Tuesday, February 19, 2013
Diálogo possível entre quem vai e quem leva
Sunday, January 27, 2013
A mais linda das putas
Listas sem explicação de coisas nem sempre explicáveis
Saturday, January 05, 2013
Gosto de sangue na boca do lobo
Sunday, December 30, 2012
2013
Agradeço às manifestações de solidariedade e à pujante audiência registrada e aos meus seguidores e também aos meus detratores, 2013 neles.
LM
Parte V (Última)
Saturday, December 15, 2012
Parte IV
— O que vai ser hoje gatona?
— Pro serviço... brocas.
— E pra fora do serviço?
— Não sei ainda.
— O que um cara tem que fazer pra sair como uma gata como você?
— Depende. Se for um cara legal, bom amigo, bom pai de família, daí não tem chance, assim já tenho um em casa. Se for um cara querendo se divertir e se for um cara que saiba como tratar uma mulher, é só convidar.
— Que tal hoje, depois do serviço?
— Não dá, o Renato vem me pegar todos os dias.
— Aham! Então quando?
— Saio para caminhar todas as noites, lá pelas oito. Tenho até às dez.
Marcamos o encontro e o mais estranho é que foi preciso falar muita coisa, fazer galanteios, esse tipo de frescura, ela sabia exatamente o que queria. Fomos a um motelzinho barato, pedi uma cerveja, falamos algumas coisas superficiais e de repente nos agarramos e nos beijamos feito loucos. Arrancamos nossas roupas, não tínhamos tempo a perder com conversas, nossos minutos estavam cronometrados. Foi uma transa muito louca, ela me xingava, me chamava de tarado filho da puta, me baita, cuspia na minha cara dizendo que eu não passava de um maldito vagabundo, e cada xingamento pedia para eu meter mais forte, com raiva, afinal ela era uma menina má que precisava ser castigada, então me pedia para eu botar força e enfiar com raiva.
Ficamos uma hora e meia neste frenesi, ela me xingando de filho de uma cadela sarnenta, eu a chamando de vadia sem vergonha, minha putinha porca e nos abraçávamos, nos enroscávamos como se fossemos duas cobras entrelaçadas. Não dava pra saber onde começava um e onde terminava o outro. Ao final eu estava exausto, parecia que tinha brigado por umas duas horas e apanhado uma bela surra. Por um instante ela estava luminosa, mas logo voltou a assumir aquela pose de pantera caçando, esquiva, insinuante, fugidia. Saímos, não falamos quase nada, nos despedimos sem nos beijar. Antes de ir pra minha casa a chamei e perguntei.
— Quando nos encontramos de novo?
— Você até que se comportou bem, tenha paciência, eu te aviso.
Os dias seguintes foram um suplício. Eu andava obcecado, só pensava naquela transa, parecia até um garoto depois da primeira fóda. Era só ela aparecer no almoxarifado que eu tinha que ir pra trás das prateleiras tocar uma bronha. Já nem prestava atenção direito no trabalho, entregava material trocado, não dava baixa direito nas saídas e não registrava as entradas. Até que o Lourival me chamou.
— Vai tomar no cu. Você tá querendo sair. É só falar, não fica de sacanagem que eu te ferro, seu merda.
— Não é isso, cara, é que ando com uns problemas, não posso sair agora, eu vou dar um jeito de melhorar.
— Se eu te chamar aqui mais uma vez vai ser pra dar um chute na tua bunda.
— Deixa comigo, não vou dar mole. Quando eu quiser sair te aviso antes.
Foram quatro longas semanas, tive de me concentrar, para de me masturbar no serviço e fazer meu servicinho mal feito, até que ela deu o sunal.
— Hoje à noite, no mesmo lugar e hora. Vai quente homem solitário.
A segunda transa foi ainda mais louca do que a primeira. Ela parecia estar possuída. Ficava o tempo todo me xingando e provocando “O que você quer aqui seu bosta? Quer me comer? Então fóde feito homem.”, me chamando de filho de uma égua. Não dava tempo para eu descansar, depois de ter gozado a primeira vez, fui tomar uma cerveja, nem pude terminar de beber e ela veio atrás, me abraçou e agarrou minhas bolas, e enquanto se abaixava pra fazer um boquete ia me xingando mais “Seu bundão de merda, se quiser descansar fica em casa se embebedando sozinho, bota essa coisa mole pra funcionar antes que eu arranque tuas bolas.”. E enquanto me sugava até a alma, arranhava minha bunda, minhas pernas, me batia, era mesmo uma pervertida gostosa.
Entramos em um acordo tácito. Não falávamos quase nada, quando ela queria sair, dava uma passada no almoxarifado e dizia o horário. No motel de sempre também mal conversávamos, fora os xingamentos mútuos durante a transa, trocávamos no máximo meia dúzia de palavras. Era para ser perfeito, mas eu comecei a querer mais, já tinha o corpo, o prazer carnal, tudo o que poderia me importar, mesmo assim comecei a ficar incomodado. O que eu poderia querer a mais? Não tinha compromisso, podia sair com os amigos, arranjar outras garotas, não precisava dar satisfação alguma, ela não me cobrava nada, não exigia que eu percebesse quando tinha cortado o cabelo, ou quando tinha feito a sobrancelha, era só obtermos prazer sem culpa nem compromisso. O que mais eu poderia querer?
Saturday, December 08, 2012
Parte III
Sunday, December 02, 2012
Parte II
Continua...
LM
Thursday, November 29, 2012
Cala a boca e faça esse teu servicinho mal feito
Friday, November 23, 2012
Profissões
Sunday, November 11, 2012
Um lugar
Wednesday, September 05, 2012
Pausa
Por ordem judicial terei de suspender as postagens neste blog até que se seja julgado o mérito de ação movida contra este blogueiro, pelo senhor Charles Trezinni.
Meu advogado, o Dr. Carreeiro, conseguiu liminar contra a retirada do ar do blog, mas estou impedido de publicar novos textos.
Segundo o avocato, a autorização para novas postagens deverá ser concedida em seis meses.
Aos meus seguidores e detratores, até breve.
LM
Sunday, August 26, 2012
Infusão descongestionante de folhas de eucalipto
Turista italiano atacado e morto por um koala. A notícia, bastante incomum, foi publicada na internet e o incidente teria ocorrido em um zoo da China. Não fosse a discrepante imagem de um fofinho koala dando cabo de um homem, a notícia quase nem seria percebida, mas algo muito intrigante chamou minha atenção, o nome do turista italiano era Charles Trezinni.
Passados alguns dias, outras pessoas, que certamente leram a mesma notícia, mandaram e-mails para mim perguntando se eu havia morrido (ainda tem gente que me confunde com Charles Trezinni). Respondi a todos confirmando: sim eu havia morrido após o ataque de um koala, mas não tive tempo de convidá-los para meu sepultamento, pois as autoridades chinesas ainda não encontraram todas as partes do meu corpo e não queriam liberar o cadáver incompleto, diziam: entrou inteiro em nosso país, sairá inteiro. Outros me escreveram dando as condolências, pois julgavam ser eu um amigo muito íntimo do finado. Agradeci o apoio e contei como estava sendo difícil este momento de dor pela perda tão inesperada e trágica. Outro grupo de missivistas ficou extremamente surpreso ao descobrir que Charles Trezinni existia, e se mostraram indignados, como o remetente do e-mail a seguir.
Ao menos A.K. considera-me um escritor, coisa que às vezes nem mesmo eu concordo. Assim, para dirimir todas as dúvidas a respeito da existência ou não de Trezinni, da autoria dos textos publicados, da veracidade dos relatos, da sua morte e vida, resolvi convidar Charles Trezinni para vir a Joinville. Expliquei-lhe os motivos, mandei um link da notícia da morte de seu homônimo e a cópia dos e-mails recebidos referindo-se a ele. Segue a resposta.
LM
Monday, August 20, 2012
Arcádia
Estevan Grodosh não teve perdão. Morreu com um tiro na nuca enquanto rezava seu terço. Deus certamente estava prestando atenção nas intermináveis repetições da longa reza e nem percebeu a aproximação do matador. José dos Santos, conhecido como Zezinho Matador, nome de santo com reforço dos demais, não conhecia Deus muito menos todos os santos que pudessem conter em seu nome, sabia apenas atirar sem desperdiçar cartucho. José nunca se interessou em saber quem estava matando, bastava que lhe dessem a descrição, onde morava ou trabalhava e lhe pagassem o adiantamento. Metade antes e o restante depois do serviço pronto. Estevan era agricultor, nunca quis saber de quem eram as terras onde plantava feijão e criava meia dúzia de galinhas. Sabia apenas que era terra devoluta e isto para ele bastava, mesmo sem saber o que significava. José cobrava por importância da encomenda, um agricultor como Estevan era o que de mais barato havia em sua tabela de preços, os mais valorizados eram juízes, prefeitos e delegados, mas como havia pouca encomenda de figurões e muita de pé rapados, Zezinho andava matutando em inverter a tabela e começar a cobrar mais para dar cabo da caboclada. O problema é que se não mata na bala, a pobreza morre de fome ou pestes e pode não ter serviço. Estevan Grodosh morreu rezando para que sua vida, que era um inferno, melhorasse. Se tiver melhor sorte na morte do que na vida, deveria ter ido para o céu, mas como tinha lá umas contas a acertar com a igreja, o mais provável é que foi para o purgatório. José dos Santos nunca rezou e matou muitos Estevans e se tudo der certo, quando morrer deve ir para o inferno. Quem contratou Zezinho Matador para dar cabo de um sem terra vive do bom e do melhor, num luxo tamanho que José ou Estevan jamais imaginaram que pudesse existir. Ele também encomenda muitas missas por mês na catedral e é amigo do bispo, certamente sabe como chegar ao paraíso quando morrer.
LM
Tuesday, August 14, 2012
previsão do tempo
continua a chover
/contínua/
e as gentes desta terra
sonham o contrário:
não percebem que os pingos
insistem em se jogar das nuvens
em vão
pois secam
antes de caírem
nos telhados das pessoas de bem
deve ser por isto
que só eu percebo
há muito deixei de ser
uma pessoa de bem
a merda é
que por não ser
exatamente mau
tenho de ficar no limbo
onde a chuva não é farta
mas as goteiras nunca erram o alvo
LM
Sunday, August 05, 2012
Sob os tetos de bons cidadãos
Já está há muito tempo naquela casa, seus pulmões já não aguentam mais o pó de cupim nevando do forro de madeira dia-e-noite-noite-e-dia até não ter mais nem casa para cair na sua cabeça. Está ali desde sempre, talvez até mais: antes de Edite, seus pais encheram a casa com sonhos para o futuro e tiveram três filhos. Os irmãos, assim que engrossaram as penugens do queixo, partiram e só retornaram para enterrar o pai. Edite ficou e de recompensa, recebeu como dote de casamento, a casa. Dentro dela, a mãe doente. Não teriam filhos enquanto a imobilidade daquele corpo se confundisse com os móveis herdados. Móveis carregados com cheiros antigos que, se disfarçando, foram ficando.
Sem a mãe, Edite sentiu toda a felicidade por vir, a casa se encheria de filhos e alegria. Bastava aspirar os cheiros dos novos tempos, de uma nova vida. Foi quando aspirou pela primeira vez o pó de cupim.
O passar do tempo pouco mudou a casa, apenas envelheceu-a mais e deu a Edite anos para serem passados da mesma maneira, sempre, assim como a mãe. Procurava refúgios e gostava de ficar sentada na varanda, contando os poucos carros que passavam na rua. Classificava-os mentalmente por cores e, quando reconhecia, por marca. Ou quantos vinham da esquerda e quantos da direita. Oculta por samambaias penduradas que quase tocavam a cerca da varanda, sentia-se protegida, anônima. Nessas horas não dava importância para a insistente chuvinha de pó de cupim que cobria a casa, especialmente ali, no seu esconderijo quase na rua.
A casa fora construída quando ainda não havia a rua, apenas um carreirinho. Ele foi se alargando, alargando, até o dia, quando Edite ainda nem era nascida, que os funcionários da prefeitura pregaram uma placa na própria parede da casa: R. Serapião Ventura. Agora, com a rua pavimentada, quase não havia espaço entre a casa e a calçada. Assim, camuflada entre samambaias penduradas e hibiscos que ladeavam o muro revestido de limo, Edite se sentia fluida entre as plantas, tão próxima de quem passava pela calçada e sem ser percebida. Poderia flutuar acima do assoalho, sobre as antigas camadas de cera que se sobrepunham no brilho escurecido da madeira, até a porta da saída, cujo verde da pintura resistia apenas na lembrança.
Em certas ocasiões, planejava meticulosamente como mudaria sua vida. Havia poucos carros para classificar e naquela tarde, não só planejou como se sentiu com disposição suficiente para executar. Sabia a que horas a vizinha saia, que horas voltava, os horários de Silas, dos filhos voltarem da escola, do vizinho e o mais importante, imaginara detalhadamente as conversas e respostas das pessoas que encontraria pela rua. Precisava apenas tirar o pó de cupim dos ombros e sair.
Ao amanhecer, a casa se apresentava ainda mais decadente. As primeiras luzes da manhã projetavam sombras irregulares e os contrastes realçavam a feiura pré-histórica da construção. Não era apenas um problema da idade, a arquitetura também não ajudava. Na garagem era onde a tacanhez da casa mais se manifestava, era onde Edite, enfrentando uma invasão de formigas, se perdia em caminhos familiares.
Domingo de manhã seria o dia mais improvável para aquela faxina. Balde de água, esfregão, sabão, as crianças seguindo as trilhas das carregadeiras e o sol, ignorando suas nuvens particulares, entrava sossegadamente pela janela escancarada. Não se preocupava em disfarçar as marcas nos braços e no pescoço. Os meninos ainda não sabem o que são tipo de marca, apenas o sol que espiava pelas frestas da manhã.
O mesmo sol matinal começava a irritar Silas, bêbado em um beco do centro da cidade e também iluminava a casa vizinha, deixando à mostra, através das finas cortinas, o marido levando café da manhã na cama para a companheira. Era uma casa irritante, daquelas bem construídas com paredes sólidas, teto de laje que não derruba pó de cupim. Era pintada com um amarelo vibrante, como se seus moradores quisessem exteriorizar toda a felicidade que ali reinava. Na frente, um jardim impecável, como o restante da casa, exibia o colorido de flores da estação substituídas ao menor sinal de perda de viço. Mal conhecia seus habitantes e não queria, não gostava da felicidade deles.
Água, sabão, esfrega bem. Nenhum sinal externo vindo da casa ao lado. Varre. Crianças saiam da sujeira! Estes sapatos eram do Silas. Quis ter um galão de gasolina naquela hora. Crianças, para fora!
Sentiu pó de cupim caindo nela. Olhou para cima, como quem procura alguma coisa importante perdida, e fixou o olhar no caibro exposto. Certificou-se de que as crianças se entretinham. Olhou mais uma vez para a casa vizinha e fechou a janela. Pensou que se o domingo terminar, segunda vai procurar um emprego.
Não tinha gasolina, pegou um galão saiu, no caminho até o posto pensou que álcool pudesse ser menos fedido, enquanto andava pensava em empregar o combustível da maneira mais dramática. Poderia por fogo na casa, imolar-se em praça pública ou provocar uma explosão no shopping. Encheu o galão e foi ao caixa pagar.
— Olá vizinha. O que faz por aqui?
Ela se virou para ver quem falava e se era com ela. Era o morador da casa amarela, olhando-a com ar amistoso de bons vizinhos. Edite se sentiu constrangida de ser vista naquela situação. O que ele poderia pensar?
— Quer uma carona? Convidou o vizinho enquanto pagava a gasolina do carro. — Estou indo para casa.
— Eu vim comprar cigarro. E deixou o galão com álcool no posto.
No carro, Edite que até então estava conversando com monossílabos e meneares de cabeça, pensou em perguntar algo que os pudesse aproximar, algo como: "você é feliz mesmo ou é só um disfarce aquela sua casa babaca?".
— A gente mora há tanto tempo... eu não sei o nome do senhor...
— Não me chame de senhor, não são assim tão velho, mas sou um apaixonado por cinema. Respondeu inusitadamente.
O carro já havia passado a entrada da rua Serapião Ventura. E para se justificar, da resposta ou do caminho errado, continuou: — Já assisti umas vinte vezes O último tango em Paris, não teremos nomes, nem lugar certo para ir, e oraremos pela família.
—Lembrei que estou sem margarina em casa. Disse ao acaso Edite. Foi a única coisa que lembrou e para ela aquela conversa não fazia mesmo sentido nunca ouvira falar daquele filme, não sabia dançar tango, não conhecia Paris e não sabia rezar.
— Já que o senhor — fazendo uma pausa para se corrigir — quer dizer, você passou, poderia me deixar no mercadinho?
— Quando saí de casa percebi que não havia ninguém na casa de vocês...
— Os meninos estão na casa do primo e o meu marido foi embora.
— Então vamos comprar manteiga.
LM
Sunday, July 29, 2012
memorial
na última noite do ano
reuni em festa, umas partes de mim
que estavam guardadas
um pedacinho ali, outro na gaveta,
adiante do por-do-sol,
em casas com roupa no varal e um,
de bom tamanho, pertinho da Lua
e cantei
e dancei
e vivi
dediquei tudo à Lua e adormeci
sonhei que cantava, dançava e vivia, com a Lua
cheia de si, iluminando a festa
LM
Sunday, July 22, 2012
Estudo nº 18 para redondilhas e superfícies
era para ser verdade
era para ter pureza
era para sempre
não teve o vento a levá-lo
nem marcas de tinta fresca
foi apenas fim
se acumularam desculpas
sobre os cheques devolvidos
faltou o som das lágrimas
perceberam tarde demais
que tudo era só teatro
falas decoradas
LM
O soldadinho de plástico e a bailarina de porcelana: Uma história baseada em fatos reais
Dois engradados de plástico cheios de bonecas, bichinhos de pelúcia, carrinhos, pequenos potes, instrumentos musicais rudimentares e tantas outras quinquilharias são os brinquedos perfeitos da menina que mora na casa verde. Uns emitem sons engraçados, outros, os sons são a menina quem os faz emitirem, há ainda os fofinhos, os engraçados por serem esquisitos e os esquisitos mesmo. Todos preenchem solitárias tardes da menina com alegria, faz de conta e muita magia. É neste cenário lúdico que nossa história se passa, é a história de amor entre o soldadinho de plástico e a bailarina de porcelana.
Ele era, como já ficou claro, um soldadinho de plástico e ela, sem nenhuma dúvida, uma bailarina de porcelana. Ele, um dos tantos brinquedos das caixas, ela um enfeite sobre a cômoda do quarto. A separá-los a imensidão da imobilidade dos brinquedos de plástico e dos bibelôs de porcelana, além da altura praticamente intransponível entre o chão do quarto e o alto da cômoda. Ela, apenas enfeite, dificilmente era requisitada para as brincadeiras, ficava nas suas alturas, observando os contos de fadas e as aventuras de princesas que a menina tramava com os brinquedos das caixas. Chamou-lhe a atenção aquele soldadinho preto, de plástico, querendo fazer pose de valentão, mas com uns olhos tão tristes o que o deixava bem bonitinho.
Às vezes a caixa de desenhos era colocada entre bichinhos de pelúcia e bonecas e a menina espalhava lápis e canetinhas a procura da cor ideal para os mais malucos desenhos. Já o soldadinho, esperava ansioso ser pego pela menina e mais ansioso ainda ficava, esperando ser jogado no chão de forma a poder ficar fitando a bailarina no alto do seu palco. Quando isto acontecia, não perdia a oportunidade de mirar cada detalhe da bailarina, seus olhos negros, sua pele branca, roupas brilhantes e, especialmente, um colarzinho com uma meia lua pendurado no alvo pescocinho. Os dois nunca conversaram, não sabiam um o nome do outro, mas o soldadinho, inspirado pelo colar com a meia lua, em suas fantasias chamava a bailarina de Luana.
Quando a menina recebia a visita de outras crianças, não havia brinquedo que não ficasse espalhado pelo quarto e num desses dias, após as crianças cessarem as brincadeiras, o soldadinho, estendido no chão, ouviu um ruído. Não havia mais crianças ali, apenas os brinquedos. Perguntou quem era.
— Sou eu, o lápis.
— Um lápis? E lápis falam?
— Sim! Não só falo como escrevo lindas histórias com maravilhosas ilustrações.
— E não é nem um pouco modesto. É você mesmo que escreve as histórias?
O soldadinho estava muito surpreso e confuso com a aparição daquela figura magrela e falante. Não que ele nunca tivesse visto um lápis, mas aquele era bem diferente e o lápis continuou.
— Modesto? Apenas falo a real. E vou contar como faço as histórias, é assim: as histórias são feitas com palavras. Não é mesmo? E às vezes, para dar um efeito estético bacana, existem ilustrações nestas histórias. Pois bem, eu sou um fazedor de histórias.
— Acho que estou entendendo. E se você faz as histórias, pode escolher também os personagens?
— Claro!
O lápis que não era bobo nem nada e já havia percebido os olhares compridos do soldadinho em direção à bailarina, percebeu logo onde o bonequinho queria chegar. Então o soldadinho perguntou:
— Será que eu poderia participar de alguma aventura?
— É pra já.
Sem perder tempo o lápis começou a rabiscar no ar seus caracteres mágicos escrevendo e ilustrando uma história de amor. Enquanto dava forma às palavras da história, o lápis desenhou uma escada que ia do chão do quarto até o alto da cômoda onde estava a bailarina. Ao redor dela dispôs flores, árvores, coloridas borboletas e notas musicais. Ao perceber as notas musicais voando com as borboletas, a bailarina começou a dançar enquanto o soldadinho, lá no chão, ficava em pé. Rodopiante e cantarolando uma linda canção, a bailarina desceu as escadas e foi até o soldadinho.
— Oi.
Disse a bailarina enchendo sua pequena fala com um toque musical.
— O oi.
Gaguejou o soldadinho.
— Meu nome é Luana.
— Eu já sabia, sempre soube que não poderia haver outro nome para alguém tão linda quanto a própria Lua.
O soldadinho, se não fosse inteiro preto, teria corado, não sabia como tinha dito palavras tão atrevidas, logo ele, tão tímido e calado. O lápis observava a cena e ria enquanto continuava a escrever sua história. A bailarina pediu para o soldadinho falar alguma coisa sobre ele e, ainda sem entender muito bem como, começou a contar emocionantes aventuras que ele tinha participado. Eram aventuras em florestas distantes, com salvamento de animais das armadilhas de caçadores malvados; histórias de castelos e princesas, fadas e monstros. A bailarina sorria e ouvia as lindas narrativas com muita atenção. Ele continuava sem entender direito o que acontecia, pois desde que saiu da prateleira da loja de brinquedos, nunca saiu daquele quarto e a coisa mais emocionante que tinha lembrança era ficar contemplando a bailarina. Então ele percebeu que não eram suas aquelas histórias, mas do lápis que escrevia e ilustrava as aventuras. O soldadinho voltou a ficar tímido e se entristeceu, pois tinha visto como brilhavam os olhos negros da bailarina enquanto escutava suas narrativas. Sentiu-se como estivesse mentindo para ela, pois não eram aventuras suas.
Sempre atento, o lápis notou a mudança de atitude do soldadinho, que voltou a ficar imóvel como um pedaço de plástico rijo e foi em seu socorro.
— O que foi amiguinho?
— É que eu fiquei tão empolgado com as histórias que nem percebi que eram apenas invenções suas, que nunca vivi estas aventuras.
— Engano seu meu caro soldadinho, eu faço apenas rabiscos, são vocês que fazem as histórias. Vejo seus rostinhos alegres, seus olhinhos cintilantes e ali enxergo as mais espetaculares aventuras que se possa imaginar. As histórias são suas e tem muitas maneiras de viver uma aventura, uma delas é entrando nelas através das histórias.
A bailarina, por natureza mais sonhadora, entendeu logo o que o lápis estava tentando explicar ao soldadinho, de alguma forma ela já sabia que as histórias estavam todas em seus corações e falou:
— Então não vamos perder mais tempo, vamos contar uma linda história com muita magia, danças, aventuras e romance.
O soldadinho se reanimou e eles continuaram a brincar, dançar ao som das melodias desenhadas pelo lápis e a viver as mais espetaculares aventuras.
LM