Sunday, October 30, 2011

Petits mensagens en bouteilles

Continua a chover e as gentes desta terra pensam que não: não percebem que os pingos de chuva continuam a se jogar das nuvens, mas secam antes de cair nos telhados das pessoas de bem. Deve ser por isto que só eu percebo, deixei de ser uma pessoa de bem. O problema é que como não sou exatamente mau, tenho de ficar no limbo, onde a chuva não é farta, mas as goteiras nunca erram seu alvo.

LM   

Monday, October 17, 2011

Motivos do amanhã


 

Não havia motivos, apenas pequenas saliências nos vãos das idéias e ele percebeu: o amanhã começou mais cedo naquele dia. Tomou o café, — mais forte do que o habitual —, estrangulou um ou dois rinocerontes e saiu. Sair de casa não se classificava entre as coisas mais prazerosas era, antes, um exercício de superação. Não gostava de multidões, de lugares abertos, de sol, vento a balançar-lhe os cabelos, bom dia e afins: preferia a companhia das baratas e dos silenciosos porta-retratos sem fotografias.

Uma vez instalado no seio da sociedade, tratou logo de assumir os trejeitos do personagem mais adequados às rutilâncias do convívio social, da moral e dos bons costumes e adjetivou com qualidades sublimes suas ações cotidianas. Cumprimentou amavelmente a senhora Bastos, devolveu afetuosamente a bola para o menino Eduardo, esquivou-se cavalheiristicamente de olhar para as bem torneadas pernas da datilógrafa Antonia e pediu, educadamente, fogo para acender o cigarro, a um simpático transeunte, que mui gentilmente cedeu-lhe uma fulgurante chama azulada. Era, afinal e ao cabo, um sujeito normal e de bem.

Vomitou escondido do contínuo Aderbal, quatro blocos de concreto, duas braças de capim-serra, e uma travessa de vidro. Auto-flagelar-se era parte do ritual diário de tolerância. Precisava tomar mais café e tolerar sereshumanosquefalavamcoisassemimportânciaotempotodo: Os números da economia indicam um grave retrocesso político-financeiro nas contas da corrupção do poder público envolvido com a conquista do espaço midiático das esferas mais abastadas das classes D, E e F e das classes menos favorecidas pelas chuvas torrenciais que inundam as bolsas dos grotões financistas e das planícies ensolaradas coberta por chalés de verão, hedges funds, corrida eleitoral, não atingiu as metas, o capítulo da novela, vai chover, et cetera e et caterva. Tomou mais café.

Quando a carruagem de Apolo deixava apenas seu rastro crepuscular, o valoroso guerreiro retornou ao seu soturno refúgio, longe dos olhares curiosos de homens e mulheres comuns. Escorria cafeína pelos cabelos e era mais um desempregado. O café não o ajudava mais e sua necessidade imediata era ficar simplesmente bêbado. Talvez assim entendesse porque sua vida não dava certo como a vida das pessoas normais. Bebeu o que encontrou em casa até reduzir seu vocabulário em 98% e imaginou estar sentindo-se só, imaginou estar sofrendo e imaginou sentir dor e saiu. Gostaria que aquela fosse uma noite fria, com uma fina e intermitente chuva a deprimir as pessoas, mas não era. Estava quente e as pessoas nas ruas pareciam especialmente felizes, sem preocupação em dormir cedo. Dezembro é uma merda.

Não sabia o que poderia ser mais patético: sentir-se deprimido às vésperas do Natal ou ver aquela multidão de pessoas felizes e ávidas para comprar qualquer coisa que possa ser carregada para todos verem, como se fosse um atestado de pertença ao reino da felicidade. Andou, ou imaginou ter andado e encontrou na rua uma sacola com panos vermelhos, era uma roupa de Papai Noel, ficaria com ela. Comprou uma cerveja e, num beco, resolveu vestir a roupa, tinha até gorro e barba branca. Tirando o fato de estar cambaleante, era um perfeito bom velhinho.

Preservando sua identidade secreta sob a máscara escarlate, o herói entra em um reduto de vilões, mal-feitores, cafetões e prostitutas, escroques de toda espécie. Eles percebem sua imponente presença e se calam, por uma fração de segundos.

No bar ninguém notou sua presença, não era a única celebridade presente, lá também estavam o Batman, o Diabo e o Homem Invisível, além de mais uns dois Papais Noel. Já era amanhã, em casa os rinocerontes estrangulados já deviam estar começando a feder, o pior é que sempre apareciam mais. Sentiu uma necessidade de pôr algumas fotos nos porta-retratos, talvez amanhã começasse a procurar uma câmera.


 

LM


 

Sunday, October 16, 2011

Uma noite ainda

O caixão no meio da minúscula sala de estar dificultava a circulação de tanta gente. Eram apenas curiosos, querendo dar a última olhadinha no cadáver. O morto, quando vivo não era muito popular. Os curiosos queriam mesmo ter certeza da morte. Algumas tias cochichavam reminiscências pré-históricas. Lembravam, da infância e das travessuras. Dos namoricos pelos cantos da casa e das confusões com os meninos da rua do açougue e do adolescente belo e indomável. Evitavam falar dos últimos anos. Era o suficiente lembrarem-se apenas dos tempos de inocência e rebeldia inofensiva..

    Eram nove horas da noite. O frio aumentava o desconforto dos velantes. O defunto continuaria a interpor-se nos seus caminhos por mais algum tempo. A morte ainda não lhe apagara todos os rastros e já era possível perceber olhares e intenções diversas para a viúva. Ferdinando era só solicitude.

Anabela parecia ter lágrimas acumuladas há muito tempo, mesmo assim, percebia, impassível, os pequenos movimentos ao seu redor. Continuava seu choro sem motivo. Sentia o vazio e a perda de algo ignorado. Estendido em sua sala, o cadáver de alguém que ela amou um dia. Casaram-se, até que a morte os separou.

Já assumindo o papel de viúva, aturava as pessoas olhando-a com compaixão. Tão solícitas e amáveis, tentando consolá-la com uma generosidade ensaiada: "Mas você tem de comer alguma coisa, precisa se alimentar". A comida a constrangia. Em certas ocasiões, comer lhe parecia algo impensável, como se o animalesco se impusesse ao humano. Não aceitava o instinto de sobrevivência do corpo desdenhando os melindres da alma.

    Como uma águia que estende as asas sobre o ninho, Ferdinando se aproximou.

    — Ele sempre te maltratou e você ainda chora. Amava ele ou amava o sofrer?

— Houve um tempo, antes de nos casarmos, que eu o amei. Amei mais do que tudo na vida. Acho que choro por aquele tempo. Ou talvez pelo homem que ele poderia ter sido. Havia algo de muito bom dentro dele, mas ele pensou que poderia se desviar deste caminho doce e depois retornar. Sempre falava que estava passando por uma fase ruim, mas logo tudo passaria. Nunca acreditei nisto, e ainda assim, sempre dava mais uma chance. — Ela falava com convicção, só não conseguia convencer a si mesma. Duvidava daquele amor e o período doce não passara de amores juvenis, embalados por uma liberdade recém conquistada onde tudo era permitido: amar livremente, viajar em asas ácidas, escancarar todos os poros para absorver tudo da vida. Estas lembranças a frustraram, pois de tudo o que experimentou nada permaneceu. Nem a felicidade, nem a tristeza. Tudo passou. Restava um caminhar letárgico rumo à morte. Então o que a impedia de se entregar novamente às paixões e às experiências, era só pegar uma garrafa de vodka e levar Ferdinando para o quarto, quem sabe convidar também aquele negro, vizinho da Sebastiana, que ronda a mesa de canapés. Não seria a primeira vez ou, se preferisse, Margarida já havia dado mostras de sua queda por mulheres, também não seria a primeira vez. Poderia conseguir um pouco de coca ou um baseado. Tinha consciência da própria beleza e do fascínio que exercia em homens e mulheres. No entanto, apenas chorava ao lado do caixão daquele que a humilhou e a fez descer até os porões mais alagados. "Deveria agarrar o Ferdinando aqui mesmo e foder em cima do caixão." O que a impedia? Respeito aos mortos não era, já assistira muitos serem mortos e há muito já não se incomodava com o fato. "Acho que amanhã vou pr'aquela igreja que uma das tias falou. A merda é ter que dar 10% todo mês. Talvez noutra hora, deixa ver o que sobra do inventário."

    Uma das tias trouxe chá.

— Beba querida, vai te fazer bem. E vista um casaco, a noite será gelada.— Se esforçava, com as mesmas palavras de outros velórios.

— Saiu alguma coisa no jornal? — Perguntou distraída Anabela

    — Uma nota no obituário e uma matéria pequena no pé da página policial.

    Ferdinando se maldizia por não ter tido a idéia de trazer um chá ou oferecer o casaco. Também não trouxera nenhum exemplar do jornal. Outra tia reabastecia a garrafa de café e a bandeja de canapés e cochichava com energia para o negro.

— Pára de comer tudo seu morto da fome. Tu não era amigo do finado e nem da viúva e é o que mais come.

Ele fazia de conta que não era com ele e dava mais uma volta ao redor do caixão.

    Aderbal começava a se irritar com os urubus. Margarida fitava Ferdinando, cada vez mais indignada, cada vez mais enciumada. As tias ofereciam mais chá para Anabela enquanto o negro, vizinho de Sebastiana, rondava a mesa.

Uma mistura de odores impregnava a sala. Fumaça dos cigarros, cravos murchos, suores antigos, cachaça e café, tudo se misturando com os sussurros das rezas aprendidas em outros velórios, ditas em atos coreografados e cheias de soluços disfarçados.

    A terra já estava de escancarada, esperariam amanhecer para se livrarem de uma vez do cadáver. Anabela aspirou com força a fumaça do cigarro, deu uma olhada ao redor e retribuiu com um meio sorriso os pêsames do negro. Permanecia sentada muito próxima ao caixão "Caxãozinho vagabundo, já tem até buraco de bicho."

Sunday, October 09, 2011

A verdade

Borges conjeturou estar a verdade nas quarenta sílabas das catorze palavras casuais escritas pelo deus nas listras dos tigres. Afonso Argifontes, no livro As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho, descreveu, através de uma intrincada fórmula matemática, os caminhos para chegar à verdade. Partiu do pressuposto de existirem não uma, mas uma série de verdades aceitas pela sociedade como, verdades verdadeiras. Identificada essa série inicial, Argifontes, sem, no entanto, informar os critérios de seleção das verdades iniciais, enumerou os critérios de aceitação e de promoção das categorias de verdades, baseados em cálculos quantitativos da população da Terra, a distribuição demográfica das gentes nos países e a quantidade de formas possíveis de repetir os enunciados. Também imaginou, ou pensou ter imaginado, um meio de medir, agora qualitativamente, a força dos enunciados escapulidos das bocas dos melhores seres humanos. A definição desta última categoria não ficou exatamente clara nas deliberações argifontianas e, imagino não ser difícil encontrar tal classificação nas páginas das principais publicações, periódicas ou não, dos países avançados e seus análogos, abaixo dos trópicos.

    Faltou, no entanto, Afonso Argifontes explicar-nos como convencer aos menos favorecidos intelectualmente, a aceitarem a definição última do que é a verdade. Arrisco lembrar, para esta tarefa, do caráter messiânico de certas profissões, como a dos jornalistas e dos bookmakers. Também tenho fé na imparcialidade e na lisura dos meios de comunicação de massa, especialmente os providos de grande aparato tecnológico e financeiro, que podem levar aos mais ignóbeis grotões, a luz de formulações como as contidas em As descobertas espetaculares de Resemundo Fialho.

    Já Marcomino di Lampedusa, primo em elevado grau de Giuseppe, muito provavelmente inspirado nas notas de Afonso Argifontes, percorreu o mundo tomando notas de todas as verdades quanto pudesse anotar. Preencheu 82 volumes com as mais variadas formas das mais puras verdades jamais proferidas por homens e mulheres de bem, membros da fina flor de suas sociedades. Compilou suas notas e publicou, vindo a ser aclamado por público e crítica, Os poderes da verdade — Por comentadores diversos e notas de Resemundo Fialho, cujo intróito cita humildemente Diderot: "Devem exigir que eu procure a verdade, não que a encontre.", como se não tivesse logrado retumbante êxito em sua busca.

    Assim, todo aquele que tiver qualquer dúvida quanto o que é realmente verdadeiro, jamais deverá deixar de consultar as glorificantes páginas do Os poderes da verdade..., sob pena de sucumbir ante o peso das mentiras e das meias verdades. De minha parte, dispenso a aventura perigosa e insana de aproximar-me demais de tigres e símiles.


 

LM

Desejos do Diabo

Ele se disse ser o próprio Diabo, o senhor das trevas, mestre do Inferno e, após esta infernal apresentação, olhava-me fixamente. Depois de um tempo de mútua observação começamos a conversar sobre as propostas e possibilidades daquela noite. Fumávamos, bebíamos cerveja e uma vodka barata vinda de uma garrafa de plástico. Sempre imaginei que ele tivesse gosto mais refinado, pelo menos a cerveja estava bem gelada.

— Tenho sido acusado das maiores injustiças, ele não sabe mais como manter a farsa que se criou em torno da sua igreja e agora tenta encontrar uma justificativa para as próprias mentiras. Veja você, que nem o inferno me pertence, dizem que é meu lar, meu reino, mas não posso nem chegar perto e já sou escorraçado por seus cães de guarda, um bando de lobos em pele de cordeiro, ou melhor, em pele de pombo, aquelas asinhas são ridículas, gosto de imaginar o Batmam com uma capinha emplumada. Minha casa é aqui, embora não possa reclamar, tenho sido muito feliz, sempre tive a mulher que quis na cama que escolhi, sou muito íntimo de algumas das maiores personalidades e as comidas e bebidas daqui não são tão ruins. Mas porque não moro no inferno? Você deve se perguntar. É simples: lá é o porão desta ditadura, é lá que são jogados aqueles que ousaram a pensar de maneira independente, é para lá que vão os que tentam levantar a voz contra os desmandos e as baixezas deste regime. — Achei meio batido esse discurso, mas deixei o cara falando mais merda pra ver até onde ia.

— Sabia que JC foi morto por que tava fazendo a cabeça da negada lá da Palestina e o chefe não gostou? Não foram os judeus e sim o cara quem mandou pendurar o próprio filho, se bem que não sei não se era mesmo filho dele, José andava se esfregando na moça. Bem, isso lá é problema deles e mesmo tendo nascido naquela família, até que o JC não era dos piores, meio pancada, mas boa praça. Bem, deixemos essa conversa e vamos ao que interessa: Compro a tua alma por quinhentos cruzeiros.

— Nem tem mais esse dinheiro. Que diabo mais burro.

— É mesmo? Bem, mas eu quis dizer quinhentos dólares.

— Ta melhorando, já passou até pra dólar.

— E então?

— Quinhentos euros, uns três torrões de erva e mais umas garrafas de vodka russa e podemos discutir os detalhes.

— Bem, vamos aos detalhes: não tenho euros e não sei aonde encontrar erva. Que erva é essa?

— Que caralho de diabo mais tanso. Vai procurar tua turma que já tá me enchendo o saco esse papo de viado. Se não tem dinheiro não leva fungadinha no cangote. Já não ando dando muita sorte ultimamente, pouco serviço, e ainda ter de aturar papo de bicha bêbada. É pra trincar os bago.

— Está aqui, escrito em letras bem legíveis e no jornal, que é pra todo mundo ver: Estivador com diploma universitário. Realizo seus desejos íntimos e profundos.

— Então tá já que tu é um figurão dos infernos, cobro só cem euros.

— Pela alma?

— Não. Só pelo corpo.

— E aquilo sobre quinhentos euros, erva e vodka russa?

— Daí tu leva corpo e alma, mas só por um fim de semana.

— Deus abençoe os classificados.


 

LM

Sunday, October 02, 2011

Orphia

As pessoas nascidas em Orphia podem ser consideradas imortais. Elas morrem, mas algum tempo depois de deixarem esta vida, nascem novamente e o que é mais impressionante, jamais esquecem suas existências anteriores. Não me perguntem como isto acontece, ou porque só em Orphia ocorre este fenômeno, nem os moradores de lá têm estas respostas, apenas relato minha experiência, que pode ser facilmente comprovada por qualquer um, basta passar uma temporada naquela cidade e tirar suas conclusões.

Morei entre os orphianos por quatro anos e, como eles têm a certeza do retorno, não cuidam-se como nós, tampouco temem a morte e isto provoca um alto índice de mortalidade, especialmente pelo suicídio. Eu, da minha parte, teria medo de meter uma bala em meus miolos, ou de atirar-me no rio Ciriano, que corta a cidade. Claro, aqueles a ocuparem altos postos na hierarquia social ou econômica não fazem tanta questão de partirem, especialmente porque não se tem controle algum sobre como retornará. Pode voltar com outro sexo, em outra família, um fortão peso-pesado pode tornar-se um tísico amarelo de 47 kg, rico voltar pobre, bonito tornar-se feio, com outra cor da pele. Sabe-se apenas isto: quem morre renasce e preservará todas as lembranças das vidas anteriores, só não se tem memória da estada no outro lado. Desta forma não se sabe se é melhor manter-se morto ou retornar, nem se há como escolher.

Nos primeiros meses de minha estada em Orphia confesso ter sentido uma ponta de inveja de seus moradores. Poder ter quantas chances quisesse na vida, desistir de uma vida para tentar a sorte em outra, ou manter-se vivo por mais tempo quando encontrasse uma existência que valesse a pena, continuar tantos projetos quantos quisesse, que de outra forma não poderiam ser tocados adiante. Conheci alguns casos assim, um escritor cuja obra, ainda inacabada, já contava com 2701 volumes, um cientista que já havia retomado a mesma experiência 32 vezes e um apaixonado, que tentava conquistar a mesma pessoa por 9 vidas. Este último me confessou pouco se importar como sua paixão retornava, pois era um amor transcendental, metafísico, só não havia ainda convencido a outra parte, mas tudo bem, tinha todo o tempo do mundo.

Outros, mais avarentos, e não eram poucos, enterravam seus tesouros para recuperá-los quando de suas voltas. Por isso o solo de Orphia é todo escavado, esburacado: sempre tinha um vivo, e também não eram poucos, tentando encontrar algum tesouro alheio escondido.

Jurar alguém de morte é uma coisa sem sentido lá e os criminosos também não são condenados à morte, mas à prisão perpétua e nos casos mais graves, a pena extrapola mais do que uma vida. O difícil é encontrar o criminoso em sua nova reencarnação. Nenhuma marca física permanece e se isto ocorre, é por puro acaso, assim, a não ser que a pessoa fale quem foi e prove, fornecendo detalhes precisos, ninguém pode ser reconhecido. Quando descobri isto voltei a conversar com o apaixonado e perguntei como ele poderia reconhecer sua paixão: "Enxergo com o coração", respondeu-me. Lembrei-me da raposa do Pequeno Príncipe e, como a raposa podia fazer isto, aceitei com possível a explicação do apaixonado.

Com o passar dos meses comecei a por em dúvida as vantagens deste eterno retorno. Poucos são os satisfeitos com sua condição. É um sujeito que gostava mais da família anterior do que da atual e sai em busca de seus antigos parentes, considerada por ele sua verdadeira família; casais tentando se reencontrar – mas como fazer isto, se nem sempre retornam com sexos adequados ao seu relacionamento anterior, nem renascem em períodos próximos, além da dificuldade em saber como encontrar quem procurava? –; poderosos tentando recuperar seu antigo status e suas antigas atribuições e, como já relatei, é muito difícil reconhecer um antigo amigo ou parente, tem-se muitos relatos de pessoas que foram enganadas. Uma mulher (era esta sua forma quando falei com ela) a procura de seu marido, relatou-me que, após intensa busca através de investigações, anúncios em jornais e entrevistas, julgou ter encontrado seu amado. Viveram 10 anos em pura alegria até um dia ser procurada por um menino de 12 anos dizendo ser seu antigo (e verdadeiro) marido. Acabou por descobrir ter sido vítima de uma fraude e seu companheiro atual, na vida anterior fora seu psicólogo e por isto soube descrever tantos detalhes de seu verdadeiro amor. Algum tempo depois de ter-me revelado estes fatos, acabou dispensando os dois, o psicólogo e o menino e suicidou-se para tentar melhor sorte na próxima vida.

Outro fato negativo constatado é o nascimento de um antigo inimigo como filho ou irmão do desafeto. Isto provocou muitas mortes em família e mais suicídios. Como podem perceber e como acabei concluindo, as coisas em Orphia não poderiam andar tão bem quanto um observador apressado pudesse imaginar e com o alto índice de insatisfação com a atual condição, com as inúmeras desavenças jamais esquecidas, ninguém querendo abrir mão de seus privilégios e muitos temendo conceber um inimigo, a taxa de casamentos na cidade é praticamente zero e os nascimentos estão continuamente em queda. Sem a lembrança do período entre a morte e a vida, não temos como afirmar se estas almas não nascidas estariam sendo eliminadas permanentemente, ou se encontram outro destino, o fato é que Orphia está desaparecendo e, a continuar neste ritmo, não resistirá mais 40 anos para cair, definitivamente, no esquecimento eterno.

LM