Wednesday, February 29, 2012

Cachorro

Toc, toc, toc.

— Dona Vera, o dona Vera! É o Bruno do 10!

— Que foi? Isso lá são horas?

— É que tem um cachorro no meu quarto.

— Um cachorro?

— É.

— Isso não é bom, não é bom. Não aceitamos animais, muito menos um cachorro e dentro do quarto, isso não é bom.

— Ele tá lá.

— Vamos dar uma olhada. Isso não é bom.

— É um cachorro mesmo. Quando o viu pela primeira vez?

— Dona Vera, se liga, hoje eu saí para estudar e não tinha cachorro nenhum e ai, quando voltei, ele tava lá, por isso fui chamá-la.

— Ele te atacou, te mordeu, te arranhou?

— Não, só ficou me olhando.

— Vou chamar meu irmão, o Vilson, ele leva jeito com animais.

Toc, toc, toc.

— Abre logo Vilson, sou eu, a Vera!

— Que bosta, isso lá são horas de aparecer gritando na porta de gente?

— Tem um cachorro no prédio, no quarto desse infeliz.

— Ele latiu?

— Não, só ficou me olhando.

— Vamos ver isso, vou pegar umas coisinhas pra lidar com cachorros.

— Veja, ele ainda tá lá, bem onde o encontrei.

— Filha da puta, não é que é mesmo uma porra dum cachorro. Tenho que falar com o Dr. Uribe.

— Doutor? É o Vilson... tem um cachorro aqui... isso, um perro... tá bom... tá bom... sei... não, ele não latiu... tá, a gente espera... até.

— O doutor está vindo.

— Carajo, és un perro mismo y mui hermoso, sin embargo és un perro. Llamen aos bomberos!

Uóóóuuóó.

— Onde está o animal?

— Ali, por ali, naquele quarto.

— Quem mora no quarto?

— Eu.

— Hum! Vamos dar uma olhada nisso de perto mocinho. Meu Deus, pela Virgem Santa, é mesmo a porra de um cachorro! Isto está fora de nossa alçada, podemos, no máximo, dar suporte operacional, mas vamos ter de chamar a polícia. E quanto a você, não saia daqui.

Uóóóuuóó.

— Onde está o suspeito?

— Ali, perto da porta. Lá dentro está o cachorro.

— MÃOS NA PAREDE! ABRA AS PERNAS!

— O que foi que eu fiz?

— CALA A BOCA E PÕE AS MÃOS NA PAREDE!

— O cachorro, ele tá lá dentro...

— Fica quietinho e só fale quando te perguntar alguma coisa.

— AAAI, meu braço! Tá quebrando! Caralho!

— ATENÇÃO! O cachorro tá se mexendo. Parece... é isso mesmo! Ele vai cagar! AFASTEM-SE!

— E eu? Meu braço tá quebrado.

— Vilson, pega o guri e traga pra cá, ele nunca incomodou antes, sempre tão quieto, deve ser algum mal entendido.

— Mas não é o braço que tá quebrado, e não a perna!

— Capitão, o agente canídeo defecou.

— Rapaz, vá lá dentro e limpe aquela merda!

— Meu braço... tem um cachorro lá dentro...

— Não tente desviar a atenção com essa história de cachorro, você é o único responsável por essa confusão toda. Temos aqui dezenas de bons profissionais prontos a arriscar suas vidas para livrar a cara de bundões como você. Agora deixa de frescura, vá até lá e limpe aquela merda!

— Ele fez alguma coisa quando você o encontrou?

— Não, capitão, só ficou me olhando.

— Isso não tá nada bom, tem mesmo um cachorro lá dentro. Precisamos chamar a Força Nacional de Segurança Pública.


 

LM

Sunday, February 26, 2012

Ao rei

Fui chamado em presença do rei Hamurabi. Devo apresentar-me a Vossa Majestade ao terceiro pôr do sol do recebimento deste comunicado. Estremeço-me, meu espírito aflige-se, três dias ainda, não conseguirei alimentar-me nem dormir, preciso controlar-me, não posso aparecer diante de tão elevada persona como se um zumbi fosse. Glória apavorante. Dos meus vizinhos, pelo menos metade deles arrancaria dois dedos dos pés para poderem ser recebidos pelo rei do mundo. O que poderá querer Vossa Majestade deste humilde servo? Terror! Teriam descoberto ser eu o autor daquelas malditas tábuas apócrifas, frutos dos desvarios juvenis? De nada adiantará prostrar-me ao chão e, em lágrimas, revelar o quanto renego aqueles dias e tudo que fiz nos momentos de intempestividade, o quanto amaldiçôo minha mão por ter escrito tamanhas insanidades. Não pode ser, já se passaram tantos anos, nem os mais proeminentes sábios e magos conseguiriam descobrir o autor dos escritos. Talvez o rei queira apenas recompensar-me por todos os anos de dedicação e trabalhos bem feitos em nome de Vossa Majestade Real e me conceda alguma graça, uma satrapia, afinal tenho me dedicado em enaltecer o nome do rei todo poderoso todos os dias de minha vida. Não devo preocupar-me, mas os olhos e ouvidos do rei estão por toda parte, estou perdido. Esqueça, tolo, nada deverá de mal acontecer-me, quem não deve não teme, a não ser que alguns dos tantos parasitas invejosos que orbitam o palácio tenham orquestrado calúnias para minha perdição perante nosso soberano. Serei açoitado mil vezes antes de ter minha cabeça separada do corpo. Urge fugir, irei para o Egito. Isto não é atitude de um homem corajoso, ficarei e enfrentarei meus detratores, até a morte, se preciso for. Não tombarei sem antes lutar o bom combate, sem mostrar todo o brio e valor dos da minha linhagem e, perecendo, acorrerão poetas cantando loas em minha lápide e as donzelas chorarão por um marido tão valoroso quanto eu. Quanto de suprimento e ouro consigo arranjar antes do amanhecer? Pegarei um camelo dos mais robustos, talhado para longas jornadas, subornarei os guardas para que não delatem minha partida e empregarei fuga através do deserto em direção ao Egito. Clamarei hospitalidade nas casas nobres pelo caminho para os pernoites e antes de a lua completar um ciclo já estarei nas terras banhadas pelo grande Nilo. Apresentar-me-ei com outro nome e oferecerei meus préstimos para a glória do meu novo rei. Creditarei meu exílio à morte prematura de minha amada esposa e, ficar em minha casa remeteria à sua amarga ausência. Como ficarão, de fato, minha esposa e meus filhos? Se Hamurabi descobrir minha fuga os porá a ferros e, se não os enforcar, os fará de escravos para serem vendidos na feira. Não poderei viver com esta culpa, eles não podem perderem-se por minha causa. O que o rei quer comigo? Não poderei suportar o lento caminhar do tempo, tenho que fazer algo. E se for apenas para apresentar o balanço anual das colheitas de damasco? Esta cicuta deve resolver.

LM

Tuesday, February 21, 2012

Vive la médiocrité: Auto ajuda para repensar o sucesso

Em minha última viagem à Marabá, tive o prazer de entabular das mais ricas discussões com meu muito amigo e compadre G. Estando eu em férias e aproveitando o conteúdo tautológico de nossas análises, ele me convidou para fazer uma palestra na universidade local acerca das existências ímpares de três dos exemplos mais bem acabados da inquietante condição humana: Pierre Menard, Brás Cubas e Memnon, o sábio. Não foi espantoso ter encontrado acadêmicos desconhecedores da história destes três ícones, se não, ter encontrado quem, antes de ouvir meus argumentos, objetar a existência de um paralelismo atávico entre eles. Trago aqui um resumo das palavras proferidas durante a conferência.


 

Discussão sobre o psicologismo intrínseco em Pierre Menard, Brás Cubas e Memnon, o sábio e a mediocridade


 

O que buscamos ao longo de nossas vidas? Um existencialista empedernido poderia objetar qualquer outra afirmativa que não fosse viver, já um minimalista acrescentaria o prefixo sobre. Um estóico apenas se diria ocupado em suportar o fardo e não teria nada a acrescentar, enquanto um hedonista estaria ocupado em excessos. A lista de comparações poderia estender-se enfadonhamente, fazendo analogias entre crentes e laicos, hegelianos e nietzschianos e assim por diante. Mas a resposta é: sucesso.

Antes de ser mal interpretado, entenda-se sucesso como a melhor realização daquilo que mais próximo está do caráter de cada indivíduo. Um lenhador sonha em ser o melhor lenhador que se tem notícia; um médico idem; assim como uma dona de casa ou um taxista. Pierre Menard não queria ser apenas o respeitável escritor que fora, queria ir adiante, queria, se não ser, ao menos escrever o que Cervantes escreveu. Notem, ele já havia alcançado uma condição proeminente, mesmo assim queria ir além, não bastava fazer a melhor exegese do Quixote, urgia escrever, anacronicamente, o Quixote, como se Cervantes não o tivesse feito.

O bon vivant Brás Cubas, tendo de despender o mínimo esforço para viver, perdeu-se com a idéia fixa do seu emplastro medicinal que curaria a eterna melancolia dos homens. Para qualquer vivente esta seria uma tarefa hercúlea, para quem de nada necessitava na, uma missão messiânica.

Quanto ao sábio Memnon, outro que de nada nesta vida lhe faltava. Tinha dinheiro, amigos fiéis, uma posição social reconhecida, entretanto queria mais, queria ser perfeitamente sábio e não entreviu maiores obstáculos para alcançar seu intento. A história nos mostra quão enganado estava nosso sábio.

Como vimos, os três exemplos não eram de homens quaisquer, eles tinham posições de destaque nas suas sociedades, tinham fortuna, eram inteligentes e bem relacionados, mas lhes faltava algo a mais do que a fortuna, lhes faltava o sucesso, serem reconhecidos como os mais proeminentes entre seus pares, almejavam mudar a história e conseguiram, no máximo, entrarem para história como exemplos picarescos, perderam-se os três, cada qual ao seu modo e jamais conseguiram atingir plenamente seus intentos. Agora volto à pergunta inicial de nossa discussão para reafirmar minha resposta. Poderia elencar uma vasta relação de outros exemplos similares, por ora bastam os já citados para afirmar que a busca pelo sucesso nada mais é do que a precipitação do fracasso. Vivamos na mediocridade e não nos perderemos. Não tratem o termo medíocre de maneira pejorativa, pois nada mais é do que permanecer na média, sem faltas, tampouco excessos. Vivendo na mediocridade não teremos os arroubos das paixões, nem os disparates furiosos da busca pelo sucesso. Também não cairemos do alto e se cairmos, não estaremos tão longe do chão. Viva a mediocridade.


 

P.S. Estamos trabalhando para que a transcrição completa da conferência seja publicada em breve, sob a forma de livro. Enviei-a à Sorbonne para chancela daquela instituição e estamos direcionando esforços para que o lançamento da obra ocorra na sede do Parlamento Europeu, com cobertura dos mais importantes veículos de comunicação. Será um sucesso.


 

LM


 

Sunday, February 19, 2012

Três atos da morte

I - Heráldica


 

De Portugal, levas de figuras inconvenientes foram convidadas a se aventurarem até as Índias. Em 1806, embarcaram aqueles lusíadas menos valorosos. Entre os expatriados, a Sebastião Açuz Mendes, coube o privilégio de ser o elo a unir os Mendes da Rua Torres, em Joinville, à Europa.

    Entre o primeiro e o mais novo Mendes, cinco gerações de degenerados, escravos, prostitutas, ladrões, viciados, poetas, falsários, pagãos, suicidas e o que é mais impressionante: nenhum assassino. Sebastião não derramou sangue alheio e sua descendência, mesmo na ignorância deste detalhe, também não o fez.

    Em 2006, Sebastião da Silva Mendes, acusado de um assassinato que não cometeu, é preso. Morre durante uma rebelião.


 


 


 

II - O truco


 

Jarbas embaralhou bem as cartas e entregou-as ao Vargas.

    — Corta! — ordenou.

    — Não carece de me dar ordens! — disse no tom ameaçador dos truqueiros, tentando aumentar a animação.

    Rei de paus, pica fumo e desafios fingidos. As imprecações eram proferidas de modo teatral. Mais pareciam senhoras no bingo da igreja se fazendo de valentes.

    — Mata agora — desafiou Miguel deixando o copas cair suavemente na mesa.

    — Por que será que a gente não acostuma com a morte? Falou de maneira apática Jarbas, ao mesmo tempo em que jogava o gato.

    — Que horas ele morreu? — Perguntou Antonelo, parecendo estar fora de sintonia.— Eu não entendo. — Continuou.

    — Que horas morreu o Pedro Caixa d'Água ou o copas do Miguel? — Troçou Vargas, distraindo o companheiro para poder pegar o baralho antes da sua vez.

    — Há muita coisa que a gente não entende.— Jarbas deu um tapa não mão do Vargas para recuperar as cartas roubadas. — Como um baralho voltar para a mão de um ladrão, por exemplo, ou o que tem quando acaba a negrona.

    — Vamos tomar uma pinguinha? — Disse Antonelo, recuperando a sintonia.


 


 

III - Através do vinho


 

Ouço Gardel vibrar através de uma copa de tinto e creio uma Argentina particular, com Martin Fierro, Negro Uribe, Baltazar e um Borges íntimo. Escrevo tudo em papeizinhos — para não esquecer nada —, meto-os nos bolsos e perco-os pelo caminho. Enquanto busco as respostas que neles amarrei, giro mais uma vez o tambor. Não acredito na sorte e me amaldiçôo por estar escrevendo em português, por não saber mais dançar tango e por escutar o clique inofensivo do cão. Giro mais uma vez.


 

LM

Sunday, February 12, 2012

Sanguínea

N.A.: Este conto foi publicado há alguns anos em uma revista, livro de coletâneas, ou algo parecido, cujo título não me ocorre, mas assim que souber, informarei. Desculpem a falta de originalidade por não estar postando nada novo, mas tenho encontrado cada vez menos tempo para novas criações, desta forma lanço mão do expediente de auto-plágio.

Eles não acreditavam nas mentiras. Todos mentem. Não haveria uma vida pela frente. Não havia um nome a zelar. Não havia o desejo de serem vítimas. Mas ele buscou a morte, tencionou a vida e antes de dar o último tapa desprezou o arrependimento. Ordenou pela última vez: "enterrem minha carcaça enquanto ainda respiro, o cheiro da terra há de me ser agradável e à escuridão, já me acostumei. Sinto falta da minha primeira escuridão." O último, foi o mais forte dos tapas, depois, o mais animalesco beijo. Naquele dia não houve penetração. Naquele dia ela não obedeceria.

Antes de nascer, Gallimard já trazia uma cicatriz no púbis. Um vergão grosseiro, vermelho, pulsando irregularmente, abrigando culpas subcutâneas. A marca de uma cesariana mal feita, apressada, quando ele não era mais do que um girino. A marca a ser carregada pela continuidade da vida para lembrar de onde veio M. De um pseudo-útero ao útero da mãe.

A presença de Gallimard já oprimia M e quando foram expulsos da casa primeva, ela se recusou a sair. 18 minutos após o nascimento do primeiro, o fórceps a convenceu. Não queria sair, sabia que lá fora teria de olhar para a cicatriz. Queria poder evitar.

A bizarra marca se preservou, mesmo nas suas mais sutis reentrâncias, até o corpo de Gallimard se decompor. Ele viveu por 34 anos, 7 meses e 3 dias. A cicatriz, um pouco mais. M contaria a história.

Não eram gêmeos, eram pai e filha, ainda que fossem irmãos. Natureza reconfigurada. Diferente de algum tubarão devorador de concorrentes já no ventre materno, Gallimard concebeu outra vida. Gerou sua rival da sua carne. Não a devoraria, a subjugaria. Teria um sparring para treinar seu instinto de dominação. Uma fêmea, filha e irmã. Várias faces incestuosas.

Existiu uma família com pai, mãe e irmãos, mas a cicatriz estava presente, pulsando sob o emaranhado de pêlos, revivendo um pacto anterior à luz.

M nunca tocava no assunto. Evitava falar sobre aquilo como se agindo assim, não materializasse o sonho. Mas ela sentia os odores da cicatriz e isso a remetia à suas obrigações de boa filha, boa irmã e dócil fêmea. A família de aparências era ideal para justificar a constante união. Ela cheirava, mordia, depositava seus líquidos, mas não olhava para a cicatriz, era a última fronteira do pudor familiar e não suportaria ultrapassa-la.

Não seria ela quem executaria a última ordem. Não lhe agradava fazer algo contra o irmão 18 minutos mais velho, o pai que a pariu e o homem que melhor sabia como puxar seus cabelos. Também não seria ela quem impediria. Apenas olhou Gallimard sangrar até a morte.

Hoje ela ainda sente o cheiro e o gosto do suor da cicatriz e tem nojo, tem tesão, raiva, saudades. Depois reza para algum deus sádico que a violentou quando ainda era um feto. Um deus que não a deixa esquecer das lembranças de de dentro do útero e também não a deixa parar de sangrar. Os sangues de cada mês acompanharão M tanto quanto o sinal acompanhou Gallimard. Não lhe foi dado o direito de secar e conhecer a redenção. Sangrará até a morte.

Thursday, February 09, 2012

Quadrilátero, ou o terceiro caso

Antes de deixá-los, é preciso pôr a termo um e outro detalhe de minha vida pregressa, para adentrar na posteridade de alma lavada. Quis dar a este documento o título de testamento, posto estar deixando um legado, todavia não há bens em quantidade suficiente para regalar todos meus afetos e uns tantos de desafetos, aos quais gostaria de deixar algo para não esquecerem-se tão rapidamente de mim. Na falta de bens deixarei umas tantas revelações, se calharem a alguma coisa, dar-me-ei por satisfeito, em negativa, será o desvencilhamento das coisas corpóreas, espero.

Estando já me aguardando mamãe e papai, a quem finalmente conhecerei, quero destinar minhas primeiras últimas palavras à minha fiel e dedicada esposa, tão solicita durante 35 anos. Em reconhecimento aos seus méritos, serei direto: não resisti a certos encantos de outra mulher e sucumbi ao desejo da carne, desta forma, tomei para mim uma amante, desde os primeiros anos de nosso casamento até quase os tempos de hoje. Não te inquietes, cara esposa, pois tomei todas as precauções para que tu ou qualquer de nossos amigos e parentes não viesse a saber deste meu pequeno pecado. Revelo isto agora, não sem certo peso na consciência, mas preciso fazê-lo para provar-te que não era tão estúpido quanto me julgavas, nem tão insensível, também não sou tão palerma quanto me acusaste inúmeras vezes, apenas sempre foi de minha natureza, buscar o embate de idéias ao invés da luta, assim, para evitar o confronto com alguém que tanto prezava, arranjei outra, que, sem maiores responsabilidades, me ouvia, nos pequenos espaços de tempo, sem acusar-me ou censurar-me. Estando ela, desde o primeiro instante, ciente que jamais te deixaria, nunca exigiu nada mais do que algumas horas por semana. E o restante do tempo poderia dedicar-me a ti e as crianças que o bom Deus não permitiu nascerem. Entendo se não me perdoares, entretanto saiba que meu coração somente a ti pertenceu e, se me for dado tal privilégio no além, continuará pertencendo. Mais do que a tentação da carne, cultivei este caso para ter alguém a quem falar minhas idéias, minhas ideologias, pois tu foste sempre tão pragmática com as coisas da nossa casa e da nossa vida, mas tão alheia às coisas da política, da filosofia e das ciências e não queria importuná-la com tais assuntos, pertencentes ao mundo além do lar. Como já disse um sábio: "Haverá sempre um homem que, embora sua casa desmorone, estará preocupado com o universo. Haverá sempre uma mulher que, embora o universo desmorone, estará preocupada com sua casa."

Para aquela que foi a segunda em minha vida também gostaria de deixar umas palavras, desta vez a despedida definitiva, tantas vezes antes ensaiada. Você sempre se mostrou atenta à minhas palavras e até se esforçava por parecer interessada e agradeço por isto, mas jamais você contestava, complementava, argüia. Repito, sou muito grato por ter me ouvido, especialmente não estando assim tão interessada, mas foi por este pequeno detalhe que acabei arranjando uma terceira mulher em minha vida. Você sempre deixou bem claro que jamais sentiria ciúmes de minha esposa, mas viraria uma onça se soubesse que eu havia arranjado a outra da outra. Sabia de suas reais intenções animalescas e sua disposição para deixar suas emoções aflorarem e transformar-se, efetivamente, em uma fera, por tal motivo, preservei com maior diligência a discrição quanto este terceiro caso. Ela me ouvia, assim como você, mas tinha suas idéias, às vezes até conflitantes com as minhas e entabulávamos extensas discussões acerca dos mais variados assuntos, discussões que poderiam durar meses. Como não dispunha de tanto tempo assim para ficarmos juntos, ela assentiu em nos vermos uma ou duas vezes por mês, entretanto mantínhamos uma profícua troca de correspondências. Ela me ouvia e me respondia.

À terceira não precisarei deixar muitas palavras, apenas um adeus, pois já havíamos discutido até a forma de minha despedida e a morte, muitas vezes, foi tema de nossas discussões. Aliás, ela foi contra este modelo adotado, preferiria que as coisas tivessem ficado como estavam, ocultas, cada qual em sua alcova, preservando-se as aparências para evitar celeumas, nossa correspondência só seria revelada (talvez publicada) quando os envolvidos diretamente no quadrilátero estivéssemos mortos. Achei muito trágico e, diante do fim próximo, achei melhor fazer agora tais revelações, nunca tive coragem de fazê-las antes.


 

LM

Wednesday, February 01, 2012

Telesacanagem

Minha cabeça doía como se o cérebro tivesse sido chacoalhado em um liquidificador, lá fora uma guerra era travada, uma guerra por valores que eu desconhecia e por motivos ainda mais ignorados, liderada por homens desprezíveis e sustentada na televisão por campanhas jornalísticas. Já havia dado minha contribuição para aquela merda toda, já havia matado muitos inimigos e outro tanto de aliados, já havia deixado meu sangue e partes de meu corpo no campo de batalha, agora eu só queria tomar umas cervejas, dormir um pouco e depois dar uma trepada; comer uma porção de bolinhos da chuva, ovo frito e café preto. Não era pedir demais, não era nada demais para um veterano, que cagou com amigos, família, com a vida, defendendo os valores dos mesquinhos donos do poder, dos plutocratas e dos fantoches colocados em altos cargos, era só isso. Como meus desejos não se realizariam, não tinha jeito, precisava sair de dentro da espelunca alugada por 50 paus por semana e tentar arranjar alguma coisa pra fazer. Já tava sem grana, sem bebida, sem merda nenhuma nas tripas e com o aluguel atrasado, dona Clotilde não me deixaria mais uma semana sem mostrar algum dinheiro, ou já ter arranjado um trabalho. Fui à agencia de empregos: motorista, não tinha renovado minha carteira; ajudante de carga e descarga, muito velho pra esse tipo de serviço; pedreiro, nunca fiz um balde de massa; frentista, talvez sirva; repositor de supermercado, pode ser; repórter, joguei fora meu registro profissional; revisor de texto, legal; auxiliar de produção, desde que não precise fazer força; açougueiro, não, seria capaz de decepar meus polegares naquelas serras; vendedor, não tenho mais paciência; professor universitário, se não achar nada melhor vou até lá; telemarketing, que porra é essa? Vou encarar.

    Me colocaram em um curralzinho do tamanho de um ovo, não era possível descolar os cotovelos do corpo e se virasse o rosto para o lado batia com o nariz na divisória, na minha frente um teclado, uma tela de 10 polegadas e socado na cabeça os fones de ouvido e o microfone. Antes de ser entalado no curralzinho tivemos um extenso treinamento de um dia. Eu e mais uns vinte otários e otárias aprendemos a dizer "É um prazer receber a sua ligação, meu nome é Charles Trezinni. Em que posso ser útil?" ou, "Lamentamos o ocorrido, tenha certeza que foi uma falha pontual, vamos estar resolvendo seu problema em até 72 horas, caso não seja plenamente atendido, entre em contato novamente e vamos estar encaminhando o senhor para o departamento técnico." E outras baboseiras do gênero. No final das contas até que era legal trabalhar lá, não precisava ficar olhando para as fuças de ninguém, as ligações eram da puta-que-o-pariu e não tinha risco de algum daqueles milhares de clientes insatisfeitos entrarem porta à dentro sentando o braço em quem estivesse pela frente, e dava para ficar fazendo palavras cruzadas enquanto os trouxas do outro lado da linha pensavam que estavam sendo atendidos. Só não dava para não atender as ligações, tentei mocosar e não atender ninguém, fiquei fazendo de conta que falava com alguém, mas logo veio um sujeito dando cutucões nas minhas costas.

— Trezinni, se quiser ficar brincando posso te dar as minhas bolas como brinquedinhos. Atenda logo os malditos telefonemas.

Descobri que eles um controle de ligações e sabiam exatamente quando você estava trabalhando ou não e era bom cuidar com o que falasse, pois também monitoravam nossas conversas. Como devo ter um imã que atraí a escória, com o tempo começou a aparecer na minha mesa uma ligação mais absurda do que a outra. Era uma velha dizendo que seus filhos a abandonaram e há mais de cinco anos que não tem notícias deles; ou um caminhoneiro com o caminhão quebrado e sem nada para fazer enquanto o guincho não chegasse resolveu trocar a senha e contar umas vantagens e mentiras de suas aventuras na estrada; um viciado querendo falar com a mãe dele e outras esquisitices.

Me passaram para o turno da noite e neste horário as coisas só pioraram, mais malucos desocupados ligavam para zoar com a gente e eu, pára raio de bizarrices, os mais doidos pareciam cair justo na minha mesa.

— É um prazer receber sua ligação! Meu nome é Charles Trezinni, em que posso ser útil?

Uma voz —parecia de homem— respondeu quase sussurrando.

— Como você é neném?

Percebi a sacanagem e como não tinha nada melhor para fazer, entrei na brincadeira.

— Já não sou mais tão jovem, mas ainda tenho um ou dois truquezinhos na manga.

— Gosto de coroas safados, gosto de brincar com aquelas bolas murchas enquanto minha boca suga toda sua alma.

Não me agradou muito a idéia de um marmanjo brincando com minhas bolas murchas, mas como o traste deveria estar do outro lado do país continuei com a viadajem.

— Minhas bolas e todo o resto são bem menos murchas do que você pensa benzinho, posso te arrombar com uma fincada bem dada.

— Ui! Seu velho lobo! Safadinho! Garanto que também vai gostar do meu brinquedinho, também posso dar uma metidinha gostosa, senti que tu é do tipo que não rejeita uma boa sacanagem, não importa de que lado ela venha.

A bicha agora tava querendo me comer, ainda bem que estava protegido em meu curralzinho, a quilômetros do safado.

— Sempre soube que você não era de negar fogo, seu velho sem vergonha, vamos nos divertir muito, mal posso esperar terminar o turno. Vamos dar uma escapadinha no banheiro?

O negócio começou a ficar complicado. Como assim "escapadinha no banheiro?", de onde diabos este tarado tá falando? Estiquei o pescoço por cima da divisória do curralzinho e olhei para os lados. Na outra fileira, lá no fundo, sentava um alemão ossudo de uns dois metros de altura, o rosto cheio de espinhas, ele quase nunca falava com ninguém e como eu também nunca falava com ninguém, pra mim tava bom. Quando olhei na direção do alemão ele tava levantado da cadeira olhando em minha direção, quando percebeu que o enxergara, deu um risinho maroto e uma acenadinha, com a maior mão que já vi. Me encolhi no curralzinho, deslizei pela cadeira e fui, quase gatinhando em direção à saída. Não voltei nem para acertar minhas contas e, para não ser despejado, tive de fazer uns serviços extras para dona Clotilde. Era menos pior do que ter aquele brutamontes espinhento pendurado nas minhas bolas e depois me agarrar com aquelas manoplas e me foder.


 

LM

Sunday, January 29, 2012

Pequenos contos de antes e outras fantasias

I

Luiz Eduardo dava bom dia, boa tarde ou boa noite para todos os passantes. Muitos achavam um mimo, mas, desconcertados, alguns senhores sisudos, apressados e acometidos de grave amnésia, respondiam impacientes ou, pior, simulavam não terem percebido. A gravíssima amnésia os fizera esquecer de quando tinham cinco anos.


 

II

Chamavam-no de Nego, uma forma carinhosa de não fazer esquecer a cor da pele. Quase negro, miúdo, assustadiço como um bichinho, tinha muitos irmãos e irmãs, mas poucas brincadeiras. Quase não se sabiam crianças.

    O inverno de 49 foi ardido e a pouca roupa se evidenciou, mas em compensação foi a estação que trouxe o primeiro caminhão visto por aquelas cercanias. Com estradas para bois puxarem seus carros, a máquina a gasolina pouco avançava com a terra feito lama. Nas subidas então, era só com muita estiagem. Nego e um de seus tantos irmãos se maravilharam com o ronco, com a cor, com os pneus patinando e tramaram para ele não ir embora. Fizerem emboscadas e a cada tope que precisasse de terra seca, saiam do mato e com cabaças cheias de água faziam a lama necessária para reter o caminhão. Quando o motorista desconfiou da burla, tiros na direção dos sabotadores afugentou as águas, mas não a lembrança do inverno de 49.


 

III

O cavalo tinha uma cabeça diferente e Luana, mal completado os três anos, sentia o estranhamento sem saber como explicar.

— Cadê a cabeça do cavalo?

— Este não é um cavalo filhinha, é um centauro e ele tem corpo de cavalo e cabeça de homem.

    A explicação do pai não foi convincente e ela continuava a olhar com estranhamento para a estátua. Depois de um tempo, como que em estado meditativo, proferiu uma sentença carregada de sabedoria em estado bruto.

— Não quero cabeça de homem. Quero a cabeça do cavalo!

Sunday, January 22, 2012

Limbo

Estou morto ou algo muito grave aconteceu comigo. Apostaria na primeira opção, fiquei em dúvida ao sentir o toque de uma das pessoas. Era uma mulher e ao contrário das outras veio só, também lembro da escuridão através da janela. Ela deixou cair uma lágrima em meu rosto, mais do que seu toque, devo ter sentido aquela lágrima escorrendo por minha face até se perder no travesseiro. Assim como os outros, ela mexia sua boca, provável estar falando algo para mim, inútil, ouço o som e não consigo distinguir o que é fala, canto de passarinhos, latidos de cachorro, ranger de dentes, som de passos, apenas percebo o ruído. Ela deveria estar emocionada, compreendi pela lágrima e tentei transmitir a ela que sabia disto, mesmo ignorando qual tipo de emoção a fazia chorar. Era bonita, espero que seja uma emoção boa, não gostaria de ver aquele rosto chorando de raiva contra mim, ou coisa parecida, gostei da visita (só podem ser visitas estas pessoas), mesmo estando morto, podem estar vindo visitar meu túmulo, ou, quem sabe, eu ainda esteja sendo velado, vá saber, não tenho uma noção muito boa de tempo.

    Creio já ser outro dia (quantos terão passado?), e aquela mulher não veio, vieram as pessoas de antes: duas velhas, um homem, outra mulher, uma jovem e os sem rosto, de branco. Mais bocas movendo-se, não parecem estar falando para mim, suas bocas mexem e eles se olham, deve ser assim que uma folhagem na sala percebe as pessoas. Não os imagino emocionados, parecem estar bem, lembro-me deles mais exaltados. Estariam preocupados comigo, ou estariam só brigando entre eles naquele dia de exaltação? Nem sempre se dirigem a mim, aliás, não lembro de terem feito isto, devia estar dormindo, se é que durmo.

    Hoje elaborei outra teoria: não estou morto, tampouco aconteceu algo de tão grave, talvez eu seja apenas um recém nascido prematuro em uma incubadora. Não, todo mundo olha para bebezinhos e sorri, se bebê, devo ser muito feio e também não vejo nenhuma mamãe por perto. Esta teoria não foi boa, mas foi divertido, vou elaborar mais teorias. Sou realmente uma folhagem na sala, estas pessoas não me percebem, a mulher da lágrima chorou porque ela me plantou com alguém que ela amava muito e não está mais aqui. Melhor do que a do bebê, entretanto quando aquela lágrima escorreu pensei nela escorrendo por minha face, não por minhas folhas. Quase consegui. Um animal não devo ser, senão estaria latindo, miando ou coisa parecida, mas explicaria porque escuto o som das bocas que se mexem, sem distinguir tais sons. Também dificilmente um animal teria senso estético e cronológico, pois mesmo não estando certo do passar do tempo, eu o intuo e percebi as diferenças de idade nas pessoas, além de ter distinguido os sexos e eleito a mais bela. Sinto falta dela.

    É ela, parece que se passaram anos, talvez tenham se passado mesmo, ainda mais se estou morto de fato. Está abatida, mais do que as outras pessoas. A cortina está abaixada, mas dá para perceber a escuridão além, então ela só vem à noite, estou ficando bom nisso. Está pegando algo, é um retrato, dela ao lado de um homem, eles parecem ser bem afeiçoados um do outro e estão felizes no retrato. Quem será? Bem que poderia ser eu, neste caso não só não seria, bebê, planta, ou animal, como já teria até um rosto, isto não invalida a possibilidade de não estar mais vivo.

    Não tenho certeza do passar dos dias, vejo quando está claro ou escuro, mas não consigo contar dias, tampouco saber se os rostos e fatos de minhas lembranças pertencem a um mesmo dia, ou a vários, talvez meses e até anos, também não sei se estou sempre acordado, se durmo, se sonho, preciso estabelecer alguns parâmetros, talvez assim consiga identificar mais sinais externos. De qualquer forma parece ter passado muito tempo, ao menos em minha percepção, que ninguém além dos sem rosto de branco aparece por aqui. Pensei muito neste local como sendo um hospital, mas não há tubos saindo de meu corpo, nem equipamentos onde esteja conectado, há apenas o teto, a janela e uma parede, cuja cor ainda não consegui lembrar o nome, também não recebo medicamentos, não há dor, fome, vontade de defecar, de urinar, nada. Cemitério ou hospital, não deveria ser muito popular, nem ter família grande, são sempre os mesmos a me visitarem: as duas velhas, o homem, a outra mulher, a jovem e aquela da lágrima e do retrato, esta vem quando os outros não estão e eles vem sempre juntos, talvez morem longe e só possam vir juntos e a mulher da lágrima deva trabalhar durante o dia e só pode vir à noite, neste caso é provável que more mais perto do que os outros. Estou ficando bom mesmo nisso.

     Imagino terem sido muitas as vindas das pessoas, só não saberia dizer quantas e cada vez mais eles parecem não perceber minha presença, talvez eu nem esteja mais aqui mesmo, eles conversam, conversam, falam baixo, falam mais alto, até alguns gritos, riem e se não estou enganado, riem bastante quando o homem fala e gesticula, ele deve ser um comediante. A mulher da noite é a única a se dirigir para mim e fala como se estivesse conversando comigo, se sou velho pode ser minha filha. Mas por que não vem com os outros? Deve mesmo trabalhar durante o dia e eles talvez não trabalhem, as duas velhas já se aposentaram, a mulher e a jovem são sustentadas pelo comediante que faz shows à noite, perfeito. Então, se são minha família, devo ser velho e ser casado com uma das duas velhas (até que não é tão ruim por aqui) e o comediante é meu filho, se fosse a mulher ela seria mais atenciosa, filha sempre é mais atenciosa com o pai, e uma das velhas, minha esposa, já estamos juntos a tanto tempo que nem lembra mais como ser atenciosa (quem sabe devo ter sido um mau esposo) e a jovem minha neta, jovens não gostam muito de velhos. E a mulher da noite? Se for minha filha brigou com a mãe ou não é filha dela, seu safadinho, andou dando umas escapadas, sempre soube que eu era pegador.

    Não, definitivamente a mulher da noite não é minha filha e isto me obriga a rever toda minha teoria familiar. Ela mostrou-me outros retratos, dela com aquele mesmo homem (eu?), em poses impróprias para pai e filha. Claro, poderia ser o marido dela, mas que interesse eu, no jazigo ou leito de morte, teria em ver minha filha aos agarrões com um marmanjo. Se for minha filha é bem sem noção e ela não parece ser uma pessoa sem noção. E além disso, hoje ela chegou tão perto que quase pensei nela beijando meus lábios, se estou em um caixão, ela teria se debruçado sobre o túmulo e beijado uma possível foto minha, imaginando estar beijando meus lábios, filha não fecha os olhos daquele jeito para beijar pai. Então quem são as outras pessoas? Alguém apagou a luz.


 

LM

Tuesday, January 17, 2012




N.A.: De tanto contar histórias para minha filha dormir, acabei inventando algumas. Nenhuma verti para a escrita, deixei-as na fluidez da oralidade e elas estão sempre mudando um personagem, uma fala, mas como esta ficou sem um final, pois os animais sempre achavam algo para implicar com o pato, resolvi pô-la na ponta dos dedos. Creio ter encontrado um final (provisório) adequado, testarei amanhã à noite, lendo-a ao pé da Lua.

Uma feita, o pato cismou em fazer algo diferente, queria brincar, mas uma brincadeira nova. Tendo brincado com todo tipo de brincadeira que conhecia, calhou de fazer outra coisa: resolver pintar um quadro. Mas seria um quadro de que? Pensou, repensou até quase pôr um ovo e veio a idéia de pintar, justamente um ovo de galinha.

Cheio das vontades de impressionar os outros animais da fazenda, caprichou a não mais poder e pintou um ovo tal qual, ou melhor do que um ovo de verdade, de tal forma que nem a melhor das galinhas botasse um igual. Orgulhoso da sua obra saiu o pato pintor com sua pintura embaixo da asa e logo topou com o cachorro.

— Que é isso compadre pato?

— Ora, não é nada, só um ovo meu. E mostrou o quadro ao amigo.

— Nossa Senhora das Fazendas de Bichos, isso é um ovo seu, então o compadre é uma galinha? E eu sempre o tive por pato.

— Não, compadre cachorro, eu só pinto!

— Não entendo mais nada, então compadre pato, que eu pensava pato e era galinha, na verdade é um pinto.

O pato já começava a ficar nervoso e tentou explicar para o cachorro, mas este saiu numa gritaria desancada, alardeando aos quatro cantos sobre o ovo do pato, ou da galinha, ou (era um pinto?), que nem deu chance ao amigo. Inconformado o pato resolveu voltar para casa e pintar alguma coisa diferente, para desfazer o malfeito. Pintou um pinto, talvez o pinto do ovo da primeira pintura. No pátio da fazenda a bicharada só falava no pato galinha pinto.

Finalmente o pato terminou seu pinto e, igual ao ovo, era um pinto melhor do que qualquer pinto visto ou sonhado na fazenda. Mais orgulhoso ainda, saiu com sua obra prima e logo encontrou a galinha. Ainda bem, pensou, pois ela saberia que ele não poderia ser uma galinha, senão um pato.

— Que é isso comadre galinha? Perguntou a galinha, já tratando o pato como galinha.

— Comadre galinha, eu sou o pato, veja! Eu só pintei um quadro de ovo.

— Ah bom, compadre pato, mas mesmo assim, que é isso? Insistiu a galinha, já em cólicas de tanta curiosidade.

— Isso é só um meu pinto.

A galinha não acreditou no que via, era o melhor dos pintos, então o pato só podia ser mesmo uma galinha e das boas.

— Mas não é mesmo que o compadre pato é mesmo uma galinha das boas? Um pinto desses não é qualquer galinha a ter não.

— Não comadre galinha eu pinto.

A essa altura a galinha já não sabia mais se o pato era uma galinha, um pinto ou um pato e saiu desembestada cacarejando a descoberta. O pobre pato, já sem saber como agir, resolveu pintar o próprio retrato, assim ele só poderia ser um pato, nada mais. Voltou para casa e fez o melhor auto-retrato já pintado. Era muito melhor do que o próprio pato. Saiu estourando de orgulho e logo encontrou o coelho. Este, já sabendo das novidades do pato galinha pinto foi logo perguntado.

— Que traz lá compadre pato, ou comadre galinha, ou pinto?

— Largue mão compadre coelho, sou eu, o compadre pato e trago apenas isto... E antes de conseguir explicar que era uma pintura o coelho foi logo tirando suas conclusões e vendo dois patos, um melhor do que o outro, imaginou se tratar de um espelho.

— Ah, beleza! Um espelho, bem to carecendo dar uma deitada diferente no meu cabelo. E pegou logo do pato o quadro que julgava ser um espelho, mas viu apenas um pato refletido e entrou em pânico.

— Minha Nossa Senhora das Cenouras, virei num pato e dos bons! E saiu dando quac's pela fazenda e clamando ajuda para voltar a ser coelho.

Logo o burro veio ver o motivo de tanta gritaria, encontrou o coelho em polvorosa e o pato à beira de um ataque de nervos.

— Compadre burro, virei num pato, veja, é só pegar este espelho.

O burro pegou o quadro, que julgava ser um espelho e viu o melhor pato já imaginado. Não poderia ter acontecido coisa pior, também pensou ter virado um pato e saiu numa carrera doida, logo a bicharada já não sabia mais quem era pato, quem era, burro, quem era coelho e o pato, desatinado das idéias, não conseguia pensar em mais nada, até ter a idéia de pintar apenas uma tela branca. Assim ninguém poderia pensar nada e acabaria logo com essa confusão. Cobrir de branco a tela foi num já e sem perda de tempo ele estava na rua com sua nova obra.

Os animais já meio fora do prumo, mas ainda lembrando que toda a confusão iniciara-se com o pato, foram ver o que ele trazia.

— Vejam, ninguém virou pato, só eu continuo sendo pato. E mostrou a tela branca para os bichos. O porco se aproximou, cheirou, olhou e saiu guinchando feito louco.

— Minha Nossa Senhora dos Torresmos, eu sumi!

Os outros animais olharam para a tela e acharam que também tinham sumido. A correria agora era geral e o pobre pato pintor quebrava o cucuruto pensando em alguma forma de acalmar aquele bando de doidos. Desorientado e com medo de causar mais confusão o pato resolveu pintar sua última tela. Nela colocaria não só figura, mas palavras explicando que não era uma coisa, mas apenas uma pintura. Caprichou gigante na nova pintura, era um perfeito cachimbo suspenso no ar, enorme e embaixo deste perfeito cachimbo podia-se ler, em letras caprichadas, a frase: Isto não é um cachimbo.

A esta altura dos acontecimentos, o pato já não tinha mais entusiasmo, orgulho ou pretensão com sua obra, queria apenas mostrar aos outros animais para eles verem que aquilo era apenas um quadro, nada mais. Saiu de casa e encontrou o cavalo.

— Olá compadre pato, o que traz aí?

— Não é nada compadre cavalo, só uma pintura. E mostrou-a ao cavalo. Este olhou, olhou, reolhou e sentenciou.

— Compadre pato, você precisa se tratar, qualquer um sabe que isto não é um cachimbo, mas uma figura de cachimbo.

Em pouco tempo os outros animais chegaram e foram logo tomando parte da discussão.

— Largue mão compadre cavalo, isto é um cachimbo, mas o pato ainda precisa se tratar, pois qualquer um sabe o que é um cachimbo e ele nega que isto seja um cachimbo. Argumentou o porco.

— Deixem de sandices, o pato está mesmo muito mal e precisa se tratar, mas convenhamos, ou ele não sabe pintar, ou não sabe mais o significado das palavras, pois como ele nega algo que acaba de pintar? Questionou a vaca.

A discussão não se encerrou, os bichos não se entenderam e o pato, antes que alguém resolvesse interná-lo em um manicômio, saiu de fininho. Daquele dia em diante jurou que não pintaria mais figuras e se fosse pintar alguma coisa, apenas deixaria a tinta escorrer pela tela, procurando sua forma.

LM

Sunday, January 08, 2012

Ventrina

A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente."

Einstein, Albert


 

    A incomum capacidade premonitória dos habitantes de Ventrina tornou esta cidade uma referência nos estudos do futuro. Todo aprendiz de vidente, cartomante, quiromante e demais gurus do porvir afluíam para Ventrina afim de tentarem apreender este dom. Inútil, tal característica é privilégio apenas dos nascidos lá. Os bebês ventrinenses, antes mesmo de aprenderem a falar as primeiras palavras já conseguem saber quando ficarão com fome, quando sua mamãe trará a gorda teta cheia de leite, a que horas eles chorão para terem suas fraldas trocadas e estas coisas do mundo dos bebês.

    Assim Ventrina nunca participou de uma guerra, pois seus inimigos jamais puderam usar o elemento surpresa para empreenderem um ataque à cidade, entretanto quando as forças rivais, especialmente de Zantrana, reuniam um exército colossal e os ventrinenses previam a própria derrota, estes providenciavam a rendição antecipada e enviavam um diplomata para negociar um armistício e os termos de um acordo de paz. Não havendo guerras, passaram a usar o tempo livre para as diversões. O governador geral de Ventrina resolveu, então, criar uma loteria. Foi um fracasso, pois todos acertavam os números e os prêmios eram muito menores do que o valor da aposta. Ainda buscando formas de entretenimento, os sábios elaboraram um complexo sistema de números e letras que deveriam ser decifrados. Quem o fizesse receberia mil gnaes de ouro. Como o resultado destes códigos não era algo pertencente ao futuro, os ventrinenses não poderiam se valer de seus poderes e haveria, enfim, uma disputa. Mas os sábios, como os demais habitantes, eram homens do futuro, e rapidamente esqueceram, eles próprios, como decifrar os códigos da loteria e, ainda, as pessoas previram que não haveria ganhador, portanto não fizeram suas apostas. Acabou ali a Loteria Oficial de Ventrina.

    Não havia escassez de ouro ou alimentos em Ventrina, eles sempre sabiam qual seria o melhor alimento a ser semeado, quando choveria, ou quando teriam estiagem prolongada, também sabiam quando encontrariam um novo veio de ouro, ferro, prata e assim sabiam quanto dos recursos da cidade poderiam utilizar. Os nobres, em seus jantares, divertiam-se tentando lembrar do passado, já os pobres, divertiam-se tentando esquecer o próprio futuro.

Certo dia, um eminente filósofo intuiu que se ele agisse de modo diverso do que havia sido previsto, ele poderia criar um futuro alternativo, fora do alcance das previsões. Resolveu visitar um amigo, fez os preparativos e tão logo estava na rua, mudou abruptamente trajeto, indo para o sul quando deveria ir ao norte e rumou para a casa de outro amigo. Chegando lá o segundo amigo não se surpreendeu com a visita. Disse ter previsto a súbita mudança de planos. Ele frustrou-se com o fracasso e escreveu um extenso tratado filosófico vaticinado que os ventrinenses estavam condenados a ficarem presos ao futuro. Ao terminar a obra ele já sabia o tamanho sucesso que faria e a grande repercussão que causaria e assim foi. Os efeitos da obra começaram a ser percebidos especialmente entre os mais jovens. Como eles sabiam o que deveriam fazer para continuarem com suas vidas como estavam, param de fazer tudo, esperançosos de que algo inesperado lhes acontecesse. Logos os pobres começaram a tomar atitudos semelhantes, pois como sabiam que continuariam sendo pobres e teriam de trabalhar de sol-a-sol para sustentar os ricos de Ventrina, pararam de trabalhar e ficaram em suas casas deitados em suas camas.

Tal inanição foi tida como uma rebeldia contra a ordem institucional da cidade e o governador geral mandou por a ferros todos os insurgentes. Os jovens sentiram o gosto da aventura, seriam presos, estariam lutando por uma causa. Os pobres, sabendo que morreriam trabalhando, optaram por morrer na cadeia. Ventrina começou a ruir. O governador geral, aconselhado pelos sábios, baixou um decreto proibindo qualquer cidadão comum a praticar a arte de previsão do futuro, restringindo este ofício apenas aos nobres, sábios e dirigentes da cidade. A inaplicabilidade da lei fez o governador geral e os sábios serem ridicularizados até pelas crianças e como todos previram que a cidade estava em franca decadência e que se tornaria um povoados de poucas almas desorientadas, deu-se início a grande diáspora ventrinense. A cidade acabou e seus habitantes, espalhados pelo mundo, foram gradativamente perdendo suas habilidades premonitórias, agora eles buscam um outro futuro, com alguma esperança, ao menos.


 

LM

    

    


 


 

Thursday, January 05, 2012

Infâmia

Meu nome é Leopoldo Blinizesky. Sou descendente direto da mais nobre linhagem de gentis homens poloneses, sou quase um príncipe polaco. Meu tio-avô teve participação destacada na batalha de Braniewo, ele liderou o pelotão de artilharia ligeira que encurralou o incivel general Ollste entre o mar e a ravina de Syan. Também meu bisavô, o duque de Parczew ajudou a manter os invasores longe de nossa amada Polônia, com apenas dois mil valorosos soldados polacos, expulsou 30 regimentos do exército prussiano na Batalha de Kostrzyn. Sem falar do Príncipe Blinizesky, cujo olhar azul e penetrante enlouquecia as damas da alta aristocracia européia a ponto de fazerem seus maridos assinarem todos os tratados favoráveis à Polônia, durante o regime de Astrunws. Não relato isto por jactância, senão para por em entendimento os motivos pelos quais fui escolhido pela Ordem dos Szachtas para reconduzir nossa pátria ao seu devido lugar como potência do mundo ocidental e no comando da Europa.

Apesar da nobreza de nossa causa, do valor de nossos patrícios e da certeza do sucesso, temos ciência de não ser esta uma tarefa exatamente fácil. Muitos são nossos inimigos, que nos temem e nos invejam, portanto devemos ser pacientes e perseverantes. Para não levantar suspeitas acerca de minha origem e de nossa causa, vivo fora da Europa em uma condição aparentemente degradante, como Kuranosuké, convivo com rameiras e com poetas, e com gente ainda pior. Não foram poucas as vezes em que fui encontrado esparramado às portas de lupanares, com a cabeça tomada com o próprio vômito. E os julgamentos sentenciosos proferidos contra minha reputação serão motivos de públicos pedidos de desculpas por parte de meus detratores: por ora perdôo–os.

Nada mais posso revelar, apenas que a vitória final está próxima e o mundo conhecerá uma nova era de paz, fraternidade e prosperidade, assim que nos assentarmos em nosso devido lugar. Saibam ainda que é com imenso pesar que me presto a assumir esta identidade aviltante, mas em breve juntarei-me aos demais capitães da causa Szachta, antes, devo zelar de meu disfarce.


 

LM


 

Tuesday, January 03, 2012

A outra viagem, ou a chegada

Jurou ser ter recebido o testamento das mãos de Kafka. Jurava por qualquer coisa, jurar pela alma de Kafka não seria nada de mais, desta vez jurava pela própria alma, prestes a abandonar os escombros de uma vida cheia de incertezas, inconclusões, inconformismos e mais algumas dezenas de ins. Era pouco menos de meia página, manuscrita com letrinhas trêmulas, em alemão. Ignorante, não pude ler o conteúdo do documento, precisaria de alguma ajuda germânica para decifrá-lo. Se fosse realmente de Kafka poderia valer um bom dinheiro, afinal, mesmo perjuro, o velho andou pela Áustria na década de 20, chegou até a ser preso com um manuscrito roubado da biblioteca do Monastério da Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho. Para escapar da condenação, jurou ter se convertido ao cristianismo e ingressou na ordem, até conseguir fugir de Klosterneuburg alguns meses depois. Não seria improvável imaginá-lo disfarçado de zelador em algum sanatório encontrando Kafka em seu leito de morte. Assim, resolvi aceitar aquele pedaço de papel como pagamento da dívida. Era perder tudo ou ganhar muito.

Voltei para Joinville sem ter traduzido o manuscrito, não seria difícil encontrar algum alemão disposto a fazer o serviço a troco de duas cervejas. De fato, jantando no Jerk, conheci Geraldo, nome abrasileirado de Gerhard Kremer, professor de alemão e francês. Perfeito. Ele nem precisou de muito tempo para fazer a tradução, ali mesmo, na mesa do bar leu para mim. Não tive certeza se seria mesmo de Kafka, mas definitivamente não era um testamento, era um pequeno conto e se fosse mesmo um original inédito do escritor checo, poderia valer mais do que um testamento.

Viagem


 

Talvez devesse partir, sem demora nem medo de olhar para o abismo, apenas partir. Fiz. Não sem estremecer-me, demoro a entrar nas ruas sem ter certeza de estar perdido, por isso precisava saber se realmente estava perdido, ou apenas ensaiava os paços trôpegos. Lembrei-me ter esquecido as bagagens, Não as tinha. Lembrei-me de quê? Esqueci-me na casa? Agora sabia-me perdido. Apressei o passo, corri, perdi pedaços de mim tentando chegar, não sei aonde. Via uma cidade, uma vila, rua? Quanto mais corria mais seus muros riam do meu suor encharcando o colete. Quando finalmente encontrei um homem, perguntei como fazia para chegar à cidade.

— Deves tomar o caminho da esquerda. Entretanto, será mais fácil ir pela direita.

— E se ficar aqui?

— Estarás perdido e darás informações a viajantes perdidos.


 

FK

Era isto, sempre estive a procura de algo e nunca soube o que, sempre fugi de algo, mas fugia de mim. Guardei o pedaço de papel pedi dois steinhaegers e mais duas cervejas e continuei a beber com Geraldo. Não tinha mais pressa alguma, sabia que para qualquer lugar que fosse estaria perdido, ficaria ali, dando informações a viajantes perdidos.


 

LM


 

Sunday, December 18, 2011

Reflexo

Hoje encontrei um velho em meu espelho, me olhava com uma dose calculada de compaixão — não tão baixa para não parecer desinteressado, nem tão alta para não aniquilar completamente minha, já combalida, auto-estima — quase pude perceber algo de ironia nas rugas do cenho, como que forçando severidade e benevolência. Não gostei daquele velho e imaginei-o como um satírico bufão querendo pregar a última peça antes da morte, como o singnore Ciappelletto. Ignoro há quanto tempo está ali e agora, Relembrando e fazendo uma leitura de sua incivel personalidade, penso que talvez já estivesse há muito tempo escondido por detrás do meu reflexo, fazendo caretas enquanto barbeava-me ou escovava os dentes, empurrando minha imagem para que eu me cortasse com a lâmina ou deixasse uma inoportuna sujeira no dente da frente. Creio ainda, se minha memória não resvala, já tê-lo visto, mas tão de relance, tão furtivamente, apenas se insinuando, mas após ter visto aquela zombeteira face falseando ser benevolente, encho-me da certeza de que ele já me espreitava, zombava e esperava o momento de se deixar ser identificado. Hoje, no dia de festejar o dia dos meus anos ele, o velho, um estranho até então, se faz pleno.

Posso até estar passando por algum tipo de crise da meia idade e sei dos meus cada vez mais escassos cabelos e do seu inexorável branqueamento. Sei das dores diárias, cada dia um tipo, e da decadência do conjunto. E se alguém insinuar que era tão somente meu reflexo sendo observado em um mau dia, atalho-o com a explicação inconteste de não ter visto apenas o velho, senão ele e meu reflexo. Ora ele se punha na frente de minha imagem, ora ao lado, ou mais ao fundo, quase saindo do campo de visão, com metade do corpo oculta atrás da borda do espelho e meu reflexo ali, reproduzindo minhas caretas, gestos e minhas falências. Não eram a mesma coisa, apenas dividiam o mesmo lugar.

Por um breve momento pensei na hipótese de ser meu pai tentando voltar, ele que durante minha infância jamais aparecia nos dias de meu aniversário, consumido pelas chamas do arrependimento, poderia estar procurando um meio de regressar dos mortos para se redimir e alcançar a paz. Idéia logo descartada, meu pai ainda vive e também não seria do feitio dele querer expiar alguma dívida comigo. E quando receber a notícia da minha morte, como está muito longe, apenas dirá: "Agora não há mais nada a fazer, não vai dar tempo de chegar para despedir-me, não irei ao funeral, mas meu filho amado sabe, onde quer que esteja, que eu não preciso estar presente para estar perto dele. Farei uma prece, a mais bela e comovente, que só eu ele e Deus ouviremos."

Ele ainda está lá, posso vê-lo se escondendo atrás do meu reflexo, não é sempre que aparece, agora finge estar reproduzindo meus movimentos e até tenta se passar por mim, não quebro o espelho para não correr o risco de vê-lo multiplicado em centenas de fragmentos, assim ainda é apenas um. Mas como ele está tentando se passar mor mim, descobri como matá-lo: peguei minha navalha, ele fez o mesmo.

LM


 


 


 

Tuesday, December 13, 2011

Sonhos

Sabia de certos magos, vindos do sul, ou de além, e de suas habilidades em sonhar um ser. Encontrou nas cosmogonias gnósticas, tratados de demiurgos relatando tais experimentos mágicos, alguns exemplos bem sucedidos, uns frustrados e meditou por três anos e meio até descobrir em seu espírito, elementos autorizando-o a iniciar-se nas artes quase esquecidas do sonho e auto intitulou-se sacerdote. Para ele, entretanto, a carne já se havia revelado fraca por demais, suscetível aos sabores dos frutos das cerejeiras e de outras inebriações terrenas. Bastava tão somente sonhar um nome. Vagou por prostíbulos e sarjetas; templos e altares; casas de pessoas de bem e desvalidos e após, dois anos de buscas, encontrou a arena ideal, ancestral, para instalar-se e sonhar. Não havia marcas, como se não fosse freqüentada há séculos, por feras ou homens, apenas o tempo passava por aquele sítio e mal deixava suas marcas; era branco, ou se fazia parecer branco, como se um sonho sem cenário, mas há relatos de o mesmo lugar ter sido descrito como de cor sanguínea. Para ele era branco e em seu interior, tamanha alvura, não conseguia divisar as coisas, era tudo uniformemente claro, fazendo-o valer-se do tato. Identificou uma mesa de madeira, uma cadeira de igual material, um cabide uma cama forrada com um colchão de palha, um fogão à lenha. Sobre a mesa um copo com água pela metade, um bloco de papel e um lápis e mais nada. Viu que tudo estava bom e descançou.

Na primeira noite sonhou apenas com carne e matéria, não era o que procurava, queria apenas um nome, um nome cujo corpo ideal viria naturalmente. Nomearia a coisa antes mesmo dela existir e inverteria a lógica filosófica de Foucault. Não queria admitir, mas em seu íntimo, queria mesmo superar o deus, criando o nome antes do ser.

Sonhou todos os sonhos dos homens e sonhou todas as coisas da Terra e em certo ponto já nem sabia mais quando estava com os olhos fechados ou abertos, se desperto ou em vigília e até se ele mesmo não era um sonho, mas ao cabo de dez anos o primeiro signo fez-se, quase à materialidade, tão cheio de significações, era a letra L, do alfabeto ocidental. Ele, cujo idioma paterno quase se perdera após debruçar-se sobre signos de etnias e aldeias remotas, dominador de escritas orientais, grego e mais uma centena de dialetos mortos, não entendeu porque o ocidental L se pronunciara. Temeu não estar no caminho correto, esperava listras de tigre, ideogramas mandarim, letras do alefato, jamais um signo de um alfabeto decadente. Resignou-se e chorou. No chão branco do templo, as lágrimas quebraram o monocromatismo e revelou-se a segunda letra, um rubro I. Deu-se conta que seu pranto era um sonho e aceitou a imposição dos deuses em apresentar-lhe um nome naquele alfabeto impuro.

Na noite de sonho, coincidente com a noite de festejos da Walpurgisnacht, ele sonhou com uma mulher, estremeceu até o pâncreas. Estaria ele sonhando com um nome de mulher, invocando uma mulher inexistente? Sabia que isto o distrairia de seu objetivo, mas não deveria opor-se à inescrutável mão do destino e deixou fluir o sonho. Foi uma noite carregada de sensualidade, gozou dos prazeres da carne até quase saturar seus poros e ao amanhecer, adormeceu. Nenhum homem na face da Terra havia experimentado tanta paixão em tão pouco tempo e sobrevivido. Quando acordou a mulher havia ido embora e deixou sobre mesa um bilhete inusual, com apenas duas letras L e como ainda era sonho, tinha agora, se a seqüência das letras seguisse a de suas revelações, Lill. Conheceu uma mergulhadora norueguesa chamada Lill Hauggen, mas não era ela quem vira no sonho. Neste instante percebeu não ter lembranças das feições da mulher sonhada, sentia os cheiros dos odores, os gostos das secreções, a consistência do toque da sua Lill, mas não saberia como descrevê-la. O nome estava se impondo sobre o ser. Buscou lembranças de outras Lills, nada adiantou.

Não sonhou mais com Lill e nem outra letra se descortinou, entretanto sabia não estar completa sua missão. Atormentou-se, um tanto por sua falha em concluir tão grandioso projeto e outro tanto por não ver mais Lill. Dormia pensando no que deveria ser ela, acordava clamando seu nome, ofegava ao pronunciar seu amor, sem sucesso. Quase desviou-se de seu objetivo primevo e penitenciou-se por ter se entregue aos prazeres mundanos da carne e ao amor de uma mulher que só ele sabia existir, na intimidade de seus devaneios, ainda que sem feições. Resignou-se e voltou a sonhar os sonhos dos santos e profetas, viu guerras, chuvas, sementes de jabuticaba brotando e em meio a sonhos e profecias, intui serem uma única coisa, o nome Lill e a mulher do sonho, mas estava incompleta e ela só se revelaria por inteiro quando o nome estivesse completo. Quantas letras ainda faltariam? Seria um nome nórdico, como a de Lill, ou uma variante latina de Lilliane? Lille, simplesmente, ou uma fantástica Lillet? Quem sabe o colorido Lilla, por que não? Nestas elucubrações o auto intitulado sacerdote, percorreu mais oito anos, embora ele já não entendesse do transcorrer do tempo, sentia, em noites mais frias, umas dores nas articulações, uma ou outra indisposição, mas não associava isto à idade já avançada em anos.

Quando já havia invocado todos os nomes de mulheres, em todas as línguas, que pudessem principiar por Lill, teve outra revelação. Se este tempo todo estivera sonhando um nome a ser preenchido por um corpo posteriormente e como já havia atingido parte deste intento, sonhando com um quase nome de mulher e uma quase mulher, não haveria de ser uma mulher, sim um ser mágico, volátil, carnal na volúpia, mas independente da matéria na sua existência, alguma entidade que ocupasse o nome invocado trazendo não só a carne, mas a fé no transcendente. Mais uma vez estremeceu quando descobriu quem ele estava invocando o tempo todo e por quem se apaixonara perdidamente. E também prostrou-se e chorou novamente, jamais a possuiria, jamais a subjugaria, jamais a teria submissa e se quisesse entregar-se ainda uma vez aos prazeres celestiais de comungar com ela mais uma noite apaixonada, seria inevitavelmente consumido. Depois disto foi dormir já sabendo quais letras veria em seu sonho e sabia quem veria, estava preparado para entregar-se e ser consumido. Deitou-se e o sono não vinha, temeu não conseguir dormir, mas isto teria que acontecer em algum momento. Correu, escalou montanhas, nadou os oceanos e nada disto o extenuava, nada fazia o sono dominá-lo. Sentiu uma fraqueza e um frustração como se estivesse no último dos círculos infernais, quase antevendo o paraíso, mas preso a grilhões indestrutíveis. E a última das revelações fez o sacerdote estremecer pela terceira e derradeira vez. Ele sabia qual nome sonharia, sabia da sua amada, da sua entrega e da sua renúncia, morreria entregando-se ao amor e à paixão, heroicamente, mas precisava dormir para sonhar e não conseguia fazê-lo porque já estava dormindo e já estava sonhando, mas estava preso em uma zona miasmática do reino de Morfeu, entre o fígado e a alma e não escaparia daquele sonho sem propósito, eternamente.

LM

Monday, December 12, 2011

Libertas Quæ Sera Tamen

Buscou ainda algumas lágrimas, era imprescindível um pouco mais de comoção, estóico, mais ainda agora, longe de olhares condescendentes. Haveria de chorar, nada mais, um choro vindo de sombras do fígado, de reentrâncias do esôfago, de um dos ventrículos, só dele. E as lágrimas não brotaram. Tinha a obrigação de pôr-se em profundo pesar, mas não conseguia afastar-se da superfície dos sentimentos e assustou-se, como se diante de todo o mal, com um pensamento brotado de sua imaginação. Não poderia ser um pensar seu aquele, estaria ainda sob efeito dos acontecimentos funestos e além do mais, ele não era assim, ela também jamais mereceria tal tipo de luto de seu companheiro inseparável. Deveria, isto sim, guardar-se por meses, em memória dela. Xô maus espíritos! E afinal uma voz em sua mente pronunciou, de quase poder ser ouvido pelos vizinhos do prédio: Agora poderia fazer tudo que sempre teve vontade de fazer, mas nunca pôde. Tipo o que? Como!? Ainda dar ouvidos à voz e quere saber o que fazer? Tratou de exorcizar os demônios. Era preciso sair, era urgente sair para comprar bananas.

Ele examina cuidadosamente uma penca de bananas, parece ter muitas dúvidas sobre levá-las ou não para casa. Solícita, a atendente se aproxima.

— Encontrou o que procurava senhor?

— Ahhmm? Ah, não, não encontrei, nem sei mais se realmente quero encontrar, ou se a busca me basta.

— Desculpe...

— Já perdi entes queridos e por já ter, vivenciado isto, me imaginava mais preparados. Mentira. Estou sempre a perder pedaços de mim, nunca estou preparado para isto, cada parte que se vai deixa um vazio intransponível.

— Eu estava falando das frutas.

— Claro, as frutas, mas entenda-me, eu estava vulnerável naquele momento e queria falar com alguém, sem precisar escutar velhas fórmulas de como levar a vida daqui para frente, queria falar palavras que não existem e ouvir respostas que nunca foram dadas. Protegido por paredes profanas, ficaria escondido eternamente entre o marco de uma hora e outra e quando voltasse para a o mundo que os humanos chamam de realidade, não sentiria tão opressor o peso das minhas falências.

    — Acho que o senhor deveria procurar ajuda, não sei se estou preparada para isto, sou apenas uma verdureira, nada mais.

    — Tem razão, é que à vezes sinto falta de coisas que perdi, algumas foram caindo de meus bolsos, outras guardei em algum lugar e não as encontro mais, outras me doem de saudades, mas não recordo delas e não sei o que eram, sei apenas da dor e outras, tidas como muito caras, joguei-as pela janela por medo de perdê-las e agora, incompleto, tento seguir e tento encaixar, pedaços que encontro pelo caminho, em minhas lacunas.

    — Vai levar as bananas?

    — Meio quilo! Tem cerveja?

    No apartamento, deu-se conta de que era exatamente isto que estaria fazendo com ela em casa, comprando bananas e trazendo cervejas. Compreendeu não ser necessário passar o tempo para enxergar que não era ela a impedi-lo de fazer suas coisas extravagantes dos delírios de liberdade. Continuou comendo banana e bebendo cerveja, como sempre fazia.


 

LM

Sunday, December 11, 2011

Ad hoc

Uma girafa de pelúcia acompanha, ar preocupado, aqueles intermináveis gotejares. Pescoção dobrado, pensativa, o marrom das manchas misturado à tinta de canetinhas coloridas, restos de comida e outros resíduos ali deixados por mãozinhas impacientes. Ela olha sem desviar a atenção, cabeça levemente inclinada para o lado, mas olha fixo a dona das impacientes mãozinhas. Clarinha de quase transparência, duas manchas escuras sob os olhinhos fechados acentuam a palidez. A chupeta fogenãofoge cainãocai da boca até ser reconduzida ao seu devido lugar com estalar de língua e um suspiro. Respira uns ventinhos de bater de asas de borboleta, constante, a não ser pelos suspiros destinados à chupeta.

    Pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, pinga, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, gota, SF puro, gota, pingo, gogo, pinta, gota, pingo, pinta, gogo, dramin, gota, pingo, vincristina, gota, pingo, etoposido, gota, pingo pendurados em uma vareta de metal. Mangueirinhas fininhas, transparentes e com a ponta escondida sob a pele unem os pacotes de poções químicas à menina. Enquanto isso, o tempo brinca de acelerar e desacelerar. Gota, pingo, pingo, gota leva o tempo de uma jornada interminável do carro de Apolo, quase uma vida. Já escuro, hora de se recomporem para mais meia jornada interminável do outro dia e o tempo calha de acelerar e leva dois ou três piscares de olhos para já ser amanhã. E acelera de novo quando faz os 21 dias entre os ciclos durarem o tempo de 21 beijinhos apressados.

    Ao lado da girafa um leão e uma zebra dormem, esperando a hora de assumirem seus turnos junto com a menina e eles não sabem, nem os curandeiros, nem os deuses se toda essa droga vai dar conta de matar as células rebeldes.


 

LM

17/02/2009


 

Monday, December 05, 2011

Outros diálogos possíveis

Fragmentos de um diálogo possível em um relacionamento ao estilo Sartre e Simone de Beauvoir


 

Volto às quatro.

Não precisa voltar.

Às quatro? Que horas então?

Não.

Então?

É.

Assim?

Será melhor.

Para quem? Tem mais alguém?

Isso muda alguma coisa?

Não quero ficar sabendo por nossos amigos.

Também não temos muitos.

É você, arrogante e anti-social.

Pode me culpar, sempre foi assim.

Não adianta, não dá pra conversar...

Seremos amigos?

Não sei? Em algum momento algum de nós vai querer algo mais.

É.

É.


 

Fragmentos de um diálogo possível em um relacionamento ao estilo Charles Trezinni e Lillith de Oliveira


 

Volto às quatro.

Volta? Vai pra puta que pariu.

Boca suja do caralho. Então não volto.

Vá de uma vez. Nunca se decide mesmo.

Você é que não sabe o que quer.

Você sabe: só quer foder com quem encontrar pela frente.

Isso muda alguma coisa, porra.

Todo mundo fica apontando o dedo pra mim e rindo.

Vão se foder, ninguém faz nada por nós a não passar por cima.

Culpa tua, sempre se achando o gás da coca-cola.

Ah! Vá à merda com tua filosofia de porta de banheiro de rodoviária.

Não adianta...

Seremos amigos?

Não sei? Não dá pra rolar uma transa gostosa de vez em quando?

Fodeu, se veste e vai embora?

É

Pode ser. Quem sabe?

É.


 


 

LM

Sunday, November 27, 2011

Compotas

Diziam ter tido um passado. Provável ter tido apenas lembranças, e quiçá uma ou outra desilusão, entretanto, espírito dado a sofreres de amores e outras destemperanças, Rafael de Partula exilou-se na freguesia de Montes da Senhora, situada no concelho de Proença-a-Nova. Fixou residência em uma pequena quinta no extremo norte do lugar, quase fora de seu perímetro. Lá, algumas oliveiras e cerejeiras impunham à morada o ideal ar bucólico que ele julgava ser o retiro final buscado a tanto. Até inspirou-se a erguer uma pequena capela em louvor à Nossa Senhora das Cerejas. Um empregado se dedicava a colher os frutos, levá-los ao mercado, cuidar das árvores e manter o sítio livre de ervas daninhas.

Em um verão azul intenso, fragmentos do passado foram até ele, e passou a receber a visita regular de seus filhos. Eles disseram terem-no perdoado, faltava apenas acreditar e querer o perdão: acostumara-se a sofrer em silêncio e só e já não nutria esperanças de reescrever o passado.

Na freguesia havia uma vendedora de compotas. Rafael pouco sabia dela, quase não se falavam, apenas o necessário para adquirir alguns vidros de cerejas ou figos. Já não era jovem, ainda assim deveria ter uns trinta anos a menos do que ele e se não era de todo bonita, não se podia dizer feia, era alegre e tinha negros olhos cheios de feitiços. O perfume da vendedora de compotas despertava sonhos esquecidos em Rafael, mesmo assim não ousava a ir além do bom dia, dois vidros por favor, até logo, passe bem. Já não tinha mais idade, nem disposição par aventurar-se por este tipo de seara. Bastava vê-la duas ou três vezes por semana e, de volta a casa, preparar um dry martini, tomar um Viagra e masturbar-se na banheira, lembrando dos olhos e sentindo o cheiro da vendedoras de compotas de cerejas.

A despensa abarrotava-se de compotas, mas era dia de nova compra.

─ Bom dia, o que há de novo nas compoteiras?

Ao invés da resposta tradicional ela disparou a mais improvável das perguntas.

─ Que veia saltada é esta em tua fronte?

Era apenas uma veia saltada como tantas outras em cabeças de velhos mundo afora, esta, entretanto, era a marca de um pacto seu, sua extemporânea marca de Caim e lhe trazia lembranças afogueadas. Surgira a poucos dias, após uma latejância à toa na testa e Rafael desnudou sua insignificância e sua finitude.

─ É minha.

─ Ora, se não sei que és tua? Nunca tinha visto, tenho certeza ser nova.

Fez sua compra e saiu, um pouco mais sério do que de costume. Justo ela, ser a primeira, a única, a perceber a existência daquela veia. Outras pessoas estariam igualmente aptas a detectarem a uma intercorrência de dilatação vascular na têmpora esquerda do ancião. Um de seus filhos era médico, sua filha era bióloga, teriam capacidade para tal. Seu empregado, algum vizinho, o açougueiro, o carteiro, padeira. A compoteira enxergou o que ninguém mais havia visto. Rafael sentiu vontade de chorar, se controlou, não queria se tornar um velho chorão, queria preservar uma mínima essência de fibra e não poderia fazer isto na rua. Em casa fez tantos dry martinis quanto seu corpo suportasse. Num instante pupúreo a veia estourou. A vermelhidão misturou-se às cerejas e ao último drinque.


 

LM

Tuesday, November 15, 2011

Diálogos possíveis

Entre pai e filho


 

Eram as primeiras férias desde a ida de Charles Trezinni para o seminário. Tinha 16 anos, cheio de atitudes e idéias revolucionárias tomou resolução de não se fazer padre, tornar-se-ia ateu, comunista e pegaria em armas. Em casa, resolveu ter uma conversa de homem para homem com o pai.

─ Não quero ser padre.

─ Vai ser o que eu quiser. E não me venha com idéias, tem de ir aonde o dinheiro está.

─ Mas pai, e nossos valores, ideais?

─ Deixa isso pros outros. Eles que se lasquem, defenda o teu nariz.

─ É que não me identifico mais com a Igreja, virei comunista e graças a Deus, agora sou ateu.

─ Tanto melhor, assim não vai ficar me enchendo o saco para me arrepender dos pecados e também nunca disse para virar crente, disse para tornar-se padre.


 


 

Entre marido e mulher


 

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ai meu amorzinho.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ai meu benzinho.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Querido, acho bom amanhã ver a grade dessa cama, parece que tem alguma coisa quebrada,

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Por Deus e todos os santos, querida, que hora para pensar na grade da cama.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Me desculpe meu amor, mas é que só agora lembrei, já queria ter te falado antes.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Como assim antes? Quando é que você notou?

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.

─ Ora querido, essas coisas estragam.

Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc.