ou se estava apenas tentando por fim à vida. Estes pensamentos consumiram um grande tempo, impossível de ser medido, mas longo suficiente até que ele pudesse abrir os olhos e levantar-se novamente. Ainda estava no mesmo local.

    Procurou vestígios do ferimento e não havia sangue pelo chão, nem marcas em sua testa. Tudo estava como antes, continuaria tentando encontrar uma saída inexistente, a entender de onde viera onde estava para onde iria, tentaria sentir-se menos inútil e mais valorizado do que realmente era. Certamente daria novas cabeçadas nas paredes, esqueceria coisas importantes, mas consolar-se-ia ao lembrar de que nada parecia ser importante ali. Iria correr desesperadamente em círculos sem nunca chegar a lugar algum e mesmo assim, para não ter perigo de esquecer o trajeto da desvairada correria, refaria novamente o trajeto, até chegar ao ponto da partida. Latejava-lhe a cabeça e sentia uma leve náusea, afora o mal estar, tudo estava perfeitamente normal.

 

Luiz Mendes

11/11/2012   

Wednesday, September 05, 2012

Pausa

Por ordem judicial terei de suspender as postagens neste blog até que se seja julgado o mérito de ação movida contra este blogueiro, pelo senhor Charles Trezinni.

Meu advogado, o Dr. Carreeiro, conseguiu liminar contra a retirada do ar do blog, mas estou impedido de publicar novos textos.

Segundo o avocato, a autorização para novas postagens deverá ser concedida em seis meses.

Aos meus seguidores e detratores, até breve.

LM

Sunday, August 26, 2012

Infusão descongestionante de folhas de eucalipto




Turista italiano atacado e morto por um koala. A notícia, bastante incomum, foi publicada na internet e o incidente teria ocorrido em um zoo da China. Não fosse a discrepante imagem de um fofinho koala dando cabo de um homem, a notícia quase nem seria percebida, mas algo muito intrigante chamou minha atenção, o nome do turista italiano era Charles Trezinni.
Passados alguns dias, outras pessoas, que certamente leram a mesma notícia, mandaram e-mails para mim perguntando se eu havia morrido (ainda tem gente que me confunde com Charles Trezinni). Respondi a todos confirmando: sim eu havia morrido após o ataque de um koala, mas não tive tempo de convidá-los para meu sepultamento, pois as autoridades chinesas ainda não encontraram todas as partes do meu corpo e não queriam liberar o cadáver incompleto, diziam: entrou inteiro em nosso país, sairá inteiro. Outros me escreveram dando as condolências, pois julgavam ser eu um amigo muito íntimo do finado. Agradeci o apoio e contei como estava sendo difícil este momento de dor pela perda tão inesperada e trágica. Outro grupo de missivistas ficou extremamente surpreso ao descobrir que Charles Trezinni existia, e se mostraram indignados, como o remetente do e-mail a seguir.


Sempre soube de sua pouca criatividade, desde os tempos da faculdade, só não imaginei que chegasse aos extremos da falta de ética ao expor as vicissitudes de uma pessoa real como se fictícia fosse. Você é uma vergonha para os escritores. A.K.


Ao menos A.K. considera-me um escritor, coisa que às vezes nem mesmo eu concordo. Assim, para dirimir todas as dúvidas a respeito da existência ou não de Trezinni, da autoria dos textos publicados, da veracidade dos relatos, da sua morte e vida, resolvi convidar Charles Trezinni para vir a Joinville. Expliquei-lhe os motivos, mandei um link da notícia da morte de seu homônimo e a cópia dos e-mails recebidos referindo-se a ele. Segue a resposta.


Havia algo de lúgubre naquela manhã. Não posso afirmar com certeza o que era, assim como não sei direito como fui topar essa porra de viagem a um país tão distante de todas minhas referências. O máximo que conhecia da China eram as conversas entre Polo e Kublai Khan, nas Cidades Invisíveis, de Calvino. Quase nada. Assim, carregado de incertezas nas bagagens, encontrava-me no distante oriente, em uma merda de manhã, com uma baita ressaca provocada por uma bebida que nem sei que merda era, preparando-me para uma inocente e inofensiva visita ao zoológico. Além da ressaca ainda estava congestionado, mal conseguia respirar, a cabeça doía e cogitei ficar no hotel, mas precisava cumprir o roteiro e posar para algumas fotos (não falei, mas esta viagem eu ganhei em uma promoção, daquelas de enviar embalagens de produtos para um sorteio). Fui ao quarto do guia e pedi ajuda, expliquei meu mal estar. Ele ligou para a recepção (imagino), falou um monte de chang, iang e outras porcarias inteligíveis. Em alguns minutos um china trazia uma bandeja com chá e sei lá mais o que eram aqueles troços, só sei que fediam a desinfetante de banheiro. O amarelo gesticulava e falava uma porrada de coisa que eu não entendia, como já tava me enchendo o saco, dei uma moeda e fui levando ele pra porta. Não sabia o que fazer com aquele chá, tomei um baita gole, era a coisa mais horrível que já botara pra dentro dos bofes, não tinha só cheiro de desinfetante, tinha gosto também, mas destrancava o nariz. Tomei mais um gole e passei aquela beberagem pela cara. Abriu mesmo minhas narinas entupidas e era tão forte que ardiam os olhos. Abri a geladeira e tomei o que ainda havia de saudável: três cervejas e uma garrafinha de algum tipo de vodka. Antes de sair dei mais uma esfregada daquele chá na cara. Acho que aquele porra dava uma liga. Logo chegamos ao zoo, cheio de bichos fedidos (agora eu conseguia sentir o cheiro até da cueca do guia, o chá abria mesmo as narinas) e sem graça. Quando estávamos na ala dos koalas senti o cheiro da merda dos filhos da puta e lembrei de onde conhecia o cheiro de desinfetante do chá, era eucalipto. Mal terminei de concluir meu raciocínio só escutei uma gritaria e uns urros de animal e senti algo agarrando e arranhando minha cara. O resto é notícia requentada. C. T.


LM

Monday, August 20, 2012

Arcádia

Estevan Grodosh não teve perdão. Morreu com um tiro na nuca enquanto rezava seu terço. Deus certamente estava prestando atenção nas intermináveis repetições da longa reza e nem percebeu a aproximação do matador. José dos Santos, conhecido como Zezinho Matador, nome de santo com reforço dos demais, não conhecia Deus muito menos todos os santos que pudessem conter em seu nome, sabia apenas atirar sem desperdiçar cartucho. José nunca se interessou em saber quem estava matando, bastava que lhe dessem a descrição, onde morava ou trabalhava e lhe pagassem o adiantamento. Metade antes e o restante depois do serviço pronto. Estevan era agricultor, nunca quis saber de quem eram as terras onde plantava feijão e criava meia dúzia de galinhas. Sabia apenas que era terra devoluta e isto para ele bastava, mesmo sem saber o que significava. José cobrava por importância da encomenda, um agricultor como Estevan era o que de mais barato havia em sua tabela de preços, os mais valorizados eram juízes, prefeitos e delegados, mas como havia pouca encomenda de figurões e muita de pé rapados, Zezinho andava matutando em inverter a tabela e começar a cobrar mais para dar cabo da caboclada. O problema é que se não mata na bala, a pobreza morre de fome ou pestes e pode não ter serviço. Estevan Grodosh morreu rezando para que sua vida, que era um inferno, melhorasse. Se tiver melhor sorte na morte do que na vida, deveria ter ido para o céu, mas como tinha lá umas contas a acertar com a igreja, o mais provável é que foi para o purgatório. José dos Santos nunca rezou e matou muitos Estevans e se tudo der certo, quando morrer deve ir para o inferno. Quem contratou Zezinho Matador para dar cabo de um sem terra vive do bom e do melhor, num luxo tamanho que José ou Estevan jamais imaginaram que pudesse existir. Ele também encomenda muitas missas por mês na catedral e é amigo do bispo, certamente sabe como chegar ao paraíso quando morrer.

LM

Tuesday, August 14, 2012

previsão do tempo

continua a chover

/contínua/

e as gentes desta terra

sonham o contrário:

não percebem que os pingos

insistem em se jogar das nuvens

em vão

pois secam

antes de caírem

nos telhados das pessoas de bem


 

deve ser por isto

que só eu percebo

há muito deixei de ser

uma pessoa de bem

a merda é

que por não ser

exatamente mau

tenho de ficar no limbo

onde a chuva não é farta

mas as goteiras nunca erram o alvo


 

LM

Sunday, August 05, 2012

Sob os tetos de bons cidadãos

Já está há muito tempo naquela casa, seus pulmões já não aguentam mais o pó de cupim nevando do forro de madeira dia-e-noite-noite-e-dia até não ter mais nem casa para cair na sua cabeça. Está ali desde sempre, talvez até mais: antes de Edite, seus pais encheram a casa com sonhos para o futuro e tiveram três filhos. Os irmãos, assim que engrossaram as penugens do queixo, partiram e só retornaram para enterrar o pai. Edite ficou e de recompensa, recebeu como dote de casamento, a casa. Dentro dela, a mãe doente. Não teriam filhos enquanto a imobilidade daquele corpo se confundisse com os móveis herdados. Móveis carregados com cheiros antigos que, se disfarçando, foram ficando.

    Sem a mãe, Edite sentiu toda a felicidade por vir, a casa se encheria de filhos e alegria. Bastava aspirar os cheiros dos novos tempos, de uma nova vida. Foi quando aspirou pela primeira vez o pó de cupim.

    O passar do tempo pouco mudou a casa, apenas envelheceu-a mais e deu a Edite anos para serem passados da mesma maneira, sempre, assim como a mãe. Procurava refúgios e gostava de ficar sentada na varanda, contando os poucos carros que passavam na rua. Classificava-os mentalmente por cores e, quando reconhecia, por marca. Ou quantos vinham da esquerda e quantos da direita. Oculta por samambaias penduradas que quase tocavam a cerca da varanda, sentia-se protegida, anônima. Nessas horas não dava importância para a insistente chuvinha de pó de cupim que cobria a casa, especialmente ali, no seu esconderijo quase na rua.

    A casa fora construída quando ainda não havia a rua, apenas um carreirinho. Ele foi se alargando, alargando, até o dia, quando Edite ainda nem era nascida, que os funcionários da prefeitura pregaram uma placa na própria parede da casa: R. Serapião Ventura. Agora, com a rua pavimentada, quase não havia espaço entre a casa e a calçada. Assim, camuflada entre samambaias penduradas e hibiscos que ladeavam o muro revestido de limo, Edite se sentia fluida entre as plantas, tão próxima de quem passava pela calçada e sem ser percebida. Poderia flutuar acima do assoalho, sobre as antigas camadas de cera que se sobrepunham no brilho escurecido da madeira, até a porta da saída, cujo verde da pintura resistia apenas na lembrança.

    Em certas ocasiões, planejava meticulosamente como mudaria sua vida. Havia poucos carros para classificar e naquela tarde, não só planejou como se sentiu com disposição suficiente para executar. Sabia a que horas a vizinha saia, que horas voltava, os horários de Silas, dos filhos voltarem da escola, do vizinho e o mais importante, imaginara detalhadamente as conversas e respostas das pessoas que encontraria pela rua. Precisava apenas tirar o pó de cupim dos ombros e sair.

    Ao amanhecer, a casa se apresentava ainda mais decadente. As primeiras luzes da manhã projetavam sombras irregulares e os contrastes realçavam a feiura pré-histórica da construção. Não era apenas um problema da idade, a arquitetura também não ajudava. Na garagem era onde a tacanhez da casa mais se manifestava, era onde Edite, enfrentando uma invasão de formigas, se perdia em caminhos familiares.

    Domingo de manhã seria o dia mais improvável para aquela faxina. Balde de água, esfregão, sabão, as crianças seguindo as trilhas das carregadeiras e o sol, ignorando suas nuvens particulares, entrava sossegadamente pela janela escancarada. Não se preocupava em disfarçar as marcas nos braços e no pescoço. Os meninos ainda não sabem o que são tipo de marca, apenas o sol que espiava pelas frestas da manhã.

    O mesmo sol matinal começava a irritar Silas, bêbado em um beco do centro da cidade e também iluminava a casa vizinha, deixando à mostra, através das finas cortinas, o marido levando café da manhã na cama para a companheira. Era uma casa irritante, daquelas bem construídas com paredes sólidas, teto de laje que não derruba pó de cupim. Era pintada com um amarelo vibrante, como se seus moradores quisessem exteriorizar toda a felicidade que ali reinava. Na frente, um jardim impecável, como o restante da casa, exibia o colorido de flores da estação substituídas ao menor sinal de perda de viço. Mal conhecia seus habitantes e não queria, não gostava da felicidade deles.

    Água, sabão, esfrega bem. Nenhum sinal externo vindo da casa ao lado. Varre. Crianças saiam da sujeira! Estes sapatos eram do Silas. Quis ter um galão de gasolina naquela hora. Crianças, para fora!

    Sentiu pó de cupim caindo nela. Olhou para cima, como quem procura alguma coisa importante perdida, e fixou o olhar no caibro exposto. Certificou-se de que as crianças se entretinham. Olhou mais uma vez para a casa vizinha e fechou a janela. Pensou que se o domingo terminar, segunda vai procurar um emprego.

    Não tinha gasolina, pegou um galão saiu, no caminho até o posto pensou que álcool pudesse ser menos fedido, enquanto andava pensava em empregar o combustível da maneira mais dramática. Poderia por fogo na casa, imolar-se em praça pública ou provocar uma explosão no shopping. Encheu o galão e foi ao caixa pagar.    

    — Olá vizinha. O que faz por aqui?

    Ela se virou para ver quem falava e se era com ela. Era o morador da casa amarela, olhando-a com ar amistoso de bons vizinhos. Edite se sentiu constrangida de ser vista naquela situação. O que ele poderia pensar?

    — Quer uma carona? Convidou o vizinho enquanto pagava a gasolina do carro. — Estou indo para casa.

    — Eu vim comprar cigarro. E deixou o galão com álcool no posto.

    No carro, Edite que até então estava conversando com monossílabos e meneares de cabeça, pensou em perguntar algo que os pudesse aproximar, algo como: "você é feliz mesmo ou é só um disfarce aquela sua casa babaca?".

    — A gente mora há tanto tempo... eu não sei o nome do senhor...

— Não me chame de senhor, não são assim tão velho, mas sou um apaixonado por cinema. Respondeu inusitadamente.

    O carro já havia passado a entrada da rua Serapião Ventura. E para se justificar, da resposta ou do caminho errado, continuou: — Já assisti umas vinte vezes O último tango em Paris, não teremos nomes, nem lugar certo para ir, e oraremos pela família.

    —Lembrei que estou sem margarina em casa. Disse ao acaso Edite. Foi a única coisa que lembrou e para ela aquela conversa não fazia mesmo sentido nunca ouvira falar daquele filme, não sabia dançar tango, não conhecia Paris e não sabia rezar.

    — Já que o senhor — fazendo uma pausa para se corrigir — quer dizer, você passou, poderia me deixar no mercadinho?

— Quando saí de casa percebi que não havia ninguém na casa de vocês...

— Os meninos estão na casa do primo e o meu marido foi embora.

— Então vamos comprar manteiga.


 

LM


 

Sunday, July 29, 2012

memorial

na última noite do ano

reuni em festa, umas partes de mim

que estavam guardadas

um pedacinho ali, outro na gaveta,

adiante do por-do-sol,

em casas com roupa no varal e um,

de bom tamanho, pertinho da Lua

e cantei

e dancei

e vivi

dediquei tudo à Lua e adormeci

sonhei que cantava, dançava e vivia, com a Lua

cheia de si, iluminando a festa


 

LM

Sunday, July 22, 2012

Estudo nº 18 para redondilhas e superfícies

era para ser verdade

era para ter pureza

era para sempre


 

não teve o vento a levá-lo

nem marcas de tinta fresca

foi apenas fim


 

se acumularam desculpas

sobre os cheques devolvidos

faltou o som das lágrimas


 

perceberam tarde demais

que tudo era só teatro

falas decoradas


 

LM

O soldadinho de plástico e a bailarina de porcelana: Uma história baseada em fatos reais

Dois engradados de plástico cheios de bonecas, bichinhos de pelúcia, carrinhos, pequenos potes, instrumentos musicais rudimentares e tantas outras quinquilharias são os brinquedos perfeitos da menina que mora na casa verde. Uns emitem sons engraçados, outros, os sons são a menina quem os faz emitirem, há ainda os fofinhos, os engraçados por serem esquisitos e os esquisitos mesmo. Todos preenchem solitárias tardes da menina com alegria, faz de conta e muita magia. É neste cenário lúdico que nossa história se passa, é a história de amor entre o soldadinho de plástico e a bailarina de porcelana.

Ele era, como já ficou claro, um soldadinho de plástico e ela, sem nenhuma dúvida, uma bailarina de porcelana. Ele, um dos tantos brinquedos das caixas, ela um enfeite sobre a cômoda do quarto. A separá-los a imensidão da imobilidade dos brinquedos de plástico e dos bibelôs de porcelana, além da altura praticamente intransponível entre o chão do quarto e o alto da cômoda. Ela, apenas enfeite, dificilmente era requisitada para as brincadeiras, ficava nas suas alturas, observando os contos de fadas e as aventuras de princesas que a menina tramava com os brinquedos das caixas. Chamou-lhe a atenção aquele soldadinho preto, de plástico, querendo fazer pose de valentão, mas com uns olhos tão tristes o que o deixava bem bonitinho.

Às vezes a caixa de desenhos era colocada entre bichinhos de pelúcia e bonecas e a menina espalhava lápis e canetinhas a procura da cor ideal para os mais malucos desenhos. Já o soldadinho, esperava ansioso ser pego pela menina e mais ansioso ainda ficava, esperando ser jogado no chão de forma a poder ficar fitando a bailarina no alto do seu palco. Quando isto acontecia, não perdia a oportunidade de mirar cada detalhe da bailarina, seus olhos negros, sua pele branca, roupas brilhantes e, especialmente, um colarzinho com uma meia lua pendurado no alvo pescocinho. Os dois nunca conversaram, não sabiam um o nome do outro, mas o soldadinho, inspirado pelo colar com a meia lua, em suas fantasias chamava a bailarina de Luana.

Quando a menina recebia a visita de outras crianças, não havia brinquedo que não ficasse espalhado pelo quarto e num desses dias, após as crianças cessarem as brincadeiras, o soldadinho, estendido no chão, ouviu um ruído. Não havia mais crianças ali, apenas os brinquedos. Perguntou quem era.

— Sou eu, o lápis.

— Um lápis? E lápis falam?

— Sim! Não só falo como escrevo lindas histórias com maravilhosas ilustrações.

— E não é nem um pouco modesto. É você mesmo que escreve as histórias?

O soldadinho estava muito surpreso e confuso com a aparição daquela figura magrela e falante. Não que ele nunca tivesse visto um lápis, mas aquele era bem diferente e o lápis continuou.

— Modesto? Apenas falo a real. E vou contar como faço as histórias, é assim: as histórias são feitas com palavras. Não é mesmo? E às vezes, para dar um efeito estético bacana, existem ilustrações nestas histórias. Pois bem, eu sou um fazedor de histórias.

— Acho que estou entendendo. E se você faz as histórias, pode escolher também os personagens?

— Claro!

O lápis que não era bobo nem nada e já havia percebido os olhares compridos do soldadinho em direção à bailarina, percebeu logo onde o bonequinho queria chegar. Então o soldadinho perguntou:

— Será que eu poderia participar de alguma aventura?

— É pra já.

Sem perder tempo o lápis começou a rabiscar no ar seus caracteres mágicos escrevendo e ilustrando uma história de amor. Enquanto dava forma às palavras da história, o lápis desenhou uma escada que ia do chão do quarto até o alto da cômoda onde estava a bailarina. Ao redor dela dispôs flores, árvores, coloridas borboletas e notas musicais. Ao perceber as notas musicais voando com as borboletas, a bailarina começou a dançar enquanto o soldadinho, lá no chão, ficava em pé. Rodopiante e cantarolando uma linda canção, a bailarina desceu as escadas e foi até o soldadinho.

— Oi.

Disse a bailarina enchendo sua pequena fala com um toque musical.

— O oi.

Gaguejou o soldadinho.

— Meu nome é Luana.

— Eu já sabia, sempre soube que não poderia haver outro nome para alguém tão linda quanto a própria Lua.

O soldadinho, se não fosse inteiro preto, teria corado, não sabia como tinha dito palavras tão atrevidas, logo ele, tão tímido e calado. O lápis observava a cena e ria enquanto continuava a escrever sua história. A bailarina pediu para o soldadinho falar alguma coisa sobre ele e, ainda sem entender muito bem como, começou a contar emocionantes aventuras que ele tinha participado. Eram aventuras em florestas distantes, com salvamento de animais das armadilhas de caçadores malvados; histórias de castelos e princesas, fadas e monstros. A bailarina sorria e ouvia as lindas narrativas com muita atenção. Ele continuava sem entender direito o que acontecia, pois desde que saiu da prateleira da loja de brinquedos, nunca saiu daquele quarto e a coisa mais emocionante que tinha lembrança era ficar contemplando a bailarina. Então ele percebeu que não eram suas aquelas histórias, mas do lápis que escrevia e ilustrava as aventuras. O soldadinho voltou a ficar tímido e se entristeceu, pois tinha visto como brilhavam os olhos negros da bailarina enquanto escutava suas narrativas. Sentiu-se como estivesse mentindo para ela, pois não eram aventuras suas.

Sempre atento, o lápis notou a mudança de atitude do soldadinho, que voltou a ficar imóvel como um pedaço de plástico rijo e foi em seu socorro.

— O que foi amiguinho?

— É que eu fiquei tão empolgado com as histórias que nem percebi que eram apenas invenções suas, que nunca vivi estas aventuras.

— Engano seu meu caro soldadinho, eu faço apenas rabiscos, são vocês que fazem as histórias. Vejo seus rostinhos alegres, seus olhinhos cintilantes e ali enxergo as mais espetaculares aventuras que se possa imaginar. As histórias são suas e tem muitas maneiras de viver uma aventura, uma delas é entrando nelas através das histórias.

A bailarina, por natureza mais sonhadora, entendeu logo o que o lápis estava tentando explicar ao soldadinho, de alguma forma ela já sabia que as histórias estavam todas em seus corações e falou:

— Então não vamos perder mais tempo, vamos contar uma linda história com muita magia, danças, aventuras e romance.

O soldadinho se reanimou e eles continuaram a brincar, dançar ao som das melodias desenhadas pelo lápis e a viver as mais espetaculares aventuras.


 

LM