Sunday, February 27, 2011

Verbo divino

Saiu da cama e foi direto pro banheiro. Urinou uns três litros, lavou as mãos e o rosto. Não escovou os dentes. Nunca escovava os dentes ao acordar: se já havia escovado antes de dormir e não comera nada durante a noite, não tinha motivos para escovar novamente. No máximo uma enxaguada rápida. Após se justificar para a pasta e escova de dentes, vestiu-se e saiu. Era o dia da entrevista. Precisava tomar uma xícara de café.
Uma firma de Curitiba estava recrutando vendedores para a região. Não exigiam experiência. Parecia bom. Já estava ficando complicado viver da pensão da mãe. Algo parecido com a consciência começava a pesar-lhe. Ainda mais agora, aos quarenta. E a mãe já estava um pouco acabada. Tinha de mudar, especialmente agora que a velha entrara para uma dessas igrejas evangélicas. Já não liberava mais tanta grana, principalmente para bebida. Mulher então, nem pensar. Ta certo que a cachacinha do boteco da esquina não era nada cara e com dez paus conseguia serviço completo com alguma puta gorda do centro.
O maior problema era ter de mentir todas as vezes. Não admitia ter de mentir sempre que fosse pedir mais dinheiro. Precisava arranjar um emprego.
— Fuma?
— Não. — Mentiu.
— Bebe?
— Só no sábado, e socialmente. — Mentiu novamente.
— Tem algum vício?
Pensou em responder a Igreja. Achou que era forçar demais.
— Costumava jogar um bingozinho no galpão da igreja.
— O senhor já teve alguma experiência com vendas?
— Nenhuma.
— Já leu a bíblia?
— Já li Nietzsche.
— Nós vendemos bíblias. O senhor acha que consegue vender bíblias?
— Por Cristo! Aquele filho da puta vai se arrepender de ter escrito tanta bobagem e por ter matado o Barbudo. Vou infestar esta cidade com os livros do Cara.
Descobriu que vender bíblias não era tão fácil assim. Após uma semana só conseguiu vender duas: uma pra mãe e outra trocou por três fódas com a puta gorda do centro.
Após três semanas sem vender mais nada, resolveu entregar as bíblias restantes e acertar as contas. Enquanto esperava o ônibus, na fila do terminal central, resolveu ler um pouco e como só tinha bíblias, achou que serviriam pra alguma coisa. Pegou uma e mandou ver, se empolgou e sem perceber lia em alta voz. Eclesiástico capítulo 3, versículos 33 ao 34 e capítulo 4 até o versículo 11. Quando terminou tinha um punhado de notas miúdas e moedas colocadas ao lado da bolsa de bíblias. Arrecadou vinte e oito reais. Comprou cerveja, uma cachaça da boa e procurou uma puta menos gorda. Devolveu as bíblias, menos uma.
Escolheu um ponto movimentado no terminal e agora lê, a todos os pulmões, um trecho do livro santo, semana após semana, sempre de terça à quinta-feira.

LM
Falar ao pai

O pai falava, quando muito, umas dez palavras por dia. Sempre austeras, de sem retrucamento e destinadas aos assuntos eleitos mais importantes. Não assentia tagarelices e cortava as falas, com olhar cheio de significações ou com um grunhido algo animalesco. Reinava a mudez, como se já tivessem falado tudo. Habitavam nos silêncios da casa, com as falas das sombras. Assim, no semi-silêncio as meninas cresceram, mais com as coisas, menos com as palavras— com quase nada de risos.
Viviam: o pai fazendo vezes da mãe, mal e mal, sem dar conta de ser ele mesmo, as meninas, fazendo-se de filhas. Na quietude da casa os mais insignificantes ruídos ganhavam cara de trovão: um estalar do madeirame, um assovio do vento, duas ou três rolinhas ciscando no telhado, o latido pro ar do cachorro e algum pensamentozinho que pudesse escapar das cabeças mais distraídas. Calhava que da rudeza do seu ensimesmamento, o pai também deixava transbordar um fiapo de pensar. Misto de lembrança com cisma; sentimento com atavismo; querer com dever. Seguia um profundo suspiro.
Quando em domingos cheios de sol, azuis como um cartão postal, o silêncio por pouco era superado por esboços de risos, aprovar o gostosume da galinha ensopada, polenta farta, repolho frito, radiche e uma tirinhas de torresmo frito, bem salgado, pra jogar sobre o prato cheio de não poder. Obrigados, passa a carne, mais polenta, um copo d’água, bater de talheres na louça, vento balançando o pé de limão no quintal, e o almoço ia. Elas limpavam tudo bem rapidinho e o pai, como todos os domingos, dormia. Nenhum piu, sussurros ou cochichos enquanto ele não acordava. Era o dia da felicidade, quando desconfiavam que amavam-se, sem saber de todo, sem expressar, sem falar. Do jeito duro para não perder o respeito das filhas, reverenciando o pai sem poder correr-lhe ao colo. Formal, rodeado de quases, mas quietos, amavam-se.
Anos e velhice avançaram e o homem sentiu todo o pesadume. A morte fez-se e o pai, querendo recuperar o tempo perdido, ou talvez sentindo apenas medo, quis conversar: “minhas filhas, falem comigo, sinto medo do mar de silêncio que está chegando, falem, mostrem sua voz.” Mas não sabiam o que falar, a não ser “sim, pai!”.

LM

Thursday, February 17, 2011

A adaga de Celan

Quem conheceu Roldo Bonadiman ou ouviu falar de seus feitos, jamais teve motivo para duvidar que suas palavras fossem um recorte bastante fiel da realidade. Foi preso pelos Camisas Negras, conseguiu fugir antes de ser executado, liderou inúmeros grupos armados de resistência pelos subúrbios de Roma e, em 28 de abril de 1945, ajudou a pendurar o Duce e sua amante no telhado de um posto de gasolina. Roldo podia ter inúmeros defeitos, mas mentiroso não era, muito menos lunático, o que fiquei sabendo tarde demais e, apesar da fama de aventureiro ─há quem o tenha classificado como mercenário─ ele era também um artista e mantinha intensa correspondência com muitos outros artistas e intelectuais, especialmente durante o pós-guerra. É uma hipótese plausível afirmar ter iniciado neste período sua amizade com Paul Celan e como não sei dizer ao certo como isto se deu, assumo tal hipótese como verdade. Minha convicção está no fato de Hans Bender ─provável elo entre os dois─ citar, em um artigo de 1959, um sarau onde se apresentariam Celan e Bonadiman. O certo é que os dois trataram de erigir uma sólida amizade, mesmo que algum observador distante pudesse objetar que tão aparentes diferenças de personalidades seriam incompatíveis em uma amizade duradoura.
Quanto a mim, conheci Roldo Bonadiman em 1995. Fomos apresentados na casa de minha mãe, durante um jantar dado por ela a um pequeno grupo de velhos amigos. Fiquei sabendo de sua influência na decisão de meu falecido pai, de migrar da Itália para o Brasil. Para mim isto bastou como apresentação e, como já estava há alguns meses sem ver mamãe, fiquei no jantar mais tempo do que minha paciência com aqueles velhos rituais de relembrar o passado poderia usualmente tolerar. Fiquei vagando entre conversas sobre a guerra, sobre cadáveres de parentes invocados pelas lembranças, por lombadas de livros da minha infância ─ainda na estante, como a me esperarem─ e por toneladas de um nostálgico sentimento de procura do tempo perdido. Pouco a pouco os convidados foram se retirando, até ficar apenas Bonadiman, que olhava através da janela para algum ponto entre a noite e a história. Mamãe dormitava no sofá. Ele pareceu ter percebido que eu o vigiava e antes mesmo de virar-se começou a falar.
─ Charles Trezinni, não é mesmo? Conheci seu pai, um homem com qualidades pouco vistas nos homens de hoje. Era uma das poucas pessoas que verdadeiramente seria capaz de morrer por alguém. ─ Pensei em formular algum tipo de resposta ou continuidade a sua fala, mas antes de eu abrir a boca ele continuou. ─ Ele sempre dizia que era muito fácil sair por aí falando que morreria por fulano, ou por beltrano, pois o sujeito, lá no fundo, sabia que ninguém viria tomar-lhe a vida para cobrar tal afirmação, mesmo quando diante de algum enfermo, se fala que queria estar padecendo no lugar daquela pessoa, mas sabe-se que Deus, ocupado demais com suas tramas inacabadas, não virá fazer cumprir tal desejo.
─ Do que sei, ao contrário de mamãe, ele era um ateu convicto. Lembro pouco dele, mas não esqueço das broncas que ele dava em mamãe enquanto ela me ensinava a rezar.
─ Era o tipo de ateu que falava com Deus, falava de Deus, mesmo que fosse para amaldiçoá-lo.
Após este breve diálogo calamo-nos por alguns minutos. Fez-se um silêncio opressivo, podíamos escutar a respiração sonolenta de mamãe e cada tic e cada tac do relógio de parede parecia levar bem mais do que um segundo para vibrar na semi-escuridão. O relógio começou a armar seu mecanismo para soar um quarto de hora qualquer e poderia jurar que havia produzido o mesmo som de alguma máquina medieval de tortura, enclausurada no mais frio porão da Inquisição. Exagero ou não, aqueles minutos pareceram horas e não sei por qual motivo, senti, naquele momento, que poderia matá-lo ali mesmo, talvez até devesse fazê-lo.
─ Ângelo Trezinni teria lido aquelas palavras, mas eu não tive coragem. Nunca tive medo de morrer, mas o que Celan me pediu estava além de minhas forças. Ele me escreveu em abril de 70 e pedia que fosse vê-lo urgentemente em Paris. Já andava apresentando sintomas depressivos e não tardei em pegar o primeiro trem. Em Paris nos encontramos no Jardin des Plants, próximo da Pont d’Austerlitz, ele estava cadavérico, com olhar distante, sua aparência pouco lembrava o poeta que havia conhecido anos antes. Nos abraçamos longamente e pude sentir que ele estava gelado. Começamos a conversar e a caminhar em direção à ponte.
─Meu velho amigo Roldo Bonadiman, como é bom vê-lo, tocá-lo, sentir seu cheiro ouvir sua voz.
─ Também estou muito feliz por revê-lo, mas o que o aflige?
─ Descobri... a arte, descobri o poema que não existe... nem podia existir, o poema absoluto. Nada me aflige mais do que a vida, nada me aflige meu amigo. Encontrei a mim mesmo e agora nada mais há, devo espiar minha culpa, a culpa por trazer à tona algo que não cabe aos humanos a menos que se homenageie o absurdo, ou, se cabe, que seja em um plano diferente e note que não falo plano superior, senão, apenas, diferente, que seja entre rochedos e campinas, onde poderei tornar-me uma cabeça de Medusa e congelar toda imagem pura e transformar toda palavra em uma imagem e toda imagem em uma palavra e onde nem Mallarmé sonhou, transfigurar toda arte, toda emoção em um poema. Eu desvendei este poema absoluto. Não... nada me aflige, pelo contrário, sinto apenas sede. Não! Apenas sinto o mundo, suas belezas e também suas guerras. Ouço o amor dos apaixonados, ouço também o desferir de cada golpe mortal das batalhas.
─ Estás falando muito rápido, não estou conseguindo acompanhar tuas idéias, mas sinto tua emoção e isto me alegra e me assusta, quero ajudá-lo, mas não sei posso, nem sei se você precisa de minha ajuda. Diga-me, meu amigo, o que posso fazer, pelo menos para dividir contigo o peso de tua, podemos chamar, descoberta?
─ Apenas leia o que está escrito nesta folha, não é mais do que uma linha, não tem nenhuma palavra que tu não conheças, tampouco está em uma língua estranha, mas nela está contida toda a Beleza. Meu tempo acabou, ousei a cometer o pecado desvendar um mistério vedado aos homens.
Estávamos sobre a Pont d’Austerlitz, peguei a folha, dobrada ao meio, era muito gasta, exalava cheiro de bolor e suor. Aquela folha pesou em minha mão como nada antes em minha vida, senti todo o peso de definições que nunca antes imaginei conseguir postular, senti o peso de todas as páginas em branco oprimindo o poeta e tremi. Não tive coragem de desdobrá-la, muito menos de profanar aquilo que ali estava escrito, mas sabia que segurava algo grandioso, mais grandioso do que jamais ousarei a me imaginar. Ele apenas olhou-me, nada disse e atirou-se nas águas do Sena. Nada fiz para impedi-lo e senti que nada deveria fazer. Coloquei a folha no bolso e saí dali sem ter rumo certo, modificado para sempre. Sabia que jamais teria coragem suficiente para tentar ler aquelas palavras. Em junho daquele ano conheci um escritor uruguaio cujo nome me escapa, mas lembro de estarmos em um café em Paris conversando sobre algo que poderia ser o poema latino na história da Morte, ou sobre os preparativos para a Copa do Mundo de futebol, quando ele avistou um seu amigo. Era Borges, acompanhado por outro senhor, a servir-lhe de guia. Sentaram-se conosco para tomar um café. Senti que se havia alguém com quem eu pudesse dividir o fardo que Paul me havia entregue, era com o argentino. Falei-lhe de minha amizade com Celan e como o vira morrer, óbvio que mostrou-se enfadado com aquela conversa desconexa, mas quando entreguei-lhe a folha, quis saber do que se tratava. Expliquei da maneira mais breve e direta que pude. Borges segurou a folha por alguns minutos e ficamos os quatro calados, esperando por um gesto seu. Perguntou-me se eu era capaz de ler para ele. Me amaldiçoei por ter encontrado alguém com coragem para desvendar aquele segredo, mas que não podia enxergar, senti toda a humilhação do mundo e nada pude falar. Ainda em silêncio devolveu-me a folha, levantou-se e antes de sair disse: “O dia que estiver preparado me procure, venha a sós. Nada tenho a perder, apenas espero a morte chegar, não a temo, mas não consigo antecipá-la. Não vejo e se ousar escutar o poema, talvez eu comece a vagar pela Argentina, como um mendigo e isto me basta, mantive-me conservador por muito tempo.”
Lembrei-me do conto O espelho e a máscara e duvidei de Roldo, qualquer um poderia ter lido a história e inventado aquilo. Ele me pareceu uma espécie de Forrest Gump italiano e, ainda sentindo a necessidade de matá-lo, intimei-o.
─ Tem a folha?
─ Sim.
─ Dê-me a.
─ Jovem, o que entende de arte, de beleza, de poesia?
─ Não vou fazer uma explanação de meus conhecimentos acerca da filosofia da arte, tampouco de um termo tão difuso quanto a beleza. Muitos e mais bem conceituados filósofos já discorreram sobre estes temas e apenas limito-me a encarar a arte como algo que só cabe em sua definição quando acompanhado por uma adjetivação tal que só possa ser empregada para ela e quanto ao belo, repudio tudo aquilo que é considerado belo pelos esnobes do mundo da arte. E a poesia, apenas sinto-a, ou não vale a pena.
Roldo Bonadiman não falou mais e como estivesse participando de um ritual, retirou solenemente a carteira do bolso do paletó e sacou uma folha muito velha e gasta. Entregou-me com reverência, foi até mamãe, abaixou-se para beijá-la. Ela despertou, se despediram e voltou a dormir. Não lembro se Roldo saiu da casa ou simplesmente desapareceu. Fiquei na sala, imóvel, até o amanhecer. Os primeiros raios de sol como que me resgataram de um estado de torpor e aproveitei as primeiras luzes do dia para desdobrar aquele pedaço de papel. Olhei e, como na história de Roldo, não havia mais do que uma única linha. Li e penso ter tentado pronunciar as palavras, mas senti-me abatido demais para poder abrir a boca e senti que estaria blasfemando violentamente se fizesse vibrar no ar o som daquele poema. Pensei em rezar, mas já havia esquecido todas as preces e já havia esquecido Deus, lembrei apenas de uma passagem na Bíblia onde ele fala a Moisés: “Não me poderá ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá.... tu me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.” Se Deus existisse, eu tinha acabado de ver sua face, mas como ele não se pronunciou, pensei ter descoberto o sentido da vida. Nada fazia sentido. Julguei que o melhor a fazer era sair e jogar-me sob as rodas de um trem no primeiro trilho que encontrasse.
Escrevi estas minhas últimas palavras e deixei a casa. De minha boca nenhum som sairá enquanto permanecer nesta vida, mais nenhuma palavra ou imagem será desenhada por minhas mãos e ninguém verá este papel que trago desde Celan, Bonadiman, Borges e quantos outros ignoro, conquanto não possa destruí-lo. Se encontrar meio de por fim à minha existência, farei, se faltar-me forças é porque devo expiar minha culpa e vagar pelo mundo e se a loucura se apossar de minha mente, tomarei por um elogio da providência.

LM – 17/2/11
ANO NOVO
por Paulo Horn

Olhando no espelho depois de lavar o rosto pela manhã, Silvia enraiveceu com as marcas de olheira esculpidas em sua face que não estavam aí no ano passado. Às sete horas da manhã Dona Marta levanta-se e, pegando um copo de café recém coado pelo filho, vai para a janela da sala de estar e escondida atrás da fina cortina vigia a rotina da rua Plínio de Camaro. Ao voltar para casa após o ano novo, Marcos encontrou um sabiá morto na escada do segundo andar. Mariana esperara até a noite para desligar o telefone celular depois de ter passado o dia inteiro aguardando uma chamada de seu ex-namorado. O ex-namorado de Mariana passara o dia no trânsito engarrafado de volta para casa e pensava na mala por fazer para a viagem de amanhã, quando teria de passar na lavanderia e pegar as roupas deixadas depois do natal e correr para o aeroporto, torcendo para que o tráfego aéreo estivesse mais tranqüilo do que o de volta do fim de ano. O sol dentro da rua deixava os carros na rodovia com o motor fervendo e a fila pela marginal atravessava as muitas praias do litoral. Vivinho vendia laranjas para os motoristas enfadados enquanto sua irmã, a poucos metros oferecia balas e chicletes. O calor embaçara o primeiro dia do ano.
Na rua Plíno de Camaro as crianças corriam mais rápido nesta época. Normalmente deserta durante o tempo de escola, onde todos tinham vários cursos e os adultos pareciam ainda mais atarefados e estafados, a rua ganhava uma nova energia com o período de férias e com as visitas de parentes para as festas de fim de ano. Sueli veio passar o natal na casa da avó e descobriu que gostava de gatos, mas não podia chegar muito perto por que além da alergia que também agora descobrira, os bichos da vó haviam acabado de ter filhotes e não se deve perturbar os recém nascidos por pelo menos três semanas. Na parte de trás da casa da vó de Sueli morava Valéria, garota de vinte e poucos anos que veio para a cidade para estudar e, com as despesas de livros e o salário baixo de atendente em um salão de beleza próximo, alugou um quarto com banheiro na casa da viúva, que ficou feliz de ter alguém por perto para não ter que jogar fora o café, uma vez que nunca soube fazer pouco. Sueli ficou encantada com Valéria e toda vez que dava meio dia saia em disparada para frente de casa para receber a moça e perguntar se podia ir com ela ao salão, ver as cores malucas que dava para criar misturando esmaltes.
Marcos pegou com um saco plástico o pássaro morto na escada e o fedor putrefato do bicho lhe deu náuseas. A casa ficara trancada por uma semana e o cheiro concetrara na escada. Abriu as janelas e pegou um esfregão na lavanderia, passando muita água sanitária para tirar o cheiro de morte da escada. Poucas horas dali sua irmã traria o gato para passar uns tempos na casa já que o bicho não havia se acostumado com a sacada do apartamento, tendo pulado do primeiro andar e quebrado um dente numa perigosa aterrissagem de cara, comprovando para os transeuntes que nem todos os gatos caem de pé. Com o gato de dente quebrado no colo sua irmã tentou convencê-lo de que ele ficaria melhor em uma casa com quintal e ganhou o argumento com a interferência da ex-namorada de Marcos que achou o bicho fofinho. O gato era uma bola de pêlo gorda e preta, com um tamanho desproporcional e temperamento levemente suicida. O saco com o pássaro morto levou para fora, junto com outros sacos de lixo para que o caminhão levasse durante a noite. Botou junto com os orgânicos.
Juliana começou a ler Ulisses quando tinha dezenove anos. Mais um ano se passou e ela não saiu da página 134, a mesma de quatro anos atrás, quando exausta com seus olhos e confusa com a mistura de suas idéias e com a confusa mente por trás do livro, deixou-o com uma fita verde marcando a leitura numa estante de seu quarto e pegou uns dias de folga das leituras. Agora, na limpeza anual de papéis e na organização da estante, vendo o livro imóvel no mesmo lugar teve certeza de que nunca terminaria este livro. Sérgio recebera um vale-livro de presente de sua esposa no natal e tinha muitas dúvidas. Primeiro perguntava-se se um vale livro não era uma constatação de que mesmo casados ha tanto tempo ela não sabia nada sobre seus gostos. Ou então poderia ser um caso de desapego depois de tanto tempo de casado, de não agüentar mais ele a ponto de não dispensar esforços nem para escolher um título qualquer. E mais, o que compraria?
Mariana não desceu para o jantar e só quando teve certeza que todos já haviam se recolhido aos seus quartos foi buscar algo para matar a fome que acompanhou sua frustração no primeiro dia do ano. Depois do encontro na praia, na véspera do ano novo teve certeza que tudo poderia voltar a ser como há tempos não era. Simples. Sorriria com gosto pelos momentos vindouros, mas isso foi antes do ano novo. Não recebera nenhuma ligação desde a virada do ano. Um pedaço de torrada e um copo de água mineral com gás depois e a fome também havia lhe deixado sozinha com milhares de idéias. Nenhuma boa. Pegou o celular e mandou uma mensagem de feliz ano novo para sua tia, pois ela nada tinha culpa das expectativas frustradas que vieram com o dia primeiro. Puxou da gaveta um bloco de papel canson e uns quantos giz de cera. Desenhou o ano novo em um azul escuro como o mar na noite. Molhou um pouco as cores e passou o dedo, amassando o giz contra o papel. A tinta ficara impregnada no dedo e, passando nas bochechas como uma pintura de guerra, preparou-se para mais um tempo de batalhas. Armar-se-ia contra o ano, talvez amanhã.
Dona Marta cozinhou arroz e feijão e um pedaço de carne em uma panela de pressão. Seu filho não viria para o almoço, mas a comida feita ficaria para a janta. Assistiu à reprise dos especiais de fim de ano e depois a novela da tarde. Preferia a movimentação pela manhã, quando os carteiros faziam entregas e as crianças corriam pela rua em bando. Gostava de ver os jovens, aqueles que há dias eram crianças, hoje tentando se comportar como adultos, andando de mãos dadas; gostava de ver as indiscrições, as brigas de casais, gostava de ver a vida dos outros pela janela. Tinha um único outro grande amor: um pé de carambola que sua avó havia plantado naquele terreno quase oitenta anos antes. Durante um tempo Dona Marta ficou preocupada com o ataque das crianças ao pé na época de fruta e comprou um cachorro grande, destes policiais para tomar conta do terreno. Comprou do filho de Dona Eulália que era veterinário e trabalhava em um Pet Shop no centro. No quarto mês deu o bicho para uma irmã que morava no sitio, depois de ver várias vezes o cachorro mijar no pé de carambola.
O gato da irmã de Marcos não saia mais da escada e isso preocupava o rapaz. Era sinal de que o pássaro morto ainda não havia saído de sua casa, e o gato sentia isso. No lugar onde achou a carcaça do sabiá ficara uma leve mancha e toda vez que Marcos tocava o gato da escada via de relance uma forma de bico de pássaro que cantava com a corrida do bicho. Silvia passou mais maquiagem do que de costume e saiu apressada para o ponto de ônibus. Se perdesse o das 7 horas chegaria atrasada no primeiro dia de trabalho do ano e começar com o pé esquerdo era prenúncio de maus ventos para um ano que tinha começado já mofando. Esquecera das rugas, criando mais e mais com as preocupações do dia a dia. Na escada da casa de Marcos o gato dormia sob a sombra de uma samambaia pendurada por sua ex-namorada alguns meses antes. Dentro do vaso o rapaz encontrou o que foi o ninho do pássaro morto, ainda com um pedaço da casca de ovo de onde ele surgiu. Pelo vão do telhado volta e meia entrava algum pássaro e Marcos agora considerava colocar um forro para que não houvesse mais ninhos nem bichos mortos quando chegasse a casa.
O ex-namorado de Mariana estava no convés do navio tomando cerveja esperando pela saída do cruzeiro. Meses atrás seus pais haviam decidido não alugar uma casa na praia como de costume e ao invés disso economizaram uma quantia para levar os filhos em um cruzeiro de sete dias pela costa brasileira. Dali, Mariana era a areia da praia já longe e ele se sentia como a maré que sempre voltava até ela, mas não tinha desejo de ficar. Dividindo o quarto com sua irmã, passou os primeiros dois dias navegando sem nenhuma parada. Durante o dia passeou pelo navio, entrando em alguns restaurantes para pegar bebida. Almoçou perto da piscina junto com os pais e as irmãs, mas não gostou de ver aquele monte de gente de molho desde a manhã. Fazia tempo que não via areia e não havia sinal de telefone para ligar para Mariana. Talvez melhor. Perdeu trinta reais no cassino aquela noite. Juliana já começava a encaixotar suas coisas para a mudança. Sua colega de apartamento havia terminado a faculdade e agora sozinha já não podia bancar o aluguel. Depois de conversar com três pessoas, decidiu que era melhor alugar uma quitinete perto da faculdade para não correr o risco de ter que morar com alguém tão cheio de manias como ela mesma. Tinha dividido suas coisas em quatro grupos fundamentais. Primeiro encaixotou todas as roupas e acessórios que tinha, deixando uma pequena bolsa preparada perto do colchão com as roupas que usaria nos próximos dois dias (uma calça jeans desbotada e uma camiseta roxa com a estampa florida para o primeiro dia e um vestido listrado preto e amarelo para o segundo). A segunda coisa que encaixotou foram os dois aparelhos de som que tinha (uma maletinha bege que aberta virava uma vitrola já com amplificador que havia ganhado quando fez nove anos de sua mãe e um aparelho de cd comprado com o dinheiro de uma série de correções de monografias que atrasou em um ano a sua própria formatura). Depois vieram os utensílios domésticos, como panelas e partos, talheres copos, vasos e amontoado ao meio (pois uma nova categoria não se sustentaria sozinha dentro de uma caixa) os poucos quadros e pôsteres que tinha como decoração. Pro fim vieram os livros, organizados através de sua nomenclatura definida pelas normas técnicas. Deixara de fora da caixa apenas o Ulisses e à noite encarava a edição às escuras.
Sérgio perdeu o prazo para trocar o vale-livro, mas o manteve guardado dentro de sua carteira do mesmo jeito que manteve a dúvida em sua cabeça pelos meses seguintes. Valéria tingiu o cabelo de vermelho por meia hora e depois se arrependeu. Teve que esperar uma semana insatisfeita até que o movimento no salão diminuísse para voltar à cor anterior. Sueli queria pintar seu cabelo também, mas a vó não deixou. Imagine a neta chegando na casa da filha com o cabelo vermelho como um pica-pau. Mas Sueli sonhava que tinha o cabelo vermelho como o fogo, assim como Valéria e as duas saiam de mãos dadas pelo céu, substituindo o sol e trazendo o amanhecer. A mãe de Sueli aparecia todo fim de semana para ver a filha e descansar da correria de começo de ano. Trabalhava em uma panificadora e tinha os braços cansados de amassar pão todo dia. Sentava-se sempre numa poltrona antiga na casa da mãe, uma com braços acolchoados bem em frente à janela e dali por várias vezes observou a mãe a observar a rua. De vez em quando se sentava à sombra do pé de carambola para ver a filha correndo pela rua com as outras crianças e recordava que quando criança morria de vontade de brincar naquela árvore, botar um balanço ou simplesmente subir em seus galhos para lá de cima ver melhor os pássaros baterem as asas, mas pela obsessão da mãe nunca pode chegar perto do pé. Uma vez, quando mal havia aprendido a andar de bicicleta e suas pernas ainda não tinham firmeza no pedalar, perdeu o controle em uma pedrinha e foi bater de frente na árvore. Ficou três dias de castigo, sem brincar com as outras crianças, lavando a louça e estudando matemática na sala onde a mãe podia vigiar. Vingou-se comendo escondida as carambolas que caíram na batida.
Tudo parecia diferente neste começo de ano, exatamente como pareceu diferente no começo do ano anterior e do outro ainda. A Rua Plínio de Camaro aos poucos foi retornando à morosidade com a chegada de fevereiro. Todos corriam com seus medos e lembranças e com a espera de que o ano ainda poderia melhorar ou ainda voltar a ser o que era. Todos sentiam saudade, vontade, desejo de algo e corriam tentando descobrir do que. Todos se escondiam um pouco mais atrás de livros e sorrisos; da velocidade do dia que reclamavam uns para os outros, mas que a noite deitados em suas camas com a preocupação que vem do silencio, davam graças a deus pelo tempo que não falha. Apenas o gato da irmã de Marcos continuava deitado na escada onde o pássaro do ano novo pousou. Era um bom ano para descansar.

Thursday, February 10, 2011

Meu amigo, o Batman

Não gosto de botecos, muito menos daqueles com chão sujo e não fosse pelo preço da cerveja, jamais os freqüentaria. É o ponto de partida da noite e o de regresso pela manhã de toda sorte de seres: bichas, lésbicas, putas, estudantes pequenos burgueses querendo dar uma de descolados, poetas, funcionários públicos do décimo escalão e super heróis. Até gosto de presenças tão ecléticas, mas tenho especial antipatia por super heróis. Sempre tem um disposto a vir na direção da gente com as mais inconvenientes propostas. O último foi o Batman, com máscara, capa preta, cinto de utilidades e tudo.
Como já disse, o preço da cerveja motivou minha escolha e a mesa do fundo dava um certo isolamento, tão essencial ao ato de escrever a respeito da condição humana e suas angústias. Trabalhava seriamente com a discrição devida aos gênios em ação, amparado pela garrafa e entrincheirado na mesa. Qualquer um com bom senso suficiente teria percebido a gravidade do momento e ter-se-ia posto distante e era exatamente isto o que eu mais queria. Minhas precauções foram inúteis, mas perdoei a primeira interrupção por tratar-se de meu velho amigo Werner: um importantíssimo militar, preterido nas promoções por uma grande conspiração política e que por isso ainda ostenta a divisa de soldado. Meu amigo soldado, sempre foi um bom companheiro de copo e até não é mau sujeito, mas está sempre de taciturno e preocupado com a possível presença dos seus perseguidores. Ocultos sob a despretensão de uma mesa de bar, já tratamos dos mais importantes assuntos do país naquele boteco. De nossas conversas já saíram até planos, perfeitamente factíveis, de derrubar o governo e instaurar o mais puro comunismo, além de outros, menos importantes, como criar um site que divulgaria documentos secretos do governo estadunidense.
Na noite em questão, estávamos traçando os rumos da América Latina, tão cara às nossas preocupações quando o Batman nos interrompeu. A julgar pelo heróico entusiasmo, poderia afirmar que estava embriagado, mas depois de descobrir sua identidade, percebi que qualquer estado de espírito era possível ao mascarado.
— Eu te conheço! Eu te conheço! — Veio até nossa mesa exclamando e apontando para mim
— Eu também te conheço, você é o Batman.
— Tu é o Trezinni, da garagem, eu sou o Oliveira, filho do Oliveira.
Fui atingido pelo olhar de reprovação reprovação, pois estávamos salvando o governo da Bolívia de um golpe urdido por Washington.
— Aaahhh! O Oliveira, filho do Oliveira. Logo te reconheci.
— Esse cara é meu amigo. — O Batman apontava para mim enquanto segurava o braço de Werner. — Nós aprontamos poucas e boas no exército, ele também era amigo do meu pai.
— É, eu era.
— Mas amigão, eu tenho que ir. Você viu minha foto no jornal? Fui eu quem paralisou a sessão da Câmara ontem, antes de ser levado pela polícia, mas eles não vão me impedir assim, eu tenho um plano.
E pelo brilho no olhar, perceptível por trás da máscara, era de se supor que ele tinha mesmo um plano grandioso. Ou tava chapado. Pobre alma, ingênuo sonhador, imaginando que sua fantasiosa intervenção pudesse promover qualquer mudança no cenário da cidade. No máximo conseguiu chamar a atenção de uma imprensa faminta por factóides, paralisar a sessão da Câmara por uns minutos e rivalizar em comicidade com o festival de palhaçadas promovidas por nossos políticos.
— Agora que eu sei que tu tens amigos importantes na Liga da Justiça, nossa tarefa de implantar uma sociedade alternativa pode ficar mais fácil. — Ironizou meu amigo.
Amigos na Liga da Justiça. Ele continuou por um bom quarto de horas a me troçar, insinuando que talvez eu também tivesse uma identidade secreta, o Super-Homem, ou quem sabe o Robin, talvez o Lanterna Verde.
Sobre meu sonhador amigo super herói não ouvi falar mais nada, a não ser que estava trabalhando em uma loja do centro, anunciando as promoções, sempre mascarado. Não sei se isto faz parte do plano ou se fez um acordo com seus inimigos. Enquanto isto eu e meu amigo soldado, verdadeiros revolucionários, continuamos debruçados sobre a mesa do fundo, em nosso QG provisório: estamos arquitetando um plano para re-estatizar a Vale do Rio Doce e explodir o Cristo Redentor.

Sunday, February 06, 2011

Terminal

Anunciaram, de pronto, sem mesuras de julgamento, minha execução: senti todo o alívio possível de ser sentido. Imaginava-me jovem, pouco mais que um terço de vida, mas, herança dos suicidas da família, obsedava-me não, obcecava-me a morte, o milagre da morte, minha única e mais cara certeza. Da origem, trago apenas lembranças vagas: um irmão pendurado pelo pescoço, um tio botando cicuta nas tripas, a mãe se atirando da ponte e alguns nomes de lugares. Lembro de alguém ter mencionado Londres; outros, jurando intimidade, afirmavam jamaicano. Sem o timbre do Estado no papel, poderia ser de qualquer lugar: já fui de Bonn, Paissandu, Buffalo, Dublin, nomes de cidades, agora, invisíveis.
Também incerto era meu nome. Já fui Jonh, Alfredo, Etcheverria, Ernest, Haward, Te-Hoba, Rigel. Qualquer um poderia pôr-me em conta de louco, qualquer um, bastava trazer os bons costumes no bolso e encontraria um pervertido adorador da morte, profanador de cadáveres. Soube-me homem, no amor inumano, demasiado humano, sem espírito, com alma. De frieza austera, mas sem a pecha da reprovação; a mais autentica combinação de cores, partindo do arroxeado nos lábios à pureza da palidez; minha total liberdade para o amor eterno das carnes, enquanto não se consumiam pelos vermes, eis as lembranças dos meus vícios-amores e a causa da minha condenação, libertação. Possuí, virulento de paixão, muitos corpos, com fúria, tesão, mas o amor destinei a apenas uma, indesejada das gentes que não conhecem sua verdadeira face.
Eram soldados, havia patentes, ouvia ordens para os preparativos e descobri fuzilamento. Não pensei e, se para ter o que falar, ou gabolice, creio, ter gritado, com contenção calculada, medindo as palavras: minha irmã virá me buscar. Arrependi-me. Ela viria de qualquer maneira, naquele muro, daqui a dez anos, pela fome, por vícios, pestes, susto, mas viria e senti como se estivesse blasfemando. Não me bastava o amor? Tinha de tripudiar sobre os cadáveres respirante daqueles amedrontados? Mudei minha fala, vibrando, então, minha boca completa de dentes, com toda a voz reprimida em anos de representação, e ordenei um executem-me logo. Trago gosto, alívio e, do feito, alegria, para parecer heróico.
Olhei, como me ensinaram e nunca tive vontade, fixamente, nos dezesseis olhos por trás dos fuzis e percorri matizes desconhecidos, repletos de novidades, matizes de azul, castanho, negro e, apesar do descobrimento, da contemplação do que poderia ser a outra face da minha amada, não consegui enxergar-me naqueles pequenos lagos salgados. Tentei aos bocaditos, um pouco, um fiapo, em cada um; pontos dispersos, sem um inteiro, fragmentos. Faltava imagem, busquei palavra, um nome familiar, uma carta, um bilhete deixado no vagão do trem, e eu também não estava lá. Tinha apenas, melhor, a segurança da morte, momento aziago, veio um calafrio, arrepio de delírio e fraqueza, que se fez insistente quando sumiu o chão da minha certeza: tinha ciência da morte, mas, assentara, cruel, a dúvida: e da finitude?
A voz do comandante do pelotão, naquele instante, passou para o campo das abstrações: era apenas um leve brisa açoitando, com delicadeza imprópria, arbustos semi-secos, prestes a se desfolharem no outono. Perdi a capacidade de compreender a fala dos homens, também a minha. Existiam apenas as coisas, privadas de nomenclaturas. Tentei ordenar rapidez na minha execução, talvez tenha dito isto mesmo, ou balbuciado, quase. Não eram mais palavras, eram, antes, pedaços de ar carregados com sombras, mãos, suores, pedras, vindas de um jardim ancestral, anterior aos caminhos possíveis e antes de serem sombras, mãos, suores ou pedras. Pensei em rezar, para quem? Extinguiram-se as palavras e já não mais sabia do amor, da fé, de lembranças, infinito, finitude, dúvida.
texto de Paulo Horn

MODELO PARA AMAR

Encontrei no sofá tudo aquilo que perdi em você.
Poemas estúpidos à noite,
rugindo pela tevê
o som que me afasta aos poucos,
tudo vai sumindo
entre goles de vodca com suco de manga

e o sol bem no alto de um domingo qualquer, comigo pensando em você descendo o seu prédio e eu do outro lado da rua, não sei se você me viu e se me viu não sei se não quis me olhar ou se pensou ser melhor não me olhar e falar com outras pessoas, sair pelos ladrilhos da calçada caminhando sem se virar para trás. Mas eu sentado aqui, no canto do bar percebi que fumar já não me ajudava e que no dia seguinte eu teria a certeza de que cigarros de menta não têm o mesmo gosto quando não vem da tua boca. Mesmo assim eu trago e bebo, bebo e penso e lembro; lembro que você estava aqui discutindo sobre tudo, sobre arte, sobre música, sobre deus e sobre eu e você e minha barba e seus óculos e sobre o tamanho dos teus peitos e a cor da minha lente de contato. Tudo já estava ali, neste mesmo lugar, no canto da mesa do bar com a cerveja e as páginas do jornal amareladas que eu não tinha vontade de ler, mas que por alguma razão pareciam sempre puxar meus olhos e estava bem grande ali escrito catástrofe e eu pensava sim, é isso mesmo, tudo vai desabando, encharcando e as paginas virando com o vento e sempre a catástrofe aparecendo, e eu pedi o cardápio para ver se outras palavras apareciam e encobriam a idéia fixa de você.
Decidi que deveria começar a mudar meus hábitos, ou então deveria contornar o tempo, o que fosse mais fácil. Vamos ver, se eu voltasse no tempo ao momento em que te vi entrando pela porta do bar e sentando no balcão ao lado dos bebuns habituais, eu deveria ter me embriagado ainda mais para não te perceber, ou talvez eu devesse ter sido direto, levantado e ido falar com você, deixado você perceber que na verdade eu estava bêbado e que quanto mais eu bebo mais confiante eu fico, mesmo que eu saiba que depois de uma rejeição sua eu ficaria muito triste e talvez eu nem voltasse para minha mesa e agora me lembrei que estavam todos lá, o velho, o novo, aqueles que são eu e os que eu não conheço, e o cardápio eu sei de cor, mas mesmo assim não consigo decidir se tomo uma cerveja ou peço um café. Já bate as seis e daqui a pouco chega o velho e o novo, os que são eu e os que eu não conheço e eu ainda não decidi o que tomar, se vou comer, se vou ficar, se quero fumar e se quero o sabor de menta dos teus beijos nos beijos de qualquer uma.

Percebi que era um modelo para amar quando estava bêbado.

Mas assim, ao cair da tarde eu já penso que deveria pegar um animalzinho para me fazer companhia nestas horas tristes, neste sofá caseiro. Sim é isso, vou buscar um gato que é um bicho triste, um gato velho de preferência que não goste de meninices, de correrias, de bolinhas de papéis nem de solas de sapato e que fique deitado ronronando enquanto eu tomo vodka com o suco que tiver na geladeira. Pois bem, me visto rápido e saio, penso, mas será que devo pegar mesmo um gato que é um bicho que muito se assemelha à mulher, que é esquivo e curvo e fino e forte e mentiroso e fruído e franco e que pode esfregar a cabeça na minha mão sem ao menos gostar de mim. Talvez seja melhor eu não pegar bicho nenhum e não compartilhar o meu sofá, nem minha solidão nem minha tristeza, nem muita embriaguez nem esperança. Mas sei que sou ingênuo, sou um modelo para amar e por isso sei que mesmo que não queira gato nenhum vou atrás de uma mulher para cuidar de mim, mesmo que no final ela apenas me afunde depois de breves momentos de beleza. Sim, talvez seja essa a sina de ser um modelo para amar, ficar dependurado em molduras, galerias, telas de computador, esmaltes de unha, camisetas de garotas, carteiras, tênis, livros, lábios, lustres, listras, passos, poças, postes, cruzes, cristos, cistos, sapos, sacos, simples, sacos, velas, bolos, bolsas, beijos, beijos, beijos.
Talvez este modelo para amar deva, seja... eu.

Eu vi um cone quando sai de casa. Vi também um pássaro, um carro, um ponto, uma nuvem, uma volta, uma coisa, um coiso, um caso, mas nada de um modelo para mim. Meu modelo percorria o infinito das coisas escondidas e bebidas. O velho me ligou dizendo que ia para o bar e que também iriam o novo e aqueles que eu não conheço e eu perguntei daqueles que são eu, mas ele não soube me responder, disse que não falava comigo e com eles desde sábado e eu disse que sábado foi ontem, mas não, sábado foi sábado e hoje o velho está mais velho, o novo não está mais novo e todos que eu não conheço eu conheço um pouco e aqueles que são eu mesmo sumidos continuam sendo eu. Sentei no meu canto, com o velho e outro velho, pedi minha cerveja e fiquei ali escutando as peripécias da vida de aposentado dos velhos e pensando nas peripécias da vida de velho dos jovens que também sou eu, sentados em bares, tomando cervejas, comendo bolinhos, fugindo do sol, olhando as nuvens, fumando cigarros, lendo romances, perdendo romances, lembrando romances, romanceando lembranças com o coração partido na ponta da vista. Na ponta do peito percebi que a vida dos velhos era quase como a vida daqueles que são eu e a minha, só que eles dispõe do tempo como arrogância, como pressuposto para soltar um eu já te avisei, eu sei por que já vivi, mesmo que seja apenas para garantir a última palavra, um ar de sobriedade que pode-se perceber ser uma mentira olhando fundo nos olhos dos velhos, por entre as rugas e vendo fundo, longe, mas intacto o coração partido de toda a juventude do mundo.
Um modelo para amar não deveria passar tanto tempo sozinho numa mesa de bar, numa cama, num sofá, numa praia, numa pedra, numa cama, numa cama, numa sorte, numa tarde, numa cinza, numa, numa, numa. Acendi um cigarro e para a felicidade do velho e do velho apaguei antes de chegar na metade, pois acho que meu corpo não agüenta mais, meu estômago se revira aos avessos e eu tomo um gole por cima pra tirar o gosto, mas nada dele sair, nada do cigarro contorcido no cinzeiro virar cinzas, do dia acinzentar e cair a chuva para refrescar e me fazer deitar no sofá de casa, assistindo tevê sem me importar com canal; com bananas amassadas e picadas e batidas no liquidificador com vodka, leite e suco de manga, com bebedeiras, brigas, braços, abraços, com falta, com fita, flauta, fórmulas para completar o modelo que sou eu. Mas eu não estou no sofá e sim no canto do bar, com o velho e o velho e o novo recém chegado, com aqueles que não conheço e sentindo falta daqueles que são eu. É bom lembrar ou explicar que aqueles que são eu também se mostram como modelos para amar, cada um ao seu modo, mas indiscerníveis como grupo. A ubiqüidade com que se dão os movimentos e pensamentos e anseios e desejos e fomentos até famintos cairmos pelos dias, pelas valas, pelos ventos, pelo tempo, pelos tapas, pelas taras define nossa condição de modelos para amar sem amor nos contentos, sem contento nos caminhos, sem caminho, sem carinho, sem calmante, sem corante, sem cor, como uma pintura descascada na casa do coração.
Pois bem! Cansado como estou decidi ficar no bar, pois mesmo em casa me manteria maquinando formas de auto-sabotagem que me conduziriam ao infinito de coisas escondidas e bebidas, de modelos para amar próximos que não aceitam que talvez eu seja o modelo para amar perfeito para combinar com ela e montar um par nas calçadas do acaso confuso; talvez eu deva, eu seja e você saiba e seja e deva dizer que não devemos ser modelos um do outro, e assim saímos tangenciando a própria tangente do destino, do acaso e dos casos que não casam, dos amores não amados e dos amados não amores. Gostaria agora de ter um pouco de menta nos meus lábios. Estraçalhado como um bom modelo para amar, insurgi-me contra todas as garotas belas que me rejeitam e, imponente em minha embriaguez, decidi que conquistaria a garota linda sentada do outro lado do bar, mandando-lhe um bilhete com um poema estúpido à noite. E como seu sorriso foi uma arma em minhas mãos, decidi que o flerte era meu campo de batalha e fiquei com toda a importância, com toda a vantagem do seu sorriso ao meu bilhete em mãos, apenas esperando que ela passasse em minha frente para poder dar a cartada, a grande cartada de um amor louco, burro e bêbado. E ela passou magnífica e eu corri; corri entre as paredes de pessoas atrás de você, corri na chuva até seu carro somente para ter minha armada destroçada pela sua rejeição, sincera e cortante; sincera e reinante. Terminei a noite sentado no sofá, pensando nos poemas que disse, nos cortes que tive, nas máscaras que usei, nas mudas que plantei, nas plantas que pisei correndo no encalço daquela moça, apenas para ficar tão pisoteado como pisoteei.
Suco de manga com vodca não dá um bom café da manhã, por isso eu misturo café com cachaça e vejo que trava tudo no alto da garganta, pior do que o cigarro de menta que não veio dos lábios dela.

Percebi sóbrio que sou um modelo pra amar melancólico. E por isso eu bebo e modelo o amor sem perceber que ele me modela mais e mais e mais.

Sunday, January 23, 2011

Tinha um sapo no ranchinho, pegajoso, gelado, verruguento e Sandra precisava entrar lá pegar a bicicleta para o pai. Não teve jeito, preferiu levar uma bronca. Talvez um sapo fosse uma das únicas coisas que podiam fazê-la recuar, ela era impossível. Quebrava os dentes ─sorte serem de leite─; perdia os brincos nos fundos da casa, brincando de pega-pega, para achá-los, muito tempo depois, na rua em frente da casa, brincando de pular corda; jamais conseguia cicatrizar os esfolados dos joelhos e para disfarçar novas quedas, fazia-se um curativo com retalhos de folhas de bananeira, não sarava, mas o verde fresquinho era gostoso.
Cresceu, não esfolou mais os joelhos nem quebrou os dentes, mas trouxe da infância o medo de sapo, agora não pode pegar limões, tem um pegajoso, gelado, verruguento bem embaixo do limoeiro.

Friday, January 14, 2011

Cartas de agradecimento

Caro Doutor Luiz (Fernando Teixeira), ontem abraçamos e beijamos a Dra Clélia, pois foi ela a portadora de tão boa nova, mas parte considerável de tão singela homenagem deveria ser para o senhor. Como não estava presente, receba esta mensagem de agradecimento, de admiração e de incentivo. Claro que sabemos não ser um resultado definitivo, nem o fim de nossa jornada, mas foi a primeira boa notícia após tantas e tantas frustrações e só foi possível graças ao seu empenho em buscar novas possibilidades de tratamento em insistir, em brigar, enfim, em ser quase como um pai destas crianças.
Hoje é nosso primeiro dia de “férias”, a serem gozadas durante os próximos trinta dias, onde não haverá praia, viagens, acampamentos e outras coisas que as pessoas normais fazem durante as férias, mas seremos exatamente isto que sempre quisemos ser, pessoas normais, com direito a sonhar o futuro (tão incerto para todos, mas assustador demais para pais de crianças com câncer) com planos bobinhos, tipo qual escolinha escolher, se vamos tirar as rodinhas da bicicleta, trocar o forro da garagem que está com cupim e outras banalidades. No mês que vem retomamos a rotina de luta, com as esperanças renovadas e com mais vontade de lutar, pela Luana e pelas demais crianças que se encontram na mesma situação, por isso Doutor, por favor, não desista. Sabemos que muitas vezes sua luta é inglória, permeada por algumas derrotas, emperrada por burocracias, vaidades e incompreensões, mas a profissão de médico é assim, mais do que um emprego ou trabalho, uma missão.
Obrigado.

Luiz Mendes
Sandra Tromm
Luana Mendes
Cartas de agradecimento

Nós que não fizemos o anacrônico Juramento de Hipócrates, por vezes pensamos que o médico pode explicar e resolver tudo. Nós, os leigos, sentimos raiva quando recebemos a notícia que determinado tratamento não poderá ser realizado por falta de um medicamento, ou pela deficiência de um equipamento e, às vezes, acabamos descarregando nossa frustração nos médicos que, em nossa ignorância, imaginamos estarem indiferentes à nossas aflições. Condenamos-os porque foram viajar no final de semana, ao invés de ficarem estudando uma maneira de curar nossas doenças, ou de nossos entes queridos. Esquecemos de sua humanidade, de suas limitações, de suas frustrações e pensamos que eles são insensíveis ao sofrimento alheio. Somos tolos, somos pais, somos impulsivos, intempestivos, viscerais e sentimentais, mas, em alguns momentos de racionalidade, enxergamos os médicos como iguais, talvez até mais comprometidos com nossa luta do que nós mesmos, pois têm em suas mãos não um caso igual ao nosso, mas dezenas, centenas e cada paciente, cada pai ou mãe se acha no direito de receber toda a atenção e todo o esforço para si.
Alguns buscam respostas no divino, no metafísico, no espiritual e cobram dos médicos a pouca fé demonstrada. Por vezes, alguns com um pouco mais de conhecimento e com um pouco mais de acesso à informação, se acham mais preparados do que os médicos, fazendo perguntas que estes já responderam nos primeiros meses do curso de medicina. Pacientes e pais de pacientes têm esta mania de procurarem as respostas que os médicos não deram onde suas convicções os levam e acham que todos deveriam compartilhar de tais convicções. A luta pela sobrevivência é o instinto básico mais evidente de qualquer ser vivo e cada um usa suas capacidades e aptidões nesta luta.
Antes que os destinatários desta carta se aborreçam com meus prolegômenos, vamos ao assunto e por mais que até agora não pareça, esta é uma carta de agradecimento. Todos os que acompanham o caso da Luana Mendes sabem o quanto o tumor tem se mostrado resistente a tratamentos e o alto grau de recidividade apresentado, mas, após tantas vicissitudes, conseguimos fazer no Hospital Santa Marcelina, dia 20 de dezembro, a quimioterapia intra-arterial com três drogas (carboplatina, topotecan e melfalano). Vimos como é um procedimento com alto grau de complexidade, dependente de um número muito grande de profissionais altamente habilitados e de um conjunto de suporte bem concatenado e, quando realizado em um hospital com tamanho afluxo de pacientes com as mais variadas enfermidades, depende também de uma generosa dose boa vontade dos médicos e dos demais profissionais envolvidos. Mas o resultado do primeiro exame realizado após este procedimento foi muito animador, pois as sementes vítreas, tão impertinentes e constantes mesmo após inúmeros outros tratamentos, não foram encontradas.
Por isso, queremos deixar registrados nossos mais sinceros agradecimentos a toda equipe médica do Hospital Santa Mercelina especial ao Dr. Sidnei Epelman, chefe da oncopediatria; Dra. Fernanda Barakat, oncopediatra; Dr Francisco, com quem só falamos por telefone, mas que muito contribui para realização do procedimento naquela data; Dr Luiz Fernando Teixeira, oftalmologista e quem nos indicou esta nova possibilidade de tratamento; Dr Marcio Marques (não tenho certeza, mas minha memória quer crer que este é o nome do radioterapeuta intervencionista, tão atencioso que nos explicou, ali mesmo na hemodinâmica , como tudo havia corrido bem com a Luana e nos explicou, rápida e detalhadamente, como fizera o procedimento). Muitos nomes que deveriam estar constando nesta lista, por lapso de memória, por não saber ou por distração ficaram de fora, para estas pessoas, peço minhas desculpas, mas saibam que nossa gratidão não é menor.
Estamos cientes que o resultado do tratamento, apesar de tão alvissareiro, não é definitivo tampouco encerra nossa luta, mas nos dá novo ânimo e renova nossas esperanças. Presenciamos e aprendemos o quão difícil é a realização deste procedimento, mas pedimos a todos os profissionais envolvidos que não desistam de tentar implantar este serviço de modo definitivo e sistemático, não apenas pela Luana, mas por tantas outras crianças, cujos protocolos básicos não obtiveram êxito e cujas visões, e talvez suas vidas, dependam deste tratamento. Esta dose extra de esperança e ânimo alivia nosso sofrimento, o que nos remete às palavras do Dr Drauzio Varella: “Muitos procuram nossa profissão imbuídos do desejo altruístico de salvar vidas. Nesse caso, encontrariam mais realização no Corpo de Bombeiros, porque a lista de doenças para as quais não existe cura é interminável. Curar é finalidade secundária da medicina, se tanto; o objetivo fundamental de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.”


Obrigado a todos.

Luiz Mendes
Sandra Tromm
Luana Mendes

Friday, January 07, 2011

Plano

Primeiro alguém contou uma história falando superficialmente do assunto. Foi quando aquilo rondou minha mente, mesmo que de maneira dissimulada pelo espanto. Era, sem dúvida, algo terrível. Como uma pessoa poderia agir daquela maneira? Como ela se sentiria? Quem teria coragem?
Não pensei mais no assunto, a não ser por vagos lampejos de lembranças, rapidamente descartados como lixo residual de pensamentos erráticos. Apenas lixo a ser tirado do campo de visão. E quando já estava bem administrada toda a destinação do lixo, li no jornal sobre outro caso semelhante. Se antes a história contada não tinha materialidade, a reportagem trazia detalhes, declarações, julgamentos, pareceres de doutores, enfim, trazia proximidade e forma. Agora não eram pessoas imagináveis, mas pessoas com seus nomes, idades, endereços, CPF e RG. Tinha elementos para comparar e exemplificar.
Mantinha distância, imaginando estar tentando entender mentes alheias. Entrava em outras mentes, que não a minha, para tentar enxergar com olhos alheios. Nada daquilo tinha alguma coisa haver comigo, era apenas exercício de imaginação, afinal eu seria incapaz de tamanha barbárie. Havia a família, Deus, lembranças dos ensinamentos da mãe, minha responsabilidade perante a sociedade, um trabalho, minha reputação e tantos outros valores a serem defendidos e preservados. Não, não era nada comigo, apenas imaginação.
Mas como seria se acontecesse comigo? Seria descoberto? Arrependeria-me? Interrogações que se aproximavam, rondavam-me como um predador rondando a presa. Meus filhos, netos, amigos de longa data, como reagiriam? E sem me dar conta, já estava com tudo pronto em minha cabeça. Cada detalhe, possibilidades, desdobramentos e reações possíveis. Era só agir. Eu queria mesmo agir? Estava tudo tão planejado, tão revisto em seus detalhes, cronometrado, não tinha como nada dar errado. Já previra até minha reação.
Não tem mais volta, espero apenas o melhor momento para agir. Continuo vivendo como sempre, só que agora sei que há um brutal eu dentro de mim, sonhado quase à materialização.

LM
Sete cantos

Ano que vem completo 70 anos. Já não recordo há quanto tempo divido minha vida com esta janela. Não sou memorioso o suficiente para lembrar o que vi hoje de manhã, nem tenho criatividade para imaginar o que há além da cerca. Apenas sei a data da minha morte: no meu próximo aniversário. Se a Providência falhar, trago, sob o travesseiro, a caixa.
No ano que vem completo ciclo da minha vida, 70 anos, nem um dia a mais. Tempo suficiente para ter feito tudo que deveria ter feito. As inacabadas, desisti. Faltou-me força, talvez dedicação, ou não mereciam ser feitas, não serviam para nada além de preencher as lacunas entre o abrir e o fechar dos olhos. Se há algo para saber após a morte, saberei e chorarei todo o arrependimento, enquanto o tempo ainda existir. Nada havendo, termino, simplesmente, sem memória, sem flores em minha lápide, sem lápide – um punhado de ossos, de calcário, poeira – e o nada.
Ainda trago lembranças, modifico-as, suporto-as, invento-as. Invento-me e minto para este inventado e convenço-o-me de que aquele ser nulo era outro, não eu. Convenço-o-me da importância de passar os dias quentes, suando entre os cantos do quarto e olhando através (ou para ela) desta janela. Este cheiro azedo de humano – o pior dos cheiros – não exala das minhas peles. Vem com o vento, com o auto-convencimento. Não suportaria até o próximo ano fedendo assim. O cheiro da morte já conheço, já o senti: qual será o cheiro após a morte?
Escreverei uma carta aos meus filhos, um dia antes de completar os 70. Falarei de amenidades. Como tem feito calor; como o jornal parou de ser entregue sem aviso; o preço dos remédios; a falta de luz; a dificuldade em encontrar roupas boas e baratas; o barulho que vem da fábrica ao lado e de como é difícil dormir enquanto os motores zunem; falarei da falta de chuva nesta época do ano ou de como tem chovido ultimamente, mas especialmente, falarei como me sinto bem de poder passar os dias neste quarto, olhando para a janela. Inventarei-me pela última vez.

LM
Outro texto de Paulo Horn

MARCHA DAS BARATAS

Primeira, acho que eu deveria ir embora, segunda, talvez para um lugar mais longe, onde eu pudesse voltar a estudar, mas, terceira, mas não tenho tanta certeza assim se eu gostaria de ir embora, de sair daqui onde vivi até agora e o que eu faria se não visse mais o cachorro branco deitado no pé da árvore todo dia de manhã, e quarta, o que me incomoda são essas baratas que parecem estar em todos os lados e vi essa saindo do pote de ração do Tobias e ele de lado, não chegava ao pote por medo daquelas patas que eram muito mais que as dele e talvez na pequenez houvesse algo de amedrontador ou ele só fosse um frouxo mesmo já que quando era pequeno comia até merda se eu não cuidasse, e terceira, o que eu vou fazer com o cachorro a hora que eu for embora, talvez devesse dar ele, mas tenho medo que alguem dê uma injeção no bicho, que ele não merece e muito menos dar ele para minha mãe que não deixa o cão ser cão, ora onde já se viu um cachorro que não lata e que mije só no lugar certo, para isso têm os gatos, que além de sorrateiros são limpinhos ao seu modo, segunda, é, eu teria que levar Tobias de qualquer jeito, mesmo que fosse ele quem atraísse as baratas da cozinha, e eu me vejo indo embora, sentando no ônibus, terceira, Tobias numa daquelas caixas com furinhos para respirar e eu sentado lá pela quarta fileira para fugir do chacoalhar das rodas via pela janela uma fila gigantesca de baratas na rodovia me seguindo e olha só, puta que o pariu tem uma barata gigante sentada ao meu lado, com licença, mas preciso ir ao banheiro e ela diz, pois não e recolhe várias patas para me deixar passar, quarta, e no banheiro eu lavo o rosto e também sou barata no espelho, é, quinta, realmente, não há como fugir destas malditas patas e Tobias está certo em olhar meio de longe por que eu tenho certeza que esses dias enquanto eu dormia uma delas me assediou, mesmo que não tenha certeza ela estava lá, e andou pelas minhas costas e que ria de minha cara, quarta, terceira, talvez num lugar menos movimentado não houvessem bichos como esse, talvez se eu fosse para uma cidade menor, com menos prédios e escapamentos, com gramados verdes bem podados e algumas rosas no jardim, com menos bueiros e esgotos, mas sei que não, segunda.
Primeira, eu talvez não devesse ir embora, segunda, talvez o certo fosse ficar aqui e daqui mesmo mudar as coisas, tomar coragem e voltar aos treinos de tênis de mesa e finalmente aprender a falar francês, terceira, esquecer de uma vez por todas Lúcia, andar ao sol e comprar um inseticida a base de água, prender Tobias no quarto por umas noites, longe de ralos e acho que voltar a fumar, comer mais sushi e talvez eu devesse convidar Lana para sair, mesmo que ela me meta mais medo do que as baratas em Tobias e isso também é besteira, quarta, ela é só uma garota, certo, uma garota muito mais bonita do que eu estou acostumado, mas vamos lá, não posso deixar que um par de olhos me tirem a ação desse jeito, mesmo que vivam tirando e eu devia pisar nas baratas, esmagar suas asas e patas no chão contra meu tênis e acho que amanhã se eu ver a Lana eu convido ela pra sair, quinta, nada muito especial, uma cerveja depois do expediente, isso se ela não estiver muito bonita, mas eu acho que ela aceita sim e eu posso pedir para ela, tu pode me ver um cigarro, não, o isqueiro eu tenho, (acho que eu gostaria de queimar uma barata viva) e o que tu vai fazer hoje e ela ia dizer que talvez saísse com uma amigas para dançar e então, tu não quer tomar alguma coisa depois do trabalho e ela iria sorrir e me dizer para encontrar ela naquele bar de esquina, no centro e quarta, amanhã, quem sabe, terceira, segunda.
Primeira, eu olho pro lado para ver se não tem nenhuma barata por aqui também, segunda, tinha uma me seguindo, tenho certeza, mas desapareceu de uma hora para outra, e talvez ela seja uma dessas voadoras e se esconda entre as nuvens por que eu sei que por mais que tu não acredites essas porras voam alto, e tem um grilo bem aqui, e eu espero que ele me fale algo, mas esse deve ser um meio tímido ou então ele é mudo por que fica mexendo essas pernas o tempo todo, mas eu não sei a língua dos sinais e como será que está Tobias essa hora, eu gostaria de passar um pouco mais de tempo com ele, mas as baratas, quarta, ainda tenho que decidir se vou mesmo e se for acho que tenho que vender o carro e talvez só alugue a casa, mas não sei, não gostaria de voltar para algo que alguém vinha usando e por isso eu te odeio Lúcia e vou embora, vou sim, mesmo que tenha que levar todas as baratas do mundo comigo, mesmo que rode por aí num ônibus cheio de patas eu carregarei comigo meu inseticida, meu isqueiro e serei o maior incendiário de baratas que o mundo já viu, e vou ser reconhecido e quinta, eu vou trazer Lana comigo e viver uma vida de aventuras e vão fazer um filme sobre mim e as baratas e quem sabe eu mesmo faça uma ponta como o cara da loja que vende o inseticida para mim e amanhã, quarta, amanhã eu ganho Lana que não me mete mais medo e sim, eu já vejo ela aqui em casa, acordando mais cedo que eu e me chamando por que vamos chegar tarde para o trabalho e ela amarra o cabelo num rabo-de-cavalo e eu ponho uma camisa qualquer e no caminho compramos o jornal da senhora no sinaleiro, terceira, eu vou para um lado e ela para o terceiro andar me dá um beijo na porta do elevador e vamos almoçar juntos, segunda, e eu entro na minha sala e ligo meu computador, primeira, e vejo se não tem nenhuma barata ao meu redor, digo olá para o louva-deus, ligo o PC e então escrevo, ponto morto.

Saturday, December 18, 2010

Cinco histórias brasileiras

1 - Ao som do capim seco sendo pisado, Samuel Almeida pensava e lembrava. Pensava na pouca comida alojada no estômago e lembrava de quando seu pai contava do tempo em que chovia e ele colhia feijão e mandioca. Pisava mais, agora em pedra e terra ressecada; na sua frente, erguidos de ameaças, ferros e concretos engolindo cana e cuspindo progresso. Samuel Almeida não trazia arma, abriu o peito e se fez Quixote: bebeu a água carregada de vinhaça e prostrou-se na terra, para não mais fazer dobras no capim seco.

2 - Ubiratam Rosso segurava o palheiro e desviava dos pés de eucaliptos. Desviava, desviava e acabou retornando ao local de partida. Nova tentativa, outro palheiro, e novo retorno. Parou para sentir o frio do Minuano, mas este também desviava e se perdia entre os troncos. Não havia mais espaço para o homem e apagou o palheiro. Ubiratam Rosso escolheu uma, entre as milhares de plantas, e se fez árvore. Um galho com forquilha alojou seu pescoço enquanto o resto do corpo balançava ao sopro do vento perdido.

3 - No meio da selva, Francisca Cabral fazia as tarefas dos filhos mortos. Sangrava as árvores, enchia as coités, defumava e trocava por um pouco de farinha a grande bola de borracha. Nunca reclamava, nunca deixava de recolher o látex, nunca falava com as pessoas, só com as seringueiras. Contava como estava cada vez mais fraca, perguntava se os filhos estavam bem, se o marido ainda vivia e perguntava o que era felicidade e se era verdade que existiam pessoas felizes. As respostas, só Francisca ouvia.
A última vez que Francisca Cabral foi vista, entrava na selva. Há quem diga ouvir a conversa dela com as árvores. Agora são as plantas que fazem perguntas.

4 - Da praia, Félix de Souza conseguia enxergar a Ilha dos Remédios e o butiazeiro. Ele não gostava de passar nestes lugares e sempre observava bem antes de por o barco na água. Se percebesse qualquer sinal vindo de lá, não saia para o mar. As pessoas falam que Félix, olhando para a ilha e para o butiazeiro, sabia quando o perigo estava por perto.
A cada retorno, ele trazia menos peixe; galhos e garrafas sem mensagens enchiam a rede. Félix de Souza percebeu um sinal, a despensa vazia o fez partir mesmo assim e, em alto mar, uma grande embarcação faz gravetos do seu barco. Agora, os demais pescadores tentam enxergar um sinal, da ilha, do butiazeiro ou de Félix.

5 - O carrinho de tração humana, abarrotado de papelão, garrafas de plástico, latas de alumínio, revistas, algumas pedras de craque, uma garrafa de aguardente e Pedro João Dias, aos 6 meses de idade. Na tração, se revezando, Catarina da Rosa e Aluisio Correa Dias. Fora o bebê, o craque e a cachaça, o casal vende todo aquele lixo por dez reais. Catarina e Aluisio não passam dos 20, aparentam 30 e se conheceram na rua, onde moram. Hoje tiraram a sorte grande: revirando o lixo em uma rua de bacanas, encontraram um pacote cheio de pedras de craque —nem foi preciso passar na Cracolândia — e hoje vão fumar pala última vez. Pedro João Dias será encontrado, perto de duas carcaças inertes, será enviado para um hospital, passará no Jornal Nacional, tirarão muitas fotos, e será enviado para adoção. Negro e soropositivo, Pedro ficará no abrigo infantil, o resto da sua vida.
Escritos para as sombras

Guardado na terceira gaveta da esquerda, na mesa de trabalho de Aderbal Fuentes, ao lado da pasta e da escova de dentes, de uma revista velha e de alguns clipes e alfinetes, esconde-se uns manuscritos. Folhas de caderno, de blocos de recados, de agendas, de pacotes de cigarros. Tudo cronologicamente organizado. São cartas sem destinatário, pedidos de desculpas, invenções de si mesmo, desabafos, atestados de existência, alforrias e outras mentiras que os humanos contam para o espelho. O autor imagina tais fragmentos como sendo um todo, coeso, mosaico labiríntico, mas uno. Aderbal prefere quase não pensar nos manuscritos, mas sabe que aquelas palavras, começadas a ser juntadas há mais de 20 anos, compõem uma mensagem de renúncia da lucidez, um abrir mão da sanidade e, mesmo já tendo decorado linha por linha, precisa folhar o calhamaço quase todos os dias. Necessita ver e tocar os papéis, pois sabe que assim que sua mensagem for enviada, estará assumindo a loucura ou deixando a vida.
Já esteve muito perto de colocar as folhas na caixa de correio, faltaram uns míseros selos, ou então, um bater de asas de besouro o distraiu. Às vezes põe em um envelope oficial, carimbado com brasões imponentes e anda pelas ruas como quem segura um ofício ou despacho de alta importância para o Estado. Leva seu embrulho passear pela cidade e quando cansado, para e toma um café, não sem antes, repousar o pacote com solenidade sobre a mesa, para que todos os passantes possam ver quantos carimbos e logotipos vistosos ele traz.
Aderbal trabalha na mesma repartição há vinte e cinco anos, quase o mesmo tempo de casado, tempo suficiente para criar duas filhas e um filho. Bebe pouco, não fuma e tem boa saúde, bons dentes, quase nunca vistos. Houve quem o alertasse do comportamento pouco recatado da esposa, mas ido o viço, isto parece ter parado, agora ela dedica-se à religião. Os filhos, sem carência do herói, almoçam com os pais três ou quatro vezes por ano. Na juventude pensou que poderia ser poeta, agora pensa apenas no dia em que vai enviar sua mensagem, ou deitá-la ao lixo.
Comecei a escrever este pequeno artigo em 19 de setembro de 2010 e espero estar completamente enganado.

O que vejo diariamente nos jornais e noticiários, por mais que seja uma quantidade considerável de informação, nem sempre se traduz em igual nível de compreensão dos acontecimentos. Consumo notícias e tento decifrar o mínimo possível, se é que esta seja uma tarefa a qual eu esteja preparado, mesmo assim tento entender um pouco do que ocorre com nosso mundo e o pouco que percebo não é animador.
O processo de entrincheiramento dos EUA e dos países da zona do Euro contra as invasões de imigrantes (de raças inferiores?) evidenciam a postura egoísta destas nações, que só toleram a entrada dos pobres, enquanto puderem aproveitar a mão de obra barata para fazerem seus serviços “indignos”. Apesar das fronteiras cada vez mais fechadas, crises financeiras vão sendo sistematicamente escamoteadas sem, no entanto, conseguir uma real vitória. A queda nas produções industriais das tradicionais potências do norte indicam que estes não são fatos isolados, mas uma série de evidências do fracasso do modelo capitalista. Mas o que poderia ser motivo de alegria para os críticos do sistema, soa como um sinal de alerta para conseqüências mais tenebrosas: o que mais poderia impulsionar a produção, dentro do modelo capitalista, em tempos de retraçao do consumo? O que poderia incrementar a indústria até atingir o pleno emprego das forças produtivas? O que poderia cessar a tendência de deslocamento do centro do poder? A mais terrível das respostas: a guerra.
Enquanto a esquerda dá alguns passos tímidos na América Latina, vemos a extrema direita (às vezes fascista) ganhar prestígio e poder em vários países ricos e, a continuar este cenário, Barack Obama, mesmo que consiga a reeleição, dificilmente conseguirá emplacar um sucessor, abrindo caminho para a direita conservadora dos Tea Parties. Só isto já poderia justificar os temores de uma ação militar das potências em busca dos quintais perdidos e qualquer coisa pode servir de pretexto, desde o desmatamento da Amazônia, até a existência de células terroristas ou de narcotraficantes dominando as reservas de água doce.
Mesmo sendo sombria esta previsão (talvez até um tanto exagerada) não há como ignorar que o cenário uma guerra de grandes proporções, a ser desencadeada nos próximos anos, está sendo montado, resta saber exatamente onde o conflito vai acontecer. Oriente Médio, mais precisamente a partir do Irã, talvez Coréia do Norte ou quem sabe, ainda que aparentemente improvável, na América do Sul, por exemplo.
Este meu alarmismo, exagerado para alguns, não se baseia apenas no que acontece atualmente, senão em uma leitura de exemplos que a história nos dá, mais precisamente em um texto de Walter Benjamin, publicado em 1936, A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, onde o autor alertava para a guerra eminente que se estava armando na Europa.

O fascismo pretende organizar as massas sem alterar o regime da propriedade, que as massas tendem, todavia, a rejeitar. Acredita superar essa dificuldade permitindo às massas expressar-se (mas sem reconhecer seus próprios direitos). As massas têm o direito de exigir uma transformação do regime de propriedade; o fascismo quer permitir que se expressem, mas conservando esse regime. O resultado é que tende, naturalmente, a uma estetização da vida política. (p. 252)

Quando vemos que em níveis globais se acentua cada vez mais a concentração de riquezas nas mãos de um número reduzido de pessoas (a parcela mais rica da população mundial, apenas 10%, dispõem de 71% de toda a riqueza do planeta) e vemos os meios de comunicação de massa traçarem um perfil caricato medianizado e padronizado das pessoas (antes, consumidores), em todos os cantos da Terra, não podemos deixar de fazer uma associação com as palavras escritas em 1936, o que as torna sombriamente atuais. E mais sombrios são os seus desdobramentos.

Todos os esforços para estetizar a política culminam num único ponto. Esse ponto é a guerra. A guerra, e tão-somente a guerra, pode fornecer um objetivo aos grandes movimentos de massa, sem entretanto tocar no estatuto da propriedade. É assim que as coisas podem ser traduzidas em linguagem política. Em linguagem técnica, elas serão assim formuladas: só a guerra permite mobilizar todos os meios técnicos de nosso tempo sem nada alterar no regime de propriedade. (p. 252)

Benjamin, por sua vez se utilizava do manifesto de Marinetti, publicado em La Stampa, de Turim, sobre a guerra da Etiópia e sobre este manifesto, o autor esclarecia:

Para ele, a estética da guerra apresenta-se do seguinte modo: quando o uso natural das formas produtivas é paralisado pelo regime da propriedade, o crescimento dos meios técnicos, dos ritmos, das fontes de energia, tende a um uso antinatural. Esse uso antinatural é a guerra, a qual − pelas destruições que traz − demonstra que a sociedade não estava bastante madura para fazer da técnica o seu órgão, que a técnica não estava bastante elaborada para dominar as forças sociais elementares. A guerra imperialista, com suas atrozes características, tem por causa determinante a defasagem entre a existência de poderosos meios de produção e a insuficiência de seu uso para fins produtivos (noutros palavras, o desemprego e ausência de mercados). (p. 253)

Ainda que os EUA e Europa enfrentem uma crise financeira ─ mais pela voracidade de suas elites do que por falta de recursos ─, eles não pretendem diminuir suas riquezas nem abrir mão de sua liberdade de controle sobre o resto do planeta. Além disso, os EUA enfrentam uma crise de identidade enquanto nação dominante provocada pelos fracassos no Afeganistão e no Iraque, além do crescimento econômico da China, entretanto é inegável sua supremacia bélica e sua capacidade de produção e consumo interno, assim como é inegável a capacidade de imposição do padrão American way of life na cultura mundial, derivado do eurocentrismo. Mesmo se considerarmos que os EUA sejam o centro irradiador dos produtos de consumos cultural, o padrão europeu branco e cristão continua sendo o modelo predominante na indústria cultural, assim como ainda é no velho continente onde muitas das grandes fortunas, oriundas da exploração da mão de obra e das riquezas naturais dos países periféricos, vão parar. Estes que também não são fatos isolados, apontam para uma necessidade de reformulação do capitalismo, que talvez os modelos keynesianos de bem estar social não consigam mais responder, restando a opção mais violenta.
Esta guerra será, como a tantas outras, uma guerra imperialista, onde os donos do poder tentarão impor suas vontades em nome dos mais altos ideais humanitários de liberdade e democracia, onde as grandes potências tentarão impor sua supremacia aos que tentarem ousar a questionar as verdades professadas na grande mídia. Diante deste cenário, o que nos resta a fazer? Nós, as massas, temos de nos rebelar contra estes 10% que ditam os rumos do mundo. Há que se negar o modelo que nos é imposto, em que você só é considerado cidadão se for consumidor, onde reproduzimos em escala menor os mesmos modos de dominação e exploração dos grandes capitalistas (qual pequeno burguês-classe-mediano-imitação-patética-dos-ricos nunca explorou a mão de obra barata de uma diarista pobre e negra?). Se o socialismo fracassou, também o capitalismo é um fracasso, pois um sistema que só privilegia uma minoria à custa da miséria de milhões e da destruição dos recursos naturais, não pode ser considerado um exemplo de sucesso.
Enquanto o mínimo de ração nos for ofertado, um pouco das migalhas do luxo dos ricos, outro tanto da falsa ilusão de que as coisas são assim porque são e a descarada ilusão da liberdade, a revolução não eclodirá, pois estaremos muito bem assentados em nossas zonas de conforto, resolvendo nossos grandiosos problemas da prestação do carro novo ou das férias em Florianópolis.
Indisciplinado demais para fazer postagens regularmente, Paulo Horn me pediu que publicasse alguns de seus escritos. Sendo que um pai não pode negar certos pedidos dos filhos, eis que postarei, mais ou menos a cada semana, um texto horniano. Se estes escritos receberem comentários mais elogiosos do que os meus,algo bastante provável, excluirei-o sumariamente deste espaço e darei-lhe uma boa surra.


Borra de café tintado nas fitas de máquina de escrever

Havia um copo de café, sujo como almofada de carimbo velha, que estava lá, no centro da mesa, intacto. Ainda restavam algumas centelhas de calor nele, mas o mais provável era que elas se dissipassem no ar condicionado. Mais tarde eu viria e ainda absorto com tudo que ocorrera desde o momento em que pegara o carro esta manhã e saíra pela rodovia rumo ao trabalho até o descanso na cadeira e tomaria um longo gole do café já frio, engolindo a tinta fria de carimbo com dificuldade, em que jogaria fora o resto do copo de café. Mas por enquanto havia o copo de café com centelhas de quentura em cima da mesa, junto com diversas folhas datilografadas em máquina de escrever antiga, rabiscos de caneta tinteiro e borra de fita de máquina. Alguns livros também estavam largados na mesa, por cima do criado mudo, ao lado do copo de café, com suas páginas displicentemente abertas, marcadas por papel picado com borra de fita de maquina de escrever.
Houve um velório e, talvez por isso, o papel picado de carnaval caiu da estante em câmera lenta. Cada vez que parecia repousar no tapete levantava em uma revoada, dançarino nos eixos do mundo, levando num instante a borra de café para longe do paladar, para longe das comentadas tarde de verão, escritas com fita de máquina em papel de quinta, na quina da sala, segurando as paredes num conceito de arquitetura que parecia vir de trás, de um ângulo totalmente novo, de um ângulo palavrar, de um ângulo escritural, entre escombros de letras perdidas nas dobras de livros não escritos que o acaso roubou da memória e que a memória roubou da escrita, e que a escrita roubou da perdição. E perdido nesta revoada de confete surgia uma idéia solitária, observando a dança como quem espera a passagem de um cometa com um desejo no arpoador do coração, buscando por entre estrelas um infinito de marcações no quadro negro da vida, na vida negra do quadro; quadrado cartesiano para as imperfeições do pensamento, das letras perfeitas, imperfeitas na criação da palavra que junto com você formou aquele ângulo triste no arpoador do meu coração.
Sim, sim, mas antes dessa revoada carnavalesca houve o enterro do natal com sua estrela guia norteando os palmos de terra cavados na estrada do dia, da noite e adentro, e você, meu presente, despindo-se entre as paredes de palavras e conceitos e excitações; dançando revolta como papel de parede picado, tinta descascada nas curvas venosas das horas, mostrou-me incerto como um pequeno filhote de furão escondido nas gavetas da cozinha de idéias que logo, logo, tornar-me-ia um domesticado filhote de gato, que não mais iria buscar a noite para cantar a sinfonia de miados síncopes, de sincopada melodia de cordas felinas de violino; e procuraria sempre minha caixinha de areia para despejar minhas tristezas e me entreteria com tua beleza acachapante até dormir fetal bola de pelo, no teu colo como se isso fosse grande coisa. Mas as coisas sumiram como grão de areia em baixo da unha.
A borra de café de fita de máquina de escrever aparecia ainda mais forte neste ano novo e o ângulo triste foi transformado em ângulo palavrar. As palavras angulares deram lugar a cantos, sons e becos, botas e brotos de brilhos de olhar, que me pegaram de canto numa escritural inovação das coisas matinais, como grãos de café que já brotam branquiais nas turvas águas de tinta que são as lágrimas de quem bebe tinta de máquina de escrever quando recita poemas nas pistas e autopistas dos postes de paredes de livros e folhas e cantos de bocas e risos de todas aquelas que sorriem para os olhos de um filhote de gato domesticado por você. Como eu. Mas então este ano novo apresentou-se angular e palavra no paladar e eu não tinha idéia de onde buscar novas palavras para erguer a arquitetura deste livro não escrito que eu vinha escrevendo até te conhecer e perder a inovação na borra do café. E borrado aparecia o céu sobre a esquina da folha em branco, e a tinta caminhava, teclando espaços em branco que preencheria com ângulos tristes e que, talvez revoltado com todo esse gosto amargo de não, não e não deixasse essa lacuna para que vocês preenchessem como bem quisessem, e não atrapalhassem as lamurias que tijolos rijos de resmungos eu ia erguendo em paredes de palavras tristes, de triste palavrear.
Dizem por aí que um pouco de palavreado poderia me tornar um escritor novamente ou realmente, e que tentar erguer paredes com ângulos palavrares era inútil, pois palavras erguem dunas com pó de café que sobra no coração. Pois eu até concordo que os ângulos palavrares são instáveis demais para erguerem qualquer coisa, mas sempre me perco com seu dedo dançando com os incautos últimos guerreiros de café borrado de tinta de máquina de escrever no meu lábio, plantando um silêncio cafezal e assim como uma traça não tem culpa de se alimentar de histórias, você não tem culpa de se alimentar de ângulos tristes. Botar a culpa disso em você seria negar toda a roda gigante por onde o mundo muda e retirar aquela etiqueta que identifica todo melancólico homem, sentado num banco de praça, com vários espelhos ao redor, um pombal de homens pegos no redemoinho de ângulos tristes que um dia com certeza foram ângulos palavrares até o primeiro e pequeno toque seu que muda tudo roda a roda e reduz a verborragia que é característica daquele cruzamento de idéias que são, em parte e nunca em todo, os ângulos palavrares.
Sabemos então que os ângulos tristes que condensam os homens um dia foram ângulos palavrares que tentaram serem paredes de conceitos e excitação e que ergueram dunas de borra de café tintado nas fitas de maquina de escrever, e que somente são tristes por característica úmida que rola ao rosto quando você não se despe e ainda que isso dure todo o infinito de coisas imutáveis, nunca é culpa sua e sim das fantasias desenhadas no arpoador do coração. Bem pensado, te eximir da culpa – mesmo que seja impossível pôr culpa alguma em você – seria negar também sua natureza destrutiva em salto alto, e construtiva em risos e lábios e reflexiva em paixões arrebatadoras. Havia então uma trindade não santa, paradoxal que era além de tudo criadora de ângulos tristes no arpoador de corações condensados pela simples passagem de um sussurro, de um suspiro, de uma você. Mas pra você isso é instinto. E instintivamente eu fui até a garrafa térmica, sem lembrar que a borra de café estava ainda mais forte no paladar, e fui maquinando e erguendo paredes, criando janelas, fugas, vãos, vasos, verbos e tudo era ângulo reto, torto, todo tinta de máquina de escrever velha; e verborrágico como um arquiteto de livros, romances, contos, contas, cantos, curtos espaços de branco deixava borrado para o espaço de verbos ainda vindouros e aquele livro que escrevendo ainda não escrevi ia se formando um edifício de palavras caídas de dicionários fictícios, empilhados em hiatos abertos por frases não ditas, escritas nas borras das fitas, nas máquinas de café, no amarelo do tempo que fica em quem toma demais.
Então de repente tudo desmoronava como um castelo de cartas de amor mal escritas pelo acaso de versos recitados nas sombras das dunas de pó de café, que se erguem cada vez mais borradas nas fitas de máquina de escrever, coadas em incautos sonhos recitados no arpoador do coração, e despidas pela luz que surge do teu despir-se, sobrecarregando todos os monumentos construídos sobre escombros de línguas esquecidas com ângulos palavrares rústicos, que a arqueologia de alfabetos entristecidos decidiu ignorar na procura por uma forma de reverte a tristeza que emana melancólica da beleza que você reflete. Claro que tentaria em vão reerguer suas paredes entre os escombros de letras perdidas nas dobras de memória que o acaso roubou das entrelinhas de versos de cantigas de roda, que rodopiaram feito folhas secas no mar de tinta que rola dos olhos e que pinta a face como um porta-estandarte de um carnaval sem festa, uma festa sem risos e uma fala sem todas as felicidades conhecidas pelas letras e alfabetos. E ali saberia que esse conceito arquitetônico que em vão tentava fazer valer não poderia ser estabelecido com ângulos mutáveis, com ângulos instáveis e que a instabilidade, embora fonte criativa de todo ângulo palavrar, é a ruína que transforma todo edifício de idéias, de palavras, de frases, fórmulas, pensamentos, prantos, portas de lacunas soltas nas folhas não escritas pela idéia, em dunas de pó de café extraído das sobras de canetas tinteiro borradas nas páginas não escritas de textos não tratados, de tratos não tolhidos e passados datilografados.
Enfim, acabara a tinta de máquina de escrever borrada no coador e espremida dentro de um último copo de café; aquele que eu tomaria devagar, recostado na cadeira e abraçado pela quentura que, se esvaindo, deixava ainda mais forte o gosto de tristeza no paladar. Aninhado como uma bola de pêlo no seu colo, acreditando ser mais do que realmente era, ia me tornando também um ângulo triste, trocando a afasia por um lento ronronar. Sim, havia caído todo tipo de palavra, acabado todo tipo de café, soterrado todo ângulo palavrar ou triste, mas restava ainda a esperança, este ser incauto que acredita piamente ser capaz de contornar a tristeza e reverter a incerteza, apenas por adorar um sorriso. O ano novo começara forte, como os outros.

Paulo Guilerme Horn

Sunday, December 12, 2010

Botbine family

Conheci George Botbine há uns cinco anos, em uma entidade para reabilitação de ex-alcoólatras e, além de tentar largar a garrafa, Botbine tentava também controlar outro vício, ele era o que os especialistas chamam de viciado em sexo. Não sei muito bem como os especialistas conseguem definir exatamente isto, se é pelo número de relações ou se estas relações estão te trazendo problemas, mas se for pela segunda opção, estou nesta estatística, pois a maioria das minhas transas acabaram em problemas, e nem foram tantas assim.
Mas George era do tipo compulsivo, tanto que depois que estabelecemos o mínimo de amizade para entabular um diálogo com meia dúzia de palavras, o sacana foi logo propondo uma fóda. Não dei muita trela e fui logo o desencorajando com um direto do queixo. Não que tenha alguma coisa contra viados, mas o cara era doente e pra ele tanto fazia trepar com homem ou com mulher, desde que estivesse fornicando. Não me admira que também estivesse tentando largar a bebida, afinal quem nunca ouviu falar a respeito da ausência de proprietário de certas partes do corpo dos bêbados. Botbine devia acordar das ressacas com dor de cabeça e sem poder sentar direito.
Pelo jeito ele não ficou muito furioso com o queixo deslocado e continuou a me procurar nas reuniões dos ex-bêbados e não precisei mais dar nenhum direto. Tanto é que até marcamos para tomar uns tragos depois das reuniões. Coisinha pouca, só para não parar de forma abrupta. O cara não era mau sujeito, tinha classe, não misturava bebidas e bebia devagar, enquanto eu entornava uns três ou quatro copos de cerveja, ele ainda estava na metade do primeiro (até acho que ele nem precisava freqüentar as reuniões) e não se alterava muito enquanto enxugava.
As reuniões dos bebuns eram sempre nas terças-feiras, um bom dia para uns tragos (acho que é por isso que não deram muito certo, os organizadores deveriam ter escolhido um outro dia, menos propício a idas no bar) e acabou sendo automático, saíamos dos encontros e íamos, eu e George, até o bar do Schimit. Quando o Schimit soube da minha iniciativa de procurar a entidade antialcoólica, ele deu todo o apoio e até me pagou uma cervejas para comemorar, sem falar que a primeira, das terças era por conta da casa, e como não podia deixar de prestigiar quem me dava tanto apoio, levei meu novo amigo. Foi numa destas terças que ele me explicou 6melhor como era aquele negócio de vício em sexo.
Não sei direito, mas acho que Botibine era um cara de boa família, sempre tinha grana para táxi, andava bem arrumado, com roupas bacanas e falava difícil. Devia estar perto dos cinqüenta e era alto e magro, uma vasta cabeleira começando a branquear. Se eu não soubesse de minha preferência exclusivamente por mulheres, poderia afirmar até que ele era um cara de boa aparência, para não dizer bonito. Bem diferente de mim, que quase sempre estava empenhado no Schimit, alternava minhas duas calças jeans e meia dúzia de camisetas, jamais andava de táxi e era (talvez tenha piorado) feio como a peste e careca. Se eu fosse que nem ele, certamente seria classificado como viciado em sexo, só não ia cantar marmanjos, no máximo um daqueles travestis que parecem mulheres mais bonitas do que qualquer da barangas que eu já peguei.
Voltando à patologia do meu amigo, ele me explicou como não podia mais se controlar e da necessidade em fazer sexo todos os dias, mais de uma vez por dia. No começo ele entrava em chats de relacionamento marcava um encontro com alguma dona solitária, mas estes encontros esporádicos começaram a ser insuficientes e ele começou a contratar profissionais. Nessa época ainda era casado, mas claro que a coisa não poderia durar muito e a mulher foi embora com os dois filhos e uma bela indenização (o cara deveria ser mesmo muito rico). Quando não conseguia encontrar nenhuma das profissionais que o atendia, ele pegava qualquer uma na rua e quando essa brincadeira começou a ficar muito cara, ele passou a vagar pelos becos e a pegar qualquer um que quisesse um pouco de sacanagem, putas velhas, mendigas, ajudantes de pedreiros e agora tanto fazia se ele comesse ou desse, o que precisava era fazer sexo. Isto lhe rendeu muitos dissabores, pois começou a se atracar em qualquer canto, banheiro públicos, terrenos baldios, construções abandonadas e de vez em quando era preso por atentado violento ao pudor. Era hora de procurar ajuda especialmente porque Botbini, que já me confidenciava quase tudo, já não andava levantando direito. Também pudera. De qualquer modo, além das despesas com a putaria, a viadagem e a bebida ele agora, se quisesse ser ativo, tinha que comprar Viagra, ou seja lá que droga usasse. Depois da separação não sobrou tanto, especialmente para os padrões dele e antes que acabasse na sarjeta, procurou um psiquiatra. O médico entupiu George com um punhado de remédios e ele passou a ficar mais tranqüilo, só de vez em quando é que tinha uma recaída, mas nada comparado aos velhos tempos de sacanagem braba.
Não que eu precisasse, mas perguntei a Botbine como funcionava esse negócio de pílula para endurecer, só por curiosidade científica. Ele explicou que não era tomar e ficar de pau duro o tempo todo, mas que quando estimulado a ereção vinha com incrível facilidade, mas nada adianta estar duro se não souber usar direito, me alertou, não sei porque. Ainda por curiosidade científica, perguntei se não tinha sobrado nenhuma, só para eu ver como era, não que precisasse e muito menos que eu não soubesse usar minha ferramenta. Ciência, apenas. Botbine me deu logo duas caixas. Tentei imaginar o motivo que levava alguém a andar com toda aquela droga, mas logo desisti, nem quis perguntar, apenas aceitei a oferta, assim como um pesquisador aceita a amostra de um espécime raro.
Li com atenção metade da bula e peguei minha agenda de telefones. Adriana, casou. Ariane, se mudou para o norte. Beatriz, não lembrava mais de mim. Cláudia, morreu mês passado. Daiana está presa. E assim continuei com minhas infrutíferas tentativas até quase acabarem os créditos do meu cartão de orelhão, quando finalmente consegui falar com Soraia, uma coroa enxuta que conhecia há alguns anos numa festa nostálgica dos anos sessenta. Ela disse que lembrava de mim e disse que ainda não tinha perdido as esperanças de receber minha ligação, isto me animou. Marcamos para eu passar no apartamento dela na noite seguinte.
O prédio era luxuoso caro e Soraia não estava mais tão enxuta quanto na festa dos anos sessenta, penso que talvez minha memória tenha me traído e talvez nem na festa ela fosse enxuta, mas agora não tinha mais o que fazer. Antes de sair de casa segui as instruções da bula e tomei a super pílula que me transformaria em um super-homem e para garantir o resultado, aumentei um pouquinho a dose, na verdade dobrei a quantidade. No caminho botei as mãos nos bolsos e fui mexendo com o belo adormecido, só para me certificar que a droga funcionava mesmo. Assim, quando ela abriu a porta e vi aquela velha magricela e com uns dentinhos muito gastos e amarelados no sorriso, fiquei parado sem saber o que falar ou fazer. Minhas orelhas queimavam, não conseguia respirar direito e parecia que tinha uma chaleira quente em cima da minha cabeça, mas meu membro estava rígido como um pedaço de ferro. Nada mais restava a fazer senão entrar e fazer o serviço. A bula dizia que não deveria ingerir álcool, mas mesmo estando com o membro já pronto, o resto de mim ainda não conseguia a se acostumar com a visão de Soraia, pedi algo para beber e ela trouxe uma generosa e salvadora garrafa de whisky. Bebi logo umas três doses e minhas orelhas queimaram mais ainda, até meus olhos pareciam que queriam saltar das órbitas.
O mal-estar aumentava e já não entendia mais o que ela falava então, sem alternativas, agarrei-a e fui logo metendo minha língua dentro daquela boca que mais parecia um esfregão velho. Ela não perdeu tempo e entregou-se às minhas investidas de maneira dócil e servil. Eu afundava meus dedos na poucas peles e ela se jogava por cima do meu corpo. Como minha ereção não era fruto da minha vontade e como não sabia quando ela passaria, tratei de encontrar uma posição confortável, deitei de barriga para cima e repousei minha cabeça em um travesseiro (minhas orelhas se incendiavam) e deixei que ela fizesse o que quisesse, acho até que cochilei por uns instantes, só acordando quando sentia uma língua entrando em minha boca. Não sei se sonhei, mas lembro de ouvi-la me xingar, chamar de maldito tesudo, filho da puta insaciável, lazarento gostoso e tudo o que tinha a fazer era dar uns tapas nas murchas ancas enquanto as pílulas faziam o resto do trabalho.
Foi uma longa noite e de manhã, quando julguei que Soraia estivesse dormindo, levantei, vesti minhas roupas e fui para a porta, mas ela estava acordada. Ela deve ter dito algo, mas apressei o passo e sai logo do apartamento, antes que ela levantasse e quisesse me abraçar ou coisa parecida. Meu cérebro doía como se tivesse tentado derrubar uma parede à cabeçadas. Fui para casa, mas antes dei uma passada no Schimit, precisava comer um ovo cozido ou um bolinho de carne e tomar um café preto. Botbine estava lá.
─Que merda! Estas pílulas deixaram meu pau duro e irresponsável. Comi uma velha magricela de uns 70 anos. Toma, isso é coisa pra maluco, como não tem nenhuma gostosinha querendo dar pra mim, é melhor eu não ficar com essas porcarias, senão vou traçar só bagulho.
Botbine deu uma gargalhada meio forçada e quando ia falar alguma coisa saí. Passei no mercadinho, comprei uma garrafa de pinga e fui para casa. Ainda não estava bem e a cachaça começava a aquecer minhas entranhas e aliviar meu remorso. Aliás nem sei por que estava me sentindo constrangido, afinal não era a minha primeira velha, nem a primeira feia, talvez nem fosse a última, mas e se ela pensasse que tudo aquilo era por atração à ela? Eu precisava remediar a situação e liguei marcando novo encontro, ela ficou surpresa, mas não declinou e à noite lá estava eu à sua porta, sóbrio, sem super pílulas e feio como sempre. Entrei e enquanto ela preparava um trago, percebi na mesa da sala, dois copos de whisky pela metade.
─Tem visita?
─Ah! Não é ninguém, só meu filho que veio dar um beijo na mamãe. Ele está no banheiro.
Botbine apareceu, impecável como sempre.
─Ora, ora. Se não é meu velho amigo Charles Trezinni.
Fiquei com uma baita vontade de enfiar a mão na cara daquele cretino, mas preferi deixar para lá, afinal o filho da puta era ele. Conversamos amenidades, como se fossemos bons vizinhos em uma manhã de domingo na primavera conversando enquanto as crianças brincam no quintal e nossas belas esposas preparam o almoço.
─Sabe mamãe, Trezinni é poeta e até acho que já publicou uns dois ou três livros.
─Na verdade só tive dois trabalhos publicados em coletâneas. Faço alguns serviços de free lance para jornais e revistas.
─Mas é apenas um primeiro passo, tenho certeza que assim que descobrirem seu talento não faltará quem queira publicar seus livros.
Que filho da puta falso, até outro dia era um louco fodedor e alcoólatra semi arruinado, agora tava ali me zoando. Mais do que nunca me decidi a foder com a mãe do cretino nem que tivesse de comer Viagra com farinha e se ele bobeasse, fodia o rabo dele também. Nos cumprimentamos cordialmente e ele saiu. Peguei a garrafa e comecei a tomar no gargalo mesmo, enquanto Soraia preparava uns pasteizinhos de atum na cozinha. Aquela cena todo, como eu havia chego até aquele ponto, as reuniões dos bebuns, o Viagra, minha vida patética me fizeram como que despertar de um estado de torpor. Decidi sair daquela casa e daquela família de loucos, mudar, arranjar um emprego sério, comprar uma casinha, casar como uma boa mulher que cuide de mim, ter filhos para poder correr com um cachorro e, quem sabe, ser feliz. Soraia trouxe os pastéis, estavam muito bons, comeria só uns três e depois sairia de uma vez. Tomei mais uns goles e senti aquela língua velha entrando em minha boca. Talvez só esta última trepada, para provar que não preciso de pílulas e depois mudaria de vida. Como era de se esperar brochei e tive de satisfazê-la com língua e dedos, acabei dormindo no aparamento da senhora Botbine. Pela manhã ela me deu um punhado de dinheiro, era mais do que eu ganhava em um mês todo.
─Compre umas roupas novas e bonitas, alguma bebida e fale com George, ele tem uma receita ótima para certos probleminhas. ─ E fez um gesto com dedo indicador se encolhendo.
Mais baixo do que isto eu não poderia chegar. Então lembrei da minha resolução da noite anterior e resolvi adiar por uns dias, talvez ainda pudesse tirar mais alguns trocados da velha.

Friday, December 10, 2010

Esta é a cópia de um e-mail enviado ao Hospital Santa Marcelina de São Paulo no dia 10/12/2010. Pode estar destoando do restante dos textos, mas torno público algo pessoal pois esta luta não é apenas minha, mas de tantas outras famílias que passam por situções similares. Especificamente, vou lutar para que o Hospital Santa Marcelina consiga re-instalar e manter este procedimento, tão moderno e tão complexo de ser ser executado, mas que é a última esperança para tentar salvar os olhinhos de centenas de crianças.
A a complexidade da quimioterapia intra-arterial reside no fato de ser um procedimento altamente invasivo e que requer uma equipe de especialistas e instalações disponíveis no mesmo momento.
Abaixo a cópia do e-mail:


Meu nome é Luiz, sou pai da menina Luana Mendes e moramos em Joinville SC. Luana tem 5 anos e é alegre e sapeca como qualquer outra criança desta idade, mesmo estando em tratamento contra um retinoblastoma bi-lateral diagnosticado em outubro de 2008. Apesar de nossa luta não acho o drama de minha família maior ou mais terrível do que o drama de tantas outras famílias que encontramos pelos corredores de hospitais durante nossa jornada, falo isto para deixar claro que não queremos nenhum tratamento diferenciado nem qualquer vantagem em relação às outras famílias, apenas o direito de lutar e ter esperança.

Diagnosticado o retinoblastoma, seguimos o protocolo básico para tratamento, quando foram feitos 6 ciclos de quimioterapia mais diversas aplicações de laser. Como o protocolo básico não foi suficiente, ela foi submetida à radioterapia, igualmente sem sucesso, então tivemos de enuclear o olho esquerdo. Tentamos mais duas braquiterapias no olho direito e como os resultados não foram satisfatórios, buscamos outras alternativas. Li uma matéria na internet que no Memorial Sloan-Kattering, de New York, um novo tratamento estava sendo testado com certo sucesso em casos como o da Luana, com recidividade dos tumores e aparecimento de sementes vítreas. Mas os EUA estão muito além de nossas possibilidades e descobrimos, que o Dr. Luiz Fernando Teixeira estava trazendo esta técnica para o Brasil. Foi assim que, em dezembro de 2009, iniciamos o tratamento da Luana no Santa Marcelina.

Fiquei muito feliz e muito orgulhoso por um hospital que atende pelo SUS estar à frente dos caros e luxuosos hospitais para ricos, oferecendo um tratamento tão inovador, praticamente simultaneamente aos primeiros tratamentos feitos nos principais centros mundiais. Mas nossa alegria não foi completa, pois percebemos o quanto era difícil conseguir marcar este procedimento, não obstante aos esforços da equipe médica e demais atendentes do Hospital. Ora tinha vaga na hemodinâmica, mas não tinha retaguarda na UTI, ora tinha vaga, mas tinham outras crianças com estágios mais avançados da doença na frente e apenas uma vaga por semana o que nos obrigou, mais de uma vez, a irmos para São Paulo e não poder fazer nenhum tipo de tratamento, pois era desmarcado na última hora. O resultado é que conseguimos fazer apenas uma aplicação de quimioterapia intra-arterial e não pudemos dar prosseguimento aos ciclos posteriores, apesar da redução de incidência tumoral apresentada.

Como não conseguimos mais marcar no Santa Marcelina (até recebi a informação que o hospital não está mais realizando este procedimento), fomos atrás de outras alternativas, mas restaram apenas hospitais particulares em São Paulo e como o plano de saúde da Luana, que é estadual, não liberou o pagamento do tratamento, conseguimos levantar o dinheiro para o primeiro ciclo (cerca de R$ 30.000,00) e já estamos nos planejando (vender carro, casa, empréstimo, etc.) para pelo menos mais dois ciclos. Quando achávamos que tudo estava mais tranqüilo, um novo empecilho apareceu: o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, onde o procedimento estava agendado para o dia 08/12/2010, não dispõe de uma das drogas, o melfalano (Alkeran, da Glaxosmithkline) e tivemos de adiar indefinidamente.

Liguei para o laboratório Glaxo e fui informado que o pedido da dose para a Luana já está feito, mas que eles não têm em estoque e não sabem quando poderão nos atender, talvez em 20 ou 30 dias.

Como falei acima, a Luana é uma criança normal e apesar de toda carga de tratamentos a que foi submetida, tem uma acuidade visual excelente. Isto nos motiva a empregarmos todos nossos esforços para, primeiro salvaguardar sua integridade, e em segundo lugar preservar o olho remanescente. Diante da falta do quimioterápico e da urgência que temos para fazer o procedimento resolvi entrar em contato com O Hospital Santa Marcelina para fazer os seguintes questionamentos:



O Santa Marcelina tem em seus estoques o melfalano?



Tendo o medicamento, haveria alguma forma de nos vender, emprestar (até que o laboratório mande a dose) ou ceder, pelo menos para este primeiro ciclo?



E por fim, não haveria uma maneira de retomarem este tratamento e sua eventual continuidade, não apenas pela Luana, mas pelas tantas crianças que não têm a mesma possibilidade de luta que nossa família tem?



Não sei como conseguimos chegar até aqui (tanto financeira quanto emocionalmente) isto faz com que eu nutra um profundo respeito pelo Santa Marcelina e pelas pessoas que fazem este hospital e que se dedicam para oferecerem uma alternativa de tratamento aqueles incontáveis brasileiros que não podem pagar os altos custos da medicina particular para ricos, mas infelizmente, diante de tanta demanda, às vezes tais esforços parecem insuficientes. É por isto que confio, que se houver alguma maneira de ser atendido, meu pleito não será em vão.



Luiz Mendes