Wednesday, February 01, 2012

Telesacanagem

Minha cabeça doía como se o cérebro tivesse sido chacoalhado em um liquidificador, lá fora uma guerra era travada, uma guerra por valores que eu desconhecia e por motivos ainda mais ignorados, liderada por homens desprezíveis e sustentada na televisão por campanhas jornalísticas. Já havia dado minha contribuição para aquela merda toda, já havia matado muitos inimigos e outro tanto de aliados, já havia deixado meu sangue e partes de meu corpo no campo de batalha, agora eu só queria tomar umas cervejas, dormir um pouco e depois dar uma trepada; comer uma porção de bolinhos da chuva, ovo frito e café preto. Não era pedir demais, não era nada demais para um veterano, que cagou com amigos, família, com a vida, defendendo os valores dos mesquinhos donos do poder, dos plutocratas e dos fantoches colocados em altos cargos, era só isso. Como meus desejos não se realizariam, não tinha jeito, precisava sair de dentro da espelunca alugada por 50 paus por semana e tentar arranjar alguma coisa pra fazer. Já tava sem grana, sem bebida, sem merda nenhuma nas tripas e com o aluguel atrasado, dona Clotilde não me deixaria mais uma semana sem mostrar algum dinheiro, ou já ter arranjado um trabalho. Fui à agencia de empregos: motorista, não tinha renovado minha carteira; ajudante de carga e descarga, muito velho pra esse tipo de serviço; pedreiro, nunca fiz um balde de massa; frentista, talvez sirva; repositor de supermercado, pode ser; repórter, joguei fora meu registro profissional; revisor de texto, legal; auxiliar de produção, desde que não precise fazer força; açougueiro, não, seria capaz de decepar meus polegares naquelas serras; vendedor, não tenho mais paciência; professor universitário, se não achar nada melhor vou até lá; telemarketing, que porra é essa? Vou encarar.

    Me colocaram em um curralzinho do tamanho de um ovo, não era possível descolar os cotovelos do corpo e se virasse o rosto para o lado batia com o nariz na divisória, na minha frente um teclado, uma tela de 10 polegadas e socado na cabeça os fones de ouvido e o microfone. Antes de ser entalado no curralzinho tivemos um extenso treinamento de um dia. Eu e mais uns vinte otários e otárias aprendemos a dizer "É um prazer receber a sua ligação, meu nome é Charles Trezinni. Em que posso ser útil?" ou, "Lamentamos o ocorrido, tenha certeza que foi uma falha pontual, vamos estar resolvendo seu problema em até 72 horas, caso não seja plenamente atendido, entre em contato novamente e vamos estar encaminhando o senhor para o departamento técnico." E outras baboseiras do gênero. No final das contas até que era legal trabalhar lá, não precisava ficar olhando para as fuças de ninguém, as ligações eram da puta-que-o-pariu e não tinha risco de algum daqueles milhares de clientes insatisfeitos entrarem porta à dentro sentando o braço em quem estivesse pela frente, e dava para ficar fazendo palavras cruzadas enquanto os trouxas do outro lado da linha pensavam que estavam sendo atendidos. Só não dava para não atender as ligações, tentei mocosar e não atender ninguém, fiquei fazendo de conta que falava com alguém, mas logo veio um sujeito dando cutucões nas minhas costas.

— Trezinni, se quiser ficar brincando posso te dar as minhas bolas como brinquedinhos. Atenda logo os malditos telefonemas.

Descobri que eles um controle de ligações e sabiam exatamente quando você estava trabalhando ou não e era bom cuidar com o que falasse, pois também monitoravam nossas conversas. Como devo ter um imã que atraí a escória, com o tempo começou a aparecer na minha mesa uma ligação mais absurda do que a outra. Era uma velha dizendo que seus filhos a abandonaram e há mais de cinco anos que não tem notícias deles; ou um caminhoneiro com o caminhão quebrado e sem nada para fazer enquanto o guincho não chegasse resolveu trocar a senha e contar umas vantagens e mentiras de suas aventuras na estrada; um viciado querendo falar com a mãe dele e outras esquisitices.

Me passaram para o turno da noite e neste horário as coisas só pioraram, mais malucos desocupados ligavam para zoar com a gente e eu, pára raio de bizarrices, os mais doidos pareciam cair justo na minha mesa.

— É um prazer receber sua ligação! Meu nome é Charles Trezinni, em que posso ser útil?

Uma voz —parecia de homem— respondeu quase sussurrando.

— Como você é neném?

Percebi a sacanagem e como não tinha nada melhor para fazer, entrei na brincadeira.

— Já não sou mais tão jovem, mas ainda tenho um ou dois truquezinhos na manga.

— Gosto de coroas safados, gosto de brincar com aquelas bolas murchas enquanto minha boca suga toda sua alma.

Não me agradou muito a idéia de um marmanjo brincando com minhas bolas murchas, mas como o traste deveria estar do outro lado do país continuei com a viadajem.

— Minhas bolas e todo o resto são bem menos murchas do que você pensa benzinho, posso te arrombar com uma fincada bem dada.

— Ui! Seu velho lobo! Safadinho! Garanto que também vai gostar do meu brinquedinho, também posso dar uma metidinha gostosa, senti que tu é do tipo que não rejeita uma boa sacanagem, não importa de que lado ela venha.

A bicha agora tava querendo me comer, ainda bem que estava protegido em meu curralzinho, a quilômetros do safado.

— Sempre soube que você não era de negar fogo, seu velho sem vergonha, vamos nos divertir muito, mal posso esperar terminar o turno. Vamos dar uma escapadinha no banheiro?

O negócio começou a ficar complicado. Como assim "escapadinha no banheiro?", de onde diabos este tarado tá falando? Estiquei o pescoço por cima da divisória do curralzinho e olhei para os lados. Na outra fileira, lá no fundo, sentava um alemão ossudo de uns dois metros de altura, o rosto cheio de espinhas, ele quase nunca falava com ninguém e como eu também nunca falava com ninguém, pra mim tava bom. Quando olhei na direção do alemão ele tava levantado da cadeira olhando em minha direção, quando percebeu que o enxergara, deu um risinho maroto e uma acenadinha, com a maior mão que já vi. Me encolhi no curralzinho, deslizei pela cadeira e fui, quase gatinhando em direção à saída. Não voltei nem para acertar minhas contas e, para não ser despejado, tive de fazer uns serviços extras para dona Clotilde. Era menos pior do que ter aquele brutamontes espinhento pendurado nas minhas bolas e depois me agarrar com aquelas manoplas e me foder.


 

LM

Sunday, January 29, 2012

Pequenos contos de antes e outras fantasias

I

Luiz Eduardo dava bom dia, boa tarde ou boa noite para todos os passantes. Muitos achavam um mimo, mas, desconcertados, alguns senhores sisudos, apressados e acometidos de grave amnésia, respondiam impacientes ou, pior, simulavam não terem percebido. A gravíssima amnésia os fizera esquecer de quando tinham cinco anos.


 

II

Chamavam-no de Nego, uma forma carinhosa de não fazer esquecer a cor da pele. Quase negro, miúdo, assustadiço como um bichinho, tinha muitos irmãos e irmãs, mas poucas brincadeiras. Quase não se sabiam crianças.

    O inverno de 49 foi ardido e a pouca roupa se evidenciou, mas em compensação foi a estação que trouxe o primeiro caminhão visto por aquelas cercanias. Com estradas para bois puxarem seus carros, a máquina a gasolina pouco avançava com a terra feito lama. Nas subidas então, era só com muita estiagem. Nego e um de seus tantos irmãos se maravilharam com o ronco, com a cor, com os pneus patinando e tramaram para ele não ir embora. Fizerem emboscadas e a cada tope que precisasse de terra seca, saiam do mato e com cabaças cheias de água faziam a lama necessária para reter o caminhão. Quando o motorista desconfiou da burla, tiros na direção dos sabotadores afugentou as águas, mas não a lembrança do inverno de 49.


 

III

O cavalo tinha uma cabeça diferente e Luana, mal completado os três anos, sentia o estranhamento sem saber como explicar.

— Cadê a cabeça do cavalo?

— Este não é um cavalo filhinha, é um centauro e ele tem corpo de cavalo e cabeça de homem.

    A explicação do pai não foi convincente e ela continuava a olhar com estranhamento para a estátua. Depois de um tempo, como que em estado meditativo, proferiu uma sentença carregada de sabedoria em estado bruto.

— Não quero cabeça de homem. Quero a cabeça do cavalo!

Sunday, January 22, 2012

Limbo

Estou morto ou algo muito grave aconteceu comigo. Apostaria na primeira opção, fiquei em dúvida ao sentir o toque de uma das pessoas. Era uma mulher e ao contrário das outras veio só, também lembro da escuridão através da janela. Ela deixou cair uma lágrima em meu rosto, mais do que seu toque, devo ter sentido aquela lágrima escorrendo por minha face até se perder no travesseiro. Assim como os outros, ela mexia sua boca, provável estar falando algo para mim, inútil, ouço o som e não consigo distinguir o que é fala, canto de passarinhos, latidos de cachorro, ranger de dentes, som de passos, apenas percebo o ruído. Ela deveria estar emocionada, compreendi pela lágrima e tentei transmitir a ela que sabia disto, mesmo ignorando qual tipo de emoção a fazia chorar. Era bonita, espero que seja uma emoção boa, não gostaria de ver aquele rosto chorando de raiva contra mim, ou coisa parecida, gostei da visita (só podem ser visitas estas pessoas), mesmo estando morto, podem estar vindo visitar meu túmulo, ou, quem sabe, eu ainda esteja sendo velado, vá saber, não tenho uma noção muito boa de tempo.

    Creio já ser outro dia (quantos terão passado?), e aquela mulher não veio, vieram as pessoas de antes: duas velhas, um homem, outra mulher, uma jovem e os sem rosto, de branco. Mais bocas movendo-se, não parecem estar falando para mim, suas bocas mexem e eles se olham, deve ser assim que uma folhagem na sala percebe as pessoas. Não os imagino emocionados, parecem estar bem, lembro-me deles mais exaltados. Estariam preocupados comigo, ou estariam só brigando entre eles naquele dia de exaltação? Nem sempre se dirigem a mim, aliás, não lembro de terem feito isto, devia estar dormindo, se é que durmo.

    Hoje elaborei outra teoria: não estou morto, tampouco aconteceu algo de tão grave, talvez eu seja apenas um recém nascido prematuro em uma incubadora. Não, todo mundo olha para bebezinhos e sorri, se bebê, devo ser muito feio e também não vejo nenhuma mamãe por perto. Esta teoria não foi boa, mas foi divertido, vou elaborar mais teorias. Sou realmente uma folhagem na sala, estas pessoas não me percebem, a mulher da lágrima chorou porque ela me plantou com alguém que ela amava muito e não está mais aqui. Melhor do que a do bebê, entretanto quando aquela lágrima escorreu pensei nela escorrendo por minha face, não por minhas folhas. Quase consegui. Um animal não devo ser, senão estaria latindo, miando ou coisa parecida, mas explicaria porque escuto o som das bocas que se mexem, sem distinguir tais sons. Também dificilmente um animal teria senso estético e cronológico, pois mesmo não estando certo do passar do tempo, eu o intuo e percebi as diferenças de idade nas pessoas, além de ter distinguido os sexos e eleito a mais bela. Sinto falta dela.

    É ela, parece que se passaram anos, talvez tenham se passado mesmo, ainda mais se estou morto de fato. Está abatida, mais do que as outras pessoas. A cortina está abaixada, mas dá para perceber a escuridão além, então ela só vem à noite, estou ficando bom nisso. Está pegando algo, é um retrato, dela ao lado de um homem, eles parecem ser bem afeiçoados um do outro e estão felizes no retrato. Quem será? Bem que poderia ser eu, neste caso não só não seria, bebê, planta, ou animal, como já teria até um rosto, isto não invalida a possibilidade de não estar mais vivo.

    Não tenho certeza do passar dos dias, vejo quando está claro ou escuro, mas não consigo contar dias, tampouco saber se os rostos e fatos de minhas lembranças pertencem a um mesmo dia, ou a vários, talvez meses e até anos, também não sei se estou sempre acordado, se durmo, se sonho, preciso estabelecer alguns parâmetros, talvez assim consiga identificar mais sinais externos. De qualquer forma parece ter passado muito tempo, ao menos em minha percepção, que ninguém além dos sem rosto de branco aparece por aqui. Pensei muito neste local como sendo um hospital, mas não há tubos saindo de meu corpo, nem equipamentos onde esteja conectado, há apenas o teto, a janela e uma parede, cuja cor ainda não consegui lembrar o nome, também não recebo medicamentos, não há dor, fome, vontade de defecar, de urinar, nada. Cemitério ou hospital, não deveria ser muito popular, nem ter família grande, são sempre os mesmos a me visitarem: as duas velhas, o homem, a outra mulher, a jovem e aquela da lágrima e do retrato, esta vem quando os outros não estão e eles vem sempre juntos, talvez morem longe e só possam vir juntos e a mulher da lágrima deva trabalhar durante o dia e só pode vir à noite, neste caso é provável que more mais perto do que os outros. Estou ficando bom mesmo nisso.

     Imagino terem sido muitas as vindas das pessoas, só não saberia dizer quantas e cada vez mais eles parecem não perceber minha presença, talvez eu nem esteja mais aqui mesmo, eles conversam, conversam, falam baixo, falam mais alto, até alguns gritos, riem e se não estou enganado, riem bastante quando o homem fala e gesticula, ele deve ser um comediante. A mulher da noite é a única a se dirigir para mim e fala como se estivesse conversando comigo, se sou velho pode ser minha filha. Mas por que não vem com os outros? Deve mesmo trabalhar durante o dia e eles talvez não trabalhem, as duas velhas já se aposentaram, a mulher e a jovem são sustentadas pelo comediante que faz shows à noite, perfeito. Então, se são minha família, devo ser velho e ser casado com uma das duas velhas (até que não é tão ruim por aqui) e o comediante é meu filho, se fosse a mulher ela seria mais atenciosa, filha sempre é mais atenciosa com o pai, e uma das velhas, minha esposa, já estamos juntos a tanto tempo que nem lembra mais como ser atenciosa (quem sabe devo ter sido um mau esposo) e a jovem minha neta, jovens não gostam muito de velhos. E a mulher da noite? Se for minha filha brigou com a mãe ou não é filha dela, seu safadinho, andou dando umas escapadas, sempre soube que eu era pegador.

    Não, definitivamente a mulher da noite não é minha filha e isto me obriga a rever toda minha teoria familiar. Ela mostrou-me outros retratos, dela com aquele mesmo homem (eu?), em poses impróprias para pai e filha. Claro, poderia ser o marido dela, mas que interesse eu, no jazigo ou leito de morte, teria em ver minha filha aos agarrões com um marmanjo. Se for minha filha é bem sem noção e ela não parece ser uma pessoa sem noção. E além disso, hoje ela chegou tão perto que quase pensei nela beijando meus lábios, se estou em um caixão, ela teria se debruçado sobre o túmulo e beijado uma possível foto minha, imaginando estar beijando meus lábios, filha não fecha os olhos daquele jeito para beijar pai. Então quem são as outras pessoas? Alguém apagou a luz.


 

LM

Tuesday, January 17, 2012




N.A.: De tanto contar histórias para minha filha dormir, acabei inventando algumas. Nenhuma verti para a escrita, deixei-as na fluidez da oralidade e elas estão sempre mudando um personagem, uma fala, mas como esta ficou sem um final, pois os animais sempre achavam algo para implicar com o pato, resolvi pô-la na ponta dos dedos. Creio ter encontrado um final (provisório) adequado, testarei amanhã à noite, lendo-a ao pé da Lua.

Uma feita, o pato cismou em fazer algo diferente, queria brincar, mas uma brincadeira nova. Tendo brincado com todo tipo de brincadeira que conhecia, calhou de fazer outra coisa: resolver pintar um quadro. Mas seria um quadro de que? Pensou, repensou até quase pôr um ovo e veio a idéia de pintar, justamente um ovo de galinha.

Cheio das vontades de impressionar os outros animais da fazenda, caprichou a não mais poder e pintou um ovo tal qual, ou melhor do que um ovo de verdade, de tal forma que nem a melhor das galinhas botasse um igual. Orgulhoso da sua obra saiu o pato pintor com sua pintura embaixo da asa e logo topou com o cachorro.

— Que é isso compadre pato?

— Ora, não é nada, só um ovo meu. E mostrou o quadro ao amigo.

— Nossa Senhora das Fazendas de Bichos, isso é um ovo seu, então o compadre é uma galinha? E eu sempre o tive por pato.

— Não, compadre cachorro, eu só pinto!

— Não entendo mais nada, então compadre pato, que eu pensava pato e era galinha, na verdade é um pinto.

O pato já começava a ficar nervoso e tentou explicar para o cachorro, mas este saiu numa gritaria desancada, alardeando aos quatro cantos sobre o ovo do pato, ou da galinha, ou (era um pinto?), que nem deu chance ao amigo. Inconformado o pato resolveu voltar para casa e pintar alguma coisa diferente, para desfazer o malfeito. Pintou um pinto, talvez o pinto do ovo da primeira pintura. No pátio da fazenda a bicharada só falava no pato galinha pinto.

Finalmente o pato terminou seu pinto e, igual ao ovo, era um pinto melhor do que qualquer pinto visto ou sonhado na fazenda. Mais orgulhoso ainda, saiu com sua obra prima e logo encontrou a galinha. Ainda bem, pensou, pois ela saberia que ele não poderia ser uma galinha, senão um pato.

— Que é isso comadre galinha? Perguntou a galinha, já tratando o pato como galinha.

— Comadre galinha, eu sou o pato, veja! Eu só pintei um quadro de ovo.

— Ah bom, compadre pato, mas mesmo assim, que é isso? Insistiu a galinha, já em cólicas de tanta curiosidade.

— Isso é só um meu pinto.

A galinha não acreditou no que via, era o melhor dos pintos, então o pato só podia ser mesmo uma galinha e das boas.

— Mas não é mesmo que o compadre pato é mesmo uma galinha das boas? Um pinto desses não é qualquer galinha a ter não.

— Não comadre galinha eu pinto.

A essa altura a galinha já não sabia mais se o pato era uma galinha, um pinto ou um pato e saiu desembestada cacarejando a descoberta. O pobre pato, já sem saber como agir, resolveu pintar o próprio retrato, assim ele só poderia ser um pato, nada mais. Voltou para casa e fez o melhor auto-retrato já pintado. Era muito melhor do que o próprio pato. Saiu estourando de orgulho e logo encontrou o coelho. Este, já sabendo das novidades do pato galinha pinto foi logo perguntado.

— Que traz lá compadre pato, ou comadre galinha, ou pinto?

— Largue mão compadre coelho, sou eu, o compadre pato e trago apenas isto... E antes de conseguir explicar que era uma pintura o coelho foi logo tirando suas conclusões e vendo dois patos, um melhor do que o outro, imaginou se tratar de um espelho.

— Ah, beleza! Um espelho, bem to carecendo dar uma deitada diferente no meu cabelo. E pegou logo do pato o quadro que julgava ser um espelho, mas viu apenas um pato refletido e entrou em pânico.

— Minha Nossa Senhora das Cenouras, virei num pato e dos bons! E saiu dando quac's pela fazenda e clamando ajuda para voltar a ser coelho.

Logo o burro veio ver o motivo de tanta gritaria, encontrou o coelho em polvorosa e o pato à beira de um ataque de nervos.

— Compadre burro, virei num pato, veja, é só pegar este espelho.

O burro pegou o quadro, que julgava ser um espelho e viu o melhor pato já imaginado. Não poderia ter acontecido coisa pior, também pensou ter virado um pato e saiu numa carrera doida, logo a bicharada já não sabia mais quem era pato, quem era, burro, quem era coelho e o pato, desatinado das idéias, não conseguia pensar em mais nada, até ter a idéia de pintar apenas uma tela branca. Assim ninguém poderia pensar nada e acabaria logo com essa confusão. Cobrir de branco a tela foi num já e sem perda de tempo ele estava na rua com sua nova obra.

Os animais já meio fora do prumo, mas ainda lembrando que toda a confusão iniciara-se com o pato, foram ver o que ele trazia.

— Vejam, ninguém virou pato, só eu continuo sendo pato. E mostrou a tela branca para os bichos. O porco se aproximou, cheirou, olhou e saiu guinchando feito louco.

— Minha Nossa Senhora dos Torresmos, eu sumi!

Os outros animais olharam para a tela e acharam que também tinham sumido. A correria agora era geral e o pobre pato pintor quebrava o cucuruto pensando em alguma forma de acalmar aquele bando de doidos. Desorientado e com medo de causar mais confusão o pato resolveu pintar sua última tela. Nela colocaria não só figura, mas palavras explicando que não era uma coisa, mas apenas uma pintura. Caprichou gigante na nova pintura, era um perfeito cachimbo suspenso no ar, enorme e embaixo deste perfeito cachimbo podia-se ler, em letras caprichadas, a frase: Isto não é um cachimbo.

A esta altura dos acontecimentos, o pato já não tinha mais entusiasmo, orgulho ou pretensão com sua obra, queria apenas mostrar aos outros animais para eles verem que aquilo era apenas um quadro, nada mais. Saiu de casa e encontrou o cavalo.

— Olá compadre pato, o que traz aí?

— Não é nada compadre cavalo, só uma pintura. E mostrou-a ao cavalo. Este olhou, olhou, reolhou e sentenciou.

— Compadre pato, você precisa se tratar, qualquer um sabe que isto não é um cachimbo, mas uma figura de cachimbo.

Em pouco tempo os outros animais chegaram e foram logo tomando parte da discussão.

— Largue mão compadre cavalo, isto é um cachimbo, mas o pato ainda precisa se tratar, pois qualquer um sabe o que é um cachimbo e ele nega que isto seja um cachimbo. Argumentou o porco.

— Deixem de sandices, o pato está mesmo muito mal e precisa se tratar, mas convenhamos, ou ele não sabe pintar, ou não sabe mais o significado das palavras, pois como ele nega algo que acaba de pintar? Questionou a vaca.

A discussão não se encerrou, os bichos não se entenderam e o pato, antes que alguém resolvesse interná-lo em um manicômio, saiu de fininho. Daquele dia em diante jurou que não pintaria mais figuras e se fosse pintar alguma coisa, apenas deixaria a tinta escorrer pela tela, procurando sua forma.

LM

Sunday, January 08, 2012

Ventrina

A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente."

Einstein, Albert


 

    A incomum capacidade premonitória dos habitantes de Ventrina tornou esta cidade uma referência nos estudos do futuro. Todo aprendiz de vidente, cartomante, quiromante e demais gurus do porvir afluíam para Ventrina afim de tentarem apreender este dom. Inútil, tal característica é privilégio apenas dos nascidos lá. Os bebês ventrinenses, antes mesmo de aprenderem a falar as primeiras palavras já conseguem saber quando ficarão com fome, quando sua mamãe trará a gorda teta cheia de leite, a que horas eles chorão para terem suas fraldas trocadas e estas coisas do mundo dos bebês.

    Assim Ventrina nunca participou de uma guerra, pois seus inimigos jamais puderam usar o elemento surpresa para empreenderem um ataque à cidade, entretanto quando as forças rivais, especialmente de Zantrana, reuniam um exército colossal e os ventrinenses previam a própria derrota, estes providenciavam a rendição antecipada e enviavam um diplomata para negociar um armistício e os termos de um acordo de paz. Não havendo guerras, passaram a usar o tempo livre para as diversões. O governador geral de Ventrina resolveu, então, criar uma loteria. Foi um fracasso, pois todos acertavam os números e os prêmios eram muito menores do que o valor da aposta. Ainda buscando formas de entretenimento, os sábios elaboraram um complexo sistema de números e letras que deveriam ser decifrados. Quem o fizesse receberia mil gnaes de ouro. Como o resultado destes códigos não era algo pertencente ao futuro, os ventrinenses não poderiam se valer de seus poderes e haveria, enfim, uma disputa. Mas os sábios, como os demais habitantes, eram homens do futuro, e rapidamente esqueceram, eles próprios, como decifrar os códigos da loteria e, ainda, as pessoas previram que não haveria ganhador, portanto não fizeram suas apostas. Acabou ali a Loteria Oficial de Ventrina.

    Não havia escassez de ouro ou alimentos em Ventrina, eles sempre sabiam qual seria o melhor alimento a ser semeado, quando choveria, ou quando teriam estiagem prolongada, também sabiam quando encontrariam um novo veio de ouro, ferro, prata e assim sabiam quanto dos recursos da cidade poderiam utilizar. Os nobres, em seus jantares, divertiam-se tentando lembrar do passado, já os pobres, divertiam-se tentando esquecer o próprio futuro.

Certo dia, um eminente filósofo intuiu que se ele agisse de modo diverso do que havia sido previsto, ele poderia criar um futuro alternativo, fora do alcance das previsões. Resolveu visitar um amigo, fez os preparativos e tão logo estava na rua, mudou abruptamente trajeto, indo para o sul quando deveria ir ao norte e rumou para a casa de outro amigo. Chegando lá o segundo amigo não se surpreendeu com a visita. Disse ter previsto a súbita mudança de planos. Ele frustrou-se com o fracasso e escreveu um extenso tratado filosófico vaticinado que os ventrinenses estavam condenados a ficarem presos ao futuro. Ao terminar a obra ele já sabia o tamanho sucesso que faria e a grande repercussão que causaria e assim foi. Os efeitos da obra começaram a ser percebidos especialmente entre os mais jovens. Como eles sabiam o que deveriam fazer para continuarem com suas vidas como estavam, param de fazer tudo, esperançosos de que algo inesperado lhes acontecesse. Logos os pobres começaram a tomar atitudos semelhantes, pois como sabiam que continuariam sendo pobres e teriam de trabalhar de sol-a-sol para sustentar os ricos de Ventrina, pararam de trabalhar e ficaram em suas casas deitados em suas camas.

Tal inanição foi tida como uma rebeldia contra a ordem institucional da cidade e o governador geral mandou por a ferros todos os insurgentes. Os jovens sentiram o gosto da aventura, seriam presos, estariam lutando por uma causa. Os pobres, sabendo que morreriam trabalhando, optaram por morrer na cadeia. Ventrina começou a ruir. O governador geral, aconselhado pelos sábios, baixou um decreto proibindo qualquer cidadão comum a praticar a arte de previsão do futuro, restringindo este ofício apenas aos nobres, sábios e dirigentes da cidade. A inaplicabilidade da lei fez o governador geral e os sábios serem ridicularizados até pelas crianças e como todos previram que a cidade estava em franca decadência e que se tornaria um povoados de poucas almas desorientadas, deu-se início a grande diáspora ventrinense. A cidade acabou e seus habitantes, espalhados pelo mundo, foram gradativamente perdendo suas habilidades premonitórias, agora eles buscam um outro futuro, com alguma esperança, ao menos.


 

LM

    

    


 


 

Thursday, January 05, 2012

Infâmia

Meu nome é Leopoldo Blinizesky. Sou descendente direto da mais nobre linhagem de gentis homens poloneses, sou quase um príncipe polaco. Meu tio-avô teve participação destacada na batalha de Braniewo, ele liderou o pelotão de artilharia ligeira que encurralou o incivel general Ollste entre o mar e a ravina de Syan. Também meu bisavô, o duque de Parczew ajudou a manter os invasores longe de nossa amada Polônia, com apenas dois mil valorosos soldados polacos, expulsou 30 regimentos do exército prussiano na Batalha de Kostrzyn. Sem falar do Príncipe Blinizesky, cujo olhar azul e penetrante enlouquecia as damas da alta aristocracia européia a ponto de fazerem seus maridos assinarem todos os tratados favoráveis à Polônia, durante o regime de Astrunws. Não relato isto por jactância, senão para por em entendimento os motivos pelos quais fui escolhido pela Ordem dos Szachtas para reconduzir nossa pátria ao seu devido lugar como potência do mundo ocidental e no comando da Europa.

Apesar da nobreza de nossa causa, do valor de nossos patrícios e da certeza do sucesso, temos ciência de não ser esta uma tarefa exatamente fácil. Muitos são nossos inimigos, que nos temem e nos invejam, portanto devemos ser pacientes e perseverantes. Para não levantar suspeitas acerca de minha origem e de nossa causa, vivo fora da Europa em uma condição aparentemente degradante, como Kuranosuké, convivo com rameiras e com poetas, e com gente ainda pior. Não foram poucas as vezes em que fui encontrado esparramado às portas de lupanares, com a cabeça tomada com o próprio vômito. E os julgamentos sentenciosos proferidos contra minha reputação serão motivos de públicos pedidos de desculpas por parte de meus detratores: por ora perdôo–os.

Nada mais posso revelar, apenas que a vitória final está próxima e o mundo conhecerá uma nova era de paz, fraternidade e prosperidade, assim que nos assentarmos em nosso devido lugar. Saibam ainda que é com imenso pesar que me presto a assumir esta identidade aviltante, mas em breve juntarei-me aos demais capitães da causa Szachta, antes, devo zelar de meu disfarce.


 

LM


 

Tuesday, January 03, 2012

A outra viagem, ou a chegada

Jurou ser ter recebido o testamento das mãos de Kafka. Jurava por qualquer coisa, jurar pela alma de Kafka não seria nada de mais, desta vez jurava pela própria alma, prestes a abandonar os escombros de uma vida cheia de incertezas, inconclusões, inconformismos e mais algumas dezenas de ins. Era pouco menos de meia página, manuscrita com letrinhas trêmulas, em alemão. Ignorante, não pude ler o conteúdo do documento, precisaria de alguma ajuda germânica para decifrá-lo. Se fosse realmente de Kafka poderia valer um bom dinheiro, afinal, mesmo perjuro, o velho andou pela Áustria na década de 20, chegou até a ser preso com um manuscrito roubado da biblioteca do Monastério da Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho. Para escapar da condenação, jurou ter se convertido ao cristianismo e ingressou na ordem, até conseguir fugir de Klosterneuburg alguns meses depois. Não seria improvável imaginá-lo disfarçado de zelador em algum sanatório encontrando Kafka em seu leito de morte. Assim, resolvi aceitar aquele pedaço de papel como pagamento da dívida. Era perder tudo ou ganhar muito.

Voltei para Joinville sem ter traduzido o manuscrito, não seria difícil encontrar algum alemão disposto a fazer o serviço a troco de duas cervejas. De fato, jantando no Jerk, conheci Geraldo, nome abrasileirado de Gerhard Kremer, professor de alemão e francês. Perfeito. Ele nem precisou de muito tempo para fazer a tradução, ali mesmo, na mesa do bar leu para mim. Não tive certeza se seria mesmo de Kafka, mas definitivamente não era um testamento, era um pequeno conto e se fosse mesmo um original inédito do escritor checo, poderia valer mais do que um testamento.

Viagem


 

Talvez devesse partir, sem demora nem medo de olhar para o abismo, apenas partir. Fiz. Não sem estremecer-me, demoro a entrar nas ruas sem ter certeza de estar perdido, por isso precisava saber se realmente estava perdido, ou apenas ensaiava os paços trôpegos. Lembrei-me ter esquecido as bagagens, Não as tinha. Lembrei-me de quê? Esqueci-me na casa? Agora sabia-me perdido. Apressei o passo, corri, perdi pedaços de mim tentando chegar, não sei aonde. Via uma cidade, uma vila, rua? Quanto mais corria mais seus muros riam do meu suor encharcando o colete. Quando finalmente encontrei um homem, perguntei como fazia para chegar à cidade.

— Deves tomar o caminho da esquerda. Entretanto, será mais fácil ir pela direita.

— E se ficar aqui?

— Estarás perdido e darás informações a viajantes perdidos.


 

FK

Era isto, sempre estive a procura de algo e nunca soube o que, sempre fugi de algo, mas fugia de mim. Guardei o pedaço de papel pedi dois steinhaegers e mais duas cervejas e continuei a beber com Geraldo. Não tinha mais pressa alguma, sabia que para qualquer lugar que fosse estaria perdido, ficaria ali, dando informações a viajantes perdidos.


 

LM


 

Sunday, December 18, 2011

Reflexo

Hoje encontrei um velho em meu espelho, me olhava com uma dose calculada de compaixão — não tão baixa para não parecer desinteressado, nem tão alta para não aniquilar completamente minha, já combalida, auto-estima — quase pude perceber algo de ironia nas rugas do cenho, como que forçando severidade e benevolência. Não gostei daquele velho e imaginei-o como um satírico bufão querendo pregar a última peça antes da morte, como o singnore Ciappelletto. Ignoro há quanto tempo está ali e agora, Relembrando e fazendo uma leitura de sua incivel personalidade, penso que talvez já estivesse há muito tempo escondido por detrás do meu reflexo, fazendo caretas enquanto barbeava-me ou escovava os dentes, empurrando minha imagem para que eu me cortasse com a lâmina ou deixasse uma inoportuna sujeira no dente da frente. Creio ainda, se minha memória não resvala, já tê-lo visto, mas tão de relance, tão furtivamente, apenas se insinuando, mas após ter visto aquela zombeteira face falseando ser benevolente, encho-me da certeza de que ele já me espreitava, zombava e esperava o momento de se deixar ser identificado. Hoje, no dia de festejar o dia dos meus anos ele, o velho, um estranho até então, se faz pleno.

Posso até estar passando por algum tipo de crise da meia idade e sei dos meus cada vez mais escassos cabelos e do seu inexorável branqueamento. Sei das dores diárias, cada dia um tipo, e da decadência do conjunto. E se alguém insinuar que era tão somente meu reflexo sendo observado em um mau dia, atalho-o com a explicação inconteste de não ter visto apenas o velho, senão ele e meu reflexo. Ora ele se punha na frente de minha imagem, ora ao lado, ou mais ao fundo, quase saindo do campo de visão, com metade do corpo oculta atrás da borda do espelho e meu reflexo ali, reproduzindo minhas caretas, gestos e minhas falências. Não eram a mesma coisa, apenas dividiam o mesmo lugar.

Por um breve momento pensei na hipótese de ser meu pai tentando voltar, ele que durante minha infância jamais aparecia nos dias de meu aniversário, consumido pelas chamas do arrependimento, poderia estar procurando um meio de regressar dos mortos para se redimir e alcançar a paz. Idéia logo descartada, meu pai ainda vive e também não seria do feitio dele querer expiar alguma dívida comigo. E quando receber a notícia da minha morte, como está muito longe, apenas dirá: "Agora não há mais nada a fazer, não vai dar tempo de chegar para despedir-me, não irei ao funeral, mas meu filho amado sabe, onde quer que esteja, que eu não preciso estar presente para estar perto dele. Farei uma prece, a mais bela e comovente, que só eu ele e Deus ouviremos."

Ele ainda está lá, posso vê-lo se escondendo atrás do meu reflexo, não é sempre que aparece, agora finge estar reproduzindo meus movimentos e até tenta se passar por mim, não quebro o espelho para não correr o risco de vê-lo multiplicado em centenas de fragmentos, assim ainda é apenas um. Mas como ele está tentando se passar mor mim, descobri como matá-lo: peguei minha navalha, ele fez o mesmo.

LM


 


 


 

Tuesday, December 13, 2011

Sonhos

Sabia de certos magos, vindos do sul, ou de além, e de suas habilidades em sonhar um ser. Encontrou nas cosmogonias gnósticas, tratados de demiurgos relatando tais experimentos mágicos, alguns exemplos bem sucedidos, uns frustrados e meditou por três anos e meio até descobrir em seu espírito, elementos autorizando-o a iniciar-se nas artes quase esquecidas do sonho e auto intitulou-se sacerdote. Para ele, entretanto, a carne já se havia revelado fraca por demais, suscetível aos sabores dos frutos das cerejeiras e de outras inebriações terrenas. Bastava tão somente sonhar um nome. Vagou por prostíbulos e sarjetas; templos e altares; casas de pessoas de bem e desvalidos e após, dois anos de buscas, encontrou a arena ideal, ancestral, para instalar-se e sonhar. Não havia marcas, como se não fosse freqüentada há séculos, por feras ou homens, apenas o tempo passava por aquele sítio e mal deixava suas marcas; era branco, ou se fazia parecer branco, como se um sonho sem cenário, mas há relatos de o mesmo lugar ter sido descrito como de cor sanguínea. Para ele era branco e em seu interior, tamanha alvura, não conseguia divisar as coisas, era tudo uniformemente claro, fazendo-o valer-se do tato. Identificou uma mesa de madeira, uma cadeira de igual material, um cabide uma cama forrada com um colchão de palha, um fogão à lenha. Sobre a mesa um copo com água pela metade, um bloco de papel e um lápis e mais nada. Viu que tudo estava bom e descançou.

Na primeira noite sonhou apenas com carne e matéria, não era o que procurava, queria apenas um nome, um nome cujo corpo ideal viria naturalmente. Nomearia a coisa antes mesmo dela existir e inverteria a lógica filosófica de Foucault. Não queria admitir, mas em seu íntimo, queria mesmo superar o deus, criando o nome antes do ser.

Sonhou todos os sonhos dos homens e sonhou todas as coisas da Terra e em certo ponto já nem sabia mais quando estava com os olhos fechados ou abertos, se desperto ou em vigília e até se ele mesmo não era um sonho, mas ao cabo de dez anos o primeiro signo fez-se, quase à materialidade, tão cheio de significações, era a letra L, do alfabeto ocidental. Ele, cujo idioma paterno quase se perdera após debruçar-se sobre signos de etnias e aldeias remotas, dominador de escritas orientais, grego e mais uma centena de dialetos mortos, não entendeu porque o ocidental L se pronunciara. Temeu não estar no caminho correto, esperava listras de tigre, ideogramas mandarim, letras do alefato, jamais um signo de um alfabeto decadente. Resignou-se e chorou. No chão branco do templo, as lágrimas quebraram o monocromatismo e revelou-se a segunda letra, um rubro I. Deu-se conta que seu pranto era um sonho e aceitou a imposição dos deuses em apresentar-lhe um nome naquele alfabeto impuro.

Na noite de sonho, coincidente com a noite de festejos da Walpurgisnacht, ele sonhou com uma mulher, estremeceu até o pâncreas. Estaria ele sonhando com um nome de mulher, invocando uma mulher inexistente? Sabia que isto o distrairia de seu objetivo, mas não deveria opor-se à inescrutável mão do destino e deixou fluir o sonho. Foi uma noite carregada de sensualidade, gozou dos prazeres da carne até quase saturar seus poros e ao amanhecer, adormeceu. Nenhum homem na face da Terra havia experimentado tanta paixão em tão pouco tempo e sobrevivido. Quando acordou a mulher havia ido embora e deixou sobre mesa um bilhete inusual, com apenas duas letras L e como ainda era sonho, tinha agora, se a seqüência das letras seguisse a de suas revelações, Lill. Conheceu uma mergulhadora norueguesa chamada Lill Hauggen, mas não era ela quem vira no sonho. Neste instante percebeu não ter lembranças das feições da mulher sonhada, sentia os cheiros dos odores, os gostos das secreções, a consistência do toque da sua Lill, mas não saberia como descrevê-la. O nome estava se impondo sobre o ser. Buscou lembranças de outras Lills, nada adiantou.

Não sonhou mais com Lill e nem outra letra se descortinou, entretanto sabia não estar completa sua missão. Atormentou-se, um tanto por sua falha em concluir tão grandioso projeto e outro tanto por não ver mais Lill. Dormia pensando no que deveria ser ela, acordava clamando seu nome, ofegava ao pronunciar seu amor, sem sucesso. Quase desviou-se de seu objetivo primevo e penitenciou-se por ter se entregue aos prazeres mundanos da carne e ao amor de uma mulher que só ele sabia existir, na intimidade de seus devaneios, ainda que sem feições. Resignou-se e voltou a sonhar os sonhos dos santos e profetas, viu guerras, chuvas, sementes de jabuticaba brotando e em meio a sonhos e profecias, intui serem uma única coisa, o nome Lill e a mulher do sonho, mas estava incompleta e ela só se revelaria por inteiro quando o nome estivesse completo. Quantas letras ainda faltariam? Seria um nome nórdico, como a de Lill, ou uma variante latina de Lilliane? Lille, simplesmente, ou uma fantástica Lillet? Quem sabe o colorido Lilla, por que não? Nestas elucubrações o auto intitulado sacerdote, percorreu mais oito anos, embora ele já não entendesse do transcorrer do tempo, sentia, em noites mais frias, umas dores nas articulações, uma ou outra indisposição, mas não associava isto à idade já avançada em anos.

Quando já havia invocado todos os nomes de mulheres, em todas as línguas, que pudessem principiar por Lill, teve outra revelação. Se este tempo todo estivera sonhando um nome a ser preenchido por um corpo posteriormente e como já havia atingido parte deste intento, sonhando com um quase nome de mulher e uma quase mulher, não haveria de ser uma mulher, sim um ser mágico, volátil, carnal na volúpia, mas independente da matéria na sua existência, alguma entidade que ocupasse o nome invocado trazendo não só a carne, mas a fé no transcendente. Mais uma vez estremeceu quando descobriu quem ele estava invocando o tempo todo e por quem se apaixonara perdidamente. E também prostrou-se e chorou novamente, jamais a possuiria, jamais a subjugaria, jamais a teria submissa e se quisesse entregar-se ainda uma vez aos prazeres celestiais de comungar com ela mais uma noite apaixonada, seria inevitavelmente consumido. Depois disto foi dormir já sabendo quais letras veria em seu sonho e sabia quem veria, estava preparado para entregar-se e ser consumido. Deitou-se e o sono não vinha, temeu não conseguir dormir, mas isto teria que acontecer em algum momento. Correu, escalou montanhas, nadou os oceanos e nada disto o extenuava, nada fazia o sono dominá-lo. Sentiu uma fraqueza e um frustração como se estivesse no último dos círculos infernais, quase antevendo o paraíso, mas preso a grilhões indestrutíveis. E a última das revelações fez o sacerdote estremecer pela terceira e derradeira vez. Ele sabia qual nome sonharia, sabia da sua amada, da sua entrega e da sua renúncia, morreria entregando-se ao amor e à paixão, heroicamente, mas precisava dormir para sonhar e não conseguia fazê-lo porque já estava dormindo e já estava sonhando, mas estava preso em uma zona miasmática do reino de Morfeu, entre o fígado e a alma e não escaparia daquele sonho sem propósito, eternamente.

LM

Monday, December 12, 2011

Libertas Quæ Sera Tamen

Buscou ainda algumas lágrimas, era imprescindível um pouco mais de comoção, estóico, mais ainda agora, longe de olhares condescendentes. Haveria de chorar, nada mais, um choro vindo de sombras do fígado, de reentrâncias do esôfago, de um dos ventrículos, só dele. E as lágrimas não brotaram. Tinha a obrigação de pôr-se em profundo pesar, mas não conseguia afastar-se da superfície dos sentimentos e assustou-se, como se diante de todo o mal, com um pensamento brotado de sua imaginação. Não poderia ser um pensar seu aquele, estaria ainda sob efeito dos acontecimentos funestos e além do mais, ele não era assim, ela também jamais mereceria tal tipo de luto de seu companheiro inseparável. Deveria, isto sim, guardar-se por meses, em memória dela. Xô maus espíritos! E afinal uma voz em sua mente pronunciou, de quase poder ser ouvido pelos vizinhos do prédio: Agora poderia fazer tudo que sempre teve vontade de fazer, mas nunca pôde. Tipo o que? Como!? Ainda dar ouvidos à voz e quere saber o que fazer? Tratou de exorcizar os demônios. Era preciso sair, era urgente sair para comprar bananas.

Ele examina cuidadosamente uma penca de bananas, parece ter muitas dúvidas sobre levá-las ou não para casa. Solícita, a atendente se aproxima.

— Encontrou o que procurava senhor?

— Ahhmm? Ah, não, não encontrei, nem sei mais se realmente quero encontrar, ou se a busca me basta.

— Desculpe...

— Já perdi entes queridos e por já ter, vivenciado isto, me imaginava mais preparados. Mentira. Estou sempre a perder pedaços de mim, nunca estou preparado para isto, cada parte que se vai deixa um vazio intransponível.

— Eu estava falando das frutas.

— Claro, as frutas, mas entenda-me, eu estava vulnerável naquele momento e queria falar com alguém, sem precisar escutar velhas fórmulas de como levar a vida daqui para frente, queria falar palavras que não existem e ouvir respostas que nunca foram dadas. Protegido por paredes profanas, ficaria escondido eternamente entre o marco de uma hora e outra e quando voltasse para a o mundo que os humanos chamam de realidade, não sentiria tão opressor o peso das minhas falências.

    — Acho que o senhor deveria procurar ajuda, não sei se estou preparada para isto, sou apenas uma verdureira, nada mais.

    — Tem razão, é que à vezes sinto falta de coisas que perdi, algumas foram caindo de meus bolsos, outras guardei em algum lugar e não as encontro mais, outras me doem de saudades, mas não recordo delas e não sei o que eram, sei apenas da dor e outras, tidas como muito caras, joguei-as pela janela por medo de perdê-las e agora, incompleto, tento seguir e tento encaixar, pedaços que encontro pelo caminho, em minhas lacunas.

    — Vai levar as bananas?

    — Meio quilo! Tem cerveja?

    No apartamento, deu-se conta de que era exatamente isto que estaria fazendo com ela em casa, comprando bananas e trazendo cervejas. Compreendeu não ser necessário passar o tempo para enxergar que não era ela a impedi-lo de fazer suas coisas extravagantes dos delírios de liberdade. Continuou comendo banana e bebendo cerveja, como sempre fazia.


 

LM

Sunday, December 11, 2011

Ad hoc

Uma girafa de pelúcia acompanha, ar preocupado, aqueles intermináveis gotejares. Pescoção dobrado, pensativa, o marrom das manchas misturado à tinta de canetinhas coloridas, restos de comida e outros resíduos ali deixados por mãozinhas impacientes. Ela olha sem desviar a atenção, cabeça levemente inclinada para o lado, mas olha fixo a dona das impacientes mãozinhas. Clarinha de quase transparência, duas manchas escuras sob os olhinhos fechados acentuam a palidez. A chupeta fogenãofoge cainãocai da boca até ser reconduzida ao seu devido lugar com estalar de língua e um suspiro. Respira uns ventinhos de bater de asas de borboleta, constante, a não ser pelos suspiros destinados à chupeta.

    Pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, SF puro, gota, pingo, gogo, pinta, gota, pingo, pinta, gogo, dramin, gota, pingo, vincristina, gota, pingo, etoposido, gota, pingo pendurados em uma vareta de metal. Mangueirinhas fininhas, transparentes e com a ponta escondida sob a pele unem os pacotes de poções químicas à menina. Enquanto isso, o tempo brinca de acelerar e desacelerar. Gota, pingo, pingo, gota leva o tempo de uma jornada interminável do carro de Apolo, quase uma vida. Já escuro, hora de se recomporem para mais meia jornada interminável do outro dia e o tempo calha de acelerar e leva dois ou três piscares de olhos para já ser amanhã. E acelera de novo quando faz os 21 dias entre os ciclos durarem o tempo de 21 beijinhos apressados.

    Ao lado da girafa um leão e uma zebra dormem, esperando a hora de assumirem seus turnos junto com a menina e eles não sabem, nem os curandeiros, nem os deuses se toda essa droga vai dar conta de matar as células rebeldes.


 

LM

17/02/2009


 

Monday, December 05, 2011

Outros diálogos possíveis

Fragmentos de um diálogo possível em um relacionamento ao estilo Sartre e Simone de Beauvoir


 

Volto às quatro.

Não precisa voltar.

Às quatro? Que horas então?

Não.

Então?

É.

Assim?

Será melhor.

Para quem? Tem mais alguém?

Isso muda alguma coisa?

Não quero ficar sabendo por nossos amigos.

Também não temos muitos.

É você, arrogante e anti-social.

Pode me culpar, sempre foi assim.

Não adianta, não dá pra conversar...

Seremos amigos?

Não sei? Em algum momento algum de nós vai querer algo mais.

É.

É.


 

Fragmentos de um diálogo possível em um relacionamento ao estilo Charles Trezinni e Lillith de Oliveira


 

Volto às quatro.

Volta? Vai pra puta que pariu.

Boca suja do caralho. Então não volto.

Vá de uma vez. Nunca se decide mesmo.

Você é que não sabe o que quer.

Você sabe: só quer foder com quem encontrar pela frente.

Isso muda alguma coisa, porra.

Todo mundo fica apontando o dedo pra mim e rindo.

Vão se foder, ninguém faz nada por nós a não passar por cima.

Culpa tua, sempre se achando o gás da coca-cola.

Ah! Vá à merda com tua filosofia de porta de banheiro de rodoviária.

Não adianta...

Seremos amigos?

Não sei? Não dá pra rolar uma transa gostosa de vez em quando?

Fodeu, se veste e vai embora?

É

Pode ser. Quem sabe?

É.


 


 

LM

Sunday, November 27, 2011

Compotas

Diziam ter tido um passado. Provável ter tido apenas lembranças, e quiçá uma ou outra desilusão, entretanto, espírito dado a sofreres de amores e outras destemperanças, Rafael de Partula exilou-se na freguesia de Montes da Senhora, situada no concelho de Proença-a-Nova. Fixou residência em uma pequena quinta no extremo norte do lugar, quase fora de seu perímetro. Lá, algumas oliveiras e cerejeiras impunham à morada o ideal ar bucólico que ele julgava ser o retiro final buscado a tanto. Até inspirou-se a erguer uma pequena capela em louvor à Nossa Senhora das Cerejas. Um empregado se dedicava a colher os frutos, levá-los ao mercado, cuidar das árvores e manter o sítio livre de ervas daninhas.

Em um verão azul intenso, fragmentos do passado foram até ele, e passou a receber a visita regular de seus filhos. Eles disseram terem-no perdoado, faltava apenas acreditar e querer o perdão: acostumara-se a sofrer em silêncio e só e já não nutria esperanças de reescrever o passado.

Na freguesia havia uma vendedora de compotas. Rafael pouco sabia dela, quase não se falavam, apenas o necessário para adquirir alguns vidros de cerejas ou figos. Já não era jovem, ainda assim deveria ter uns trinta anos a menos do que ele e se não era de todo bonita, não se podia dizer feia, era alegre e tinha negros olhos cheios de feitiços. O perfume da vendedora de compotas despertava sonhos esquecidos em Rafael, mesmo assim não ousava a ir além do bom dia, dois vidros por favor, até logo, passe bem. Já não tinha mais idade, nem disposição par aventurar-se por este tipo de seara. Bastava vê-la duas ou três vezes por semana e, de volta a casa, preparar um dry martini, tomar um Viagra e masturbar-se na banheira, lembrando dos olhos e sentindo o cheiro da vendedoras de compotas de cerejas.

A despensa abarrotava-se de compotas, mas era dia de nova compra.

Bom dia, o que há de novo nas compoteiras?

Ao invés da resposta tradicional ela disparou a mais improvável das perguntas.

Que veia saltada é esta em tua fronte?

Era apenas uma veia saltada como tantas outras em cabeças de velhos mundo afora, esta, entretanto, era a marca de um pacto seu, sua extemporânea marca de Caim e lhe trazia lembranças afogueadas. Surgira a poucos dias, após uma latejância à toa na testa e Rafael desnudou sua insignificância e sua finitude.

É minha.

Ora, se não sei que és tua? Nunca tinha visto, tenho certeza ser nova.

Fez sua compra e saiu, um pouco mais sério do que de costume. Justo ela, ser a primeira, a única, a perceber a existência daquela veia. Outras pessoas estariam igualmente aptas a detectarem a uma intercorrência de dilatação vascular na têmpora esquerda do ancião. Um de seus filhos era médico, sua filha era bióloga, teriam capacidade para tal. Seu empregado, algum vizinho, o açougueiro, o carteiro, padeira. A compoteira enxergou o que ninguém mais havia visto. Rafael sentiu vontade de chorar, se controlou, não queria se tornar um velho chorão, queria preservar uma mínima essência de fibra e não poderia fazer isto na rua. Em casa fez tantos dry martinis quanto seu corpo suportasse. Num instante pupúreo a veia estourou. A vermelhidão misturou-se às cerejas e ao último drinque.


 

LM

Tuesday, November 15, 2011

Diálogos possíveis

Entre pai e filho


 

Eram as primeiras férias desde a ida de Charles Trezinni para o seminário. Tinha 16 anos, cheio de atitudes e idéias revolucionárias tomou resolução de não se fazer padre, tornar-se-ia ateu, comunista e pegaria em armas. Em casa, resolveu ter uma conversa de homem para homem com o pai.

─ Não quero ser padre.

─ Vai ser o que eu quiser. E não me venha com idéias, tem de ir aonde o dinheiro está.

─ Mas pai, e nossos valores, ideais?

─ Deixa isso pros outros. Eles que se lasquem, defenda o teu nariz.

─ É que não me identifico mais com a Igreja, virei comunista e graças a Deus, agora sou ateu.

─ Tanto melhor, assim não vai ficar me enchendo o saco para me arrepender dos pecados e também nunca disse para virar crente, disse para tornar-se padre.


 


 

Entre marido e mulher


 

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ai meu amorzinho.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ai meu benzinho.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Querido, acho bom amanhã ver a grade dessa cama, parece que tem alguma coisa quebrada,

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Por Deus e todos os santos, querida, que hora para pensar na grade da cama.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Me desculpe meu amor, mas é que só agora lembrei, já queria ter te falado antes.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Como assim antes? Quando é que você notou?

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ora querido, essas coisas estragam.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.


 

Sunday, November 13, 2011

O distrato

─ Sou parcela do Além



Força que cria o Mal e também faz o Bem!



Mefistófoles, em Fausto de Goethe.






Muitos e mais ilustres autores já trataram de temas infernais ou diabólicos tendo alguns, descrito com minúcias o sítio de perdição ou as relações tumultuadas entre os homens e o Demônio; acho desnecessário, além de ser uma heresia, citá-los. Existiram ainda estudiosos que tentaram, através de bem elaboradas teorias, definir os aspectos destas entidades que tanto medo inspiram nos crentes e, ao mesmo tempo, tanto os atrai. O respeitado Dr Laughton defende em sua obra, Locuções Satânicas, a possibilidade de existir um inferno metafísico, habitado por seres, cujas existências, seriam possíveis de serem explicadas através de teorias da Física Quântica, e que projeções espectrais de nossa consciência (ou de nosso subconsciente), poderiam sentir todos os tormentos deste inferno, mesmo após a morte do corpo. Considerando apenas os trabalhos tidos como sérios, poderíamos mencionar outras teorias de eminentes estudiosos, mas o fato relacionado a estas questões que mais me impressionou, não foi um estudo acadêmico, mas o estranho desaparecimento de um advogado, o Dr Gaston Abranches Carreeiro.



Alguns céticos atribuíram este desaparecimento ao fato do Dr Carreeiro estar envolvido com conhecidos narcotraficantes, tendo sido eliminado por conhecer demais as operações destes criminosos. Bastante plausível esta hipótese, entretanto alguns fatos inexplicáveis ainda pairam sobre esta história.



No verão de 1973, para cumprir as exigências do curso de Direito, iniciei um período de estágio não remunerado na famosa banca do Dr Carreeiro. Entre os clientes habituais do escritório, havia muitos políticos importantes, grandes industriais, além de ricos empresários, apontados à boca miúda, como sendo Barões da Droga. Devido a tão seleta clientela, chamou minha atenção o fato de um completo desconhecido, com modos educados, apesar de acanhado e com um aspecto humilde, marcar um harário com o Doutor, que não cobrava menos de quinhentos cruzeiros por uma simples consulta. Cobrava valores altos justamente para não precisar atender clientes menos importantes, invariavelmente encaminhados para os estagiários. Assim, quando algum destes clientes concordava em pagar pelo atendimento exclusivo do Dr Carreiro, ele o recebia acompanhado por um advogado iniciante ou um estagiário destinado a ser o verdadeiro condutor do processo, cabendo ao Doutor apenas assinar as argumentações e quando estritamente necessário, comparecer a alguma audiência, não deixando de cobrar até os minutos.



Este desconhecido de aparência humilde tendo solicitado uma audiência com o Dr Carreeiro, fora aconselhado pela recepcionista a ser atendido por outro advogado, com a agenda menos ocupada e com honorários mais de acordo com pequenas causas, além de que, o Doutor só teria um horário livre em uma semana. A questão financeira não pareceu ser um obstáculo, pois revelou estar disposto a pagar em dobro para que pudesse ser atendido no mesmo dia e, diante da firme resolução em pagar, ele foi conduzido ao escritório do Dr Carreeiro, após mais de quatro horas de espera. Eu fui escalado para ser seu assistente.



O cliente era um industrial chamado João Walter Gomes e apesar de seu aspecto desleixado, seus modos eram de uma pessoa com certo refinamento; falava com clareza e sua fala destoava do aspecto simplório, mesmo com o evidente estado de inquietação e medo estampado em seu semblante.



─ Muito bem meu senhor, o que o traz até meu escritório?



─ Doutor, antes de explicar as minúcias do meu caso quero informá-lo do meu firme propósito em aceitar todas suas exigências, inclusive quanto aos honorários, contanto que o senhor aceite e conduza pessoalmente este processo.



─ Mas sem saber do que se trata, não posso dar nenhum parecer.



─ Pois bem, quero cancelar um contrato, um contrato muito peculiar.



Estendeu na direção do Doutor, um envelope grande, bastante surrado onde havia um documento manuscrito em tinta escura, marrom talvez. Não pude ler o contrato, estava com o Doutor, mas descobri seu conteúdo após o seu esbravejamento.



─ O senhor está achando que eu não tenho mais nada para fazer? Isto aqui é uma firma séria e respeitada, pouco dada a brincadeiras, portanto se era só isto que o senhor tinha para me mostrar, considere encerrada a consulta.



Bastante irritado por estar perdendo seu precioso tempo, o Dr Carreeiro atirou o documento sobre a mesa e continuou.



─ Contrato de venda da alma ao Diabo! Era só o que me faltava! Faça-me o favor!



─ Tenho ciência da importância de seu tempo, mas, mesmo que o senhor não aceite meu caso, eu já paguei por uma consulta, portanto queira por gentileza escutar o que tenho a lhe falar e depois o senhor estará livre para tecer suas considerações e aceitar ou não este caso.



Ele proferiu estas palavras em um tom de voz baixo, porém firme, encarando diretamente os olhos do Doutor que não teve outra saída que não fosse, pelo menos, escutar aquela lengalenga.



─ Procurarei ser breve e sucinto. Há cerca de cinco anos, minha empresa, uma fabrica de garrafas e artefatos de vidro, começou a apresentar resultados negativos em seus balancetes, mas indiferente aos rumos da empresa, continuei mantendo o mesmo padrão de vida, com freqüentes viagens para a Europa, safáris pela África, festas monumentais freqüentadas e comentadas pela fina flor de nossa sociedade, enfim, mantive-me alheio aos problemas da fábrica até o dia que um dos diretores informou que estávamos à beira da falência. Interrompi todas as minhas atividades sociais e passei a me dedicar exclusivamente ao processo de recuperação da empresa. Telefonei para ministros, generais, empresários, banqueiros, tudo em vão. Até que o inevitável aconteceu. Tivemos a falência decretada e, meus bens particulares, seqüestrados pela justiça. Após este fato vários acontecimentos foram se sucedendo, como em um efeito dominó; tive as portas da sociedade fechadas para eu e minha família, nossos amigos debandaram, minha amante me trocou pelo síndico da massa falida, dívidas que estavam sendo pagas ao longo dos anos foram imediatamente executadas, enfim, de uma hora para outra, eu estava na miséria, não podendo sequer, manter meus filhos na escola, o que foi a gota d´água para minha esposa, que me abandonou levando as crianças. Não tendo mais ninguém a quem recorrer e num momento de insânia, inspirado em Fausto, tencionei invocar o Diabo e fazer um pacto. Recorri ao livro de nigromancia, In Saecula Saeculorum In Albis, e recitei algumas palavras malditas, mas como não fui atendido, recorri a outra maneira de fazer o pacto, descrita no livro e, com meu próprio sangue, redigi este contrato no qual apus minha assinatura. Para meu espanto, no outro dia, já ignorando aquelas besteiras de Satanás, ao pegar o Contrato para destruí-lo, percebi ao lado de minha assinatura a rubrica: LCF. Imaginei estar vendo coisas e me sentindo cada vez mais insano, tomei a decisão de pôr um fim em minha vida miserável. Encontrei um lugar que nos traz água à boca para um afogamento e quando me preparava para atirar-me às águas do rio, um homem me chama e pergunta sobre meu intento. Soluçante, contei-lhe minhas desgraças e meu propósito. Era um missionário espanhol chamado Carlos Herrera. Ele me acalmou, consolou, falou palavras confortantes e me convidou para ir até a casa do mais poderoso dos lideres, a casa de Deus.



Esta conversa aparentemente sem propósito, parecia ter finalmente atraído a atenção do Doutor.



─ Prossiga senhor Gomes.



─ A proposta do missionário me pareceu bem mais vantajosa do que a de Lúcifer: bastava doar dez por cento de meus bens para a igreja e passasse a contribuir mensalmente com mais dez por cento do que eu viesse a ganhar, com a glória de Jesus. Desta forma, segundo ele, recuperaria meus bens alem de garantir um lugar no Paraíso, algo bem melhor do que banhar-se nas águas do Letes. Passei a participar assiduamente dos cultos, doei, mesmo estando temporariamente indisponíveis, parte de meus bens para a igreja e com a graça de Deus, obtive algumas vitórias judiciais no processo falimentar, como o desbloqueio de grande parte de meu capital particular; em seguida consegui reassumir o controle da fábrica, renegociei dívidas em condições favoráveis e após alguns meses, alcancei minha plena reabilitação, muito mais completa do que a de César Birotteau. Recuperei minha família e minha amante e graças a retomada de meus rendimentos, passei a ser o maior doador da igreja. Estava de volta e agora em grande estilo, ao lado de Jesus. Mas havia aquele contrato e nem sei por que, o mantive guardado todo este tempo, sem revelar a ninguém, nem mesmo ao pastor. De uma hora para outra comecei a pensar a todo o instante nele, não me saia do pensamento. Eu orava, tentava esquecer, ignorava, mas ele estava lá, latente, apenas esperando o momento de reclamar seu pagamento. Encontrei na igreja o conforto necessário para manter a tranqüilidade quanto ao destino de minha alma, que já tinha seu lugar assegurado, não obtendo no entanto a mesma segurança quanto aos meus bens e entrei em uma crise depressiva terrível e me isolei completamente, até que recorri mais uma vez, ao In Saecula Saeculorum In Albis e descobri a possibilidade de obter alguma chance se nomeasse um negociador ou representante. É onde o senhor entra.



─ Mas como poderei eu intimar Lúcifer? Devo mandar a notificação para onde diabos afinal? Isto tudo não passa de uma tremenda maluquice.



─ Eis a minha proposta: Como ainda sou um homem rico, estou disposto a pagar muito bem por este distrato, além de pagar mensalmente seus honorários, a título de manutenção do processo, bastando para isto, que o Doutor elabore todas as argumentações, assine e mantenha arquivado em seu escritório até que surja algum fato novo.



A menção de um lauto pagamento e mais um significativo valor todos os meses, por um período indefinido, a se estender por anos, aguçou o interesse do Dr Carreeiro por aquele caso. Vislumbrava a maneira mais fácil de ganhar dinheiro que se apresentara em toda a sua carreira.



─ Quais argumentos, poderíamos apresentar? E como o senhor pretende efetuar estes pagamentos



─ Argumentaremos que minha recuperação se deve ao ingresso na igreja e não pela intervenção de Satanás e estou disposto a assinar um contrato de serviços advocatícios além de deixar um imóvel de bom valor como garantia para pagamento dos valores acordados.



O Dr Carreiro não teve mais dúvidas, no dia seguinte a esta conversa, encarregou-me de acompanhar o cliente até o cartório de imóveis para efetuar a hipoteca e ao cartório de registros e notas, para autenticar o contrato. Neste dia, o senhor Gomes apresentou-se de maneira diversa ao dia anterior, estava bem vestido, barbeado e, principalmente, aparentava uma serenidade própria daquelas pessoas que vivem de bem com a vida, era outra pessoa.



Terminado o estágio, fui trabalhar em um banco e praticamente não tive mais contato com o Doutor, a não ser em encontros fortuitos no fórum. Somente muitos anos depois, li nos jornais sobre seu misterioso desaparecimento. Apesar do caráter puramente lúdico daquele caso de venda da alma, nunca o esqueci, talvez por obra de alguma veia supersticiosa, e esta foi minha primeira lembrança ao ler as manchetes nos jornais. Procurei obter mais informações do caso. Segundo o depoimento de testemunhas, a última pessoa a ser recebida pelo Doutor, antes de sumir, foi um certo Lúcio Fernandez de Dite, personagem desconhecido de todos no escritório e descrito como sendo um cavalheiro muito refinado, que queria tratar de um litígio antigo movido contra ele, por um cliente do Dr Carreeiro, falecido alguns dias antes. Constava ainda nos depoimentos, que nada mais havia sumido do escritório a não ser a pasta do cliente João Walter Gomes. Em nenhum processo, os funcionários da banca encontraram qualquer coisa a respeito deste Lúcio Fernandez. Cada vez mais curioso, fui atrás de informações sobre o senhor João Walter, tendo encontrado, no jornal de uns dias antes, uma nota de falecimento. Investigando as causas da morte, descobri que ele morreu do coração, minutos depois de ter recebido a visita de alguém que se identificou apenas como sendo um velho amigo cujo nome, de acordo com um cartão de visitas encontrado na mão do falecido, era Lúcio Fernandez de Dite.



Já não podia deixar de esclarecer esta história fantástica e procurei encontrar o senhor Lúcio, tarefa bem mais fácil do que poderia supor: ele estava detido em uma delegacia para averiguações, por ser suspeito do desaparecimento do Dr Carreeiro. Valendo-me de minha credencial da OAB, pude solicitar uma visita como se fosse seu defensor e travar uma conversa absurdamente reveladora.



─ Não chamei nenhum advogado. Aliás, não preciso de advogado.



─ Não vim para defendê-lo, apenas fui atraído pelo caso por ter, há muito tempo atrás, conhecido o Dr Carreeiro e também o senhor João Walter Gomes.



Mencionei os dois nomes para ver qual sua reação.



─ Agora estou lembrado. Você é o estagiário que redigiu o distrato do Gomes. Você não passa de uma sombra também.



─ O que o senhor quer dizer com isto?



─ Uma sombra como o Gaston. Fique você sabendo que ele não está desaparecido, ele simplesmente nunca existiu. Não passou de uma projeção espectral do João Walter. Veja a ironia. Ele tentou me enganar, mas acabou procurando ele mesmo para passar o ônus do contrato ao contratar a própria projeção.



─ Não estou entendendo o que o senhor quer dizer.



─ Você acredita que é um ser único e absoluto, mas não passa de um reflexo daquilo que outra pessoa produz. Sua vida boa e confortável não é nada mais que um sonho de algum favelado qualquer, assim como a existência do seu amigo Doutor não passava de um reflexo daquele bobalhão do Gomes, que estava fadado a cair nas minhas garras, não importando o quanto esperneasse.



─ Você quer que eu acredite nestas sandices? Se você fosse quem está querendo insinuar que é, ainda estaria nesta cadeia imunda?



─ Que melhor lugar para um diabo, do que este? Enquanto descanso, recruto novos soldados nas celas e novos aliados nas salas dos advogados.



─ Não seja insano e use um clichê menos óbvio..



─ Insana é o que vocês chamam de vida. Você sabe que estou falando a verdade. ─ Tanto é que já vejo em seus olhos, prestes a se apagarem, o medo de se descobrir o subproduto de um desesperado e não restar para você, nada mais do que uma vaga lembrança, um déjà vu no sonho de outrem.



Não tive mais paciência para suportar tantas demências e saí imediatamente da delegacia. Estava aturdido com aquele palavrório todo e minha cabeça doía. Precisava ir para casa o mais rápido possível. Fui direto para o quarto, sentia urgência em descansar. Caí em um sono profundo, pululado por sonhos inquietantes e desconexos, até acordar, muitas horas depois, em um catre de um barraco da favela. Não sei como fui parar naquele lugar miserável e minha cabeça ainda doía muito. Um gosto forte de água-ardente vagabunda amargava minha boca. Estava na hora de ir trabalhar.



Tinha mais um banco para levantar paredes e na mente, lembranças que não eram minhas.



LM

Sunday, November 06, 2011

A Anfisbena e as cerejas

Plínio e Bruneto Latini a descreveram, cada qual a seu modo, se não a viram, intuíram-na e Sir Thomas Browne a negou, mas isto não impediu a Anfisbena de ter existido. Muito menos impediu-a de ter experimentado do fruto proibido. No Tratadus Originalis, de Augustiano Priemeto a clássica descrição do fruto proibido como sendo uma maçã é categoricamente refutada e, em seu lugar o autor coloca a cereja. A troca do fruto deu origem ao mito no qual o veneno da Anfisbena se teria originado de duas cerejas da árvore do bem e do mal colocadas em cada presa. Tendo a Anfisbena duas cabeças, podemos supor ter sido Deus enganado pelo animal que, de forma sutil, escondeu parte de seu corpo. A maldição divina caiu sobre a serpente a Anfisbena, para não chamar a atenção para si, desde então vive esgueirando-se entre sonhos, mitos e realidade. Não há registros conhecidos descrevendo a cereja carregada de veneno, mas a tradição oral vem colocando esta fruta em lugar de destaque em coberturas de bolos e sorvetes, bem como no toque final de drinques e batidas.

Não satisfeita em ludibriar o Criador, a Anfisbena voltou ao local do crime e municiou-se com considerável quantidade de frutos da árvore do Jardim do Éden. Pequenos, tornaram-se carga fácil de ser transportada e este estoque garantiu a perpetuação dos poderes do animal até os dias de hoje. Dizem que quando a Anfisbena se distrai, deixa cair uma cereja e aquele que a encontra e a devora é tomado por alucinações, mas isto ainda não explicaria como ela consegue extrair veneno mortal da fruta. Theodor Kutb Wufniks III nos apresenta o relato de um caçador das Ilhas Salomão, que teria encontrado algumas cerejas em um ninho abandonado de Anfisbena: "Nunca pensei em experimentar este tipo de fruto, sempre tive em bom termo os tantos alertas acerca de seus perigos, mas um átimo de desassossego, experimentei uma. O que parecia ser algo banal e corriqueiro, mostrou-se uma aventura intensa, da primeira ficou um gosto na boca, não sabia se bom ou ruim, e tive de tomar outra. Enquanto se mastiga, não há nada melhor, instantes depois sua cabeça pesa e se arrepende profundamente de ter sucumbido, mas passados alguns dias, volta aquele gosto na boca, nem bom nem ruim e temos de espremer outra entre os dentes." Segundo Wufniks III, o pobre homem perdeu completamente o juízo e partiu, floresta adentro, determinado a exterminar a Anfisbena, ou, segundo os céticos, a tomar-lhe a carga de cerejas.

LM

Sunday, October 30, 2011

Petits mensagens en bouteilles

Continua a chover e as gentes desta terra pensam que não: não percebem que os pingos de chuva continuam a se jogar das nuvens, mas secam antes de cair nos telhados das pessoas de bem. Deve ser por isto que só eu percebo, deixei de ser uma pessoa de bem. O problema é que como não sou exatamente mau, tenho de ficar no limbo, onde a chuva não é farta, mas as goteiras nunca erram seu alvo.

LM   

Monday, October 17, 2011

Motivos do amanhã


 

Não havia motivos, apenas pequenas saliências nos vãos das idéias e ele percebeu: o amanhã começou mais cedo naquele dia. Tomou o café, — mais forte do que o habitual —, estrangulou um ou dois rinocerontes e saiu. Sair de casa não se classificava entre as coisas mais prazerosas era, antes, um exercício de superação. Não gostava de multidões, de lugares abertos, de sol, vento a balançar-lhe os cabelos, bom dia e afins: preferia a companhia das baratas e dos silenciosos porta-retratos sem fotografias.

Uma vez instalado no seio da sociedade, tratou logo de assumir os trejeitos do personagem mais adequados às rutilâncias do convívio social, da moral e dos bons costumes e adjetivou com qualidades sublimes suas ações cotidianas. Cumprimentou amavelmente a senhora Bastos, devolveu afetuosamente a bola para o menino Eduardo, esquivou-se cavalheiristicamente de olhar para as bem torneadas pernas da datilógrafa Antonia e pediu, educadamente, fogo para acender o cigarro, a um simpático transeunte, que mui gentilmente cedeu-lhe uma fulgurante chama azulada. Era, afinal e ao cabo, um sujeito normal e de bem.

Vomitou escondido do contínuo Aderbal, quatro blocos de concreto, duas braças de capim-serra, e uma travessa de vidro. Auto-flagelar-se era parte do ritual diário de tolerância. Precisava tomar mais café e tolerar sereshumanosquefalavamcoisassemimportânciaotempotodo: Os números da economia indicam um grave retrocesso político-financeiro nas contas da corrupção do poder público envolvido com a conquista do espaço midiático das esferas mais abastadas das classes D, E e F e das classes menos favorecidas pelas chuvas torrenciais que inundam as bolsas dos grotões financistas e das planícies ensolaradas coberta por chalés de verão, hedges funds, corrida eleitoral, não atingiu as metas, o capítulo da novela, vai chover, et cetera e et caterva. Tomou mais café.

Quando a carruagem de Apolo deixava apenas seu rastro crepuscular, o valoroso guerreiro retornou ao seu soturno refúgio, longe dos olhares curiosos de homens e mulheres comuns. Escorria cafeína pelos cabelos e era mais um desempregado. O café não o ajudava mais e sua necessidade imediata era ficar simplesmente bêbado. Talvez assim entendesse porque sua vida não dava certo como a vida das pessoas normais. Bebeu o que encontrou em casa até reduzir seu vocabulário em 98% e imaginou estar sentindo-se só, imaginou estar sofrendo e imaginou sentir dor e saiu. Gostaria que aquela fosse uma noite fria, com uma fina e intermitente chuva a deprimir as pessoas, mas não era. Estava quente e as pessoas nas ruas pareciam especialmente felizes, sem preocupação em dormir cedo. Dezembro é uma merda.

Não sabia o que poderia ser mais patético: sentir-se deprimido às vésperas do Natal ou ver aquela multidão de pessoas felizes e ávidas para comprar qualquer coisa que possa ser carregada para todos verem, como se fosse um atestado de pertença ao reino da felicidade. Andou, ou imaginou ter andado e encontrou na rua uma sacola com panos vermelhos, era uma roupa de Papai Noel, ficaria com ela. Comprou uma cerveja e, num beco, resolveu vestir a roupa, tinha até gorro e barba branca. Tirando o fato de estar cambaleante, era um perfeito bom velhinho.

Preservando sua identidade secreta sob a máscara escarlate, o herói entra em um reduto de vilões, mal-feitores, cafetões e prostitutas, escroques de toda espécie. Eles percebem sua imponente presença e se calam, por uma fração de segundos.

No bar ninguém notou sua presença, não era a única celebridade presente, lá também estavam o Batman, o Diabo e o Homem Invisível, além de mais uns dois Papais Noel. Já era amanhã, em casa os rinocerontes estrangulados já deviam estar começando a feder, o pior é que sempre apareciam mais. Sentiu uma necessidade de pôr algumas fotos nos porta-retratos, talvez amanhã começasse a procurar uma câmera.


 

LM


 

Sunday, October 16, 2011

Uma noite ainda

O caixão no meio da minúscula sala de estar dificultava a circulação de tanta gente. Eram apenas curiosos, querendo dar a última olhadinha no cadáver. O morto, quando vivo não era muito popular. Os curiosos queriam mesmo ter certeza da morte. Algumas tias cochichavam reminiscências pré-históricas. Lembravam, da infância e das travessuras. Dos namoricos pelos cantos da casa e das confusões com os meninos da rua do açougue e do adolescente belo e indomável. Evitavam falar dos últimos anos. Era o suficiente lembrarem-se apenas dos tempos de inocência e rebeldia inofensiva..

    Eram nove horas da noite. O frio aumentava o desconforto dos velantes. O defunto continuaria a interpor-se nos seus caminhos por mais algum tempo. A morte ainda não lhe apagara todos os rastros e já era possível perceber olhares e intenções diversas para a viúva. Ferdinando era só solicitude.

Anabela parecia ter lágrimas acumuladas há muito tempo, mesmo assim, percebia, impassível, os pequenos movimentos ao seu redor. Continuava seu choro sem motivo. Sentia o vazio e a perda de algo ignorado. Estendido em sua sala, o cadáver de alguém que ela amou um dia. Casaram-se, até que a morte os separou.

Já assumindo o papel de viúva, aturava as pessoas olhando-a com compaixão. Tão solícitas e amáveis, tentando consolá-la com uma generosidade ensaiada: "Mas você tem de comer alguma coisa, precisa se alimentar". A comida a constrangia. Em certas ocasiões, comer lhe parecia algo impensável, como se o animalesco se impusesse ao humano. Não aceitava o instinto de sobrevivência do corpo desdenhando os melindres da alma.

    Como uma águia que estende as asas sobre o ninho, Ferdinando se aproximou.

    — Ele sempre te maltratou e você ainda chora. Amava ele ou amava o sofrer?

— Houve um tempo, antes de nos casarmos, que eu o amei. Amei mais do que tudo na vida. Acho que choro por aquele tempo. Ou talvez pelo homem que ele poderia ter sido. Havia algo de muito bom dentro dele, mas ele pensou que poderia se desviar deste caminho doce e depois retornar. Sempre falava que estava passando por uma fase ruim, mas logo tudo passaria. Nunca acreditei nisto, e ainda assim, sempre dava mais uma chance. — Ela falava com convicção, só não conseguia convencer a si mesma. Duvidava daquele amor e o período doce não passara de amores juvenis, embalados por uma liberdade recém conquistada onde tudo era permitido: amar livremente, viajar em asas ácidas, escancarar todos os poros para absorver tudo da vida. Estas lembranças a frustraram, pois de tudo o que experimentou nada permaneceu. Nem a felicidade, nem a tristeza. Tudo passou. Restava um caminhar letárgico rumo à morte. Então o que a impedia de se entregar novamente às paixões e às experiências, era só pegar uma garrafa de vodka e levar Ferdinando para o quarto, quem sabe convidar também aquele negro, vizinho da Sebastiana, que ronda a mesa de canapés. Não seria a primeira vez ou, se preferisse, Margarida já havia dado mostras de sua queda por mulheres, também não seria a primeira vez. Poderia conseguir um pouco de coca ou um baseado. Tinha consciência da própria beleza e do fascínio que exercia em homens e mulheres. No entanto, apenas chorava ao lado do caixão daquele que a humilhou e a fez descer até os porões mais alagados. "Deveria agarrar o Ferdinando aqui mesmo e foder em cima do caixão." O que a impedia? Respeito aos mortos não era, já assistira muitos serem mortos e há muito já não se incomodava com o fato. "Acho que amanhã vou pr'aquela igreja que uma das tias falou. A merda é ter que dar 10% todo mês. Talvez noutra hora, deixa ver o que sobra do inventário."

    Uma das tias trouxe chá.

— Beba querida, vai te fazer bem. E vista um casaco, a noite será gelada.— Se esforçava, com as mesmas palavras de outros velórios.

— Saiu alguma coisa no jornal? — Perguntou distraída Anabela

    — Uma nota no obituário e uma matéria pequena no pé da página policial.

    Ferdinando se maldizia por não ter tido a idéia de trazer um chá ou oferecer o casaco. Também não trouxera nenhum exemplar do jornal. Outra tia reabastecia a garrafa de café e a bandeja de canapés e cochichava com energia para o negro.

— Pára de comer tudo seu morto da fome. Tu não era amigo do finado e nem da viúva e é o que mais come.

Ele fazia de conta que não era com ele e dava mais uma volta ao redor do caixão.

    Aderbal começava a se irritar com os urubus. Margarida fitava Ferdinando, cada vez mais indignada, cada vez mais enciumada. As tias ofereciam mais chá para Anabela enquanto o negro, vizinho de Sebastiana, rondava a mesa.

Uma mistura de odores impregnava a sala. Fumaça dos cigarros, cravos murchos, suores antigos, cachaça e café, tudo se misturando com os sussurros das rezas aprendidas em outros velórios, ditas em atos coreografados e cheias de soluços disfarçados.

    A terra já estava de escancarada, esperariam amanhecer para se livrarem de uma vez do cadáver. Anabela aspirou com força a fumaça do cigarro, deu uma olhada ao redor e retribuiu com um meio sorriso os pêsames do negro. Permanecia sentada muito próxima ao caixão "Caxãozinho vagabundo, já tem até buraco de bicho."

Sunday, October 09, 2011

A verdade

Borges conjeturou estar a verdade nas quarenta sílabas das catorze palavras casuais escritas pelo deus nas listras dos tigres. Afonso Argifontes, no livro As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho, descreveu, através de uma intrincada fórmula matemática, os caminhos para chegar à verdade. Partiu do pressuposto de existirem não uma, mas uma série de verdades aceitas pela sociedade como, verdades verdadeiras. Identificada essa série inicial, Argifontes, sem, no entanto, informar os critérios de seleção das verdades iniciais, enumerou os critérios de aceitação e de promoção das categorias de verdades, baseados em cálculos quantitativos da população da Terra, a distribuição demográfica das gentes nos países e a quantidade de formas possíveis de repetir os enunciados. Também imaginou, ou pensou ter imaginado, um meio de medir, agora qualitativamente, a força dos enunciados escapulidos das bocas dos melhores seres humanos. A definição desta última categoria não ficou exatamente clara nas deliberações argifontianas e, imagino não ser difícil encontrar tal classificação nas páginas das principais publicações, periódicas ou não, dos países avançados e seus análogos, abaixo dos trópicos.

    Faltou, no entanto, Afonso Argifontes explicar-nos como convencer aos menos favorecidos intelectualmente, a aceitarem a definição última do que é a verdade. Arrisco lembrar, para esta tarefa, do caráter messiânico de certas profissões, como a dos jornalistas e dos bookmakers. Também tenho fé na imparcialidade e na lisura dos meios de comunicação de massa, especialmente os providos de grande aparato tecnológico e financeiro, que podem levar aos mais ignóbeis grotões, a luz de formulações como as contidas em As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho.

    Já Marcomino di Lampedusa, primo em elevado grau de Giuseppe, muito provavelmente inspirado nas notas de Afonso Argifontes, percorreu o mundo tomando notas de todas as verdades quanto pudesse anotar. Preencheu 82 volumes com as mais variadas formas das mais puras verdades jamais proferidas por homens e mulheres de bem, membros da fina flor de suas sociedades. Compilou suas notas e publicou, vindo a ser aclamado por público e crítica, Os poderes da verdade — Por comentadores diversos e notas de Resemundo Fialho, cujo intróito cita humildemente Diderot: "Devem exigir que eu procure a verdade, não que a encontre.", como se não tivesse logrado retumbante êxito em sua busca.

    Assim, todo aquele que tiver qualquer dúvida quanto o que é realmente verdadeiro, jamais deverá deixar de consultar as glorificantes páginas do Os poderes da verdade..., sob pena de sucumbir ante o peso das mentiras e das meias verdades. De minha parte, dispenso a aventura perigosa e insana de aproximar-me demais de tigres e símiles.


 

LM