Sunday, June 15, 2014

Um diálogo possível entre amantes

— Quase esqueço da descarga.
— Baixou a tampa?
— Acho...
— Vai lá. Não podemos deixar vestígio, ele é tão bom, morreria se alguma coisa o magoasse.
— Não por menos! Minha patroa também é uma santa.
— Uma anta! Pra te aturar...
— Fala assim não.
— Tal e qual.
— Agora que me usou...
— Tá bom! Você até que é bem gostosinho, um diabinho, mas só na cama. Só assim me interessa.
— Gosto tanto de ti. Sua ingrata.
— Gosta uma ova. E se gosta, desgosta, não sou mulher pra você.
— Mas a gente se dá tão bem.
— Só na cama, já disse. E pára de lenga-lenga, tu tem tua família, eu a minha, não complica o que tá bom.
— Que tal um churrasco lá em casa. Leva ele e as crianças, os pequenos se dão bem, iam brincar um montão.
— Deus me livre! Tá vendo, tu não tem ideia que se aproveite.
— Nem é assim. Pensa, quanto mais naturalmente agirmos, melhor será e vocês já foram lá em casa, a Ana até pergunta quando vamos marcar algo.
— É, talvez. O Jorge também já perguntou por que não fizemos mais nada.
— Então... Assim a gente se vê mais um pouquinho e ainda fazemos um agrado em casa.
— Talvez não esteja tão errado.
— Já vou ligar pra Ana, foi ao mercado. Mando comprar umas chuletas.
— Ué? Não atendeu...
— Vou ligar pro Jorge, ele foi levar o carro pra trocar o óleo.

— Também não atende...

LM

Sunday, May 11, 2014

José Francisco Traini, o reescritor dos clássicos

Miguel de Cervantes escreveu uma carta a Alonso Fernández  de Avellaneda, o obscuro escritor da outra segunda parte do Ingenioso Hidalgo Dom Quijote de La Mancha, mas a Providência fez com que a missiva se perdesse entre Madri  e Tarragona. Segundo a Cosmografia de Joannes Turpini (inquestionável escritor da lendária Historia de vita Caroli Magni et Rolandi), a carta teria sido desviada do seu destino por um dos tantos desafetos de Cervantes, ex soldados ou mesmo literatos do calibre de Lope de Vega, obscurecidos pelo Cavaleiro da Triste Figura, para ser usada contra ele, pois trazia vilipêndios e ameaças à vida do impostor de Tordesilhas. Continuando com sua trajetória marcada por inusual sucessão de ironias, a carta endereçada a Avellaneda acabou por parar nas mão de um incrédulo  Pierre Menard. Incrédulo por não crer na autenticidade do documento encontrado dentro de uma réplica do Codex Regius islandês, comprada de um livreiro em Paris.
Menard, ao que tudo indica, guardou a carta, tida como falsa, por vinte anos, até o dia em que leu nos  Prologos Con Un Prologo de Prologos, de Borges,  o texto Miguel de Cervantes, Novelas Exemplares  e percebeu que a aparente ausência dos traços da escrita de Cervantes no manuscrito, poderiam ser explicados pela dupla personalidade construída entre a espada do soldado e a pena do escritor. A carta havia sido escrita pelo soldado. A partir daquele instante, Menard começou a conceber sua obra, inacabada, impossível até. Menard abandonou sua vida para viver a de Cervantes, ser Cervantes, escrever, não semelhante, mas idêntico, como ele escreveu, sem, no entanto, fazer uma mera cópia. Impossível, assim como é impossível ser original tendo lido, Homero, Shakespeare, Dante e Szép Ernö.
Estes parágrafos sobre a carta de Cervantes e a empreitada utópica de Menard, ambos conhecidos da maioria dos leitores de literatura latina, servem como prólogo para alguns fatos dignos de nota da história do bibliotecário José Francisco Traini, a quem travei conhecimento por conta de certas pesquisas acadêmicas que desenvolvi há alguns anos.
 Traini, como o manchego, afundou-se na leitura de apenas um tipo de livro. Exercia sua profissão em uma biblioteca, não como as outras, mas uma especializada em resumos de obras literárias, oferecidos aos estudantes de cursinhos preparatórios para vestibulares e concursos. Lia tudo quanto podia da biblioteca e após tanta leitura resumida, fez fé de serem aquelas diminutas obras, como sendo as versões inteiras e pôs-se a imaginar como poderiam ser se completadas fossem, caso seus autores não fossem tão preguiçosos. Não saberia precisar como se deu, mas o único livro completo que lera, foi a versão tarragonesa do Quixote.  Lida a versão compacta da história do Cavaleiro da Triste Figura e o outro Quixote, que não de Cervantes, Traini, tal qual Menard, pôs-se em intento de reescrever o Quixote, mas em sua imaginação, o que Cervantes não teria escrito.
Pouco versado em espanhol antigo, menos ainda em longas narrativas, mesmo assim Traini concluiu sua primeira obra, intitulada Os detalhes do Dom Quijote que Cervantes não escreveu.  Desnecessário falar que Traini não obteve o mesmo resultado obtido por Menard, muito menos ter emulado a de Cervantes mesmo assim, não obstante às críticas pouco lisonjeiras, a obra trainesca obteve boa aceitação do público, incentivando-o a nova obra, A divina comédia que Dante pensou que, igualmente à publicação anterior, alcançou certa projeção comercial.
Estudei algumas das publicações de Traini e, para escrever um capítulo de minha tese de Pós Graduação em História da Literatura, entrevistei o autor e percebi o equivoco que os leitores deste engenhoso escrevedor de livros já escritos andaram e andam a cometer: eles tomam por obra complementar, como se um resumo estendido, ou coisa que o valha, a obra que Traini imagina ser a obra que os indolentes autores não escreveram. Aconteceu até de, aprofundando minha pesquisa, encontrar um leitor que comparou as reescritas de José Francisco Traini ao Ulisses de Joyce: “São versões traduzidas para nossa linguagem, nossas referências culturais, ultrapassando uma transversalidade temporal, para se assentarem como invectivas à modorra tradicionalista.” Asseverou o entusiasmado leitor.
Apresentei a Traini uma cópia da carte de Cervantes a Avellaneda, bem como de exemplares das obras (não dos resumos) e tentei demostrar como o que ele estava fazendo era um auto-engano que acabara por iludir muitos (senão todos) dos seus leitores. Senti-me o próprio cura tentando demostrar a Dom Quixote como a cavalaria andante não passava de basófia e juro como não pude deixar de associar aquele bibliotecário cinquentão, rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto e, possivelmente por obra da minha imaginação, madrugador e amigo da caça, ao próprio fidalgo Quijada, ou Quesada. Invoquei os mais ponderados argumentos, citei diversos autores e filósofos e ele apenas escutava-me, passivo. Por fim tomou a palavra.
“Caro estudante, estimo muito que me tenha tomado por objeto de estudo em um de seus mui qualificados capítulos da sua, certamente, magistral exegese da nossa literatura, entretanto devo lhe questionar: o que prova esta carta? O que acrescenta às minhas obras estes tomos de grossos volumes? Se já foram escritos, como o senhor o diz, há centenas de anos, escritos estão, e minhas obras, já saídas do prelo, igualmente, acabadas estão. Não quero desmerecer suas pesquisas, mas quem lê minha obra estará lendo um Dom Quixote errado? Qual é o Ulisses certo? E o inferno, qual arde mais, o meu ou o de Dante? A ordem cronológica é o que basta para qualificar uma obra? A que primeiro foi feita será invariavelmente a certa, ou melhor? E se fossem encontrados manuscritos datados de dois mil anos, dando conta de uma história, se não igual, ao menos semelhante a do Dom Quixote? Esta seria a versão correta? E por fim, caro estudante, quem é mais impostor: quem finge escrever a realidade, ou quem finge acreditar na ficção?”

Não alonguei mais minhas argumentações, agradeci a solicitude e voltei para meus estudos. Fui reprovado pela banca na apresentação do meu trabalho final da pós-graduação. 

LM

Sunday, March 23, 2014

O caçador

Estava recostado em sua poltrona de couro vermelha, na mão um copo de Bourbon, gostava de admirar seus troféus de caça enquanto bebia. Cabeças de leão, tigre, elefante, rinoceronte, alce, urso, empalhados crocodilo, condor, águia, sucuri, onça além de muitas armas. Teria pensado em ler alguma coisa, mas o sono o desestimulara, ficaria bebendo mais alguns minutos. Lá fora um temporal, estava contente, também gostava de ficar ouvindo a chuva e o vento fustigando a sólida casa, sentia-se protegido de tudo. As luzes apagaram, era normal quando ventava. Ouviu um som, umas batidas na janela, como se alguém quisesse entrar. Devia ser apenas um galho açoitado pelo vento. As batidas continuaram, lembrou-se do corvo de Poe, do tempo de estudante, quando acreditava em amores e ainda lia poesia, mas era só um galho, nada mais do que um clichê. Um que outro relâmpago ameaçava iluminar a sala, lembrou de quando começou a caçar, de como se sentiu poderoso matando e como era fácil matar, Encheu mais uma vez o copo, outro relâmpago, mas desta vez não iluminou apenas o imobilismo, teve a impressão de ter visto alguns animais se moverem. Quase teve certeza de ter visto o tigre abrir a boca e o elefante erguer a tromba. Não sentia medo, mesmo assim ficou incomodado com a demora em retornar a energia. Acendeu uma vela e enquanto riscava o fósforo pode ver o crocodilo mover a cabeça. A batida na janela recomeçara mais forte, resolveu ver o que era e foi iluminando o caminho com a vela, quando abriu a janela um imenso corvo, de uma negrura vertiginosa, voou para dentro, indo pousar sobre a cabeça do tigre. Era apenas mais um clichê, não se deixaria abalar. Voltou para o conforto da poltrona, conferiu sua faca na bainha e a pistola no coldre e encheu mais um copo. Um velho corvo procurando abrigo, nada de nevermore. Recostou-se pesadamente, os animais voltaram a exibir movimentos, sacou a pistola e atirou, atirou, atirou, não mais como o frio caçador. Os disparos acertaram os animais mortos, a cabeça do alce caiu da parede e o condor teve uma das patas arrancadas, uma mão de macaco cai no seu ombro. Pega a faca e desfere violento golpe que sem ter inimigo a acertar, perfura o próprio braço. Sangra em profusão, procura algo para estancar, levanta e escorrega no chão viscoso. Fica parado um tempo indefinido, tudo não passa de alucinações, tem de manter a calma, o ferimento continua a sangrar e ainda deitado consegue fazer uma atadura com um pedaço de cortina, enrola como pode o braço lacerado e tenta se levantar, não consegue. Pela primeira vez sente o medo verdadeiro, estava vulnerável, ferido, imobilizado, desarmado. Manteria a calma, olhou ao redor e sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo, o corvo continuava sobre a cabeça do tigre. Ou era alucinação provocada pela escuridão, pela bebida, a perda de sangue? A alucinação se corporifica, o corvo voa em sua direção e pousa sobre seu peito, era maior do que imaginava, tenta gritar, grita, mas a ave não se move. O corvo perfura com o bico o peito do caçador, até atingir o coração.
               

LM 

Monday, March 10, 2014

Vigília

Na primeira noite adormeci com a caneta entre os dedos e algumas folhas no peito. Sonhei que escrevia o silêncio. Quando acordei encontrei as folhas em branco.
Na segunda noite, antes de pegar no sono, escrevi no alto de uma das páginas a palavra sonho, adormeci e sonhei que escrevia a minha própria morte. Desperto, vi uma palavra cuja pronuncia ignoro e de significado desconhecido. Estava escrita logo abaixo da palavra sonho. Senti um inexplicável temor por estar diante de uma palavra indecifrável, mas temi ainda mais descobrir seu significado.    
            Na terceira noite, vacilante, peguei a folha das noites anteriores e antes de adormecer tentei listar mentalmente minhas virtudes para, em seguida, coloca-las no papel. Perdi a consciência antes de justificar a primeira virtude. Sonhei minha vida e ao acordar procurei pela folha. Li e falei em voz alta a impronunciável palavra da segunda noite e então, descobri seu significado, mas isto é vedado aos vivos.


LM

Tuesday, February 25, 2014

Homo Sacer

Não ficarás impune
Mesmo que tua culpa
Não seja maior do que
O tempo do orgasmo

Não receberás perdão
Ainda que se autoflagele
Se mutile e se anule e
Se arrependa de ter vivido

Não! A ti não cabe
Consolo, tampouco
Adentrar à casa de Beatriz
A ti, cuja pouca poesia,
Sequer comporta uma Dulcinéia
Resta o exílio nos lugares-comuns e

Nas mentiras

LM

Sunday, February 16, 2014

Os improváveis Setenta e Dois Carrascos de Constantinopla



Após o anúncio da vitória definitiva, o general chamou seus oficiais. Naquela noite beberiam e brindariam à coragem de seus exércitos. Os soldados que não estivessem no corpo de sentinelas ganharam folga e se embebedariam nos prostíbulos outrora frequentados pelos inimigos. Amariam as mulheres dos vencidos e beberiam seu vinho até se fartarem.
A última batalha foi a mais longa e mais sangrenta, como não poderia deixar de ser, pois na história destes dois exércitos não caberia uma luta comum, não havia espaço para derrotas ou vitórias negociadas, era morrer ou vencer. Em meio a estripamentos e degolas, o grupo conhecido como os Setenta e Dois Carrascos fazia a substancial desvantagem numérica dos vencidos não ser relevante. Eles lutavam como máquinas, precisos, frios, sem paixão, com eficiência cirúrgica. Não pareciam fazer grande esforço para dizimar companhias inteiras. Não poupavam inimigos feridos, tampouco auxiliavam seus próprios companheiros exangues, apenas lutavam. Em um momento que cronistas menos afeitos às guerras chamariam de calor da batalha, o líder dos carrascos foi interpelado pelo imediato do comandante, este lhe sussurrou algo, em seguida reuniram-se, guardaram suas armas e deixaram a batalha. Os demais soldados vendo a aparente fuga dos seus melhores guerreiros esmoreceram e debandaram como insetos assustados. O resultado da batalha estava decretado e os fugitivos  receberam a morte pelas costas  enquanto  os que ficaram para lutar, ao menos puderam morrer com honra. Ao final, dos quinze mil homens, pouco mais de duzentos foram poupados, para contarem como seu exército foi esmagado. Nenhum vestígio dos setenta e dois carrascos foi encontrado, não se sabe se sobreviveram à fuga e há quem afirme terem rumado para as altas montanhas do leste.
Os poetas cantaram canções, menos para louvar as glórias dos vencedores, mais para escancarar a infâmia dos Setenta e Dois Carrascos. A história se espalhou e a vitória passou a ser minimizada, até mesmo ridicularizada: cantava-se que o general só obteve a vitória, mesmo com um exército duas vezes mais numerosos e melhor equipado, após a deserção dos Carrascos, estes, por sua vez, tiveram seus nomes associados à covardia e vilania, teriam aceitado subornos, suas casas foram marcadas com frases de desprezo e suas famílias tiveram que emigrar para terras distantes onde ninguém os reconhecesse nem evidenciasse sua indignação.  A história destes setenta e dois desertores atravessou mares e há comentadores — entre eles W. Smithson— que atribuem certa influência desta sobre os relatos dos feitos sobre o heroísmo dos Quarenta e Sete Capitães liderados por Oishi Kuranosuké, o conselheiro.
O dia da batalha ficou marcado nas páginas dos cronistas: 02 de março de 1449 e as versões da história ganharam cópias, uma delas, feita pelos copistas do Mosteiro de Vivarium e ornada com ricas iluminuras pode ser conferida ainda hoje no Museu de Bargello. Ali está registrada a narrativa de uma das mais improváveis façanhas militar. Uso o termo improvável no seu mais remoto sentido, de não se poder provar e seguirei as notas de Smithson, que atribuem a queda de Constantinopla aos desdobramentos da batalha ocorrida quatro anos antes.
O imediato do comandante teria dito ao líder dos Carrascos: “O Altíssimo revelou ao profeta que a Terra arderá e gelará quatro vezes antes de a Justiça Divina recair sobre os hereges, poupe o sangue dos infiéis agora e faça-os se afogarem na própria soberba.” Iluminado por Alá, o líder, cuja humildade só não era maior do que sua bravura resignou-se. Apagaria seu nome da história, seria vilipendiado para perpetuar o nome de Maomé, ainda que na pessoa do sultão Maomé II.
Refugiaram-se os Setenta e Dois Carrascos, mitigaram as feridas de suas almas e colocaram o plano Divino em curso. Dividiram-se em doze pequenos grupos e rumaram para coração do império inimigo. Se instalaram em Constantinopla como se fossem mendigos, aleijões, mercadores, poetas e desaparecerem completamente nas poeiras da cidade até o início dos ataques.
Aproveitando a escuridão do eclipse lunar, se reuniram na noite de 24 de maio de 1453, em um estábulo, tendo como testemunhas alguns cavalos e não mais do que dois ou três montes de feno, portanto, improvável, ainda que verídico. Na noite seguinte derrubaram um dos ícones da Virgem Maria no chão, precipitando o segundo sinal de pavor nos bizantinos, o primeiro a natureza, na forma do eclipse, se havia encarregado, assim como o terceiro, na forma de granizo.
Como os ataques do exército turco encontraram mais resistência do que o esperado, os Carrascos puseram-se em ação novamente, mas não poderiam simplesmente desembainhar suas espadas e singra-las como se loucos, agiriam como sempre, como máquinas, frias e precisas. Portaram-se como assassinos, eliminando alvos específicos, capitães, generais, bispos. A muralha já violada pelo canhonaço, o imperador bizantino Constantino XI Paleólogo, tão desestabilizado quanto suas tropas, agia agora como um mero soldado, espada em punho, incitando seus homens a não perderem a coragem e a fé.
Por fim os Carrascos conseguiram abrir o portão da muralha noroeste, precipitando o fim da resistência, neste momento, Constantino XI Paleólogo, enlouquecido ante a derrota, encontra o líder dos Setenta e Dois Carrascos, cujo nome jamais saberemos. Este desferiu seus infalíveis golpes no imperador derrotado, antes porém de tirar sua vida, aproximou-se e diretamente em seu ouvido lhe disse: “Eu perdi meu nome, minha família, minha honra ante os homens para poder estar aqui neste momento e atravessar a espada de Alá no coração do inimigo do Islã, trouxe comigo setenta e um dos mais valorosos soldados, vagamos como indigentes, passamos frio e fome, quebramos sua santa e abrimos seus portões. Daqui, eu e meus homens desapareceremos para o mundo e para a história, falo isto para lhe mostrar como as glórias deste mundo são vãs e efêmeras e para lhe propor:  Se aceitar Alá eu o pouparei.”

O imperador bizantino nunca mais foi visto, historiadores atribuem sua investida, de espada em punho contra o exército turco a causa do desaparecimento. Também os Setenta e Dois Carrascos jamais foram vistos, ou se ouviu falar deles.

LM

Monday, February 10, 2014

Antônia



Não era habitável! Assim falavam, carregados de certezas, marinheiros e aventureiros, também havia rumores sobre perdas de sanidade mental dos que se aventurassem por aquelas terras. Ao vaticínio de inabitável, impus-me o desafio, não sem receios, de ali me estabelecer. A tarefa de circundar sua costa em busca de um porto receptível foi realizada em não menos do que oito meses. Após escrutar com toda diligência, escolhi uma enseada ao sul da ilha como sendo o local de aspecto mais amigável e acolhedor. Ponderei ser ao sul a porta de entrada dos mais gelados ventos, mas optei pelo frio, em detrimento das constantes tormentas observadas ao norte e dos rochedos a leste e oeste. De qualquer maneira, em qualquer dos lados, o que primeiro podia ser percebido eram as constantes mudanças de humores da ilha, ora com mar calmo e brisa suave a chamar barcos e baleotes, ora com vagas golpeando-se com ventos enlouquecidos. Tão repentino quanto começava, uma tempestade carregada de chuvas se transformava em uma linda e ensolarada tarde.
Por algum capricho, ou para sentir-me em um local familiar, não desembarquei sem antes ter um nome para a ilha: Antônia.  Não ouso a pensar em Antônia sem ser a formação insular, não ouso por em curso lembranças de uma outra Antônia, me basta navegar e desembarcar em inabitável ilha, o nome, assim quiseram ou deuses.
Fui paciente, perseverei calado em sinal de aceitação do meu destino. Com tempos de calmaria se alternado a ventanias, aprendi a enraizar-me, a resistir aos ataques de fúria e a isto sucederam minhas primeiras recompensas. Descobri não haver vestígio algum de humanidade, era o primeiro homem em Antônia, o primeiro a explorar sua geografia exuberante, seus montes e suas profundezas, a mergulhar em águas cheias de vidas e a sobreviver daquilo que ela me oferecia. Descobri fontes arcadianas e provei frutos de nos fazer sonhar, aos poucos ela se revelava e revelava pequenos tesouros e após nove anos já conhecia quase todos seus limites.
Não havia mais nada que valesse a pena ser descoberto, mesmo assim eu insisti em continuar a buscar algo mais, algum detalhe que me havia escapado, algum regato, ou caverna com novas maravilhas. Deparei-me com uma gruta até então ignorada. Não era um caminho novo, já havia estudado aquele bosque, já o havia catalogado, mas jamais percebera a gruta. Estava tão bem assentado em minhas certezas cimentadas pela rotina que me desacostumara das surpresas, imaginava ter compreendido os ciclos das tempestades e as demais inconstâncias do clima. Esta nova gruta era um desafio inesperado e indesejável.
Não foi de imediato que comecei a explorar a gruta, pelo contrário, procurei esquece-la, adiei a incursão por dias, semanas e meses, penso mesmo ter esquecido, ou simulei o esquecimento e continuei minha vida. Ao cabo de muitos meses, distraia-me a colher frutos pelo bosque quando percebi estar em frente a entrada da gruta. Ensejei novo adiamento, inútil. Com poucos passos estava em seu interior.
Conjeturei ser o propósito de Antônia manter segredo, mas logo descartei parcialmente tal pensamento, ela manteve o segredo pelo tempo que quis. Talvez eu não devesse mesmo vasculhar certas passados, mesmo suspeitando ser sua vontade revelar-se quando sentisse vontade. Bastava um vento noroeste mais persistente, ou uma das chuvas de janeiro, para a entrada da gruta ficar exposta.
No interior da gruta encontrei objetos feitos por mãos humanas, habitantes anteriores a mim que deixaram registros de suas passagens. Havia caixas cheias de  utensílios como copos e facas, também havia joias, muitos retratos, cartas e diários que não me atrevi a ler. Por um instante formulei a hipótese de se tratar de algum esconderijo de saqueadores, utilizado para ocultar o produto de seus ataques, mas indo mais para o fundo da gruta descartei tal ideia, os donos daqueles objetos ainda estavam lá, exibindo os dentes em um macabro sorriso. Enfim Antônia me recebia e me dava seu último abraço.

LM

Wednesday, January 15, 2014

Um cachorrinho ruivo

Lembro-me de um conto de Clarice Lispector sobre um cachorrinho ruivo com uma menina ruiva. Lembro por ter visto um cachorrinho ruivo hoje, alegre, abrindo voluntariamente a boca para que a língua pudesse ficar dependurada, ora de um lado, ora do outro. Se há sentimento nas almas caninas, este cãozinho ruivo estava sentindo-se verdadeiramente feliz. Coleira verde ao pescoço, pelo curto brilhante, bem nutrido, certo ter escapado há pouco, eis o motivo da alegria, livre, agora conheceria o mundo e a barriga ainda estava cheia. Saltava de um lado para o outro, cheirava um transeunte, ameaçava seguir outro, voltava correndo. Estava pleno.
Apareceu a menina da minha história, não ruiva como a de Clarice, mas com a morenice herdada das senzalas. A menina parou e o cãozinho ruivo veio, inteiro faceirice, se abaixava nas patas da frente, como se ameaçando um bote, empreendia corrida ao redor dela, dava latidinhos curtos, era feito para ela. A menina não andava só, sua mãe interrompe sua ida para algum lugar e a chama. Não estou perto suficiente para ouvir a conversa, mas entendo quando vejo a menina apontar para o cachorrinho e olhar para os lados. Perdido, sem ninguém por ele, carros passando muito rápido na rua.
A mãe também olha o entorno, procura algo, ou alguém, me avista, volto meu olhar para meus afazeres, que não eram mais importantes do que ler o jornal. As notícias não me interessavam, mesmo assim afundei-me nas páginas. Fiquei um tempo atrás do minha trincheira, quando saí via a menina e a mãe caminhando para algum lugar, a pequena ainda parou e deu uma última olhada para trás. O cãozinho ruivo continuava com sua alegria, seguia um senhor circunspecto, como se lhe imitasse os passos graves, logo deixou o senhor circunspecto e cercou um rapaz, provocando-o para uma corrida ou mesmo para uma luta.
Por um lapso de tempo impreciso, que poderia ser de uns minutos, ou de uma vida, pensei em como o cãozinho poderia ser feliz em minha casa, poderia brincar todos os dias com minha filha e aos sábados ela e a mãe lhe dariam banho de mangueira e se molhariam tanto quanto o pestinha. Claro, mesmo limpinho, não o deixaria entrar em casa, mas faria uma bela casinha, com bom telhado a ser colocada sob a goiabeira e lhe daria bons ossos e até algum pedaço de carne das sobras do churrasco de domingo. Sim, o danadinho poderia ser muito feliz em minha casa, seríamos todos felizes. Afundei-me novamente no jornal e só tornei a sair quando se passara tempo suficiente para alguém ter se apiedado de um bichinho tão simpático e ingênuo, ao ponto de tê-lo adotado. De fato não o vi.
Pude voltar para minha vida. Fui caminhando com um certo aperto no peito, coisa boba, era só um cãozinho. O aperto era pela família que inventara. Quase pensei serem lembranças aqueles sonhos, serem sentimentos os delírios e serem pessoas fragmentos de solidão. Não há mais tempo para uma família. Se a tive, esqueceram-me. Continuo a andar e encontro novamente o cãozinho ruivo, boca mais aberta ainda, língua bem comportada: estava estendido no meio da rua, envolto em vermelho.
Não vi a menina e sua mãe, nunca mais as vi, nem as que dariam banho no pestinha aos sábados.


LM

Sunday, December 08, 2013

Soyez les bienvenus

O estrangeiro que desejar conhecer Joinville não se decepcionará. Trata-se de uma cidade onde tudo e todos estão em seu lugar, cada morador também sabe qual seu papel dentro da organização social. Além disso, existem inúmeras atrações turísticas e belezas naturais dignas de nota, sem falar no efervescente cenário cultural em constante atividade. Claro, existem alguns pequenos inconvenientes, nada de muito grave, mas que deve ser anotado, para não se criar a falsa expectativa de um lugar absolutamente perfeito.
Primeiro vamos às principais qualidades para, ao cabo, enumerarmos seus poucos inconvenientes.
Uma cidade, todos sabemos, não é feita apenas de praças e monumentos (abundantes em Joinville), mas principalmente por seu povo e isto é o que há de melhor em nossa terra. Como dito no introito, cada qual sabe lugar e seu papel e todos são muito ordeiros e trabalhadores e principalmente, do Bem. Se não vejamos: trata-se de uma cidade próspera, a maior e mais rica de nosso estado, mas ainda assim alguns elementos (poucos) insistem em manterem-se alheios à esta pujança, são moradores de alguns bairros mais afastados. Não obstante à sua falta de iniciativa e esforço para compartilharem da prosperidade citadina, estes indivíduos, ao menos sabem seu lugar e acham por morar uns próximos dos outros, em locais afastados do centro, deixando a cidade mais bonita, sem que o estrangeiro se depare com casas desleixadas e tipos molambentos.
Outro exemplo gritante da ordem do nosso povo diz respeito aos protestos populares. Ao longo da história muitos foram os levantes populares e muitos desses culminaram com o engrandecimento da nação, como no exemplo francês. Aqui não poderia deixar de ser diferente, quando o povo não se sente plenamente representado pelas autoridades que receberam seu voto no sufrágio universal, saem às ruas para exigir seus direitos de cidadão. Isto enriquece a democracia e fortalece a cidadania, mas tudo tem um limite, pois os manifestantes jamais ocupam ruas e praças públicas sem antes pedirem a autorização dos órgãos competentes e o auxílio da polícia. Os órgãos competentes concedem, então, um alvará para a realização da manifestação, que terá hora e local previamente determinados para começar e terminar. Já a polícia, fará a sinalização das ruas, afim de evitar congestionamentos no trânsito e aborrecimento aos motoristas alheios aos protestos. Finda a manifestação, cada um segue ordeiramente para sua casa.
Temos dois luxuosos teatros, erguidos pela iniciativa de nossos governantes, com recursos públicos muito sabiamente empregados: um para eventos esportivos, outro para culturais. Sendo ambos públicos, o acesso do povo é irrestrito, devendo apenas, em dias de espetáculos, o espectador pagar um módico ingresso, para fins de manutenção do local e custear a atração ora apresentada. Assim, com cerca de meio salário mínimo, uma família composta por pai, mãe e um filho, poderão ir à vontade, sempre que tiver uma atração esportiva (o futebol é deveras apreciado), ou uma das tantas peças teatrais que jamais deixam de perfazer o eixo Rio-São Paulo-Joinville. No nosso teatro, ocorre ainda o maior festival de dança do mundo, prestigiado por toda a população que se envolve de maneira exemplar e prestigia cada apresentação. Ninguém, nem mesmo os moradores das zonas mais distantes ficam alheios a este mega-evento cultural. E como de costume, qualquer um pode prestigiar as apresentações, pagando o tradicional módico ingresso.
A natureza também nos favorece e a ela prestamos sempre nossa reverência e respeito. Exemplo disso é a sede do poder local, a prefeitura, erguida às margens do nosso principal rio, o Cachoeira. Todo visitante que for à prefeitura poderá perceber nosso zelo, pois ao longo das margens do rio, além da própria prefeitura, erguem-se monumentos, praças, calçadões, tudo para homenagear aquele que foi o primeiro caminho por onde vieram nossos Ancestrais Europeus.
Também somos muito bem servidos no que tange a alta gastronomia, não devendo nada aso principais centros europeus. Muitas sãos as opções, desde o tradicional churrasco, passando por comida japonesa, italiana, chinesa, grega (nosso arroz à grega é mundialmente famosos), árabe, francesa e internacional. E tudo muito acessível a todos os bolsos. Aquela família que foi ao tetro, após o espetáculo poderá jantar, como se no Velho Continente estivesse, gastando pouco menos de meio salário mínimo, ou seja, poderá enriquecer imensamente o espírito e satisfazer a carne plenamente, sem precisar comprometer seus rendimentos mensais.
Apesar de tantas oportunidades de acesso aos eventos culturais e gastronômicos, muitos ainda mantêm-se arredios em saírem de seus bairros, preferindo manterem-se distantes do centro, o que não é de todo ruim, pois evita que se agrave o já preocupante número de congestionamentos no trânsito.
Preocupado com alguma possibilidade de o povo não participar ativamente dos eventos da cidade, o poder público, para as festas de Natal, montou uma suntuosa decoração com motivos natalinos, em um local estratégico: bem ao lado do terminal urbano de ônibus. Estratégico pois fica em uma ampla e bela praça, e como dissemos, ao lado do terminal de ônibus, além de ser de acesso inteiramente gratuito. Para ver as maravilhas que ali foram instaladas, qualquer família pode pegar o ônibus e, a poucos passos do desembarque poderá ver bonecos de neve, caixas coloridas, Papais Noel, um presépio, tudo ao ar livre. O sol escaldante de dezembro diminui um pouco o afluxo de visitantes durante o dia, mas à noite, as constantes chuvas de verão refrescam o local e permitem maior conforto para a população.
No local encontramos também, uma completa praça de alimentação, composta pelas mais variadas ofertas de guloseimas e petiscos: pipoca, algodão doce, espetinhos, milho cozido, morango com chocolate e muito mais. Como a visitação é gratuita, todos podem saborear sem preocupações monetárias as delícias oferecidas por verdadeiros chefs da cozinha popular.
Vale destacar, ainda sobre a decoração natalina, outro aspecto do local pensado em todos os detalhes. Falamos en passant dos ônibus. Pois bem, como descrito, a praça fica ao lado do terminal urbano, e além dessa estratégica proximidade, temos um serviço de transporte coletivo dos melhores do mundo, além de muito barato. Qualquer um pode ir a qualquer lugar da cidade, sempre com muito conforto e rapidez, pagando apenas uma simbólica passagem. Ou seja, não existe desculpa para que todos participem ativamente dos eventos da cidade. Afinal, permitir que mesmos os moradores das áreas mais afastadas do centro se desloquem para qualquer lugar, não apenas com o vale-transporte oferecido pelos empregadores para que não tenham desculpas para faltas, isto sim é incentivar a democracia e a cidadania. Vive Joinville!
Fiquei de falar dos defeitos de Joinville, mas ainda que precise me esforçar para encontra-los é uma obrigação moral de qualquer pessoa do Bem fazê-lo. Existem na cidade, shoppings centers que não são exatamente uma referência às nossas tradições, pois lembram em demasia os melhores shoppings de São Paulo. Isto, que muitos poderiam louvar, não é favorável à cidade, pois se um estrangeiro que desembarque em nosso grande aeroporto, tomar um táxi até um desses centros de compra, poderá ter a falsa ideia de que Joinville é igual a qualquer outra cidade próspera da Europa e perderá o interesse em conhecer nossas tantas outras maravilhas.
Nem precisaria falar dos já mundialmente conhecidos adjetivos de Joinville, mas farei apenas brevemente: somos a Cidade dos Príncipes, nossa tradição nobiliárquica é notória, exemplo é nosso nome, oriundo do Príncipe de Joinville, que se não fosse a ignóbil esperteza de Luís Napoleão, teria unificado as casas de Orleans e Bourbon  e sido conduzido ao trono da França;  Cidade das Flores, pois além da tradicional Festa das Flores, em cada casa, em cada praça, em cada recanto da cidade, podemos encontrar os mais belos e floridos jardins;  Cidade das Bicicletas, aqui abundam ciclovias seguras e impecáveis e como nos mais avançados centros europeus, nosso culto povo sabe dar valor aos pequenos prazeres da vida, como uma agradável pedalada às margens do Rio Cachoeira; Manchester Catarinense, como a homônima cidade inglesa, é visível a pujança histórica de nossa portentosa indústria, erguida pelas mãos valorosas dos colonizadores Europeus e mantida com inegável progresso pelos seus descendentes.
Eis um pequeno retrato de Joinville: sejam bem vindos estrangeiros, especialmente do Velho Continente, que poderão ver os frutos das sementes plantadas por nossos ancestrais comuns.   

LM

08/12/2013

Sunday, December 01, 2013

Pequena história canina

Não teve o som de palavras, simplesmente enfiou um tapa na minha cara. Fechei com violência minha mão: com um soco quebro aquele nariz esnobe. Algumas pessoas distribuindo folhetos de religião nos olhavam. Se desse o soco, chamariam a polícia, melhor resolver isso depois.
— Sua puta louca! — Falei entre os dentes, enérgico sem gritar. Os crentes nos vigiavam.
— Você é um cachorro! Um cachorro vadio e sarnento que só me procura quando quer dar um trepada.
— Cachorros vadios só vão atrás de cadelas no cio.
Outro tapa. Desviei, se levasse mais um não iria dar a mínima para os crentes. Se aproximavam, disfarçadamente.
— Se tentar me bater mais uma vez, juro pela virgindade de Nossa Senhora que eu te arrebento aqui mesmo.
— Não fique blasfemando, você nem acredita...
— E você acredita muito mesmo! Só esquece um pouquinho quando tá gemendo e uivando que nem uma cadelinha...
— Cachorro filho da puta! Seu merda!
Xingamentos. Sinal de que estava ficando com tesão.
— Deixa de besteira. Vamos sair daqui antes que aqueles crentes tentem nos converter.
— Você! Eu já frequento a igreja.
— Eu sei, sei que faz tudo direitinho, como manda padre, pastor, bispo, missionário.  É boa esposa, excelente mãe. Só de vez em quando se dá ao direito de aproveitar um quarto de hora, sem fazer mal pra ninguém, só uma relaxada e uma transa bem gostosa com teu cachorro. Uma cerveja. De vez em quando, Deus nem percebe, nem liga.
— Não fala assim de Deus, sabe que acredito.
Perto da praça tinha um hotelzinho, o de sempre. Melhor longe dos olhares santos.
— Vem cá minha cadelinha gostosa.
— Ui! Cachorro filho da puta. Tarado! Vai me deixar de quatro, dar tapas na bunda da tua cadelinha? Ela tá precisando de uma lição. Uma lição bem dura.
— Vou fazer tudo que minha cadelinha gostosa quiser...
— Todo cachorro tem sua cadela.


LM 

Sunday, September 01, 2013

Guia de Patologias

Da série Guia de Patologias
Por Chareles Trezinni
Repórter e correspondente especial da Revista Medical Care and Health 

Não me preocupo em encontrar curas, ao cabo, são ou enfermo, questão de tempo apenas, o fim é o mesmo. Desta forma, não alimentem esperanças de que as patologias aqui descritas serão seguidas de anúncios de curas.  Meu objetivo é a doença e em Campina Nalverdense, onde passei uma temporada escrevendo um tratado de filosofia que será publicado em breve pela editora Companhia das Letras, descobri as mais impressionantes doenças. Em Guam, a possível causa do daltonismo seria a farinha extraída a partir da cicadácea lá existente, mas em Campina Nalverdense, que nada tem de insular, as causas das bizarras afecções em suas gentes ainda é um grande mistério. Eis alguns exemplos:
Dermatite urticárica centralizada. É uma coceira insuportável exatamente no meio das costas dos pacientes. Isto obriga os indivíduos portadores deste mal a se contorcerem e coçarem-se com a unha do polegar. Se a doença em si não é tão absurda, o mais incrível é que 98,9% dos pacientes com dermatite urticárica central desenvolvem uma segunda patologia, o líquen plano ungeal apenas na unha dos polegares superiores. Coçar-se vira tarefa impossível e, não dispondo de algum utensílio apropriado, alguns indivíduos afetados por fortes crises de coceira, rolam pelo chão, esfregam-se nas colunas (desde que quadradas) ou, em casos extremos, precipitam-se do íngreme desfiladeiro Garganta do Diabo, acidente geológico dos mais impressionantes e grande atração turística da cidade.
Rinorréia mucopurulenta epistaxente. A rinorréia normalmente é um sintoma secundário de alguma outra enfermidade, entretanto nos casos dos nalverdenses, não se detectou nenhuma rinite ou outra doença primária. Outro fator de estranhamento, é que o muco produzido, acrescido do sangue da espistaxe, seca muito rapidamente, ainda dentro das narinas, fazendo com que os pacientes produzam uma quantidade absurdamente anormal daquilo que, no dito popular é conhecido como tatu, com a ressalva que nestes casos, a produção seja de dentro para fora. Há relatos de um motorista de ônibus, de 50 anos, que teria produzido 600 gramas de tatus em um único dia.  Assim como no caso anterior, uma doença secundária afeta 96,7% dos portadores de RME, a phalangite metacarpal de extrema, onde os dedos das mãos incham sobremaneira, impossibilitando os enfermos de escarafuncharem suas narinas com os dedos. Nas ruas da cidade é possível encontrar ambulantes vendendo um extrator intra-nasal, um aparato em forma de pinça, próprio para a extração dos tatus. Uma dona de casa, acometida por uma forte crise e sem auxílio de uma destas pinças, cortou o nariz com um a tesoura.
De todas as raras doenças de campina Nalverdense , a que tem causado mais estragos, tanto físicos, quanto psicológicos, é a hipertricose genital congênita, ou simplesmente HGC, cujo principal sintoma é o crescimento desmesurado dos pelos pubianos. O excesso de pelos naquela região traz muitos inconvenientes ao paciente, como sudorese, irritação da pele e da própria genitália, o que, se não for devidamente combatido, pode provocar a exalação de odores indesejados, além do aparecimento de certas parasitoses. Há que se imaginar ser possível simplesmente aparar os a indesejada massa capilar, entretanto, como nos exemplos anteriores, uma segunda patologia  acomete os portadores de HGC, o tremor essencial clássico bilateral simétrico seletivo, ou Tecbiss. Aparenetemente os pacientes com Tecbiss não apresentam disfunções neurológicas nem apresentam os tremores o tempo todo, —daí o termo seletivo no nome da doença— apenas quando aproximam as mão dos pelos pubianos ou adjacências. Esta característica incomum faz com que os pacientes portadores de HGC, quando tentam aparar os excessos de pelos, tenham crises de Tecbiss e, na maioria dos casos, acabam mutilando-se severamente. Estudos observaram que os pacientes têm os tremores aliviados com o consumo de álcool, mas isto não diminui o índice de mutilações, pelo contrário. Há relatos de mulheres que extirparam o clitóris e os lábios vaginais, sem falar das inúmeras emasculações.